quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Anjo e o Demónio

Dentro de cada um de nós há um anjo e um demónio. Ambos querem ter sempre razão e ambos querem viver através de mim.

O anjo quer expressar a sua natureza através de mim com ideias criativas, bondade, paz e amor. Mostra-me a beleza e a perfeição da vida. Ensina-me a amar incondicionalmente e a procurar ver sem julgar. Possui uma natureza pacífica, calma e apaziguadora. Consegue criar harmonia e bem-estar. Ajuda o meu corpo a curar-se de qualquer enfermidade. É carinhoso e compreensivo. Respeita os outros e permite que cada pessoa na minha vida seja quem quer ser, sem impor qualquer vontade. É altruísta e procura sempre o bem nos outros. Tem sempre um sorriso para partilhar, especialmente com aqueles que já não são capazes de sorrir. Vê abundância em todo lado e sabe que há o suficiente para todos. Consegue levar-me onde eu quero ir com calma e fluidez. É sábio e possui o conhecimento eterno do Universo.

O demónio é quezilento. Está sempre à procura de mais uma batalha. As suas ideias são sempre destrutivas e provocam danos à sua volta. É desconfiado e manhoso. A sua táctica é ardilosa e traiçoeira. Vê a maldade nos corações dos homens e sabe como causar danos aos outros e a mim mesmo. É um revoltado, sempre insatisfeito. É calculista e frio. Capaz das maiores atrocidades e irresponsabilidades. Grita, faz birras, amua, chora, quer ter sempre razão e não descansa enquanto não for capaz de provocar mal-estar à sua volta. Não tem qualquer amor por ninguém e só quer experienciar o prazer egoísta da separação. Sente-se maravilhosamente bem quando magoa os outros. É um revoltado cheio de raiva capaz de causar danos a quem quer que se atravesse no seu caminho. É mentiroso e invejoso. Não olha a meios para atingir os seus fins.

Este anjo e este demónio lutam continuamente dentro de mim. Ambos querem viver. Ambos querem controlar o meu eu. Ambos gritam na minha cabeça a qualquer instante da minha vida. Não importa o que estou a fazer, consigo ouvir as vozes de ambos.

E a qual deverei ouvir? Qual é o que ganha esta batalha que se trava dentro de mim?

Se eu ouvir apenas o anjo e agir de acordo com as suas palavras bondosas e cheias de amor, o demónio irá ter fome. Enquanto vivo seguindo os conselhos do anjo, o demónio estará a conspirar, insinuando-se subtilmente, criando situações difíceis para que eu esqueça o anjo e expluda num momento de fúria. Enquanto vivo as instruções do anjo, o demónio irá tornar-se esfomeado de atenção e atacará quando menos esperar. Num jantar de amigos, no aniversário de um familiar, numa reunião de trabalho. Lá estará o meu demónio, pronto a criar uma situação em que receberá toda a minha atenção.

Se eu apenas ouvir o demónio, o anjo irá tornar-se frustrado. Sem o alimento da minha atenção irá afastar-se e levar consigo a alegria, o amor e a bondade. Serei incapaz de partilhar a minha vida com quem quer que seja, não conseguindo ver a abundância que a vida me oferece. Sem o meu anjo não conseguirei ouvir o que os outros têm para me dizer. Irei tornar-me num revoltado, continuamente a apontar o dedo aos outros. Carregando ressentimentos e mágoas ás costas e fazendo sofrer todos à minha volta. Sem a voz do meu anjo não serei capaz de reconhecer as oportunidades que a vida me oferece, porque só serei capaz de ver injustiça e maldade em tudo.

Qual é que deverei ouvir? Qual é que me pode ajudar a viver? O anjo ou o demónio?

Ambos se assumem como importantes e necessários. Ambos vão querer a minha atenção. E ambos irão criar problemas se não os escutar.

