terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Obrigações e Projecções

Ao longo dos últimos anos tenho constatado que há apenas duas barreiras a impedir-nos de experienciar a vida na sua totalidade: as projecções e as obrigações.

As projecções nada mais são que os nossos aspectos deserdados e que atiramos para cima dos outros. Não acredito nas pessoas que dizem não julgar os outros. Julgar é uma das características de define o ser humano. A pessoa que afirma não julgar os outros mente, e é muito provável que esteja a projectar a mentira para cima de outros.

Quando afirmo que gosto do dia, ou gosto do casaco de um amigo, ou aprecio uma canção. Estou a julgar. Muitas pessoas confundem julgar com criticar. Não são nunca a mesma coisa! Julgar é emitir um juízo de valor. E isso fazêmo-lo continuamente.

A projecção acontece quando tenho uma reacção inapropriada ao que está a acontecer. Quando alguém faz algo, ou diz algo, que “mexe” comigo: estou a projectar. E quando me apanho a projectar só consigo libertar a outra pessoa e permitir que seja quem é de verdade quando me autorizo a ouvir as respostas a três perguntas básicas:

1. De que forma eu sou igual?

2. Quando é que já tive este comportamento?

3. Se me permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para mim?

Deixo-lhe um exemplo que uma querida amiga, a frequentar o curso de educação emocional, trabalhou comigo ainda ontem. O filho da Manuela por vezes tira-lhe dinheiro. E este comportamento “mexia” com ela. Projecção. A resposta à primeira pergunta só pode ser encontrada se eu souber observar com exactidão o comportamento da criança: tirar o que não me pertence. De que maneira a Manuela “tira” aquilo que não lhe pertence? Descobrimos que o fazia quando pagava dívidas que eram de um irmão. Está de facto a tirar a dívida do irmão, que não lhe pertence. E sente-se mal com a situação. Em que situações teve já o comportamento do filho? Quando rouba tempo a si mesma. Quando não se permite uma relação íntegra com os familiares, tentando em vez disso uma “paz podre”. Uma nova pergunta surgiu depois desta resposta: o que é que o filho está a tentar mostrar-lhe? O que é que ela tem que mudar nela? Está a mostrar-lhe que de cada vez que não se respeita, de cada vez que se rouba a si mesma, está a violar-se. De cada vez que não cobra pelos seus serviços está a impedir o fluir natural da gratidão. E se ela se permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para ela? Fácil. Deixaria de pagar as dívidas dos outros, teria mais tempo e dinheiro para si, sentir-se-ia bem a cobrar pelos seus serviços.

Ainda bem que a Manuela tem um filho que lhe pode ensinar tanto com tão pouco!

Conheço uma pessoa (virtualmente apenas) no FaceBook que é terapeuta especializado em tratar dependências. Continuamente fala sobre toxicodependentes e todos os tipos de dependências. Aposta fortemente na vitimização. Porque quando sentimos que outros nos devem compensar estamos em realidade a afirmar que somos coitadinhos e os outros detêm poder sobre as nossas vidas. Mas o que esta pessoa ainda não conseguiu ver é que ela mesma está completamente dependente das pessoas com toxicodependências! Vê comportamentos aditivos em todo o lado, continuamente. Isto é um comportamento aditivo.

Aquilo a que tem que prestar atenção, seja em relação a um filho, pai, amigo ou colega de trabalho, é que se reage ao seu comportamento estará a projectar um aspecto de si que não consegue ver.

Lembre-se que a principal função de um amigo é validar a nossa história de coitadinho. A principal função de um inimigo é mostrar quem somos de verdade. Por isso não gostamos dos nossos inimigos! É demasiado doloroso e desconfortável assumir os nossos aspectos menos elegantes.

As obrigações.

Aqui estamos em território puro do sofrimento. Observamos algo e decidimos que deveria ser diferente daquilo que é. E assim conseguimos lutar contra a realidade. Como em qualquer luta, só pode haver um vencedor: a realidade.

Alguém grita comigo e eu decido que não deveria gritar. Alguém rouba e eu decido que não deveria roubar. Alguém é alcoólico e eu decido que não deveria ser. Alguém chega atrasado e eu decido que não deveria chegar atrasado. Continuamente a lutar contra aquilo que é.

