quinta-feira, 22 de abril de 2010

Coitadinho de mim...

Todos nós, sem excepção, aprendemos na infância a ser coitadinhos. Os adultos à nossa volta mostraram-nos, de maneiras mais ou menos subtis, que não somos merecedores de amor, ou não somos importantes, ou não prestamos, ou não somos capazes, ou somos estúpidos. Como isto foi incutido à criança ainda antes desta ter desenvolvido filtros que lhe permitissem discernir o que lhe era dito ou feito, cresceu a acreditar num destes temas.

Qual é o tema da sua história de coitadinho? Se os seus relacionamentos costumam ser um fracasso, aprendeu que não é merecedor de ser amado. Se tem problemas no trabalho, aprendeu que não presta ou não é capaz. Se não é capaz de ser ouvido pelos outros, aprendeu que não é importante. E se não é capaz de se respeitar, permitindo que outros abusem de si de muitas maneiras, aprendeu que não é especial.

É isto o que se esconde na nossa sombra. Uma história de coitadinho.

Não quero aqui culpabilizar os nossos pais: eles fizeram o melhor que sabiam. Eles aprenderam a amar com os pais deles, que por sua vez aprenderam com os seus pais.

Como é que eu sei que estou dentro da minha história que afirma ser eu um coitadinho? Prestando atenção ás minhas emoções. Sentimentos de ansiedade, tristeza, revolta, ira, mágoa, desalento, insatisfação, cansaço, desprezo, angústia, preocupação, são indicadores precisos que me informam estar a viver dentro de uma história que afirma peremptoriamente: “coitadinho de mim! Se ao menos...”

É importante não esquecer que é ok ter estes sentimentos. É perfeitamente normal, e saudável, sentir tristeza quando uma relação chega ao fim ou um ente querido parte. É perfeitamente normal sentir revolta quando assistimos a actos de injustiça. O problema é quando nos mantemos presos a esses sentimentos. Quando meses depois de uma separação ainda sentimos mágoa, ou revolta, ou ansiedade. Quando um ano depois de um colega de trabalho nos ter criticado ainda recordamos as palavras. Isto é viver dentro de uma história de coitadinho.

Esta história é sempre limitadora. Impede-nos de abraçar a totalidade que somos. Leva-nos a julgar os outros e a definir o que é certo e errado, de acordo com os nossos padrões.

Um dos aspectos mais importantes desta história de coitadinho é a auto-sabotagem que praticamos diariamente. Quando sabemos que podíamos ser mais e fazer mais, mas em vez disso dedicamo-nos a desculpar-nos e justificar-nos. Ou quando nos dedicamos ás queixinhas. A pessoa queixinhas vive dentro de uma história muito limitadora que afirma que não tem poder para mudar, não é capaz de auto-controle e, sobretudo, sabe que o mundo é um lugar mau cheio de pessoas más.

Quando nos dedicamos a apontar o dedo, a desvalorizar outros, a reagir de maneira inapropriada. Estamos dentro da nossa história. Quando nos comparamos aos demais. Quando nos preocupamos com coisas que podem ou não acontecer.

Gostaria de lhe pedir que se permitisse reflectir nisto:

No mundo há pessoas boas e pessoas más. No mundo há abundância e também pobreza. No mundo há justiça e injustiça. O mundo é um lugar dualista: nada existe sem o seu oposto. Noite precisa do dia da mesma forma que o quente precisa do frio. Alto e baixo, frente e verso, bom e mau. E saiba ainda isto: as pessoas mais “certinhas” são as que escondem maior escuridão. As pessoas mais moralistas são as que escondem mais falsidade. As pessoas que criticam continuamente os outros vivem num desassossego permanente. Sabe porque motivo algumas pessoas gostam de ver os noticiários na televisão? Dizem que é para se manterem informados. Mentira. Vêem os noticiários para se comparar e apaziguar um sentimento de culpa que os invade. O facto de eu desperdiçar tempo a visitar sites pornográficos na net é irrelevante comparado com o sujeito que foi preso ontem por ter violado uma mulher. O facto de eu dedicar tempo a falar mal de um colega não é nada comparado com o político que insulta outro em plena Assembleia da República. O eu tirar canetas ou papel do escritório não representa nada em relação ao desgraçado que foi apanhado a roubar um banco. As minhas vergonhas não são nada comparadas com aquilo que vejo nos noticiários!