Se apenas ouvir o anjo, outros irão aproveitar-se de mim. Serei incapaz de fazer valer os meus direitos e nunca terei a capacidade de reagir num momento de agressão à minha integridade. Porque o anjo vê tudo como perfeito. Só com a voz do anjo não saberei como defender-me em tempos difíceis nem como proteger os que me são queridos quando forem atacados.

Se apenas ouvir o demónio, irei aproveitar-me continuamente dos outros. Criarei conflitos onde quer que esteja. Não serei capaz de desfrutar da amizade porque desconfiarei sempre dos outros. irei ver um ataque pessoal em tudo o que os outros possam fazer.

Muitas pessoas apregoam o equilíbrio (querendo dizer “ouçam só o anjo”). Só vêem beleza e tudo é perfeito. E o demónio, esfomeado, entra em acção, criando situações dolorosas à sua volta! Quando olho para uma balança, daquelas de dois pratos, em equilíbrio, reparo num pormenor: nada acontece! Uma balança em equilíbrio encontra-se estagnada. Não há crescimento, não há estimulo nem emoção.

Eu posso ouvir o demónio em mim quando tenho um problema pela frente. Ele é ardiloso, perspicaz e capaz de soluções rápidas quando há conflito. Ele poderá ajudar-me se for atacado ou se alguém atacar os que me são queridos. Se houver uma guerra é o demónio quem melhor me pode ajudar a procurar abrigo e a defender-me. Se alguém tentar aproveitar-se de mim, o demónio saberá identificar o abuso e reagirá de acordo com a situação. Se eu for ignorado numa situação de urgência, o demónio saberá criar as situações para que possa ser ouvido.

Mas se, depois de um dia de trabalho cansativo, eu chegar a casa de um amigo que está doente e magoado por não o ter visitado há mais tempo, poderei ouvir o meu anjo e saberei como reconfortar esse amigo. Se o meu amigo me acusar de o ter esquecido, o meu anjo saberá como apaziguar o seu demónio.

Se o demónio do meu patrão estiver activo e ele me acusar injustamente, o meu anjo saberá ouvir as suas queixas e acalmar a sua fúria.

Anjo ou demónio? Ambos são importantes. E ambos me podem ser úteis. A qual irei prestar atenção? A ambos. Como saber qual a voz que devo seguir? A que me fizer sentir bem comigo.

É bom ser bom. É bom partilhar a nossa vida e os nossos conhecimentos. É bom desfrutar da paz e harmonia. É bom viver com alegria e abundância. Mas por vezes temos que ser capazes de nos defender. Temos que ser capazes de impor a nossa integridade e impedir sermos violados por outros.

Se ignorar o demónio em mim, ele irá crescer esfomeado e a sua fúria não terá limites. O dia em que me apanhar distraído irá causar danos irreparáveis. Uma infidelidade, um roubo, uma calúnia, uma agressão, uma violação. O demónio, ardiloso e esfomeado, irá atrair outro demónio. E alguém me irá magoar ou eu mesmo irei magoar-me e magoar outros.

Se, por outro lado, ignorar o meu anjo, serei incapaz de amar e perdoar. Não conhecerei o afecto dos outros, porque todos terão medo de mim.

Bem-vindos, anjo e demónio! Bem-hajam por existir.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Queixinhas, queixinhas, queixinhas!

Queixarmo-nos é uma atitude bizarra. É como se acreditássemos que ao queixarmo-nos, algo de mágico irá acontecer. Como se alguém ou algo nos vai ouvir com atenção e tornar a nossa vida melhor.

Eu queixo-me disto e queixo-me daquilo, queixo-me de um colega e de um amigo e de um funcionário, e depois de tantas queixas algo de bom vai acontecer. Alguém vai tomar conta das minhas queixas e eliminar cada uma das coisas “erradas” na minha vida.

É como se Deus estivesse a ouvir-me e decidisse: “Acho que esta criatura já sofreu o suficiente. É melhor começar a mudar o mundo em que ele vive!”