O exercício que lhe proponha é deliciosamente libertador. Escreva numa folha todas as obrigações que lhe ocorrem em relação ás pessoas com quem partilha momentos da sua vida. Por exemplo:

- O Pedro deveria ser mais pontual;

- A Maria não deveria ser preguiçosa;

- O Carlos deveria ser mais atencioso;

- A Joana deveria estudar mais;

- O Manuel não deveria insultar outros condutores;

- O Emídio não deveria dizer certas coisas que estão obviamente erradas.

Em primeiro lugar reflicta um pouco nisto: quem precisa de Deus quando já temos a tua opinião?

Depois observe as mil e uma maneiras em que julga os outros e tenta que sejam pessoas diferentes de quem são. Irá haver sempre pessoas que se atrasam, pessoas preguiçosas, pessoas que falam mal, pessoas que dizem disparates, pessoas que insultam, pessoas desprovidas de sentimentos... E até agora ainda só falei de mim!

Mas o trabalho delicioso, aquele que nos liberta, é descobrir a verdade por detrás de cada julgamento. Eu tenho um amigo que chega sempre atrasado a qualquer encontro meia hora. Posso contar sempre com essa meia hora de atraso! Ele é extremamente pontual nos seus atrasos! Então será que ele se atrasa de verdade? Quando ele me diz que se encontra comigo ás 16 horas e aparece ás 16.30? Eu sei que ele irá atrasar-se meia hora! Ele é super pontual nos seus atrasos! Tenho outro amigo que insulta outros condutores. E é muito bom nisso. Eu sei, quando estou no carro com ele, que irá insultar outros condutores. Garantido. Se eu não quero ouvir os insultos porque motivo entro no seu carro?

E de que maneira é que eu me atraso? De que maneira insulto outros? De que maneira não estudo o suficiente? De que maneira sou quem não deveria ser?

Nem sempre é fácil descobrir as respostas. Chama-se auto-sabotagem! Mas se eu começar a aceitar que as pessoas à minha volta me são úteis porque me mostram tudo o que está em mim, começo a sentir-me mais livre, mais autêntico e a prestar mais atenção aos outros e, ainda melhor, a mudar a única pessoa que sou capaz de mudar: eu.

Desejo-lhe uma excelente aventura de descoberta!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Biologia Do Presente

Ouço com frequência pessoas a afirmar que só seremos felizes mantendo-nos no momento presente. Se estivermos no presente, dizem estas pessoas, não temos problemas e a vida flui com harmonia.

Pensamentos tão lindos e simpáticos. Pergunto-me quantas destas pessoas conseguem de facto estar no presente... Como serão as suas vidas, sempre no presente? Sem ter que pensar em objectivos ou compromissos, nem em coisas que ficaram por fazer ou dizer... Deve ser uma forma de viver muito saudável.

Estas pessoas esquecem-se de um pormenor curioso: o cérebro humano.

O nosso cérebro é composto por dois hemisférios, direito e esquerdo, e enquanto o hemisfério direito vive no presente, é uno com a realidade e incapaz de distinguir entre o “eu” e o “tu”, já o hemisfério esquerdo trata de dividir, separar, criar a sensação de espaço e tempo, etc. Poderíamos dizer que enquanto o hemisfério direito do cérebro é o subconsciente, o hemisfério esquerdo é o consciente. E é o hemisfério esquerdo o responsável por nos ajudar a saber onde termino eu e começas tu. Ambos são importantes. Mas vivemos numa sociedade onde o hemisfério esquerdo impera desde tenra idade. Tem sido assim ao longo de vários milénios.

É bom que assim seja. Seria impossível viver nesta realidade se não fossemos capazes de nos distinguir uns dos outros. Já imaginou uma realidade onde não é capaz de saber onde terminam os seus dedos e começa a torneira? Ou uma realidade onde o passado, presente e futuro se manifestam em simultâneo?

Mas é isto que muitas pessoas ditas “mestres” nos pedem e impingem.