Só que isto não é verdade. Existe em nós um circuito neuronal de integridade. E sempre que atentamos contra a nossa integridade, criticando e julgando outros ou tirando aquilo que não é nosso, ou roubando tempo aos outros, este circuito de integridade entra em conflito. E pagamos caro por isso. Inconscientemente iremos procurar formas de nos punir. Através de relacionamentos ocos, de perdas financeiras, doenças, etc.

Como podemos sair das nossas histórias de coitadinhos? Regras básicas:

- Respeitar-me em tudo o que faço;

- Respeitar os outros (significa não fazer juízos de valor sobre outros);

- Ter a humildade de calçar os sapatos do outro (daquele a quem apontamos o dedo);

- Parar de ver a maldade alheia e observar as maneiras em que sou mau para comigo;

- Sorrir, independentemente do que sucede à minha volta.

A nossa incongruência reside no facto de apesar de estarmos a viver numa história de coitadinho, comportamo-nos como se fossemos o centro do universo. Convençamo-nos de uma vez por todas que o mundo continuará a movimentar-se mesmo depois de morrermos. O mundo não pára só porque nós estamos tristes ou ansiosos ou doentes. Nada é assim tão importante. Literalmente. Mas comportamo-nos como se a nossa vida dependesse de termos razão o tempo inteiro, quando em realidade raras vezes a temos.

Temos ainda que assumir que a única pessoa que podemos controlar e mudar somos nós mesmos. Nunca mudaremos quem quer que seja com uma critica. Nunca mudaremos quem quer que seja só porque lhe dizemos umas “verdades” (regra geral a nossa verdade pessoal).

Se temos problemas com alguém, a melhor solução é perguntar-nos: o que esta pessoa me está a pedir? E dar o que a outra pessoa pede.

Vejo isto com muitos professores. Querem alunos bem comportados e cumpridores. Mas os próprios professores comportam-se pessimamente em relação a eles próprios. Desrespeitam-se continuamente. São incongruentes, julgam e criticam sem pensar duas vezes. Nas suas cabeças há um caos aterrador de pensamentos carregados de ira, revolta, mágoa, desprezo. E depois querem ter razão. Acredito que os professores com alunos “problemáticos” nada mais fazem do que projectar o seu “problematismo” sobre os alunos. E enquanto não aceitarem que os alunos apenas lhes mostram o que andam a fazer a eles mesmos, nunca terão alunos como desejam.

É anedótico ver um professor a exigir respeito a um aluno. Fá-lo com prepotência e uma autoridade que não é reconhecida. Eu jamais conseguirei que outros me respeitem enquanto eu não me respeitar a mim mesmo primeiro. Se quero uma sala de aula atenta tenho que primeiro procurar o silêncio e calma dentro de mim. Pedia aos professores que da próxima vez que estiverem frente a uma turma barulhenta se observem a eles mesmos. Observem o ruído mental nas suas cabeças.

Este é um dos motivos porque temos cada vez mais crianças e adolescentes rebeldes, maus, irados. Eles estão a mostrar-nos a revolta que vai dentro de nós, a ira que sentimos pelas injustiças cometidas contra nós por governantes prepotentes. E nada fazemos em relação a esta situação, excepto criticar. E os adolescentes mostram-nos a nossa raiva. Claro que isto é apenas a minha opinião, sem qualquer valor para além do que decidir atribuir-lhe.

Seria arrogância da minha parte acreditar que sou capaz de mudar quem quer que seja. Nunca irá acontecer. Mas posso mudar-me a mim. O que estará a pedir um aluno irrequieto ou mal-educado? “Aceita-me como sou!”. Aceita-me por ser uma criança que se sente abandonada, julgada, criticada. Uma criança cujos pais não sabem dar amor. Uma criança cuja escola serve para simplesmente julgar no final de cada período. Os maus alunos estão a pedir aceitação, amor incondicional.

Se se permitir parar de apontar o dedo e calçar os sapatos de outra pessoa irá descobrir que a pandemia que assola a humanidade é o auto-ódio, e o antídoto é o amor incondicional.

