terça-feira, 2 de março de 2010

O Caranguejo Louco - Uma Parábola

Numa praia protegida por rochas que impediam as ondas do mar de se abater com a sua violência sobre a areia vivia uma colónia de caranguejos.

Estes caranguejos eram bastante pequenos, atingindo na idade adulta não mais que uns 3 centímetros de envergadura.

Todos os anos, durante os meses de Verão, os caranguejos perdiam a sua carapaça, expondo-se aos predadores e sendo presas fáceis para outros bichos do mar, da terra e do ar. Nesta fase do seu crescimento protegiam-se dos perigos da vida permanecendo em buracos nas rochas. Não se alimentavam enquanto aguardavam o crescimento de uma nova carapaça.

Um destes caranguejos, ainda um jovem, perguntava aos mais velhos porque motivo não iam para lá das rochas. Porque não se aventuravam no mar... Os mais velhos contavam-lhe histórias aterradoras. Histórias de gaivotas esfomeadas, de polvos devoradores, de pescadores furtivos. Não era seguro ir para lá das rochas. Toda a vida tinham feito o mesmo: escondiam-se nos buracos das rochas enquanto uma nova carapaça não crescia. Era assim que se fazia, e era assim que podiam crescer.

O pequeno caranguejo perguntava-se porque motivo não cresciam mais, uma vez que todos os anos mudavam de carapaça. Se mudavam de carapaça para crescer, porque não cresciam?

Um dia, em que este pequeno caranguejo se encontrava sem carapaça, decidiu partir à aventura. Indo contra todos os conselhos e advertências dos mais velhos, e sem a protecção da sua carapaça, optou por avançar para lá das rochas protectoras.

E ainda que sentisse medo e alguma ansiedade, o seu desejo de descobrir mais do mundo à sua volta empurrou-o para lá das rochas. Enquanto seguia o seu caminho conseguia ouvir todos os outros caranguejos a chamar por ele. A gritar-lhe e a dizer-lhe que não sobreviveria. Pediam-lhe que voltasse atrás. Chamavam-lhe louco e desnaturado!

Mas o pequeno caranguejo não deu ouvidos. As histórias dos outros caranguejos não o convenciam. A verdade é que mesmo na segurança da praia, um dia iria também morrer. Mesmo na segurança da praia ele assistira a familiares seus serem devorados por gaivotas. E preferia morrer enquanto se aventurava por novas paisagens.

A principio foi-lhe difícil atravessar a barreira protectora feita de rochas. As ondas batiam nelas e empurravam-no de volta ao refúgio natural dos seus familiares. E o pequeno caranguejo lutava contra estas ondas. Apesar de parecer que não saía do mesmo lugar, aos poucos avançava mais uns centímetros.

Enquanto lutava contra a força das ondas o seu corpo mole, sem carapaça, foi-se tornando mais maleável, mais elástico. Sem se aperceber, de cada vez que lutava para vencer uma onda o seu corpo parecia crescer mais um pouco. E de cada vez que uma onda o atirava contra uma rocha, ficava com a sensação de que o seu corpo mole se tornava mais rijo.

E o pequeno caranguejo, sem nunca desistir da sua aventura, continuou a lutar contra as ondas. Demorou alguns dias até conseguir avançar para lá da protecção das rochas.

Quando finalmente ultrapassou a barreira de rochas ficou de boca aberta! O mar era vasto e cheio de cores! Muitos peixes, de muitos tamanhos e cores! Plantas que nunca sonhara poderem existir! E tudo parecia estar ali para lhe dar as boas-vindas!

Foi então que deu de caras com um enorme caranguejo, com mais de meio metro de envergadura! Um caranguejo enorme e com uma carapaça protectora como nunca imaginara!