Pessoalmente já passei por momentos em que todo o meu ser estava no presente. Foram momentos de puro êxtase! Senti todo o Universo dentro de mim. Senti-me Deus. Jamais serei capaz de colocar em palavras as sensações que me avassalaram. Eu era tudo e todos. Deixei de saber o que era o “eu”. Não sabia onde o meu corpo terminava porque o meu corpo era o TODO. Imagine o momento do orgasmo, multiplique a sensação por cem mil e ficará com uma ideia daquilo que estou a dizer. Não será por acaso que muitas pessoas, no momento do orgasmo, exclamam “meu Deus”! É Deus presente e sentido no corpo físico.

Mas a nossa biologia humana é um pouco diferente. No dia-a-dia os nossos neurónios encarregam-se de relacionar dados, comparar informação e interpretar situações. Fá-lo viajando ao passado ou ao futuro. É assim que o cérebro funciona.

Viver na forma humana em êxtase continuo seria simplesmente impossível. Viver o momento presente, sem relacionar o que se está a vivenciar, sem os neurónios a interpretar, é ser-se simplesmente inumano.

Mas podemos aproximar-nos desta experiência de viver o momento presente. Integrando todas as experiências do passado. Recordando o passado, aprendendo o que cada evento do passado tem para nos ensinar e deixando partir qualquer ideia de sofrimento. Não é uma tarefa fácil e apenas os mais corajosos o farão.

De seguida temos que questionar as experiências à medida que vão ocorrendo. A pergunta que eu mais gosto de fazer, e que me ajuda a viver o momento, é simples: isto que estou a pensar é verdade?

Se for honesto comigo irei aperceber-me que a maioria das coisas que eu interpreto como sendo verdade não o são. A verdade é simples e libertadora. As nossas interpretações é que são complicadas e nos aprisionam.

Um exemplo simples: chego ao trabalho e um colega não me cumprimento. Posso pensar que ele está zangado comigo, que é mal-educado, que tem um feitio desgraçado, que tem problemas em casa, etc. A verdade? A verdade é que este colega simplesmente não me cumprimentou. Não tenho por que interpretar o seu comportamento.

Gosto especialmente de ouvir as pessoas que se queixam que outros são maus e criticam tudo e todos e não compreendem as pessoas à sua volta. Enquanto se queixam não se apercebem que estão a ser pessoas más, criticas e que não compreendem os outros. A verdade? Cada um é como é. As pessoas nunca serão como nós queremos que elas sejam mas apenas como elas são de verdade. E o mundo é um lugar muito mais colorido porque há pessoas boas, e pessoas queixinhas, e pessoas altruístas, e pessoas estúpidas, e pessoas bonitas, e pessoas mesquinhas. Sem uma destas pessoas o mundo seria incompleto. Em realidade, sem um destes aspectos presentes em mim, eu seria incompleto.

Quanto mais me estudo mais consciência tenho que tudo o que vejo nos outros está já em mim. Sempre que falo de outro é de mim mesmo que estou a falar. Tenho trabalho para várias vidas!
E a verdade é que todas as pessoas fazem o que fazem por um único motivo: a necessidade de amor! E como poderei eu amar os outros se ainda não aprendi a amar-me na totalidade por quem eu sou?

Ando por aqui, carregando ás costas um saco cheio de opiniões sobre como os outros deveriam ser, à espera que os outros mudem. E só eu posso mudar.

Termino com uma pergunta para reflectir, e que faço com frequência às pessoas que gostam de se queixar dos outros: quem é que precisa de Deus quando já temos a tua opinião?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ligações Perigosas

De cada vez que focamos a nossa atenção num desejo ou necessidade, ou no comportamento de terceiros, é como se estivéssemos a lançar um anzol que nos prende ao objecto da nossa atenção.

Imagine estes anzóis como cordas de energia, que retiram energia do nosso interior e a transferem para o exterior, para aquilo em que focamos a nossa atenção. E quando transferimos a nossa energia para algo no exterior, estamos literalmente a perder a nossa paz, serenidade e poder.

Por forma a obtermos a paz interior e a tranquilidade que a nossa alma busca, temos que ter a coragem de olhar para dentro e ver que parte da nossa vida nos está a controlar, que parte está a roubar-nos a tranquilidade do nosso ser.

