quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As Descobertas do Verão

Nos últimos três meses vivi imerso numa experiência radical: ver-me em tudo e todos.

E não encontrei uma única excepção à regra: tudo o que pensava dos outros era de mim que estava a falar. Sempre.

Este é o poder das projecções e este é o motivo das guerras. Eu só consigo ver nos outros o que já está em mim, literalmente.

Alguns exemplos, que talvez o possam ajudar a si também.

- A minha mãe é uma queixinhas. (Em realidade ela é quem é, mas eu é que me estou sempre a queixar dela);

- O meu vizinho é teimoso. (Em realidade ele é quem é, só quando eu teimo com ele é que ele se torna teimoso. Quem é o teimoso?);

- A minha amiga L quer ter sempre razão. (E eu, ao não lhe dar razão, estou a agarrar-me à minha “razão”... Quem é que quer mesmo ter sempre razão?);

- A minha vizinha é infiel ao marido. (E eu, infiel a mim mesmo, não me respeitando quando digo “sim” e quero dizer “não”);

O meu trabalho ao longo destes três meses foi estar atento ao que pensava sobre os outros e depois inverter os pensamentos de forma a ser eu o sujeito. E conseguia encontrar sempre a verdade de cada inversão. Por vezes doía. Por vezes deixava-me angustiado. Mas no final destes três meses posso dizer que encontrei uma paz de espírito que nunca imaginei ser possível.

Outras coisas que aprendi: a defesa é o primeiro acto de guerra.

Quando alguém me acusa de algo, deve ter os seus motivos para fazer a acusação. Mas ao defender-me estou a entrar em conflito com o outro. Alguém acusou-me de ter a mania de saber as respostas a tudo. Ouvi a sua acusação. Ponderei o que me dizia e descobri que era verdade. Agradeci. O nosso problema é o querermos ter sempre razão, quando raramente a temos. O problema é que avançamos pela vida a não nos respeitarmos, a não nos amarmos, e depois esperamos que os outros nos respeitem e nos amem. Não vai acontecer nunca.

Há feridas profundas na nossa alma e em vez de as curarmos tentamos encontrar pensos rápidos que acalmem a dor. Uma relação extra-conjugal, um chocolate, um filme, uns boatos sobre alguém que mal conhecemos, a televisão, comida em excesso... Tudo formas de colmatar a dor na nossa alma e, ao mesmo tempo, querer ter razão.

Agora aprendi. Quando alguém me acusa de algo faço questão de repetir a acusação. Vou dentro de mim. Procuro a verdade. E quando a encontro agradeço ao outro o ter-me mostrado algo que ainda tinha para corrigir em mim.

Isto levou-me a outra descoberta: os insultos.

Um insulto é algo que dizem sobre nós e que nós temos medo que descubram por ser verdade. Ninguém quer ser rotulado de burro. Mas já todos fizemos burrices. Ninguém quer ser rotulado de mentiroso, mas já todos mentimos. Ninguém quer rotulado de palerma, mas já todos fizemos palermices. Se alguém me chamar estúpido não levo a peito. É verdade. Já fiz muita coisa estúpida na vida. E quando sou capaz de assumir todas as minhas imperfeições fico em paz. As palavras dos outros não me afectam.

Outra descoberta: eu vou ser para ti quem tu quiseres que eu seja. Sempre.

Cada um de nós vive dentro de uma história. Nessa história o mundo é feito de pessoas boas e más, egoístas e altruístas, simpáticas e antipáticas. E se eu procurar alguém para me confirmar que no mundo há pessoas burras, irei ver burrice em ti, independentemente do que digas ou faças. Eu escrevo estas palavras e se na tua história há pessoas que só dizem disparates, irás ver aqui um grande disparate. E terás razão. Confirmas a tua história.

Outra descoberta: a vida irá dar-me de volta o que eu projecto a partir do meu interior. Sempre. O problema é que o processo é todo ele inconsciente. Como é que sei o que ando a projectar? Observando as pessoas à minha volta. Que tipo de pessoas fazem parte da minha vida? É isso o que eu ando a projectar. Então começo a projectar conscientemente o que quero observar. Amor é um bom começo.

Outra descoberta: não há pessoas más, apenas desconhecedoras da realidade. Cada ser humano só pode fazer aos outros o que acreditar ser o melhor. Claro que aquilo que eu considero melhor para mim não é necessariamente o melhor para os outros. Esta deu-me cabo dos neurónios durante dias a fio. Mas a realidade é que se víssemos todos os outros como pedaços de quem nós somos, alguma vez teríamos a coragem de os criticar, deitar abaixo, envenenar?... Não creio.