Não vai acontecer nunca.

De cada vez que me queixo tenho que escrever as minhas queixas. Questionar a veracidade de cada queixa. Tornar-me consciente daquilo que me queixo. Observar o número de vezes que ao longo do dia estou a enviar um sinal negativo à vida. E as vezes que a vida me responde com mais coisas para me queixar.

Mas em vez disso, limito-me a queixar-me, e a queixar-me mais um pouco, e ainda mais. E de cada vez que me queixo magoo-me, e magoo-me mais, e ainda mais um pouco. É como se estivesse a validar o meu sofrimento e a afirmar a quem quiser ouvir o quanto eu sofro e sou um coitadinho. Olhem o que os outros me fazem! Mudem o mundo, por favor!

É como se estivesse a rezar desde que acordo até voltar a adormecer. Uma oração com algumas birras pelo meio. E nem sequer estou a falar das queixinhas na minha mente!

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

E ninguém me está a ouvir, se eu não me estiver a ouvir. E continuo a acreditar que me irei sentir bem por me queixar! Não acontecerá nunca!

Quem é que na tua vida se queixava assim? Quando eras criança. Talvez tivesses visto a tua mãe a queixar-se, ou um irmão mais velho. E talvez esse familiar, através das suas queixinhas, conseguisse aquilo que queria. E foi aí que decidiste: “Aqui está uma maneira fácil de conseguir aquilo que quero! Acho que vou viver assim a minha vida! Se me queixar o suficiente, posso conseguir tudo aquilo que quero!”

Esta atitude mostra apenas uma total irresponsabilidade. É responsabilizar outros pela minha vida. É dar o poder da minha vida a outros. E aguardamos pelo mundo inteiro para que tome conta de nós. Só que o resto do mundo tem mais que fazer. Ouve-nos a queixar-nos, e queixar-nos um pouco mais... E nem sequer nos está a ouvir! Ninguém quer ouvir as pessoas queixinhas.

O que é que você pensa quando alguém se queixa da sua vida pessoal a si? Provavelmente qualquer coisa como: “Mas por que raio não faz ele qualquer coisa em vez de se queixar?!”

Peço-te que comeces a ouvir-te a ti mesmo. De cada vez que te queixas. Observa as tuas necessidades escondidas em cada queixa. O que queres dos outros? O que precisas dos outros? Pede! Mas não faças o teu pedido através de uma queixa. Fá-lo através de um pedido honesto. Pode ser que os outros te digam “não”. E esta resposta está certa. Ou pode ser que os outros te respondam “sim”, e esta resposta também está certa.

De cada vez que nos queixamos estamos a afirmar que a Vida, Deus, o Universo, são imperfeitos, inadequados. E tudo o que temos a fazer é apontar o dedo. E é assim que iremos viver: apontando o dedo, queixando-nos, fazendo birras, magoando-nos a nós mesmos.

Exercício de Apoio:

Este trabalho é efectuado em profundidade pela Byron Katie. Pega em cada queixa e faz 4 perguntas:

1. Isto é verdade?

2. Tenho a certeza absoluta que isto é verdade?

3. Como é que reajo, como trato os outros, como me sinto, quando acredito neste pensamento?

4. Quem seria eu sem este pensamento?

Para fazer um bom trabalho, dá a volta à queixa. Inverte aquilo que dizes, e depois encontra exemplos genuínos para a inversão. Pegando no exemplo acima:

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

“Estou farto de mim! O meu patrão não me suporta! Eu não valorizo o meu amigo! Os meus pensamentos desgraçam-me! Não me esforço e até controlo o meu gato (através daquilo que penso)!” E depois vou estudar-me. Ver até que ponto a nova afirmação é tão ou mais verdadeira que a inicial.

Bom trabalho!

Emídio Carvalho

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Obrigações e Projecções

Ao longo dos últimos anos tenho constatado que há apenas duas barreiras a impedir-nos de experienciar a vida na sua totalidade: as projecções e as obrigações.