Falou com o caranguejo gigante. Perguntou-lhe como era possível ser tão grande. O caranguejo gigante respondeu-lhe:

“Sabes, todos os caranguejos na tua colónia poderiam ser grandes como eu. Mas para ser assim grande é preciso vencer a força das ondas e ter a coragem de poder ser apanhado por uma gaivota. É preciso ter a força de vontade para não desistir e lutar contra os perigos da natureza. Mas a verdade é que a maioria dos perigos são inventados. Podemos morrer a tentar crescer ou podemos morrer na pequenez que conhecemos desde o dia que nascemos. É sempre uma escolha. Tu mesmo já estás maior que os teus familiares mais velhos, e a tua carapaça é já mais forte. Enquanto lutavas contra as ondas a Mãe Natureza deu-te o que precisavas para poder avançar: força e poder. Aqui não é mais seguro que na praia, mas as aventuras que podes ter aqui são muitas mais!”

Também nós podemos passar uma vida a queixar-nos dos perigos da vida, das vicissitudes, das mágoas, dos perigos. Podemos esconder-nos num buraco temporário enquanto aguardamos que as tormentas passem. Podemos agarrar-nos à esperança de que tudo faz parte de um processo e esperar por dias melhores. Podemos até pintar o nosso buraco em tons de rosa e fazer de conta que tudo é como deveria ser.

Mas temos sempre uma oportunidade de ignorar todos os conselhos que nos foram ditados. Podemos ser tão grandes como a Vida que corre no nosso corpo. Podemos avançar por territórios desconhecidos, seguindo os impulsos da nossa alma. E podemos descobrir que o mundo é muito maior do que alguma vez sonhámos.

De uma maneira ou de outra, iremos morrer. A escolha está entre morrer aos vinte anos e aguardar que o corpo morra também, uns anos mais tarde. Ou morrer de espanto por todos os dias ter uma experiência nova neste glorioso planeta.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quando "basta", basta!

A grande maioria das pessoas vive dentro de uma história que foi construindo desde muito, muito cedo.

Essa história, enraizada no subconsciente, cria cada um dos nossos dias. É essa história que atrai as pessoas com quem convivemos, os colegas, familiares, amigos. Atrai ainda as situações que experienciamos. Os sucessos e os fracassos.

Algures na infância aprendemos que não somos suficientemente bons numa ou em várias áreas. É fácil saber qual o tema da nossa história se tivermos a coragem de olhar para os eventos “negativos” que se repetem nas nossas vidas. E repetem.

Aprendemos ainda que alguém nos salvará. Alguém nos fará felizes. Alguém terá a solução para os nossos problemas. E as situações menos agradáveis sucedem-se. Mudam as personagens, mas as emoções, os problemas e as nossas respostas mantêm-se idênticas.

Sentimo-nos inseguros e com receio de pedir aquilo que em verdade queremos das pessoas que nos são queridas. Fingimos ser quem não somos para agradar e obter a aprovação dos outros.

Medos, vergonhas, culpas, raivas, acumulam-se num caldeirão subconsciente à espera de um momento de distracção para explodir e causar danos à nossa volta. Magoamos e somos magoados. E a nossa história repete-se. E ainda que haja feridas e sofrimento, pelo menos resta-nos o conforto de saber qual será o desfecho de cada situação. Exactamente porque já o vivemos antes.

É aqui que os nossos amigos desempenham um papel importante: validam a nossa história. Enquanto nos queixamos das coisas que estão mal na nossa vida, eles acenam compassivamente a cabeça, afagam-nos os ombros, ficam tristes com a nossa tristeza. E validam a nossa história. São os suportes que nos ajudam a acreditar na história que criámos há muitos anos atrás. Por outras palavra: são a cola que mantém a nossa história intacta.

Um amigo verdadeiro é aquele que nem sempre concorda connosco. Aquele que quando nos queixamos nos interroga. Aquele que consegue ver que nos nossos monólogos estamos a ser vítimas. E muito provavelmente a mentir a nós mesmos.

Mentimos a nós mesmos quando nos queixamos que outros se aproveitam de nós. Ou quando reclamamos do cônjuge ausente, ou do filho desobediente, ou do pai intolerante.
É preciso muita coragem para ver para além das mentiras que nos vamos contando por forma a validar a nossa história.