O primeiro passo para a cura de qualquer problema é ser útil aos outros. Quando sou útil aos outros esqueço os meus problemas. E quando esqueço os meus problemas há um Poder Maior que os resolve. Claro que o meu ego irá querer ditar a forma como os meus problemas se resolvem. Isto significa não acreditar num Universo Amigo.

Ainda outra descoberta: não sou responsável pelos pensamentos que rodopiam na minha cabeça. Os pensamentos surgem, simplesmente. E um pensamento dá origem a muitos outros idênticos. É função da mente/ego confirmar cada pensamento. Então, quando eu penso que o meu colega é estúpido, a mente irá procurar todas as situações que confirmem este pensamento. A única forma de parar esta tortura é questionando os meus pensamentos, tornando-me observador de mim mesmo. Penso “O Carlos é um idiota”. Ok, será que isto é verdade? E como é que me sinto quando tenho este pensamento e estou com o Carlos? Como é que o trato, quando tenho este pensamento? E sem este pensamento, como é que me sinto? E depois, claro, dou a volta ao pensamento original: “Eu sou um idiota” (sobretudo por não me permitir ver a totalidade do Carlos e reduzi-lo a uma única qualidade!). Se quiser mergulhar a fundo nos seus pensamentos, aprenda com a Byron Katie (www.thework.com).

E agora sei que é verdade: eu não estou no mundo, o mundo está em mim. Obrigado, Krishnamurti.

terça-feira, 1 de junho de 2010

As Desculpas

Por que motivo as pessoas, depois de muito lerem e aprenderem, depois de muitos seminários e workshops, continuam a ter as mesmas experiências, as mesmas situações, os mesmos relacionamentos e problemas?

Talvez porque nunca ninguém lhes tenha dito que têm que olhar para as suas feridas, as suas mágoas, as mil e uma maneiras que arranjam para se violarem.

Para cada insucesso na nossa vida temos uma série de desculpas que nos justificam e acalmam o nosso ego. Fazem-nos esquecer momentaneamente que só nós somos responsáveis por tudo o que nos acontece.

Nos próximos dias pedia-lhe para escrever cinco objectivos que gostaria de atingir e debaixo de cada objectivo escreva pelo menos 5 desculpas que lhe mostrem porque ainda não conseguiu atingir cada um deles. Permita-se ser brutalmente honesto consigo mesmo.

Deixo-lhe um exemplo meu: durante anos vivi só e sempre que começava uma relação íntima tratava de me sabotar para que a mesma tivesse uma curta duração. O meu objectivo era partilhar a minha vida íntima com alguém especial. As desculpas porque não estava a viver numa relação amorosa:

- Se me entregar completamente irei sair ferido;

- Não tenho tempo para uma vida íntima;

- A vida a dois dá muito trabalho;

- Vou ter que desistir de algumas das coisas que gosto de fazer sozinho;

- Se estiver numa relação perderei controlo sobre parte da minha vida.

Estas eram algumas das desculpas. Depois de ver as desculpas, descubra quais as crenças por detrás das desculpas. Quais as crenças que tenho nesta área da minha vida? No fundo, e devido à minha experiência em criança, acreditava que as pessoas que nos amam são também as que mais nos magoam. E ninguém quer ser magoado!

O processo seguinte é amar a parte de nós que deserdámos e rejeitámos. No meu caso foi preciso amar a parte de mim que se sentia magoada. Amar o Emídio Magoado. Sentir compaixão pelo Emídio que é magoado não foi fácil. Não o foi porque este era um aspecto que eu tinha rejeitado e não queria que voltasse a ter vida. Só que aquilo a que resistimos, aquilo que não queremos ser, não só persiste como não nos deixa ser.

A compaixão é um sentimento nobre e, ao mesmo tempo, simples: amar tudo tal como é.

Para poder ultrapassar as minhas desculpas tive que passar algum tempo a amar o Emídio Coitadinho, o Emídio Magoado, o Emídio que mentia para agradar, o Emídio que tinha medo de perder, o Emídio Invejoso, o Emídio Cruel, o Emídio sem qualquer controlo sobre a sua vida.

Como podemos nós viver plenamente quando rejeitamos tantos aspectos de nós? Como pode alguém amar-nos quando nós não nos amamos a nós mesmos? Como podemos ser belos e magníficos quando gastamos tanta energia a negar aspectos de nós presentes na nossa alma?

É fácil amarmos quem somos quando somos alegres, ajudamos outros, somos úteis, gostamos do que fazemos. É fácil.

