segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A Sombra Humana





“Tudo o que não queres ser, não te deixará ser.”

Porque motivo agimos como agimos? Como é que, mesmo sabendo e tendo aprendido como viver em paz, continuamos a sofrer? Porque não conseguimos viver uma vida livre de dor? Porque é tão difícil mudar?

Observação: quando sentires stress, seja raiva ou frustração, pergunta-te o que queres nessa situação? O que queres da vida e não estás a ter. Toma nota. E em vez de reagir, observa as sensações físicas que acontecem.
Uma criança quando nasce não sabe o que está certo ou errado, o que é bom ou mau. Exprime-se através da emoção. Comunica com os adultos à sua volta através da emoção. Nascemos seres emocionais e permanecemos seres emocionais. Uma criança é capaz de fazer uma birra às duas da manhã, acordar os vizinhos, espernear, até ter a atenção do adulto que irá pegar nela ao colo, ou dar-lhe de mamar. É o instinto de sobrevivência em acção. Um recém-nascido não quer saber se o pai está cansado, se a mãe está deprimida ou se o irmão precisa de dormir. Berra quando berra. É a vida a viver-se em si. Não tem consciência de um “eu”. Um recém-nascido não pensa “tenho fome, é melhor acordar os gigantes para que me alimentem”. Em realidade um recém-nascido, tanto quanto se sabe, é incapaz de formular pensamentos. Algo em si desperta, algo em si berra, e algo em si acalma. A vida vive-se plenamente num recém-nascido. Há uma sensação de fome, ou de desconforto, ou de cansaço. E o recém-nascido faz o que é para fazer, sem nunca ter aprendido que é assim que se faz.
Aos dois anos de idade já aprendemos que há coisas que fazemos e provocam uma reacção amorosa nos gigantes à nossa volta (pai, mãe, irmão, tia), e há coisas que fazemos e provocam uma reacção de rejeição. Os adultos têm as ideias confusas e misturam a acção com o sujeito. A criança que cai quando está a aprender a andar não é “trapalhona” nem “apressada”, é apenas uma criança a aprender a andar. A criança que arranca as cabeças das bonecas da irmã não é má, o acto cometido é que pode ser mau (ou bom, se os pais comprarem bonecas novas à irmã!). Claro que para um adulto é mais fácil, nesta situação das bonecas decapitadas, dizer que a criança foi má do que sentar-se com a criança e explorar as emoções que a levaram ao acto.
Há depois situações mais complexas, como a criança que não é desejada, ou que é responsabilizada pela infelicidade dos progenitores. Em realidade muitas crianças acreditam ser responsáveis pelo bem-estar emocional dos pais. Mais adiante iremos ver como.
O importante a saber sobre os primeiros seis anos de vida é isto: quando a criança tiver um comportamento aceite pelos adultos, irá experienciar o afecto destes. E quando tiver um comportamento que não é aceite pelos adultos irá experienciar o afastamento desse afecto.
A criança aprende ainda como ter a atenção dos adultos. Torna-se boazinha, ou torna-se rebelde. De qualquer forma irá ter a atenção dos adultos. Afecto ou rejeição.
E assim a criança aprende que quando é estúpida, ou burra, ou má, ou egoísta, ou mal-educada, ou gananciosa, os adultos se afastam ou repreendem ou castigam. E, recordo, a criança não é nenhum destes adjectivos. No pior dos casos, a acção cometida pode ser rotulada com um destes adjectivos. A criança aprende ainda que quando é inteligente, carinhosa, amigável, altruísta, os adultos batem palmas ou oferecem o seu afecto.
E assim a criança aprende que há uma parte de si que é má, ou está errada, e que o melhor a fazer é esconder esta parte de si. No fundo, aprende que há algo de errado consigo.
Outro aspecto importante é que a criança nasce com necessidades básicas. Precisa de alimento, fraldas limpas, dormir, banho. À medida que a criança cresce é-lhe ensinado que precisa de outras coisas. Brinquedos, rebuçados, roupa, etc. Aos cinco anos de idade a criança já acredita que precisa de muitas coisas fora de si para estar bem. Nota que inicialmente estas coisas eram muito básicas. Comida, dormida, bebida (de preferência leite e água). Agora acredita que é a playstation ou a Xbox que precisa para estar bem. Aos quinze anos até acredita que precisa de namorado para estar bem! Aos vinte precisa de namorado (um que a compreenda, obviamente), um bom emprego, uma boa casa, e muitas outras coisas boas.
Nota como de algo tão básico como alimento e sono passamos a acreditar que este planeta tem que nos dar tudo o que acreditamos precisar! E de cada vez que é negada à criança algo ela irá acreditar que ou não é merecedora, ou é má, ou os pais são maus, etc. Ou seja, o foco da sua atenção continua fora de si.
