terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A mente normal

A mente, no seu processo louco de acreditar em todas as mentiras que lhe surgem, foi criando aquilo a que se chama padrões de normalidade.
Hoje em dia a mente consegue rotular como patológico a maioria dos comportamentos.
Divide o mundo em certo e errado, bom e mau, bonito e feio. Compara-se e destrói-se no processo.
O processo é individual mas flui como o ar, contaminando todas as mentes à sua volta.
Alguns exemplos.
A religião católica é melhor que o hinduísmo. Gandhi é um melhor exemplo do que Pinochet. Um Mercedes é melhor que um Fiat. Um dia de sol é melhor que um dia de chuva. As crianças de hoje são rebeldes (em comparação com a criança que nós fomos, claro). O Benfica é melhor que o Sporting. Os ingleses são melhores que os quenianos.
Depois a mente passa pelo processo de rejeição, procurando fora de si tudo o que está mal ou errado. O ruído do trânsito, a hiperactividade infantil, o alcoolismo, a poluição da atmosfera, a música que vem do apartamento do vizinho, o bebé que chora.
E continua neste processo de querer mudar tudo à sua volta.
A mente ainda não se tornou consciente que não tem qualquer poder para mudar o que quer que seja fora de si. Ainda não aprendeu que não controla rigorosamente nada. A única coisa que poderia controlar seria a própria mente.
Mas a mente acredita ainda que é autora dos seus pensamentos. E nem se apercebe que a humanidade tem os mesmos pensamentos causadores de stress há milhares de anos. São sempre os mesmos. Não há pensamentos novos a causar mal-estar.
Esta mente que divide tudo em bom e mau eventualmente torna-se depressiva ou ansiosa. Depressiva porque o passado deveria ter sido diferente, sobretudo quando nos comparamos com aquela criatura que vimos num filme qualquer romântico. Ansiosa quando decide que o futuro será mau, especialmente quando se compara com aquela balada maravilhosa de duas alminhas que eram um zero até se encontrarem uma à outra.
Não estou a dizer que é mau ou errado estar deprimido ou ansioso. É inocente. Acreditamos em coisas que não estão a acontecer neste momento. Estes estados emocionais são muitas vezes o melhor que somos capazes. E regra geral tanto um estado como outro exige tempo. Ou seja, temos que nos desocupar para poder ficar em modo depressivo ou ansioso.

Já dizia a minha avó, que nunca teve tempo para estar deprimida ou ansiosa, que uma mente ociosa é uma mente perigosa. Acrescentaria: e inocente.


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