segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma pessoa – muitas pessoas

Em cada um de nós há uma série de subpersonalidades (em psicologia o termo utilizado é “complexos”). Não podemos cair na asneira de acreditar que conhecemos quem quer que seja, porque nunca iremos conhecer a totalidade da pessoa com quem partilhamos um momento ou uma vida.

As nossas subpersonalidades formam-se antes de sermos capazes de construir um raciocínio lógico capaz de filtrar a informação vinda do exterior. E muitas das subpersonalidades são-nos tão repugnantes que optamos por fechá-las num recanto escuro da nossa mente. Pensamos que aí, na escuridão, não causarão qualquer problema. Fazemos isto por um único motivo: ser aceites pelos outros.

Imagine uma criança de 4 anos que mente à mãe e é apanhada na mentira. A mãe, tendo como único objectivo ensinar a criança a viver em sociedade, diz à criança que mentir é feio. Dependendo da forma como esta mensagem é transmitida, a criança pode escolher ignorar a admoestação da mãe ou, caso seja severamente castigada, decidir esconder o aspecto de si capaz de mentir. De uma maneira simplista a criança decide que jamais voltará a mentir. Mais tarde essa mesma criança é apanhada pelo pai a roubar o brinquedo de outra criança. Se o pai possuir as características do tirano ou do moralista, irá punir a criança. Explicar à criança que roubar é errado, fazê-la ver a situação sem qualquer interpretação moralista, e ajudar a criança a descobrir de que maneira o acto de roubar pode ser útil (e há situações em que pode ser útil, acredite) seria a atitude mais apropriada. Mas isto ocuparia algum do tempo do progenitor. Por outro lado, se o pai tiver as suas próprias feridas emocionais relacionadas com o furto irá projectar estes aspectos no filho e punirá de acordo com a infracção. E a criança decide que jamais roubará – outro aspecto da sua personalidade que é abafado na mente subconsciente. Pouco tempo depois a criança faz um desenho que é o orgulho da tia. A tia mostra a toda a gente, à frente da criança, a criatividade e brilhantismo da mesma. Elogia-a sem fim! Se a criança tiver uma tendência para a timidez irá sentir-se mal com os elogios e com o facto de ser o centro das atenções. E mais uma vez, decide que ser criativo é contraproducente e esconderá este aspecto na sua mente subconsciente.

Por volta dos 20 anos, estaremos perante um adulto que não mente, não rouba nem é criativo. Mas estes aspectos estão todos em si! E cada um deles irá criar uma batalha na sua psique porque cada um quer ser experienciado. Daí que eu diga “aquilo que tu não queres ser, não te deixará ser”. O jovem torna-se na verdade incompleto. A partir daqui várias situações irão surgir.

O jovem poderá escolher projectar os aspectos que rejeita em si. Assim, irá atrair a si pessoas que mentem, roubam e que são genialmente criativas. Estas pessoas existem apenas para lhe mostrar as partes de si que está a deserdar. Nós somos animais sociais e é através da socialização que aprendemos sobre quem somos. Contudo, em qualquer ambiente social em que nos encontremos há sempre uma pessoa que não conseguimos ver: nós próprios. Como não nos conseguimos ver iremos projectar aspectos de nós sobre os outros. Uma forma brilhante de descobrirmos quem somos: o santo e o pecador, a luz e a escuridão. Não conseguimos estar muito tempo na luz sem ter a experiência da escuridão.

O jovem acima descrito irá ainda fazer exactamente aquilo que não aceita nele. Irá mentir, roubar e ser criativo. Mas fá-lo-á de uma maneira velada, em que ele próprio não tem consciência de o estar a fazer. Pode mentir quando afirma que está bem e não está. Pode roubar tempo aos outros, chegando sempre atrasado a qualquer compromisso, e poderá ser bastante criativo nas suas desculpas.

Este jovem irá atrair a si, para vivenciar uma relação a dois, a pessoa que melhor lhe mostre todos os seus aspectos rejeitados. De início irá ver na pessoa que é objecto da sua atenção apenas os aspectos positivos, como a criatividade. Depois de oficializada a união, os aspectos negativos projectados na outra pessoa começarão a mostrar a sua feia cara. É comum a muitas pessoas, quando se encontram próximas do divórcio, afirmarem que não conhecem a pessoa com quem se casaram. A verdade é que elas não se conhecem a si mesmas.

Por volta dos quarenta anos de idade, os aspectos negados da sua personalidade terão obtido energia suficiente para causar danos na vida desta pessoa. A Debbie Ford explica este fenómeno de uma maneira fácil de compreender. Imagine que cada aspecto que rejeita em si é uma bola de praia. Há uma bola da estupidez, outra da arrogância, outra do egoísmo, outra ainda da prepotência, outra da mentira, outra da infidelidade. Cada um de nós possui pelo menos umas vinte bolas. E como temos pavor que os outros descubram estes aspectos deserdados, iremos gastar uma energia descomunal a manter cada uma das bolas debaixo de água, para que ninguém as consiga ver. E, se possível, para que nós mesmos não as consigamos ver. A energia que utilizamos para manter estas bolas fora do nosso campo de visão é a da raiva. A energia mais poderosa que algum ser humano é capaz de possuir.