Se formos honestos, iremos ver que há dias em que focamos a nossa atenção no comportamento dos outros, nos seus dramas, ou numa conversa intensa que tivemos dias antes com um amigo ou familiar. Podemos ainda abusar numa refeição, comendo muito mais do que precisamos, e depois ficarmos horas obcecados a pensar na asneira que cometemos. Ou pensamos no dinheiro que precisamos e não estamos a conseguir juntar, ou uma mensagem sarcástica que recebemos no telemóvel, num acto de malícia do ex-cônjuge, uma injustiça em que fomos testemunhas, ou uma experiência dramática que ocorreu há décadas atrás.

Há milhares de lugares para onde direccionamos a nossa energia neste preciso momento, mas apenas um lugar onde realmente precisamos dela: o nosso interior que nos pode levar a novos níveis de sucesso, abundância, paz e plenitude.

Quantas vezes ficamos zangados com alguém só porque queremos ter razão?

De cada vez que nos desconectamos de nós mesmos estamos em realidade a dar o nosso poder a algo fora de nós – algo que nos é impossível controlar.

Quando nos desconectamos perdemos poder, perdemos a nossa voz, a nossa capacidade de discernimento, e trocamos a nossa sabedoria interior por distracções que nos roubam a nossa energia e nos mantêm presos nos mesmos velhos padrões.

Ao soltarmo-nos das coisas no exterior ganhamos a capacidade de nos observarmos a nós mesmos e compreender a nossa vida de uma maneira que nos permite mudarmos radicalmente. Faz-nos regressar ás nossas raízes, à nossa ligação divina, por forma a podermos ver o que nos está a impedir de brilhar, confiar e saber e sermos preenchidos pela Sabedoria Infinita. Ao soltarmo-nos das coisas exteriores tornar-nos-emos capazes de nos apoiarmos a nós mesmos e a ver as muitas maneiras em que tentamos controlar, manipular e ser usados pelo que nos é exterior.

Uma vez que nos desconectemos do mundo exterior, em termos de focar aí a nossa atenção, trazemos muita energia de volta a quem somos, permitindo-nos assim descobrir os muitos presentes guardados no nosso interior: soluções para problemas que se arrastam, ideias criativas e visionárias, mais coragem, clareza, uma conexão deliciosa com os outros, e oportunidades que nos inspiram e provocam ondas de entusiasmo.

Aquilo que eu sei com certeza: nós estamos feitos para nos recriarmos continuamente. E, nós estamos aqui – quer queiras aceitar isto ou não, quer queiras reconhecer isto ou não, quer saibas isto ou não – para a evolução da nossa alma.

A minha pergunta para ti é simples: estás preparado para te desligares dos objectos que te roubam energia (e isto inclui também as pessoas à tua volta) para poderes assim resgatar a tua luz? Estás preparado para criar uma relação de amor incondicional com o mais sagrado que há em ti? Queres mesmo fazer as pazes com o teu passado e resgatar toda a energia que se tornará disponível para ti?

Se a tua resposta é um “sim, estou pronto”, o próximo seminário d’O Caminho Da Sombra é uma oportunidade para a tua evolução espiritual.

Só tu tens o poder de avançar, atravessando a escuridão presente no teu subconsciente, em direcção à tua luz, ao teu brilho e a honrar o que de mais sagrado há em ti: a tua alma.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As crianças não são estúpidas

Será que é função dos pais defender os seus filhos quando outros os agridem verbalmente? Será que quando uma criança ofende o seu filho, chamando-lhe “burro”, por exemplo, você, como pai ou mãe, deve correr a apoiar o seu filho e negar que ele é “burro”?

Não. Se um pai quiser educar verdadeiramente um filho irá prepará-lo para a vida de uma forma mais inteligente e eficiente.

Em primeiro lugar ensinar as crianças que cada aspecto que vêem nos outros está já neles, caso contrario não seriam capazes de o ver. Como é que sabemos o que é uma “burrice” se nós próprios nunca passámos por essa experiência? Como é que sabemos o que é um “cobarde” sem termos passado por um momento de cobardia?

Este processo de educação emocional, com crianças, processa-se através de um método que se chama “questionar a realidade”.