As projecções nada mais são que os nossos aspectos deserdados e que atiramos para cima dos outros. Não acredito nas pessoas que dizem não julgar os outros. Julgar é uma das características de define o ser humano. A pessoa que afirma não julgar os outros mente, e é muito provável que esteja a projectar a mentira para cima de outros.

Quando afirmo que gosto do dia, ou gosto do casaco de um amigo, ou aprecio uma canção. Estou a julgar. Muitas pessoas confundem julgar com criticar. Não são nunca a mesma coisa! Julgar é emitir um juízo de valor. E isso fazêmo-lo continuamente.

A projecção acontece quando tenho uma reacção inapropriada ao que está a acontecer. Quando alguém faz algo, ou diz algo, que “mexe” comigo: estou a projectar. E quando me apanho a projectar só consigo libertar a outra pessoa e permitir que seja quem é de verdade quando me autorizo a ouvir as respostas a três perguntas básicas:

1. De que forma eu sou igual?

2. Quando é que já tive este comportamento?

3. Se me permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para mim?

Deixo-lhe um exemplo que uma querida amiga, a frequentar o curso de educação emocional, trabalhou comigo ainda ontem. O filho da Manuela por vezes tira-lhe dinheiro. E este comportamento “mexia” com ela. Projecção. A resposta à primeira pergunta só pode ser encontrada se eu souber observar com exactidão o comportamento da criança: tirar o que não me pertence. De que maneira a Manuela “tira” aquilo que não lhe pertence? Descobrimos que o fazia quando pagava dívidas que eram de um irmão. Está de facto a tirar a dívida do irmão, que não lhe pertence. E sente-se mal com a situação. Em que situações teve já o comportamento do filho? Quando rouba tempo a si mesma. Quando não se permite uma relação íntegra com os familiares, tentando em vez disso uma “paz podre”. Uma nova pergunta surgiu depois desta resposta: o que é que o filho está a tentar mostrar-lhe? O que é que ela tem que mudar nela? Está a mostrar-lhe que de cada vez que não se respeita, de cada vez que se rouba a si mesma, está a violar-se. De cada vez que não cobra pelos seus serviços está a impedir o fluir natural da gratidão. E se ela se permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para ela? Fácil. Deixaria de pagar as dívidas dos outros, teria mais tempo e dinheiro para si, sentir-se-ia bem a cobrar pelos seus serviços.

Ainda bem que a Manuela tem um filho que lhe pode ensinar tanto com tão pouco!

Conheço uma pessoa (virtualmente apenas) no FaceBook que é terapeuta especializado em tratar dependências. Continuamente fala sobre toxicodependentes e todos os tipos de dependências. Aposta fortemente na vitimização. Porque quando sentimos que outros nos devem compensar estamos em realidade a afirmar que somos coitadinhos e os outros detêm poder sobre as nossas vidas. Mas o que esta pessoa ainda não conseguiu ver é que ela mesma está completamente dependente das pessoas com toxicodependências! Vê comportamentos aditivos em todo o lado, continuamente. Isto é um comportamento aditivo.

Aquilo a que tem que prestar atenção, seja em relação a um filho, pai, amigo ou colega de trabalho, é que se reage ao seu comportamento estará a projectar um aspecto de si que não consegue ver.

Lembre-se que a principal função de um amigo é validar a nossa história de coitadinho. A principal função de um inimigo é mostrar quem somos de verdade. Por isso não gostamos dos nossos inimigos! É demasiado doloroso e desconfortável assumir os nossos aspectos menos elegantes.

As obrigações.

Aqui estamos em território puro do sofrimento. Observamos algo e decidimos que deveria ser diferente daquilo que é. E assim conseguimos lutar contra a realidade. Como em qualquer luta, só pode haver um vencedor: a realidade.