Num momento de distracção, em que pensamos que a nossa vida não podia estar melhor, estas bolas saltam! E vão molhar muitas pessoas! Irão magoar-nos a nós e aos que nos são queridos. E vemos isto todos os dias!

O condutor que insulta outro e ameaça, podendo chegar ao extremo de sair do carro para agredir. O padre que é descoberto a “dedicar-se” à pedofilia. A boa mãe que bate no filho num centro comercial. A empregada doméstica que rouba um anel da patroa. O político que usa o seu poder para beneficiar um amigo. O director da empresa que se deixa subornar. A professora que tem um caso com um aluno menor. A boa rapariga que come mais do que precisa e se torna obesa. O juiz que se descobre pertencer a uma rede de prostituição.

Basta-nos ver um telejornal para verificar a sombra em acção. Os nossos aspectos deserdados.

Por detrás destes comportamentos inapropriados há apenas a vergonha, a culpa, o medo e a raiva. Emoções tóxicas que surgiram na infância e adolescência e não foram devidamente reconhecidas nem expressas. E que eventualmente serão a causa dos danos que causamos a nós próprios e aos que nos são queridos. Ninguém é inocente. As pessoas mais perigosas são precisamente as que se encontram em estado de negação ou que são moralistas. São estas as que possuem a sombra mais densa e nefasta. Parece um pesadelo de antagonismos. Mas a pessoa boa que não é capaz de reconhecer os seus impulsos mais animais é a que é capaz das maiores atrocidades.

Temos que nos recordar continuamente que de cada vez que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar na nossa direcção.

É aqui que o sentimento de compaixão é importante. Em vez de nos apressarmos a julgar os outros, seria mais apropriado julgar a acção. Porque a pessoa que mente não é mentirosa. É mentirosa e honesta. É maldosa e bondosa. É bela e feia. É traiçoeira e fiel. E cada um de nós pode escolher o que quer ver. Posso escolher ver que uma pessoa mentiu, mas o acto de mentir é apenas um de muitos aspectos da pessoa. Se reparar à sua volta irá ver que as pessoas que mais danos lhe causaram são as mesmas pessoas capazes do maior gesto de bondade.

Por este motivo é que afirmo que o divórcio pode ser um catalizador para o nosso crescimento espiritual. Se formos capazes, se tivermos a coragem, de resgatar todos os aspectos que víamos na pessoa que deixámos de amar.

O maior passo que pode dar no seu crescimento pessoal é precisamente resgatar tudo aquilo que vê nos outros. Nós gastamos uma quantidade considerável de energia a esconder os nossos aspectos de vergonha e culpa. Enquanto não tivermos a coragem de mostrar a nossa vulnerabilidade, a nossa humanidade, as nossas feridas, nunca teremos disponível a energia suficiente para vivermos na autenticidade de quem somos. E iremos continuamente sabotar os nossos maiores sonhos. Não é por acaso que a grande maioria das pessoas desconhece completamente qual o seu propósito nesta vida.

Para terminar, e escrevendo principalmente para as pessoas que começaram a receber esta newsletter nos últimos meses, informo que tudo o que escrevo é um acto egoísta e de burrice da minha parte. Escrevo-o para mim, para eu aprender. Há uns tempos atrás fiz um jogo comigo mesmo que senti ter-me sido útil ao ponto de me dar um grande empurrão para a frente. O jogo é simples: escrever num caderno os aspectos da personalidade dos que me são chegados e que me perturbam. Depois dedico um dia para cada aspecto: descobrir ao longo do dia de que maneira eu expresso o mesmo aspecto. Torna-se muito difícil não gostar de quem quer que seja depois deste exercício. O bónus: as pessoas à nossa volta mudam à medida que vamos resgatando os nossos aspectos deserdados J

Desejo-lhe uma boa semana!

1 comentário:

  1. exercicio dificil, muito dificil. A tolerância estende-se e contagia mas e chegar lá? Em dois dias? Muitos dias? Parece-me é trabalho pra uma vida inteira, Emidio.
    Como fala e bem das subpersonalidades (penso logo em F Pessoa que ilustra tão bem isso) a vida traz circunstancias diferentes e novas todos os dias. Nunca chegamos a conhecermo-nos a nós próprios, aos outros menos ainda. E não seremos todos iguais dentro dos medos, receios, fraquezas? Espelho e reflexos de todos os que já vieram e partiram e ao mesmo tempo, todos capazes do melhor e do pior.
    Lmebro-me do Resgatar o poder da Sombra.
    " qual de entre vós se pensa incapaz de matar?" A circunstancia que cada um vive muda e as contingências da vida assim nos fazem concluir.
    Quem me dera poder fazer metade desse exercicio que o Emidio faz, com sucesso! Mas sabe, tento! ;) E graças a essa e outras reflexões, tb com a sua ajuda. Obrigado

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