Tenho uma amiga, professora, que nunca teve problemas com os seus alunos. Sempre que lhe aparece um aluno “mau” ela escreve-lhe uma pequena carta. Basicamente diz-lhe que gosta dele, independentemente de ele ser bom ou mau, estudioso ou preguiçoso. Diz-lhe ainda que se ele alguma vez quiser conversar em privado ela está disponível. Ela sabe que o “mau” aluno apenas quer ser aceite, com todos os seus defeitos, vergonhas, culpas e medos.

Alguma vez pensou porque motivo qualquer pessoa se rende ao sorriso de um bebé ou ao olhar de um cachorrinho? Porque nesse olhar não há qualquer juízo ou critica. O bebé e o cachorrinho, através do olhar, dizem-nos que é ok sermos quem somos.

Continuando com a nossa história de coitadinho:

Sabemos que estamos fora da nossa história quando nos sentimos alegres, de bem com o mundo, satisfeitos com o nosso trabalho, plenos, cheios de energia, com esperança num futuro melhor, animados, sem preocupações e tranquilos. Provavelmente conseguimos permanecer fora das nossas histórias de coitadinhos durante alguns minutos por dia.

O que pode fazer para sair da sua história:

Comece por observar os seus comportamentos, atitudes e pensamentos. Dentro das nossas histórias lutamos contra a realidade. Observamos algo e decidimos que não deveria ser assim. E lutamos contra aquilo que é. Um exemplo simples: vemos na rua alguém a deitar lixo para o chão e decidimos que é errado. Errado para quem? Definitivamente que não é errado para a pessoa que deita o lixo para o chão. Em vez de criticarmos esta atitude, aceitamos aquilo que é e fazemos o que podemos. Podemos falar com a pessoa, ou, mais simples ainda, pegar nesse lixo e deitar num recipiente apropriado. Sem conflito com a realidade. Isto não significa ser escravo dos outros nem andar a fazer o trabalho dos outros. Este tipo de pensamento rouba-nos muita energia.

Quando vejo alguém a deitar lixo ao chão fico grato pelo que vejo. Penso sempre “obrigado por me mostrares que ainda ando a atirar com lixo para cima de outros”. Depois observo-me, tento descobrir que lixo ainda carrego comigo. Talvez um pensamento que me diz que não sou capaz. Ou uma critica feroz contra um amigo. O pior lixo não é o que vemos nas ruas, é o lixo nas nossas mentes. Aqueles pensamentos que afirmam milhares de vezes ao dia que o mundo é um lugar perigoso, que as pessoas são más, que eu não mereço ser amado, que o meu corpo está mal. Isto é o verdadeiro lixo que polui a vida de cada um de nós. E enquanto não reciclarmos o lixo das nossas mentes será impossível eliminar o lixo que se acumula sobre este nosso glorioso planeta.

Dentro das nossas histórias de coitadinho temos sempre razão, estamos certos e os outros são os maus da fita. Fora das nossas histórias sabemos que tudo é como deveria ser (pelo simples facto de ser assim). Fora das nossas histórias não precisamos que os outros mudem: mudamos nós. Fora das nossas histórias não levamos o comportamento dos outros a peito. Sabemos que cada um está a fazer o melhor que é capaz. E esse melhor pode não ser o melhor que nós queremos, mas nós não somos os directores gerais do universo nem os proprietários do planeta.

Em vez de criticar as pessoas que abandonam animais, porque não começar a criar um grupo de pessoas que possam acolher esses animais? Em vez de criticar o colega preguiçoso porque não começar a ver de que forma poderíamos ser nós no seu lugar, se tivéssemos a vida que ele tem? Em vez de esperar que os alunos me respeitem, porque não começar a respeitar-me a mim mesmo?

Tive uma professora, que ainda hoje admiro, que parecia estar sempre bem. Mesmo quando o marido faleceu de cancro ou o filho foi atropelado e ficou em coma. Dizia-nos que tudo o que nos acontece são lições para aprendermos a ser o melhor que podemos ser. E dizia ainda outra coisa: num grupo, a pessoa que fala mais alto raramente tem razão.

É uma opção que cada um pode fazer, constantemente. Prefere ver as nuvens no céu ou o lixo num passeio? Prefere sentir compaixão pela pessoa que sofre e com o seu sofrimento trata mal os outros, ou escolhe antes criticar essa pessoa?