Uma forma de descobrir as mentiras que nos contamos é escrevendo as nossas queixas numa folha. Todas! E depois trocar o sujeito de cada queixa e colocarmos no seu lugar o nosso nome próprio. E assumir até que ponto a queixa mantém a sua verdade.

É que os outros irão sempre mostrar-nos aspectos nossos. Sem excepções.

Mas esta é uma lição muito dura. Obriga-nos a saltar para fora das nossas histórias e a entrar em território desconhecido. Território onde ocorrem milagres a cada instante. Fora das nossas histórias.

Consciente ou inconscientemente, dentro da minha história eu sei exactamente qual será o desfecho de cada acção minha. Sei quem sou. Ou pelo menos conheço muito bem os papeis que desempenho.

Mas fora da minha história há todo um universo de emoções e eventos que me são desconhecidos.

Hoje perguntei-me várias vezes: quem seria eu sem a minha história?

Alguém imperturbável. Em paz. Sabendo que tudo é perfeito. E, como bónus magnifico, sem uma única vez me queixar! É que sempre que me queixo estou apenas a mostrar ingratidão para com a Vida, Deus, Universo... E eu estou tremendamente grato por cada experiência bela e magnífica com que a Vida me abençoou. Sem queixas. Em paz.

O meu querido amigo João, com quem passei hoje várias horas dentro do carro, recordou-me algo: há uns largos meses atrás eu era um queixinhas de primeira. O meu passatempo favorito era queixar-me das pessoas que se queixavam! Estava farto das pessoas queixinhas, e certificava-me que todos sabiam isto, queixando-me!

Não sei quando dei o salto. Aconteceu. O que sei é que algures num passado não muito longínquo achei que bastava! Cansei-me da minha história. Era monótona e entediante ao ponto do suicídio.

Hoje ouço outros a queixarem-se, a nadar profissionalmente no mar das suas histórias, e não fico afectado. Acho delicioso. Sei que um dia, como eu, hão-de acordar. E dirão, como eu, “basta”!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Anjo e o Demónio

Dentro de cada um de nós há um anjo e um demónio. Ambos querem ter sempre razão e ambos querem viver através de mim.

O anjo quer expressar a sua natureza através de mim com ideias criativas, bondade, paz e amor. Mostra-me a beleza e a perfeição da vida. Ensina-me a amar incondicionalmente e a procurar ver sem julgar. Possui uma natureza pacífica, calma e apaziguadora. Consegue criar harmonia e bem-estar. Ajuda o meu corpo a curar-se de qualquer enfermidade. É carinhoso e compreensivo. Respeita os outros e permite que cada pessoa na minha vida seja quem quer ser, sem impor qualquer vontade. É altruísta e procura sempre o bem nos outros. Tem sempre um sorriso para partilhar, especialmente com aqueles que já não são capazes de sorrir. Vê abundância em todo lado e sabe que há o suficiente para todos. Consegue levar-me onde eu quero ir com calma e fluidez. É sábio e possui o conhecimento eterno do Universo.

O demónio é quezilento. Está sempre à procura de mais uma batalha. As suas ideias são sempre destrutivas e provocam danos à sua volta. É desconfiado e manhoso. A sua táctica é ardilosa e traiçoeira. Vê a maldade nos corações dos homens e sabe como causar danos aos outros e a mim mesmo. É um revoltado, sempre insatisfeito. É calculista e frio. Capaz das maiores atrocidades e irresponsabilidades. Grita, faz birras, amua, chora, quer ter sempre razão e não descansa enquanto não for capaz de provocar mal-estar à sua volta. Não tem qualquer amor por ninguém e só quer experienciar o prazer egoísta da separação. Sente-se maravilhosamente bem quando magoa os outros. É um revoltado cheio de raiva capaz de causar danos a quem quer que se atravesse no seu caminho. É mentiroso e invejoso. Não olha a meios para atingir os seus fins.

Este anjo e este demónio lutam continuamente dentro de mim. Ambos querem viver. Ambos querem controlar o meu eu. Ambos gritam na minha cabeça a qualquer instante da minha vida. Não importa o que estou a fazer, consigo ouvir as vozes de ambos.