Alguém grita comigo e eu decido que não deveria gritar. Alguém rouba e eu decido que não deveria roubar. Alguém é alcoólico e eu decido que não deveria ser. Alguém chega atrasado e eu decido que não deveria chegar atrasado. Continuamente a lutar contra aquilo que é.

O exercício que lhe proponha é deliciosamente libertador. Escreva numa folha todas as obrigações que lhe ocorrem em relação ás pessoas com quem partilha momentos da sua vida. Por exemplo:

- O Pedro deveria ser mais pontual;

- A Maria não deveria ser preguiçosa;

- O Carlos deveria ser mais atencioso;

- A Joana deveria estudar mais;

- O Manuel não deveria insultar outros condutores;

- O Emídio não deveria dizer certas coisas que estão obviamente erradas.

Em primeiro lugar reflicta um pouco nisto: quem precisa de Deus quando já temos a tua opinião?

Depois observe as mil e uma maneiras em que julga os outros e tenta que sejam pessoas diferentes de quem são. Irá haver sempre pessoas que se atrasam, pessoas preguiçosas, pessoas que falam mal, pessoas que dizem disparates, pessoas que insultam, pessoas desprovidas de sentimentos... E até agora ainda só falei de mim!

Mas o trabalho delicioso, aquele que nos liberta, é descobrir a verdade por detrás de cada julgamento. Eu tenho um amigo que chega sempre atrasado a qualquer encontro meia hora. Posso contar sempre com essa meia hora de atraso! Ele é extremamente pontual nos seus atrasos! Então será que ele se atrasa de verdade? Quando ele me diz que se encontra comigo ás 16 horas e aparece ás 16.30? Eu sei que ele irá atrasar-se meia hora! Ele é super pontual nos seus atrasos! Tenho outro amigo que insulta outros condutores. E é muito bom nisso. Eu sei, quando estou no carro com ele, que irá insultar outros condutores. Garantido. Se eu não quero ouvir os insultos porque motivo entro no seu carro?

E de que maneira é que eu me atraso? De que maneira insulto outros? De que maneira não estudo o suficiente? De que maneira sou quem não deveria ser?

Nem sempre é fácil descobrir as respostas. Chama-se auto-sabotagem! Mas se eu começar a aceitar que as pessoas à minha volta me são úteis porque me mostram tudo o que está em mim, começo a sentir-me mais livre, mais autêntico e a prestar mais atenção aos outros e, ainda melhor, a mudar a única pessoa que sou capaz de mudar: eu.

Desejo-lhe uma excelente aventura de descoberta!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Biologia Do Presente

Ouço com frequência pessoas a afirmar que só seremos felizes mantendo-nos no momento presente. Se estivermos no presente, dizem estas pessoas, não temos problemas e a vida flui com harmonia.

Pensamentos tão lindos e simpáticos. Pergunto-me quantas destas pessoas conseguem de facto estar no presente... Como serão as suas vidas, sempre no presente? Sem ter que pensar em objectivos ou compromissos, nem em coisas que ficaram por fazer ou dizer... Deve ser uma forma de viver muito saudável.

Estas pessoas esquecem-se de um pormenor curioso: o cérebro humano.

O nosso cérebro é composto por dois hemisférios, direito e esquerdo, e enquanto o hemisfério direito vive no presente, é uno com a realidade e incapaz de distinguir entre o “eu” e o “tu”, já o hemisfério esquerdo trata de dividir, separar, criar a sensação de espaço e tempo, etc. Poderíamos dizer que enquanto o hemisfério direito do cérebro é o subconsciente, o hemisfério esquerdo é o consciente. E é o hemisfério esquerdo o responsável por nos ajudar a saber onde termino eu e começas tu. Ambos são importantes. Mas vivemos numa sociedade onde o hemisfério esquerdo impera desde tenra idade. Tem sido assim ao longo de vários milénios.

É bom que assim seja. Seria impossível viver nesta realidade se não fossemos capazes de nos distinguir uns dos outros. Já imaginou uma realidade onde não é capaz de saber onde terminam os seus dedos e começa a torneira? Ou uma realidade onde o passado, presente e futuro se manifestam em simultâneo?