Mas como amar-nos quando passam por nós pensamentos de egoísmo, inveja, medo, culpa, vergonha? Só que enquanto não amarmos estes aspectos eles irão aparecer continuamente na nossa vida. Iremos atrair as pessoas que nos mostrem estes aspectos deserdados.

O mais difícil de amar é a vergonha. Fomos envergonhados ainda crianças. E essa vergonha impede-nos de sermos autênticos. E a pessoa que for capaz de afirmar que não possui uma carga emocional de vergonha está em negação. E para o próximo ano irá fazer mais um workshop, mais um livro de auto-ajuda. Irá acreditar que algures no futuro encontra-se o amor da sua vida. O futuro não existe. Só o presente. E no presente, seria capaz de sentir compaixão pela parte de si que sente vergonha? A parte de si que foi envergonhada e a quem foi dito “tu não mereces existir”?

Que tal começar o seu dia com uma simples questão? O que posso fazer hoje que me mostre que me amo?

As nossas crenças, aquelas que nos impedem de amarmos a totalidade da nossa vida, são paredes invisíveis que nos separam dos nossos sonhos. E têm como finalidade impedir-nos de ver e sarar as nossas feridas emocionais. Por detrás de cada crença negativa há uma ferida emocional à espera de ser sarada, amada e abraçada. E só depois podemos avançar.

Passei alguns dias com a Debbie Ford em Londres. Uma das crenças que eu ainda tinha relacionada com dinheiro era “o dinheiro entra facilmente na minha vida, e desaparece ainda mais facilmente”. Por detrás desta crença descobri uma ferida profunda de quando tinha 10 anos: fazia parte de uma turma em que as outras crianças eram filhos de pessoas com muito dinheiro (na minha perspectiva, claro). Os meus colegas tinham sempre as roupas da moda, os brinquedos da moda, etc. E eu não. E isso magoava. O facto de sentir-me menos que os outros, inferior.

Para sarar esta ferida tive que abraçar e amar o Emídio Invejoso. Não é fácil. Comecei por abraçar a minha incapacidade de sentir o Emídio Invejoso. E eventualmente ele veio à superfície. Foi como um soco no estômago. Fiquei fisicamente doente. Chorei. Abracei-me a mim mesmo. Dei-me a ternura e o carinho que não tinha recebido durante algumas décadas. O Emídio Invejoso apenas queria ser amado por ser quem era.

É aqui que os milagres sucedem. Quando amamos os nossos aspectos rejeitados eles deixam de nos atacar, deixam de querer chamar a nossa atenção. E todas as pessoas invejosas que atraímos simplesmente mudam ou afastam-se. Quando nos permitimos iluminar a escuridão em nós libertamo-nos, tornamo-nos completos.

E tu, estás preparado para abraçar o teu lado escuro? Estás preparado para abandonar por momentos o teu ego ferido e abraçar a totalidade que és? Estás preparado para abandonar as tuas desculpas e começar a amar a tua vida, tal como ela está agora? O amor é só isso: amar tudo tal como é, agora.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Receita para fazer do mundo à tua volta o teu inimigo

Guarda segredos – uma vida de segredos dá energia à sombra humana e aumenta o seu poder sobre a mente. Algumas das formas em que guardas segredos: negação, decepção deliberada, medo de te expores, condicionamentos provocados por uma família disfuncional, querer agradar compulsivamente os outros, não falar dos teus sentimentos.

Alimenta sentimentos de culpa e vergonha – todos somos falíveis. Ninguém é perfeito. Mas se tu tens vergonha dos teus erros e sentes culpa em relação ás tuas imperfeições, a sombra em ti ganha poder.

Aponta o dedo aos outros e a ti mesmo – se não encontrares uma forma de te libertar dos sentimentos de culpa e vergonha é muito fácil decidir que tu, ou os outros, mereces o que a vida te dá. Julgar os outros e a ti mesmo é a culpa com uma máscara para disfarçar a dor do ego.

Encontra alguém a quem culpar – uma vez que decidas que a tua dor interior é um assunto moral, irá ser-te muito fácil encontrar alguém a quem condenas por ser inferior a ti de alguma forma.

Ignora as tuas fraquezas enquanto criticas os outros à tua volta – este é o processo da projecção, que muitas pessoas não compreendem muito bem. Sempre que estás com alguém e o que sentes são emoções negativas (ansiedade, nervosismo, irritação, desespero, raiva, medo, etc.) estás a projectar aspectos teus que há muito rejeitaste. Sempre que explicas uma situação como sendo um acto divino ou diabólico, estás a projectar. Quando afirmas que “os outros” são os maus e tu o “bom”, estás a projectar. Se acreditas que o problema são “os outros” estás a projectar o teu próprio medo em vez de o assumir.