E a qual deverei ouvir? Qual é o que ganha esta batalha que se trava dentro de mim?

Se eu ouvir apenas o anjo e agir de acordo com as suas palavras bondosas e cheias de amor, o demónio irá ter fome. Enquanto vivo seguindo os conselhos do anjo, o demónio estará a conspirar, insinuando-se subtilmente, criando situações difíceis para que eu esqueça o anjo e expluda num momento de fúria. Enquanto vivo as instruções do anjo, o demónio irá tornar-se esfomeado de atenção e atacará quando menos esperar. Num jantar de amigos, no aniversário de um familiar, numa reunião de trabalho. Lá estará o meu demónio, pronto a criar uma situação em que receberá toda a minha atenção.

Se eu apenas ouvir o demónio, o anjo irá tornar-se frustrado. Sem o alimento da minha atenção irá afastar-se e levar consigo a alegria, o amor e a bondade. Serei incapaz de partilhar a minha vida com quem quer que seja, não conseguindo ver a abundância que a vida me oferece. Sem o meu anjo não conseguirei ouvir o que os outros têm para me dizer. Irei tornar-me num revoltado, continuamente a apontar o dedo aos outros. Carregando ressentimentos e mágoas ás costas e fazendo sofrer todos à minha volta. Sem a voz do meu anjo não serei capaz de reconhecer as oportunidades que a vida me oferece, porque só serei capaz de ver injustiça e maldade em tudo.

Qual é que deverei ouvir? Qual é que me pode ajudar a viver? O anjo ou o demónio?

Ambos se assumem como importantes e necessários. Ambos vão querer a minha atenção. E ambos irão criar problemas se não os escutar.

Se apenas ouvir o anjo, outros irão aproveitar-se de mim. Serei incapaz de fazer valer os meus direitos e nunca terei a capacidade de reagir num momento de agressão à minha integridade. Porque o anjo vê tudo como perfeito. Só com a voz do anjo não saberei como defender-me em tempos difíceis nem como proteger os que me são queridos quando forem atacados.

Se apenas ouvir o demónio, irei aproveitar-me continuamente dos outros. Criarei conflitos onde quer que esteja. Não serei capaz de desfrutar da amizade porque desconfiarei sempre dos outros. irei ver um ataque pessoal em tudo o que os outros possam fazer.

Muitas pessoas apregoam o equilíbrio (querendo dizer “ouçam só o anjo”). Só vêem beleza e tudo é perfeito. E o demónio, esfomeado, entra em acção, criando situações dolorosas à sua volta! Quando olho para uma balança, daquelas de dois pratos, em equilíbrio, reparo num pormenor: nada acontece! Uma balança em equilíbrio encontra-se estagnada. Não há crescimento, não há estimulo nem emoção.

Eu posso ouvir o demónio em mim quando tenho um problema pela frente. Ele é ardiloso, perspicaz e capaz de soluções rápidas quando há conflito. Ele poderá ajudar-me se for atacado ou se alguém atacar os que me são queridos. Se houver uma guerra é o demónio quem melhor me pode ajudar a procurar abrigo e a defender-me. Se alguém tentar aproveitar-se de mim, o demónio saberá identificar o abuso e reagirá de acordo com a situação. Se eu for ignorado numa situação de urgência, o demónio saberá criar as situações para que possa ser ouvido.

Mas se, depois de um dia de trabalho cansativo, eu chegar a casa de um amigo que está doente e magoado por não o ter visitado há mais tempo, poderei ouvir o meu anjo e saberei como reconfortar esse amigo. Se o meu amigo me acusar de o ter esquecido, o meu anjo saberá como apaziguar o seu demónio.

Se o demónio do meu patrão estiver activo e ele me acusar injustamente, o meu anjo saberá ouvir as suas queixas e acalmar a sua fúria.

Anjo ou demónio? Ambos são importantes. E ambos me podem ser úteis. A qual irei prestar atenção? A ambos. Como saber qual a voz que devo seguir? A que me fizer sentir bem comigo.