A realidade é que cada ser humano está a viver dentro de uma história limitadora. E eu não tenho o direito de julgar as histórias dos outros. Mas posso olhar para a minha história e começar a criar uma nova história. Uma história em que sou o melhor que sou capaz de ser. Uma história onde me amo e aceito cada desafio da vida como uma lição. Uma história em que paro a revolta em mim e amo incondicionalmente. Eu não tenho nem mais nem menos direitos que os outros. E, sobretudo, não tenho o direito de impingir a minha “verdade” sobre quem quer que seja.

E esta é a minha verdade apenas. Ninguém tem que a aceitar. Ninguém tem que concordar com o que digo. Ninguém tem que refutar nada do que digo. Apenas eu tenho o poder para o fazer. E no fim do dia apenas tenho que me sentir bem comigo por saber que fiz o meu melhor. Chegar ao fim do dia e acariciar-me como se acaricia uma criança de dois anos, com muito carinho e amor, sem julgar. Porque eu mereço!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A voz do Medo e da Fé

Em qualquer situação em que nos encontremos iremos sempre ter a opção de ouvir a voz do nosso medo ou da nossa fé.

O medo é aquela voz já bem conhecida que compara, julga e critica. Acredita que somos coitadinhos numa história em que nascemos para ser menos do que aquilo que somos. Esta voz agarra-se a qualquer evento, compara-o com situações do passado em que sofremos, e diz-nos que voltaremos a sofrer.

A voz da nossa fé é exactamente o oposto. Sabe que pode confiar na vida e que cada experiência é única e merecedora de existir. Não pede para que os outros mudem nem para que sejam diferentes. Aceita tudo o que está a acontecer.

A voz do medo surge nos primeiros anos de vida, quando os adultos à nossa volta nos dizem que não podemos fazer ou ser algo. Quando, por palavras ou acções, nos é dito que não somos capazes, não merecemos, não importamos ou não sabemos. Quando nos dizem que somos maus ou feios. Quando nos mostram que não somos especiais.

E esta voz do medo irá infiltrar-se na nossa sombra e repetir-se nas nossas mentes a cada minuto da nossa vida. O diálogo desta voz é qualquer coisa como:

“Quem pensas tu que és? O que irão dizer de ti? Nunca conseguirás atingir esse objectivo! A idade não perdoa! Só fazes asneiras. Lá estás tu outra vez a deixar-te levar pelos outros! Tem cuidado, pode ser perigoso! Não confies nos outros, podem magoar-te. Já foste magoado antes, queres voltar a sê-lo? Por mais que te esforces, nunca és capaz de fazer as coisas bem feitas! Meu Deus, estás tão feia! Ninguém gosta de ti. Se ao menos tivesses dinheiro... Se ao menos o teu companheiro te compreendesse... Era bom poder ir de férias para um lugar bonito, mas não tens dinheiro nem amigos... Lá estás tu a cair novamente na mesma ratoeira! Essa dor é capaz de ser um cancro! Meu Deus, e se eu estiver com um problema de saúde grave?! Estás cada vez mais gorda e feia, como é que alguém pode gostar de ti?!”

A voz da fé é diferente. É a voz que nos chega da nossa alma. Enche-nos de esperança e entusiasmo. Acredita em nós. Esta voz ouvimo-la menos vezes. O diálogo desta voz é qualquer coisa como:

“Tu és capaz! Arrisca, esta situação pode ser-te útil! Não desanimes! No passado magoaram-te mas isso não significa que te voltem a magoar. Tens já tanto na tua vida! Há tantas pessoas no mundo, irás certamente encontrar a pessoa ideal para uma relação íntima! Tu és corajoso e capaz! Vai em frente, não tens nada a perder! Os anos passam e a sabedoria aumenta! Tu sabes o que é melhor para ti!”

A voz do medo deixa-nos com um aperto no peito, mal-estar, doentes. A voz da fé deixa-nos tranquilos, calmos, em paz com tudo e todos.

Para ser capaz de ouvir e identificar estas duas vozes faça o seguinte exercício:

Comece por respirar calma e profundamente durante dois ou três minutos. E depois pense numa situação do seu passado que lhe foi dolorosa ou difícil. E ouça. O que lhe diz a vozinha dentro de si?... Como é que o deixa? O que sente? Esta é a voz do medo.