Cria a ilusão da separação – a partir do momento que separas o mundo em “nós” contra “eles”, irás automaticamente identificar-te com os “bons” enquanto os outros são os “maus”. Este isolamento cria um sentimento de medo e suspeita, os quais são ingredientes essenciais para o crescimento da sombra.

Luta para manter o mal à distância – este último ingrediente é o necessário para acreditares que a maldade está por toda a parte. O que acontece em realidade é que tu, enquanto criador de toda esta ilusão, acreditas na ilusão que criaste. E assim a tua sombra ganha o poder suficiente para comandar a tua vida.

Este processo é uma verdadeira espiral para baixo. Começamos por acreditar que temos que guardar segredos (desde o facto de alimentar um ódio para com o vizinho, até visitar sites pornográficos, todos têm segredos dos quais se envergonham). Estes segredos tornam-se numa fonte de vergonha e culpa. Entra em acção a auto-critica. Aqui torna-se muito difícil viver com quem somos, e então procuramos alguém a quem culpar. Este processo irá conduzir-nos à desilusão, isolamento e negação. Quando por fim deres por ti a lutar contra o pecado e a maldade, perdeste já há muito tempo a noção do facto básico que te salvaria: entraste neste processo de livre vontade ao fazer escolhas bastante simples.

Para escapar a tudo isto só tens que fazer escolhas opostas ás iniciais:

1. Pára de projectar;

2. Aceita Aquilo Que É e Deixa Partir;

3. Desiste de te julgar e julgar os outros;

4. Recria o teu corpo emocional.

A parte mais difícil é saber quando estamos a projectar. Algumas pistas:

Atitude de superioridade – afirmações que dizem que és melhor que os outros. Acreditar que a tua opinião é a única válida. Comparar-te com outros que estão na vida em pior situação que tu;

Sentimento de injustiça – queixares-te das coisas “más” que apenas te acontecem a ti. Sentir que não mereces aquilo que alguém disse de ti. Falar mal de alguém, segundo a tua perspectiva, e que magoou outros;

Arrogância – sentir-te tão acima de alguém que nem vale a pena pensar nessa pessoa. Irritar-te com a presença de outra pessoa;

Necessidade de te defenderes – acreditas que os outros te querem atacar. Ignoras o que outros dizem. Não consegues ouvir o que é dito, preferindo ouvir aquilo que não é dito, lendo nas entrelinhas;

Culpa – a atitude de “eu não fiz nada, foi-me feito.”Apontar o dedo e responsabilizar outros pela tua vida;

Colocar outros num pedestal – aceitar cada palavra proferida por um superior hierárquico como sendo a palavra única e verdadeira. Admirar alguém ao ponto de não conseguir ver os seus defeitos e apenas virtudes;

Preconceito – quando acreditas, por exemplo, que “os ciganos são todos iguais” ou “os árabes são perigosos”. Quando tens medo dos negros porque podem roubar-te;

Inveja – quando na tua mente passam pensamentos que dizem que o teu companheiro anda a trair-te. Ris-te quando alguém tropeça. Cobiças o emprego de um amigo;

Paranóia – ao acreditares em teorias de conspiração. “Eles andam aí”!

Quando te deparas com uma destas atitudes podes ter a certeza que há um sentimento inconsciente escondido na sombra e o qual não queres enfrentar. Deixo aqui alguns exemplos:

Superioridade – disfarça o sentimento que tens de que és um falhado ou de que outros te rejeitariam se soubessem quem tu és de verdade;

Injustiça – disfarça o sentimento de pecado, ou a sensação que és sempre tu o culpado;

Arrogância – disfarça a raiva contida, e por detrás dessa raiva esconde-se uma dor profunda;

Estar na defesa – disfarça o sentimento de que não mereces, de que és fraco. A menos que te defendas dos outros, irás atacar-te a ti mesmo;

Culpa – disfarça o sentimento de que estás em falta para contigo e deverias ter vergonha por isso;

Colocar alguém num pedestal – disfarça o sentimento que és fraco, uma criança desamparada que precisa de protecção e segurança;

Preconceito – disfarça o sentimento de inferioridade e merecer ser rejeitado;

Inveja – disfarça os teus impulsos para tudo o que é proibido ou mal visto pela sociedade, ou a sensação de uma sexualidade doentia;

Paranóia – disfarça uma ansiedade profunda.