É bom ser bom. É bom partilhar a nossa vida e os nossos conhecimentos. É bom desfrutar da paz e harmonia. É bom viver com alegria e abundância. Mas por vezes temos que ser capazes de nos defender. Temos que ser capazes de impor a nossa integridade e impedir sermos violados por outros.

Se ignorar o demónio em mim, ele irá crescer esfomeado e a sua fúria não terá limites. O dia em que me apanhar distraído irá causar danos irreparáveis. Uma infidelidade, um roubo, uma calúnia, uma agressão, uma violação. O demónio, ardiloso e esfomeado, irá atrair outro demónio. E alguém me irá magoar ou eu mesmo irei magoar-me e magoar outros.

Se, por outro lado, ignorar o meu anjo, serei incapaz de amar e perdoar. Não conhecerei o afecto dos outros, porque todos terão medo de mim.

Bem-vindos, anjo e demónio! Bem-hajam por existir.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Queixinhas, queixinhas, queixinhas!

Queixarmo-nos é uma atitude bizarra. É como se acreditássemos que ao queixarmo-nos, algo de mágico irá acontecer. Como se alguém ou algo nos vai ouvir com atenção e tornar a nossa vida melhor.

Eu queixo-me disto e queixo-me daquilo, queixo-me de um colega e de um amigo e de um funcionário, e depois de tantas queixas algo de bom vai acontecer. Alguém vai tomar conta das minhas queixas e eliminar cada uma das coisas “erradas” na minha vida.

É como se Deus estivesse a ouvir-me e decidisse: “Acho que esta criatura já sofreu o suficiente. É melhor começar a mudar o mundo em que ele vive!”

Não vai acontecer nunca.

De cada vez que me queixo tenho que escrever as minhas queixas. Questionar a veracidade de cada queixa. Tornar-me consciente daquilo que me queixo. Observar o número de vezes que ao longo do dia estou a enviar um sinal negativo à vida. E as vezes que a vida me responde com mais coisas para me queixar.

Mas em vez disso, limito-me a queixar-me, e a queixar-me mais um pouco, e ainda mais. E de cada vez que me queixo magoo-me, e magoo-me mais, e ainda mais um pouco. É como se estivesse a validar o meu sofrimento e a afirmar a quem quiser ouvir o quanto eu sofro e sou um coitadinho. Olhem o que os outros me fazem! Mudem o mundo, por favor!

É como se estivesse a rezar desde que acordo até voltar a adormecer. Uma oração com algumas birras pelo meio. E nem sequer estou a falar das queixinhas na minha mente!

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

E ninguém me está a ouvir, se eu não me estiver a ouvir. E continuo a acreditar que me irei sentir bem por me queixar! Não acontecerá nunca!

Quem é que na tua vida se queixava assim? Quando eras criança. Talvez tivesses visto a tua mãe a queixar-se, ou um irmão mais velho. E talvez esse familiar, através das suas queixinhas, conseguisse aquilo que queria. E foi aí que decidiste: “Aqui está uma maneira fácil de conseguir aquilo que quero! Acho que vou viver assim a minha vida! Se me queixar o suficiente, posso conseguir tudo aquilo que quero!”

Esta atitude mostra apenas uma total irresponsabilidade. É responsabilizar outros pela minha vida. É dar o poder da minha vida a outros. E aguardamos pelo mundo inteiro para que tome conta de nós. Só que o resto do mundo tem mais que fazer. Ouve-nos a queixar-nos, e queixar-nos um pouco mais... E nem sequer nos está a ouvir! Ninguém quer ouvir as pessoas queixinhas.

O que é que você pensa quando alguém se queixa da sua vida pessoal a si? Provavelmente qualquer coisa como: “Mas por que raio não faz ele qualquer coisa em vez de se queixar?!”