Pense depois numa situação do passado em que se sentiu cheio de entusiasmo, excitado, feliz e de bem com a vida. E ouça. Que frases ouve? Como é que se sente? O que diz esta nova voz? Esta é a voz da fé.

E a partir de agora, sempre que tiver que tomar uma decisão, vá dentro de si durante uns breves minutos. Ouça a voz da sua fé. Permita-se respeitar o que de mais sagrado há em si. E pergunte-se: se eu me permitisse respeitar-me, o que faria agora?

Boas escutas!

sábado, 3 de abril de 2010

Nada é assim tão importante...

Como adultos um dos motivos principais porque sofremos prende-se directamente com a importância que damos a um qualquer evento. Não é o evento em si que nos provoca dor, é a importância que lhe atribuímos.

Em primeiro lugar tenho que definir o que é para mim importante. Realmente importante. Aquilo que é tão importante que sou capaz de dar a minha vida em troca. E não encontro nada. Tudo é passageiro na vida, incluindo a minha vida. Tudo na minha vida terá sempre um principio e um fim. O fim é igual para todos: a morte física.

Se olhar para trás, para o passado, irá descobrir que todos os eventos importantes que provocaram sofrimento se encontram agora resolvidos. Sem excepções. Podem não ter ficado resolvidos como tu desejarias. Mas tu não és o centro do universo para decidir pelas vidas dos demais. E também não és mais inteligente que a própria Vida para saber qual teria sido o melhor resultado final. Mas posso garantir-te que o resultado final foi o mais apropriado. Porque sei isto? Porque foi o resultado que obtiveste. Não há argumentação alguma.

Em vez de olhar para uma situação do passado dolorosa e desejar que tivesse ocorrido de maneira diferente, que tal optar por querer aprender a lição encerrada nesse evento? O que poderias ter aprendido? Talvez a respeitar-te mais? A dizer a tua verdade? A amar incondicionalmente? A permitir que outros fossem quem foram? Se nos eventos dolorosos do passado houvesse um presente, uma lição para ti, qual seria? Quem és hoje graças a cada um desses eventos?

Talvez alguém mais forte, mais corajoso, mais atento ás suas necessidades, ou mais útil a outros que sofrem?

Tudo na vida tem apenas a importância que eu lhe atribuir. Eu prefiro atribuir importância a momentos onde vibro com a vida, onde sinto a presença do amor. O amor reflecte-se num raio de sol, numa gota de chuva, numa aragem, num pássaro que passo por cima da minha cabeça, no sorriso de uma criança, nas rugas de um idoso, num autocarro que me leva a qualquer lugar, no café que posso tomar com um amigo, no computador onde posso expressar os meus pensamentos.

Quando uma relação íntima termina. Posso olhar para trás e sentir-me grato por ter partilhado a minha vida durante algum tempo com alguém (já pensou quantas pessoas nunca tiveram a experiência de partilhar um momento especial?), ou posso guardar um ressentimento perigoso por a outra pessoa não ter sido quem eu queria que fosse.

Acredito que Deus, ou a Vida, nunca nos dá nada a menos que seja uma lição para a nossa evolução, algo para nos fazer crescer. Só a uma alma muito forte é concedida a aprendizagem presente na Noite Escura da Alma. Podemos aprender e seguir em frente. Ou podemos atribuir a cada evento tanta importância que nos perdemos nos nossos próprios pensamentos e esquecemo-nos de viver.

Todos os dias milhões de seres humanos nascem. Todos os dias milhões de seres humanos morrem. Enquanto estamos aqui podemos sentir-nos gratos por cada experiência humana, ou podemos queixar-nos que a Vida é injusta. (Injusta para quem? Se tem comida para comer, água para beber, roupa para se agasalhar e um lugar onde dormir pode ter a certeza que possui já muitas mais bênçãos do que uma grande, grande parte da humanidade).

Quer que o dia de amanhã seja melhor? Então repita este mantra: “Tudo só tem a importância que eu lhe atribuir – e nada é assim tão importante quanto eu acredito.” Depois sorria, um dia também vai morrer. Morra feliz por ter tido a experiência humana. Vale a pena!

quarta-feira, 31 de março de 2010

Eu irei sempre fazer aos outros aquilo que me fizeram a mim.