Numa primeira fase o pai pode mostrar ao filho as suas qualidades, boas e “más”, com um diálogo que dá poder à criança. Por exemplo, o filho chega a casa e diz aos pais que a professora é “parva”. O pai pode perguntar à criança o que significa “ser parvo”. Este passo é importante porque o conceito de “parvo” é subjectivo, sobretudo para uma criança. Suponhamos que a criança responde que “parvo” é a pessoa que diz disparates. O passo seguinte é o pai perguntar ao filho que disparates é que ele costuma dizer.

Este questionar deve ser feito sempre mostrando gratidão e amor pela presença do filho, e nunca com uma atitude acusatória.

Desta forma o filho começará a ver que ele próprio também fá foi “parvo”. De seguida o pai pode mostrar ao filho de que forma ele próprio também já foi “parvo”. Permitir que a criança descubra por si que todos nós já tivemos atitudes “parvas” e que é ok. Somos humanos.

Pode depois ajudar ainda mais a criança, pedindo-lhe para pensar em situações em que ser “parvo” pode ser útil. Este processo pode demorar algumas horas ou dias. Permita que a criança descubra por ela mesma de que maneira expressar este aspecto pode ser benéfico.

E, para terminar este processo, ensinar à criança que sempre que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar para nós. Isto é a forma mais corajosa e iluminada de ensinar uma criança. Sempre que alguém lhe apontar o dedo e a acusar de algo, é de si que está a falar. Isto não significa que a criança está automaticamente desculpada e impune. Significa que não deve levar a peito qualquer acusação que lhe é feita, porque aquele que acusa é igual a si. Desta forma a criança começa a aprender, sem sequer se aperceber, o que significa amar incondicionalmente.

O maior obstáculo a este processo é a falta de tempo que muitos pais parecem não ter para educar verdadeiramente os filhos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fazer Nada

Quase todo o sofrimento humano se deve à luta que cada um de nós trava incessantemente contra a realidade.

A realidade é aquilo que está a acontecer agora, sem a imposição de uma interpretação pessoal.

Quando algo está a acontecer e eu digo que não quero esse acontecimento estou a lutar contra a realidade. Adivinhem quem ganha?

A atitude apropriada é observar o que está a acontecer e o que eu posso fazer tendo em conta o que está a acontecer. Sem uma interpretação pessoal. Este é o aspecto mais difícil. Em realidade eu nunca vou saber porque motivo os outros têm as atitudes que têm. Nunca irei saber porque motivo me acontecem as coisas que me acontecem.

A interpretação da realidade é sempre feita a partir de uma história pessoal que tem como tema “coitadinho de mim”. São sempre os outros os maus da fita. Eu ganho o papel de vítima. Se não fossem os meus pais. Ou o meu patrão. Ou o país em que vivo. Ou o sistema económico. Ou o meu mestre. Procuramos sempre alguém com mais responsabilidade sobre a nossa vida do que nós próprios. E isto só pode atrair dissabores.

Esta vitimização está de tal forma enraizada na nossa sociedade que agora conseguimos ir ainda mais longe neste processo. Já há depressões causadas por genes (coitado de mim, está nos meus genes ser depressivo)! No campo da saúde procuram-se respostas em todo o lado, excepto onde elas se encontram: dentro de cada um.

Mas de cada vez que eu declaro ser outra a pessoa responsável por algo que me sucede a mim estou a entregar o poder da minha vida a essa outra pessoa. Estou a afirmar o coitadinho em mim. E a vida irá encarregar-se de me mostrar que tenho razão. Tornando-me ainda mais coitadinho.

Se está com dores no corpo, dizer que não quer essas dores é lutar contra a realidade. Porque a realidade diz que a dor está instalada. Mas pode procurar ajuda para descobrir a causa da dor. Primeiro aceita que tem dores e depois procura ajuda. Mas afirmar que não quer ter dores é o mesmo que dizer que não quer a realidade presente.

Se nos permitirmos abrir-nos o suficiente para ir bem dentro de nós é relativamente fácil descobrir a causa da dor. O nosso corpo dar-nos-á a resposta.