Peço-te que comeces a ouvir-te a ti mesmo. De cada vez que te queixas. Observa as tuas necessidades escondidas em cada queixa. O que queres dos outros? O que precisas dos outros? Pede! Mas não faças o teu pedido através de uma queixa. Fá-lo através de um pedido honesto. Pode ser que os outros te digam “não”. E esta resposta está certa. Ou pode ser que os outros te respondam “sim”, e esta resposta também está certa.

De cada vez que nos queixamos estamos a afirmar que a Vida, Deus, o Universo, são imperfeitos, inadequados. E tudo o que temos a fazer é apontar o dedo. E é assim que iremos viver: apontando o dedo, queixando-nos, fazendo birras, magoando-nos a nós mesmos.

Exercício de Apoio:

Este trabalho é efectuado em profundidade pela Byron Katie. Pega em cada queixa e faz 4 perguntas:

1. Isto é verdade?

2. Tenho a certeza absoluta que isto é verdade?

3. Como é que reajo, como trato os outros, como me sinto, quando acredito neste pensamento?

4. Quem seria eu sem este pensamento?

Para fazer um bom trabalho, dá a volta à queixa. Inverte aquilo que dizes, e depois encontra exemplos genuínos para a inversão. Pegando no exemplo acima:

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

“Estou farto de mim! O meu patrão não me suporta! Eu não valorizo o meu amigo! Os meus pensamentos desgraçam-me! Não me esforço e até controlo o meu gato (através daquilo que penso)!” E depois vou estudar-me. Ver até que ponto a nova afirmação é tão ou mais verdadeira que a inicial.

Bom trabalho!

Emídio Carvalho

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Obrigações e Projecções

Ao longo dos últimos anos tenho constatado que há apenas duas barreiras a impedir-nos de experienciar a vida na sua totalidade: as projecções e as obrigações.

As projecções nada mais são que os nossos aspectos deserdados e que atiramos para cima dos outros. Não acredito nas pessoas que dizem não julgar os outros. Julgar é uma das características de define o ser humano. A pessoa que afirma não julgar os outros mente, e é muito provável que esteja a projectar a mentira para cima de outros.

Quando afirmo que gosto do dia, ou gosto do casaco de um amigo, ou aprecio uma canção. Estou a julgar. Muitas pessoas confundem julgar com criticar. Não são nunca a mesma coisa! Julgar é emitir um juízo de valor. E isso fazêmo-lo continuamente.

A projecção acontece quando tenho uma reacção inapropriada ao que está a acontecer. Quando alguém faz algo, ou diz algo, que “mexe” comigo: estou a projectar. E quando me apanho a projectar só consigo libertar a outra pessoa e permitir que seja quem é de verdade quando me autorizo a ouvir as respostas a três perguntas básicas:

1. De que forma eu sou igual?

2. Quando é que já tive este comportamento?

3. Se me permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para mim?

Deixo-lhe um exemplo que uma querida amiga, a frequentar o curso de educação emocional, trabalhou comigo ainda ontem. O filho da Manuela por vezes tira-lhe dinheiro. E este comportamento “mexia” com ela. Projecção. A resposta à primeira pergunta só pode ser encontrada se eu souber observar com exactidão o comportamento da criança: tirar o que não me pertence. De que maneira a Manuela “tira” aquilo que não lhe pertence? Descobrimos que o fazia quando pagava dívidas que eram de um irmão. Está de facto a tirar a dívida do irmão, que não lhe pertence. E sente-se mal com a situação. Em que situações teve já o comportamento do filho? Quando rouba tempo a si mesma. Quando não se permite uma relação íntegra com os familiares, tentando em vez disso uma “paz podre”. Uma nova pergunta surgiu depois desta resposta: o que é que o filho está a tentar mostrar-lhe? O que é que ela tem que mudar nela? Está a mostrar-lhe que de cada vez que não se respeita, de cada vez que se rouba a si mesma, está a violar-se. De cada vez que não cobra pelos seus serviços está a impedir o fluir natural da gratidão. E se ela se permitisse expressar este aspecto de uma forma saudável, o que estaria disponível para ela? Fácil. Deixaria de pagar as dívidas dos outros, teria mais tempo e dinheiro para si, sentir-se-ia bem a cobrar pelos seus serviços.