A menos que se torne consciente das suas feridas emocionais da infância, irá sempre fazer aos outros o que os seus pais lhe fizeram a si. Poderá não utilizar as mesmas “armas”. Talvez tenha sido abusado fisicamente, e como adulto opte pela agressão verbal. Ou pior ainda: a agressão passiva, em que se fecha num silêncio mortal à espera que os outros adivinhem o que lhe fizeram ou não.

Recorde a sua infância e a forma como foi educado pelos seus pais. E veja como está a educar os seus filhos. Se os seus pais não lhe deram o amor que precisava, que amor está a dar aos seus filhos? Quando foi a última vez que disse a um filho: “amo-te por seres quem és”?

Talvez trate os seus filhos com muito amor. E talvez cause danos aos seus colegas, cônjuge ou patrão. Como trata as pessoas à sua volta? Como foi tratado em criança?

Por vezes basta uma palavra do progenitor para que você passe o resto da vida a causar danos aos outros. Se na sua infância alguma vez o pai ou a mãe lhe apontaram o dedo e disseram que era burro, a quantas pessoas é que já apontou o dedo e decidiu que eram burras?

Se sentiu rejeição ou abandono enquanto criança, quantas pessoas já abandonou? Quantas pessoas rejeitou? Que peso e medida utilizou para julgar alguém e decidir que merecia ser rejeitado? O seu peso e a sua medida, sem dúvida. Mesmo sabendo que você é completo na sua imperfeição, santo e pecador, decidiu que outros estavam abaixo de si.

Quando conseguir ver que a sua vergonha, culpa, medo, ressentimento, raiva e sentimentos de imperfeição estão presentes em todos à sua volta, como é que pode magoar outros? Antes de causar danos a alguém, espere três dias. Antes de abusar verbalmente, antes de apontar o dedo, antes de se queixar, antes de dizer da sua razão, aguarde três dias.

domingo, 28 de março de 2010

A auto-sabotagem

Hoje iremos ver as formas como criamos auto-sabotagem nas nossas vidas, impedindo-nos de avançar em direcção ao nosso propósito.

São vários os motivos porque nos dedicamos, consciente ou inconscientemente, à auto-sabotagem: sentimento de não merecer, culpar outros, medo de brilhar, ressentimentos antigos. Em realidade de cada vez que fazemos auto-sabotagem estamos a violar-nos. E tudo isto porque há aspectos de nós que preferíamos não existissem, e há aspectos que temos medo de mostrar ao mundo com receio das críticas alheias.

Vamos então começar a fazer as pazes connosco, com os aspectos que gostamos e apreciamos e também com todos aqueles aspectos que andamos a rejeitar, a negar e a fingir que não existem.

Para mim, um dos maiores milagres da natureza que adoro observar, regra geral na televisão, é a transformação de uma larva em borboleta. É apaixonante ver a larva fechada no seu casulo, como que a tirar um tempo de isolamento para melhor se preparar para ser admirada pela sua beleza. É como se a larva soubesse de antemão que um dia irá tornar-se bela, majestosa, mas tem que antes preparar-se para não ser atraiçoada pelo seu próprio brilho. Mas o que acontece dentro do casulo é simplesmente inacreditável! O sistema imunitário da larva destrói o próprio corpo para poder dali sair uma borboleta! Antes de ser borboleta o ser vivo tem que passar por uma transformação que é muito provável lhe cause imensa dor. Mas mesmo sabendo que irá passar pela dor de sentir o seu corpo desfazer-se, a futura borboleta sabe que é para o seu bem.

Nós temos que passar por um processo idêntico, em que em vez do corpo precisar de produzir anticorpos que o destruam, cria a necessidade de neuropeptídeos específicos para sair do casulo da mediocridade e brilhar! Nós precisamos dos químicos que o nosso corpo produz quando nos perdoamos a nós mesmos. Só depois é que podemos brilhar!