Como seres emocionais, procuramos experienciar emoções. Mesmo a pessoa que se afirma “racional” é emocional (normalmente estas pessoas querem dizer que não se envolvem emocionalmente nas situações, embora o manter-se insensível ou distante é em si um estado emocional). Muito do que fazemos, fazemo-lo para poder experienciar determinadas emoções. Quando dizemos que amamos alguém, em realidade estamos a afirmar a experiência de certas emoções com esse alguém.
Entretanto, à medida que vamos crescendo iremos ter comportamentos que para nós são naturais, e que no entanto são interpretados pelos adultos à nossa volta como inapropriados. É assim que aprendemos a viver num inferno.
Alguns exemplos deste processo.
·       A tia pede um beijinho à criança e a criança diz que não quer dar. A resposta dos adultos irá desde um insistir que dê o beijo à tia, até ao insulto (má, feia, não gosto de ti). A criança estava a respeitar-se apenas. Não lhe apetecia dar um beijo. Isto é um comportamento perfeitamente natural. Por vezes não nos apetece fazer algo. E como é que os adultos reagem à criança que se está a respeitar?
·       Oferecem à criança uma caixa de chocolates e depois é-lhe pedido que partilhe com o irmão. A criança acredita que os chocolates lhe foram oferecidos e são apenas para si, daí não querer partilhar. E como reagem os adultos? Desde “egoísta” a “só pensas em ti” até um “de castigo para o teu quarto por seres mau” tudo pode acontecer. E a criança aprende que é má, egoísta. Como adulto, esta criança irá fazer muitas coisas para agradar aos outros mas que em realidade não lhe apetece fazer. Os chamados “fretes”.
·       A criança, enquanto brinca, deixa cair o jarrão favorito da mãe. Foi um acto desajeitado, distraído. Mas para os adultos o drama é o jarrão quebrado e não a criança, o jarrão torna-se mais importante que a criança. Então a criança é desajeitada, distraída, inquieta, rebelde, etc. E esta criança irá aprender a ter muito cuidado com o que os outros pensam dela! E irá tentar esconder qualquer falha, qualquer coisa que considere mal feita ou errada em si.
·       A criança diz que a avó, acamada, cheira mal. É uma informação que pode ser verdadeira, apesar de desnecessária. E os adultos irão reprovar a criança, chamar-lhe mal-educada ou castigá-la. Já tive o privilégio de trabalhar com muitas pessoas rotuladas de mentirosas compulsivas e todas têm o mesmo em comum: foram punidas em criança por dizerem a verdade.
A sombra humana foi assim apelidada por Carl Jung para se referir aos aspectos deserdados do ser humano. Aquelas qualidades que aprendemos que são más ou erradas e não devem existir. O estúpido, o burro, o egoísta.  Daí a nossa reacção quando alguém nos chama um destes adjectivos. Não queremos ser burros ou mentirosos ou invejosos. Escondemos estas qualidades. Ninguém nos explica que todas estas qualidades podem ser úteis em determinadas  situações.
Observação: o que consideras mau ou errado em ti? Como tentas esconder essas qualidades dos outros? .
Aos vinte anos já são muitas as qualidades que não somos. Não somos desonestos, nem injustos, nem burros, nem estúpidos. Escondemos tudo isto e esperamos que ninguém descubra. No fundo sabemos que somos desonestos ou falsos. E ficamos aterrados se outros descobrem. Somos falsos quando fazemos algo apenas para agradar. Somos desonestos sempre que dizemos sim mas queremos dizer não. Somos burros quando fingimos compreender o que não compreendemos. E somos muito estúpidos porque acreditamos em muitas regras sociais que simplesmente servem para nos manipular e fazer parte de um grupo do qual muitas vezes nem queremos fazer parte.
O que podemos fazer com estas qualidades rejeitadas? Projectamos sobre outros. Enquanto tu fores o estúpido ou burro eu não tenho que o ser. O fenómeno da projecção é relativamente fácil de reconhecer. Sempre que a tua reacção ao comportamento de outro for inapropriada, estás a projectar uma qualidade tua que rejeitas. Alguém pode mentir, e podes reconhecer que mente simplesmente. Podes ainda dizer-lhe “sabes, essa não é a minha experiência.” Mas se a tua reacção for alterar o tom de voz, acusar o outro de ser mentiroso, gritar, então estás perante uma projecção tua. Ou seja, estás frente a uma qualidade tua que vês como má e não queres reconhecer. A pergunta a fazer-te, neste caso, é simples: onde é que eu já menti? Mentimos muito quando procuramos a aprovação dos outros. Dizemos sim quando queremos dizer não, fazemos coisas que não queremos fazer, criticamos pessoas que nem sequer conhecemos.