Krishnamurti disse algo de intemporal e em que acredito profundamente: “Tu não estás no mundo, o mundo está em ti.”

Por este motivo é que faço este trabalho da sombra humana. Em cada seminário em que alguém consegue curar as suas feridas e abraçar a sua sombra eu sei que um pedaço de quem eu sou foi curado. Não há um “tu” e um “eu”. Há um “nós”. Se num seminário vejo alguém arrogante tenho que me perguntar “de que maneira sou arrogante”?

Escrever num caderno tudo o que criticamos nos outros e nos afecta e descobrir depois de que maneira somos iguais é o primeiro passo para sarar as feridas da nossa alma.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Coitadinho de mim...

Todos nós, sem excepção, aprendemos na infância a ser coitadinhos. Os adultos à nossa volta mostraram-nos, de maneiras mais ou menos subtis, que não somos merecedores de amor, ou não somos importantes, ou não prestamos, ou não somos capazes, ou somos estúpidos. Como isto foi incutido à criança ainda antes desta ter desenvolvido filtros que lhe permitissem discernir o que lhe era dito ou feito, cresceu a acreditar num destes temas.

Qual é o tema da sua história de coitadinho? Se os seus relacionamentos costumam ser um fracasso, aprendeu que não é merecedor de ser amado. Se tem problemas no trabalho, aprendeu que não presta ou não é capaz. Se não é capaz de ser ouvido pelos outros, aprendeu que não é importante. E se não é capaz de se respeitar, permitindo que outros abusem de si de muitas maneiras, aprendeu que não é especial.

É isto o que se esconde na nossa sombra. Uma história de coitadinho.

Não quero aqui culpabilizar os nossos pais: eles fizeram o melhor que sabiam. Eles aprenderam a amar com os pais deles, que por sua vez aprenderam com os seus pais.

Como é que eu sei que estou dentro da minha história que afirma ser eu um coitadinho? Prestando atenção ás minhas emoções. Sentimentos de ansiedade, tristeza, revolta, ira, mágoa, desalento, insatisfação, cansaço, desprezo, angústia, preocupação, são indicadores precisos que me informam estar a viver dentro de uma história que afirma peremptoriamente: “coitadinho de mim! Se ao menos...”

É importante não esquecer que é ok ter estes sentimentos. É perfeitamente normal, e saudável, sentir tristeza quando uma relação chega ao fim ou um ente querido parte. É perfeitamente normal sentir revolta quando assistimos a actos de injustiça. O problema é quando nos mantemos presos a esses sentimentos. Quando meses depois de uma separação ainda sentimos mágoa, ou revolta, ou ansiedade. Quando um ano depois de um colega de trabalho nos ter criticado ainda recordamos as palavras. Isto é viver dentro de uma história de coitadinho.

Esta história é sempre limitadora. Impede-nos de abraçar a totalidade que somos. Leva-nos a julgar os outros e a definir o que é certo e errado, de acordo com os nossos padrões.

Um dos aspectos mais importantes desta história de coitadinho é a auto-sabotagem que praticamos diariamente. Quando sabemos que podíamos ser mais e fazer mais, mas em vez disso dedicamo-nos a desculpar-nos e justificar-nos. Ou quando nos dedicamos ás queixinhas. A pessoa queixinhas vive dentro de uma história muito limitadora que afirma que não tem poder para mudar, não é capaz de auto-controle e, sobretudo, sabe que o mundo é um lugar mau cheio de pessoas más.

Quando nos dedicamos a apontar o dedo, a desvalorizar outros, a reagir de maneira inapropriada. Estamos dentro da nossa história. Quando nos comparamos aos demais. Quando nos preocupamos com coisas que podem ou não acontecer.

Gostaria de lhe pedir que se permitisse reflectir nisto:

No mundo há pessoas boas e pessoas más. No mundo há abundância e também pobreza. No mundo há justiça e injustiça. O mundo é um lugar dualista: nada existe sem o seu oposto. Noite precisa do dia da mesma forma que o quente precisa do frio. Alto e baixo, frente e verso, bom e mau. E saiba ainda isto: as pessoas mais “certinhas” são as que escondem maior escuridão. As pessoas mais moralistas são as que escondem mais falsidade. As pessoas que criticam continuamente os outros vivem num desassossego permanente. Sabe porque motivo algumas pessoas gostam de ver os noticiários na televisão? Dizem que é para se manterem informados. Mentira. Vêem os noticiários para se comparar e apaziguar um sentimento de culpa que os invade. O facto de eu desperdiçar tempo a visitar sites pornográficos na net é irrelevante comparado com o sujeito que foi preso ontem por ter violado uma mulher. O facto de eu dedicar tempo a falar mal de um colega não é nada comparado com o político que insulta outro em plena Assembleia da República. O eu tirar canetas ou papel do escritório não representa nada em relação ao desgraçado que foi apanhado a roubar um banco. As minhas vergonhas não são nada comparadas com aquilo que vejo nos noticiários!