A forma como cada um de nós faz o seu processo do auto-perdão pode variar. O meu conselho é simples: se a pessoa que sentes teres magoado é viva e a consegues contactar, contacta-a. Pede desculpa. Pergunta-lhe o que podes fazer para dissolver qualquer mágoa que a pessoa sinta em relação às tuas acções. Se a pessoa já partiu, ou se não a consegues contactar, pergunta à tua alma de que maneira podes conseguir esse perdão. Se o acto que cometeste foi roubar, tens mesmo que devolver exactamente aquilo que tiraste! Se foi uma mentira, tens mesmo que repor a verdade! Se te deixaste enganar, tens mesmo que ir ter com a pessoa e dizer da tua justiça! O que é pedido nesta lição é que reponhas a verdade, restabeleças a tua integridade. Só assim podes começar a prestar atenção, e evitar, os comportamentos auto-sabotadores.

O problema maior com a integridade é que esta está pré-estabelecida nos nossos circuitos neuronais, faz parte de quem somos. E de cada vez que a violamos estamos a violar-nos a nós. Tens que começar a agradar à única pessoa que consegues verdadeiramente agradar: tu mesmo! Mas isto só é possível quando nos perdoamos por tudo o que fizemos no passado. Enquanto não o fizermos iremos andar sempre com uma falta de energia que não somos capazes de explicar. É a energia da nossa integridade.

Se possível ainda hoje, faz uma lista das pessoas a quem tens que pedir desculpa. Mas faz mesmo! Não deixes para amanhã, ou para quando estiveres a enfrentar a morte nos olhos! Se soubesses que só tinhas uma hora de vida, a quem é que pedirias desculpa? Com quem ainda tens situações por resolver? Onde é que a tua alma está a pedir integridade?

Este é um assunto demasiado importante para deixar para amanhã. Não peças desculpa a partir do coitadinho da tua história, da vítima. Pede desculpa no esplendor de quem és. Assume a tua humanidade total. Com a cabeça erguida, com a voz segura, olhando a outra pessoa nos olhos, diz que precisas do seu perdão para prosseguir. Diz que erraste e queres resolver a situação por ti criada de uma vez por todas.

Também importante é ver as muitas maneiras que utilizamos para violarmos a nossa integridade. De cada vez que não nos respeitamos, de cada vez que ignoramos a voz da nossa intuição, estamos a violar-nos. E violamo-nos diariamente. Fingimos que estamos bem porque temos medo de pedir aquilo que precisamos. Violamo-nos quando estamos com pessoas com quem não queremos estar. Violamo-nos quando vamos todos os dias para um trabalho onde não sentimos alegria nem utilizamos a nossa criatividade. Violamo-nos quando somos pagos para fazer vinte e apenas conseguimos fazer dez.

Perdoar-nos por tudo isto é um momento em que escolhemos honrar quem somos, a totalidade que somos. Temos que nos perdoar pelo mal que fizemos a outros e também perdoarmo-nos pelo mal que fizemos a nós mesmos.

Proposta de trabalho

O trabalho que proponho para hoje é precisamente escrever todos os comportamentos, hábitos, pensamentos e emoções que utilizas para fazer auto-sabotagem. Torna-te consciente destes padrões. Irás descobrir que são praticamente idênticos aos padrões a que recorres para permanecer dentro da tua história de coitadinho. Depois escreve o que estás disposto a mudar. Deixo-te o meu exemplo:

Pensamentos, comportamentos, hábitos e emoções de auto-sabotagem

O que me permito mudar a partir de hoje

- Jogar “Zuma” no computador

- Passar a jogar uma hora por semana

- Preocupar-me com o que os outros podem pensar de mim

- Todas as pessoas julgam todas as pessoas, e eu não posso mudar isso

- Dizer coisas simpáticas para agradar aos outros

- Falar a minha verdade se me for pedido

- Queixar-me sobre o comportamento dos outros

- Nunca poderei mudar o comportamento dos outros, mais fácil aceitar cada pessoa como é.

Dica de Apoio

Quando descobrimos as muitas maneiras que utilizamos para nos violarmos e auto-sabotar é normal sentirmos uma tristeza invadir-nos. Podes transformar essa tristeza em compaixão: por teres a coragem de olhar para ti mesmo sem mentiras nem negações. E assumir que tudo faz parte do teu processo evolutivo. Nos próximos dias procura em ti o sentimento profundo de bem-estar com a vida por te permitires mudar aos poucos.

Bom trabalho!

(Este é um extracto de uma das lições contidas no curso online "A minha sombra - como dissolver o auto-sabotador)