Ainda bem que a Manuela tem um filho que lhe pode ensinar tanto com tão pouco!

Conheço uma pessoa (virtualmente apenas) no FaceBook que é terapeuta especializado em tratar dependências. Continuamente fala sobre toxicodependentes e todos os tipos de dependências. Aposta fortemente na vitimização. Porque quando sentimos que outros nos devem compensar estamos em realidade a afirmar que somos coitadinhos e os outros detêm poder sobre as nossas vidas. Mas o que esta pessoa ainda não conseguiu ver é que ela mesma está completamente dependente das pessoas com toxicodependências! Vê comportamentos aditivos em todo o lado, continuamente. Isto é um comportamento aditivo.

Aquilo a que tem que prestar atenção, seja em relação a um filho, pai, amigo ou colega de trabalho, é que se reage ao seu comportamento estará a projectar um aspecto de si que não consegue ver.

Lembre-se que a principal função de um amigo é validar a nossa história de coitadinho. A principal função de um inimigo é mostrar quem somos de verdade. Por isso não gostamos dos nossos inimigos! É demasiado doloroso e desconfortável assumir os nossos aspectos menos elegantes.

As obrigações.

Aqui estamos em território puro do sofrimento. Observamos algo e decidimos que deveria ser diferente daquilo que é. E assim conseguimos lutar contra a realidade. Como em qualquer luta, só pode haver um vencedor: a realidade.

Alguém grita comigo e eu decido que não deveria gritar. Alguém rouba e eu decido que não deveria roubar. Alguém é alcoólico e eu decido que não deveria ser. Alguém chega atrasado e eu decido que não deveria chegar atrasado. Continuamente a lutar contra aquilo que é.

O exercício que lhe proponha é deliciosamente libertador. Escreva numa folha todas as obrigações que lhe ocorrem em relação ás pessoas com quem partilha momentos da sua vida. Por exemplo:

- O Pedro deveria ser mais pontual;

- A Maria não deveria ser preguiçosa;

- O Carlos deveria ser mais atencioso;

- A Joana deveria estudar mais;

- O Manuel não deveria insultar outros condutores;

- O Emídio não deveria dizer certas coisas que estão obviamente erradas.

Em primeiro lugar reflicta um pouco nisto: quem precisa de Deus quando já temos a tua opinião?

Depois observe as mil e uma maneiras em que julga os outros e tenta que sejam pessoas diferentes de quem são. Irá haver sempre pessoas que se atrasam, pessoas preguiçosas, pessoas que falam mal, pessoas que dizem disparates, pessoas que insultam, pessoas desprovidas de sentimentos... E até agora ainda só falei de mim!

Mas o trabalho delicioso, aquele que nos liberta, é descobrir a verdade por detrás de cada julgamento. Eu tenho um amigo que chega sempre atrasado a qualquer encontro meia hora. Posso contar sempre com essa meia hora de atraso! Ele é extremamente pontual nos seus atrasos! Então será que ele se atrasa de verdade? Quando ele me diz que se encontra comigo ás 16 horas e aparece ás 16.30? Eu sei que ele irá atrasar-se meia hora! Ele é super pontual nos seus atrasos! Tenho outro amigo que insulta outros condutores. E é muito bom nisso. Eu sei, quando estou no carro com ele, que irá insultar outros condutores. Garantido. Se eu não quero ouvir os insultos porque motivo entro no seu carro?

E de que maneira é que eu me atraso? De que maneira insulto outros? De que maneira não estudo o suficiente? De que maneira sou quem não deveria ser?

Nem sempre é fácil descobrir as respostas. Chama-se auto-sabotagem! Mas se eu começar a aceitar que as pessoas à minha volta me são úteis porque me mostram tudo o que está em mim, começo a sentir-me mais livre, mais autêntico e a prestar mais atenção aos outros e, ainda melhor, a mudar a única pessoa que sou capaz de mudar: eu.

Desejo-lhe uma excelente aventura de descoberta!