Só que isto não é verdade. Existe em nós um circuito neuronal de integridade. E sempre que atentamos contra a nossa integridade, criticando e julgando outros ou tirando aquilo que não é nosso, ou roubando tempo aos outros, este circuito de integridade entra em conflito. E pagamos caro por isso. Inconscientemente iremos procurar formas de nos punir. Através de relacionamentos ocos, de perdas financeiras, doenças, etc.

Como podemos sair das nossas histórias de coitadinhos? Regras básicas:

- Respeitar-me em tudo o que faço;

- Respeitar os outros (significa não fazer juízos de valor sobre outros);

- Ter a humildade de calçar os sapatos do outro (daquele a quem apontamos o dedo);

- Parar de ver a maldade alheia e observar as maneiras em que sou mau para comigo;

- Sorrir, independentemente do que sucede à minha volta.

A nossa incongruência reside no facto de apesar de estarmos a viver numa história de coitadinho, comportamo-nos como se fossemos o centro do universo. Convençamo-nos de uma vez por todas que o mundo continuará a movimentar-se mesmo depois de morrermos. O mundo não pára só porque nós estamos tristes ou ansiosos ou doentes. Nada é assim tão importante. Literalmente. Mas comportamo-nos como se a nossa vida dependesse de termos razão o tempo inteiro, quando em realidade raras vezes a temos.

Temos ainda que assumir que a única pessoa que podemos controlar e mudar somos nós mesmos. Nunca mudaremos quem quer que seja com uma critica. Nunca mudaremos quem quer que seja só porque lhe dizemos umas “verdades” (regra geral a nossa verdade pessoal).

Se temos problemas com alguém, a melhor solução é perguntar-nos: o que esta pessoa me está a pedir? E dar o que a outra pessoa pede.

Vejo isto com muitos professores. Querem alunos bem comportados e cumpridores. Mas os próprios professores comportam-se pessimamente em relação a eles próprios. Desrespeitam-se continuamente. São incongruentes, julgam e criticam sem pensar duas vezes. Nas suas cabeças há um caos aterrador de pensamentos carregados de ira, revolta, mágoa, desprezo. E depois querem ter razão. Acredito que os professores com alunos “problemáticos” nada mais fazem do que projectar o seu “problematismo” sobre os alunos. E enquanto não aceitarem que os alunos apenas lhes mostram o que andam a fazer a eles mesmos, nunca terão alunos como desejam.

É anedótico ver um professor a exigir respeito a um aluno. Fá-lo com prepotência e uma autoridade que não é reconhecida. Eu jamais conseguirei que outros me respeitem enquanto eu não me respeitar a mim mesmo primeiro. Se quero uma sala de aula atenta tenho que primeiro procurar o silêncio e calma dentro de mim. Pedia aos professores que da próxima vez que estiverem frente a uma turma barulhenta se observem a eles mesmos. Observem o ruído mental nas suas cabeças.

Este é um dos motivos porque temos cada vez mais crianças e adolescentes rebeldes, maus, irados. Eles estão a mostrar-nos a revolta que vai dentro de nós, a ira que sentimos pelas injustiças cometidas contra nós por governantes prepotentes. E nada fazemos em relação a esta situação, excepto criticar. E os adolescentes mostram-nos a nossa raiva. Claro que isto é apenas a minha opinião, sem qualquer valor para além do que decidir atribuir-lhe.

Seria arrogância da minha parte acreditar que sou capaz de mudar quem quer que seja. Nunca irá acontecer. Mas posso mudar-me a mim. O que estará a pedir um aluno irrequieto ou mal-educado? “Aceita-me como sou!”. Aceita-me por ser uma criança que se sente abandonada, julgada, criticada. Uma criança cujos pais não sabem dar amor. Uma criança cuja escola serve para simplesmente julgar no final de cada período. Os maus alunos estão a pedir aceitação, amor incondicional.

Se se permitir parar de apontar o dedo e calçar os sapatos de outra pessoa irá descobrir que a pandemia que assola a humanidade é o auto-ódio, e o antídoto é o amor incondicional.