Quando alguém erra para comigo as primeiras questões que tenho que me fazer são: porque permiti este evento? O que há neste evento para eu aprender? De que forma este evento contribui para o meu processo evolutivo? Quem é que responsabilizo por este evento?
Enquanto forem outros os responsáveis pelo que me sucede o poder sobre a minha vida é nulo. Todos deterão poder sobre mim.

Argumentar contra a realidade é um comportamento típico de alguém com graves perturbações mentais. Porque não podemos fazer rigorosamente nada para destruir a realidade que está a acontecer neste momento. Esta atitude é semelhante a outra que muitos de nós temos: fazer todos os dias as mesmas coisas à espera que os nossos dias mudem. Ninguém parece notar que se hoje eu fizer o mesmo que fiz ontem, amanhã irá ser um dia igualzinho a ontem.

Lamentarmo-nos porque chove não vai trazer o sol. Queixarmo-nos contra o cão do vizinho que ladra à noite não vai tornar o cão mudo. Mas podemos adaptar-nos sempre à realidade. Se está a chover podemos vestir uma gabardine e abrir o chapéu de chuva. Se o cão ladra durante a noite podemos colocar tampões de silicone nos ouvidos. Isto são só exemplos. Há muito mais que podemos fazer. Mas lutar contra a realidade é uma perda de energia que nunca dará frutos.

Por outro lado a realidade raramente é aquilo que nós pensamos ser. Interpretamos os eventos quase sempre por forma a justificarmos a nossa impotência. Muito raramente as coisas são aquilo que nós acreditamos que sejam.

Sempre que sentir emoções desconfortáveis (medo, raiva, vergonha, culpa, falta de esperança) vá dentro de si. Permita-se fazer as perguntas que têm o poder de acalmar a mente. Isto que eu penso estar a acontecer é verdade? Tenho a certeza absoluta que é verdade? Quem é que eu seria sem esta crença?

Na maioria das vezes aquilo em que acreditamos não é real. São crenças por nós criadas para justificarmos o coitadinho da nossa história.

Ficarmos irritados com o comportamento de outro nunca será uma solução. Mas podemos aceitar esse comportamento e mudar a nossa perspectiva. E quando o comportamento de outros nos afecta fisicamente temos obrigação de o fazer saber à pessoa que nos está a afectar. Quando alguém abusa de nós fisicamente, ou rouba o nosso tempo, ou não cumpre com as suas obrigações. Mas quando alguém “abusa” de nós porque “não deveria ser assim” esta atitude só nos pode causar problemas a nós. Dois exemplos distintos:

- Quando um filho não estuda, os pais têm a obrigação de se certificar que o faz. Isto é aceitar a realidade (o filho não estuda) e agir a partir dessa realidade (exigir o estudo). Queixar-se de que o filho não estuda, ou ficar irritado, ou magoado, ou preocupado é lutar contra a realidade. Não funciona. Só causa danos ao progenitor.

- Quando deixa queimar o jantar. Pode deitar tudo ao lixo e preparar um jantar diferente (feito de torradas e chá, por exemplo). Isto é aceitar a realidade e agir a partir dessa mesma realidade. Entrar em pânico, gritar, insultar o fogão ou culpar os outros porque estão sempre à espera que seja você a fazer o jantar, é lutar contra a realidade. Não trará resultados positivos, posso garantir-lhe.

Nós lutamos contra a realidade de cada vez que julgamos as pessoas à nossa volta. Lutamos contra a realidade de cada vez que nos queixamos. Lutamos contra a realidade de cada vez que dizemos que não gostamos das coisas como elas são e informamos quem nos quiser ouvir de que como é que as coisas deveriam ser.

O aspecto mais pernicioso desta luta contra a realidade é este: só conseguimos ver nos outros o que está já em nós. Quando nos queixamos de outros é de nós que nos estamos a queixar.
Experimente só hoje aceitar a realidade tal como ela se apresenta. Se está triste aceite o facto de estar triste. Se está cansado, aceite este facto. Se se sente sem esperança, aceite esse sentimento. É a realidade. E depois pergunte-se: o que poso fazer a seguir para me sentir diferente?... Talvez pensar coisas diferentes, fazer coisas diferentes. Ou simplesmente abanar os braço e gritar “que se lixe!”

Uma boa semana a todos.

Emídio Carvalho