Mas é isto que muitas pessoas ditas “mestres” nos pedem e impingem.

Pessoalmente já passei por momentos em que todo o meu ser estava no presente. Foram momentos de puro êxtase! Senti todo o Universo dentro de mim. Senti-me Deus. Jamais serei capaz de colocar em palavras as sensações que me avassalaram. Eu era tudo e todos. Deixei de saber o que era o “eu”. Não sabia onde o meu corpo terminava porque o meu corpo era o TODO. Imagine o momento do orgasmo, multiplique a sensação por cem mil e ficará com uma ideia daquilo que estou a dizer. Não será por acaso que muitas pessoas, no momento do orgasmo, exclamam “meu Deus”! É Deus presente e sentido no corpo físico.

Mas a nossa biologia humana é um pouco diferente. No dia-a-dia os nossos neurónios encarregam-se de relacionar dados, comparar informação e interpretar situações. Fá-lo viajando ao passado ou ao futuro. É assim que o cérebro funciona.

Viver na forma humana em êxtase continuo seria simplesmente impossível. Viver o momento presente, sem relacionar o que se está a vivenciar, sem os neurónios a interpretar, é ser-se simplesmente inumano.

Mas podemos aproximar-nos desta experiência de viver o momento presente. Integrando todas as experiências do passado. Recordando o passado, aprendendo o que cada evento do passado tem para nos ensinar e deixando partir qualquer ideia de sofrimento. Não é uma tarefa fácil e apenas os mais corajosos o farão.

De seguida temos que questionar as experiências à medida que vão ocorrendo. A pergunta que eu mais gosto de fazer, e que me ajuda a viver o momento, é simples: isto que estou a pensar é verdade?

Se for honesto comigo irei aperceber-me que a maioria das coisas que eu interpreto como sendo verdade não o são. A verdade é simples e libertadora. As nossas interpretações é que são complicadas e nos aprisionam.

Um exemplo simples: chego ao trabalho e um colega não me cumprimento. Posso pensar que ele está zangado comigo, que é mal-educado, que tem um feitio desgraçado, que tem problemas em casa, etc. A verdade? A verdade é que este colega simplesmente não me cumprimentou. Não tenho por que interpretar o seu comportamento.

Gosto especialmente de ouvir as pessoas que se queixam que outros são maus e criticam tudo e todos e não compreendem as pessoas à sua volta. Enquanto se queixam não se apercebem que estão a ser pessoas más, criticas e que não compreendem os outros. A verdade? Cada um é como é. As pessoas nunca serão como nós queremos que elas sejam mas apenas como elas são de verdade. E o mundo é um lugar muito mais colorido porque há pessoas boas, e pessoas queixinhas, e pessoas altruístas, e pessoas estúpidas, e pessoas bonitas, e pessoas mesquinhas. Sem uma destas pessoas o mundo seria incompleto. Em realidade, sem um destes aspectos presentes em mim, eu seria incompleto.

Quanto mais me estudo mais consciência tenho que tudo o que vejo nos outros está já em mim. Sempre que falo de outro é de mim mesmo que estou a falar. Tenho trabalho para várias vidas!
E a verdade é que todas as pessoas fazem o que fazem por um único motivo: a necessidade de amor! E como poderei eu amar os outros se ainda não aprendi a amar-me na totalidade por quem eu sou?

Ando por aqui, carregando ás costas um saco cheio de opiniões sobre como os outros deveriam ser, à espera que os outros mudem. E só eu posso mudar.

Termino com uma pergunta para reflectir, e que faço com frequência às pessoas que gostam de se queixar dos outros: quem é que precisa de Deus quando já temos a tua opinião?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ligações Perigosas

De cada vez que focamos a nossa atenção num desejo ou necessidade, ou no comportamento de terceiros, é como se estivéssemos a lançar um anzol que nos prende ao objecto da nossa atenção.