Tenho uma amiga, professora, que nunca teve problemas com os seus alunos. Sempre que lhe aparece um aluno “mau” ela escreve-lhe uma pequena carta. Basicamente diz-lhe que gosta dele, independentemente de ele ser bom ou mau, estudioso ou preguiçoso. Diz-lhe ainda que se ele alguma vez quiser conversar em privado ela está disponível. Ela sabe que o “mau” aluno apenas quer ser aceite, com todos os seus defeitos, vergonhas, culpas e medos.

Alguma vez pensou porque motivo qualquer pessoa se rende ao sorriso de um bebé ou ao olhar de um cachorrinho? Porque nesse olhar não há qualquer juízo ou critica. O bebé e o cachorrinho, através do olhar, dizem-nos que é ok sermos quem somos.

Continuando com a nossa história de coitadinho:

Sabemos que estamos fora da nossa história quando nos sentimos alegres, de bem com o mundo, satisfeitos com o nosso trabalho, plenos, cheios de energia, com esperança num futuro melhor, animados, sem preocupações e tranquilos. Provavelmente conseguimos permanecer fora das nossas histórias de coitadinhos durante alguns minutos por dia.

O que pode fazer para sair da sua história:

Comece por observar os seus comportamentos, atitudes e pensamentos. Dentro das nossas histórias lutamos contra a realidade. Observamos algo e decidimos que não deveria ser assim. E lutamos contra aquilo que é. Um exemplo simples: vemos na rua alguém a deitar lixo para o chão e decidimos que é errado. Errado para quem? Definitivamente que não é errado para a pessoa que deita o lixo para o chão. Em vez de criticarmos esta atitude, aceitamos aquilo que é e fazemos o que podemos. Podemos falar com a pessoa, ou, mais simples ainda, pegar nesse lixo e deitar num recipiente apropriado. Sem conflito com a realidade. Isto não significa ser escravo dos outros nem andar a fazer o trabalho dos outros. Este tipo de pensamento rouba-nos muita energia.

Quando vejo alguém a deitar lixo ao chão fico grato pelo que vejo. Penso sempre “obrigado por me mostrares que ainda ando a atirar com lixo para cima de outros”. Depois observo-me, tento descobrir que lixo ainda carrego comigo. Talvez um pensamento que me diz que não sou capaz. Ou uma critica feroz contra um amigo. O pior lixo não é o que vemos nas ruas, é o lixo nas nossas mentes. Aqueles pensamentos que afirmam milhares de vezes ao dia que o mundo é um lugar perigoso, que as pessoas são más, que eu não mereço ser amado, que o meu corpo está mal. Isto é o verdadeiro lixo que polui a vida de cada um de nós. E enquanto não reciclarmos o lixo das nossas mentes será impossível eliminar o lixo que se acumula sobre este nosso glorioso planeta.

Dentro das nossas histórias de coitadinho temos sempre razão, estamos certos e os outros são os maus da fita. Fora das nossas histórias sabemos que tudo é como deveria ser (pelo simples facto de ser assim). Fora das nossas histórias não precisamos que os outros mudem: mudamos nós. Fora das nossas histórias não levamos o comportamento dos outros a peito. Sabemos que cada um está a fazer o melhor que é capaz. E esse melhor pode não ser o melhor que nós queremos, mas nós não somos os directores gerais do universo nem os proprietários do planeta.

Em vez de criticar as pessoas que abandonam animais, porque não começar a criar um grupo de pessoas que possam acolher esses animais? Em vez de criticar o colega preguiçoso porque não começar a ver de que forma poderíamos ser nós no seu lugar, se tivéssemos a vida que ele tem? Em vez de esperar que os alunos me respeitem, porque não começar a respeitar-me a mim mesmo?

Tive uma professora, que ainda hoje admiro, que parecia estar sempre bem. Mesmo quando o marido faleceu de cancro ou o filho foi atropelado e ficou em coma. Dizia-nos que tudo o que nos acontece são lições para aprendermos a ser o melhor que podemos ser. E dizia ainda outra coisa: num grupo, a pessoa que fala mais alto raramente tem razão.

É uma opção que cada um pode fazer, constantemente. Prefere ver as nuvens no céu ou o lixo num passeio? Prefere sentir compaixão pela pessoa que sofre e com o seu sofrimento trata mal os outros, ou escolhe antes criticar essa pessoa?