Experimentação: da próxima vez que não concordares com a opinião de outro experimenta dizer “eu estou a ouvir-te, e a minha experiência é diferente”.
O processo de resgatar estas qualidades rejeitadas é feito de muitas maneiras. Num grupo torna-se bastante intenso mas ao mesmo tempo muito eficaz.
Uma forma de descobrires o que escondes na tua sombra é começar por anotar as qualidades positivas que gostas que outros vejam em ti. Por exemplo, eu gostava que vissem que sou uma pessoa inteligente, bem humorada, perspicaz, financeiramente auto-suficiente e com estilo.
Apenas depois de escreveres as qualidades que tentas mostrar ao mundo é que te aconselho a continuar a ler. A sério. Faz uma pausa. Toma nota. Afinal são qualidades positivas que todos gostamos.
Agora observa o número de pessoas à tua volta, que conheces, e que te mostram o oposto dessas qualidades. No meu caso, vivia rodeado de pessoas burras, que não compreendiam as coisas à primeira, tristes, estúpidas e com dificuldades financeiras. E eu era o seu salvador, obviamente.
Depois de anotar as qualidades negativas que vês nos outros dedica alguns dias a descobrir onde é que tu expressas essas mesmas qualidades. Permite-te sentir algum carinho por ti, por fazeres este trabalho. Não se trata de culpa ou condenação mas apenas de despertar.
Continuando com o meu exemplo, eu era muito burro porque raramente tinha tempo para mim, envolvido a resolver os problemas dos outros. Era burro porque quando ía a restaurantes com amigos era quase sempre eu a pagar a factura total (eles tinham problemas financeiros e eu não), era burro quando não cobrava pelos meus serviços (não queria que pensassem que era ganancioso), e era burro quando acreditava que o que os outros pensavam de mim era mais importante do que o que eu pensava de mim. Era deprimido quando estava só. Várias vezes contemplei o suicídio. Sozinho era invadido por uma tristeza imensa, que só desaparecia quando me tornava burro e saía com amigos a quem pagava tudo. No fundo, vivia uma vida muito estúpida.
Uma vez que descubras as qualidades negativas que tens andado a rejeitar, dedica mais algum tempo a ver onde é que estas qualidades te podem ser úteis.
Por exemplo, quando estou em paz com o burro que há em mim é fácil pedir a outro que se explique melhor porque não estou a compreender. O mentiroso em mim pode ser útil quando se trata de uma situação mais dramática, por exemplo se estiver a andar sozinho à noite e desconfiar de estar a ser seguido posso fingir ao telemóvel que um amigo está mesmo ao virar da esquina. O triste em mim pode ser muito útil para aprender a estar presente para mim.
Quando reconheço que tudo aquilo de que acuso os outros está já em mim e consigo fazer as pazes com estes aspectos, a vida torna-se mais pacífica. Sem necessidade de ser vítima.
A pergunta a fazer-te mais frequentemente, quando alguém tem um comportamento que não te agrada, é esta: onde é que eu sou assim?
Sempre que falo de outros, mostro quem eu sou. Isto é a sombra e as projecções em acção. Observa-se muito facilmente na política, no desporto, na religião. Alguns exemplos de sombra em acção:
-       O bom pai de família que em casa maltrata a esposa ou tem uma amante;
-       O líder religioso que condena o sexo extra-marital e abusa sexualmente de crianças;
-       A mãe exemplar que se dedica à má-língua ou esquece as necessidades dos filhos;
-       O patrão que dirige uma empresa bem reputada e se dedica a maltratar os funcionários;
-       O banqueiro exemplar que se mete em negociatas ilegais;
-       O filho bom estudante que consome drogas;
-       A professora moralista que passa horas a ver pornografia na internet;
-       O politico que pretende liderar a nação e rouba dinheiro dos contribuintes.
Quanto mais moralista uma pessoa for, maior é a sua sombra e mais projecta sobre outros. Já alguma vez te aconteceu teres um comportamento que mais tarde consideraste inapropriado (“onde é que eu tinha a cabeça?” costuma ser o desabafo)? É que continuamente projectamos e somos a projecção de outros. Há pessoas que provocam em nós medo ou raiva ou pena. Estamos a ser a projecção dessa pessoa.
Sempre que alguém fica emocionalmente alterado é um sinal da sua sombra activa. Nesta situação a melhor atitude que podemos tomar é respeitar a sombra. É ok tu acreditares que todas as mulheres são muito emotivas, ou que os políticos são todos corruptos, ou que eu não te amo, ou que não deveria chover. Porque quando tu afirmas algo assim estás possuído pela tua sombra e eu não estarei a falar contigo, com a pessoa que conheço, mas apenas com aspectos teus que rejeitas há muito tempo. O meu “ok” não significa que concordo contigo mas apenas que respeito o pensares assim.

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