Imagine estes anzóis como cordas de energia, que retiram energia do nosso interior e a transferem para o exterior, para aquilo em que focamos a nossa atenção. E quando transferimos a nossa energia para algo no exterior, estamos literalmente a perder a nossa paz, serenidade e poder.

Por forma a obtermos a paz interior e a tranquilidade que a nossa alma busca, temos que ter a coragem de olhar para dentro e ver que parte da nossa vida nos está a controlar, que parte está a roubar-nos a tranquilidade do nosso ser.

Se formos honestos, iremos ver que há dias em que focamos a nossa atenção no comportamento dos outros, nos seus dramas, ou numa conversa intensa que tivemos dias antes com um amigo ou familiar. Podemos ainda abusar numa refeição, comendo muito mais do que precisamos, e depois ficarmos horas obcecados a pensar na asneira que cometemos. Ou pensamos no dinheiro que precisamos e não estamos a conseguir juntar, ou uma mensagem sarcástica que recebemos no telemóvel, num acto de malícia do ex-cônjuge, uma injustiça em que fomos testemunhas, ou uma experiência dramática que ocorreu há décadas atrás.

Há milhares de lugares para onde direccionamos a nossa energia neste preciso momento, mas apenas um lugar onde realmente precisamos dela: o nosso interior que nos pode levar a novos níveis de sucesso, abundância, paz e plenitude.

Quantas vezes ficamos zangados com alguém só porque queremos ter razão?

De cada vez que nos desconectamos de nós mesmos estamos em realidade a dar o nosso poder a algo fora de nós – algo que nos é impossível controlar.

Quando nos desconectamos perdemos poder, perdemos a nossa voz, a nossa capacidade de discernimento, e trocamos a nossa sabedoria interior por distracções que nos roubam a nossa energia e nos mantêm presos nos mesmos velhos padrões.

Ao soltarmo-nos das coisas no exterior ganhamos a capacidade de nos observarmos a nós mesmos e compreender a nossa vida de uma maneira que nos permite mudarmos radicalmente. Faz-nos regressar ás nossas raízes, à nossa ligação divina, por forma a podermos ver o que nos está a impedir de brilhar, confiar e saber e sermos preenchidos pela Sabedoria Infinita. Ao soltarmo-nos das coisas exteriores tornar-nos-emos capazes de nos apoiarmos a nós mesmos e a ver as muitas maneiras em que tentamos controlar, manipular e ser usados pelo que nos é exterior.

Uma vez que nos desconectemos do mundo exterior, em termos de focar aí a nossa atenção, trazemos muita energia de volta a quem somos, permitindo-nos assim descobrir os muitos presentes guardados no nosso interior: soluções para problemas que se arrastam, ideias criativas e visionárias, mais coragem, clareza, uma conexão deliciosa com os outros, e oportunidades que nos inspiram e provocam ondas de entusiasmo.

Aquilo que eu sei com certeza: nós estamos feitos para nos recriarmos continuamente. E, nós estamos aqui – quer queiras aceitar isto ou não, quer queiras reconhecer isto ou não, quer saibas isto ou não – para a evolução da nossa alma.

A minha pergunta para ti é simples: estás preparado para te desligares dos objectos que te roubam energia (e isto inclui também as pessoas à tua volta) para poderes assim resgatar a tua luz? Estás preparado para criar uma relação de amor incondicional com o mais sagrado que há em ti? Queres mesmo fazer as pazes com o teu passado e resgatar toda a energia que se tornará disponível para ti?

Se a tua resposta é um “sim, estou pronto”, o próximo seminário d’O Caminho Da Sombra é uma oportunidade para a tua evolução espiritual.

Só tu tens o poder de avançar, atravessando a escuridão presente no teu subconsciente, em direcção à tua luz, ao teu brilho e a honrar o que de mais sagrado há em ti: a tua alma.