A realidade é que cada ser humano está a viver dentro de uma história limitadora. E eu não tenho o direito de julgar as histórias dos outros. Mas posso olhar para a minha história e começar a criar uma nova história. Uma história em que sou o melhor que sou capaz de ser. Uma história onde me amo e aceito cada desafio da vida como uma lição. Uma história em que paro a revolta em mim e amo incondicionalmente. Eu não tenho nem mais nem menos direitos que os outros. E, sobretudo, não tenho o direito de impingir a minha “verdade” sobre quem quer que seja.

E esta é a minha verdade apenas. Ninguém tem que a aceitar. Ninguém tem que concordar com o que digo. Ninguém tem que refutar nada do que digo. Apenas eu tenho o poder para o fazer. E no fim do dia apenas tenho que me sentir bem comigo por saber que fiz o meu melhor. Chegar ao fim do dia e acariciar-me como se acaricia uma criança de dois anos, com muito carinho e amor, sem julgar. Porque eu mereço!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A voz do Medo e da Fé

Em qualquer situação em que nos encontremos iremos sempre ter a opção de ouvir a voz do nosso medo ou da nossa fé.

O medo é aquela voz já bem conhecida que compara, julga e critica. Acredita que somos coitadinhos numa história em que nascemos para ser menos do que aquilo que somos. Esta voz agarra-se a qualquer evento, compara-o com situações do passado em que sofremos, e diz-nos que voltaremos a sofrer.

A voz da nossa fé é exactamente o oposto. Sabe que pode confiar na vida e que cada experiência é única e merecedora de existir. Não pede para que os outros mudem nem para que sejam diferentes. Aceita tudo o que está a acontecer.

A voz do medo surge nos primeiros anos de vida, quando os adultos à nossa volta nos dizem que não podemos fazer ou ser algo. Quando, por palavras ou acções, nos é dito que não somos capazes, não merecemos, não importamos ou não sabemos. Quando nos dizem que somos maus ou feios. Quando nos mostram que não somos especiais.

E esta voz do medo irá infiltrar-se na nossa sombra e repetir-se nas nossas mentes a cada minuto da nossa vida. O diálogo desta voz é qualquer coisa como:

“Quem pensas tu que és? O que irão dizer de ti? Nunca conseguirás atingir esse objectivo! A idade não perdoa! Só fazes asneiras. Lá estás tu outra vez a deixar-te levar pelos outros! Tem cuidado, pode ser perigoso! Não confies nos outros, podem magoar-te. Já foste magoado antes, queres voltar a sê-lo? Por mais que te esforces, nunca és capaz de fazer as coisas bem feitas! Meu Deus, estás tão feia! Ninguém gosta de ti. Se ao menos tivesses dinheiro... Se ao menos o teu companheiro te compreendesse... Era bom poder ir de férias para um lugar bonito, mas não tens dinheiro nem amigos... Lá estás tu a cair novamente na mesma ratoeira! Essa dor é capaz de ser um cancro! Meu Deus, e se eu estiver com um problema de saúde grave?! Estás cada vez mais gorda e feia, como é que alguém pode gostar de ti?!”

A voz da fé é diferente. É a voz que nos chega da nossa alma. Enche-nos de esperança e entusiasmo. Acredita em nós. Esta voz ouvimo-la menos vezes. O diálogo desta voz é qualquer coisa como:

“Tu és capaz! Arrisca, esta situação pode ser-te útil! Não desanimes! No passado magoaram-te mas isso não significa que te voltem a magoar. Tens já tanto na tua vida! Há tantas pessoas no mundo, irás certamente encontrar a pessoa ideal para uma relação íntima! Tu és corajoso e capaz! Vai em frente, não tens nada a perder! Os anos passam e a sabedoria aumenta! Tu sabes o que é melhor para ti!”

A voz do medo deixa-nos com um aperto no peito, mal-estar, doentes. A voz da fé deixa-nos tranquilos, calmos, em paz com tudo e todos.

Para ser capaz de ouvir e identificar estas duas vozes faça o seguinte exercício:

Comece por respirar calma e profundamente durante dois ou três minutos. E depois pense numa situação do seu passado que lhe foi dolorosa ou difícil. E ouça. O que lhe diz a vozinha dentro de si?... Como é que o deixa? O que sente? Esta é a voz do medo.

Pense depois numa situação do passado em que se sentiu cheio de entusiasmo, excitado, feliz e de bem com a vida. E ouça. Que frases ouve? Como é que se sente? O que diz esta nova voz? Esta é a voz da fé.

E a partir de agora, sempre que tiver que tomar uma decisão, vá dentro de si durante uns breves minutos. Ouça a voz da sua fé. Permita-se respeitar o que de mais sagrado há em si. E pergunte-se: se eu me permitisse respeitar-me, o que faria agora?

Boas escutas!