terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Crise Mental

Para muitos de nós a vida é controlada pelos nossos pensamentos relacionados com o trabalho e o dinheiro. Mas se os nossos pensamentos forem claros, como é que o trabalho ou o dinheiro podem ser um problema? Tudo o que precisamos de mudar são os nossos pensamentos. Em realidade os nossos pensamentos é tudo o que podemos mudar. E isto é o que há de bom na nossa vida.

Dá a ti mesmo um momento para desistir de ter razão e suspende tudo aquilo em que acreditas relacionado com trabalho e dinheiro. Suspende as tuas crenças por alguns minutos.

Tu queres dinheiro porque te ensinaram que precisas dele para comprar a tua felicidade. Mas apenas podes encontrar a felicidade dentro de ti, nos teus pensamentos. Ao questionares a tua vida irás descobrir que o dinheiro não é assim tão importante. Deixas de te identificar com a quantidade de dinheiro presente na tua vida, desligas-te da necessidade de ter dinheiro. E quando te desligares desta necessidade o dinheiro só pode aparecer na tua vida. É uma das leis incontornáveis da vida.

Muitas pessoas acreditam que o medo e o stress é o que lhes trará dinheiro. Porque outro motivo andariam tão stressadas? Medo de perder o emprego, medo de ficar sem sustento, medo de ser abandonado. O medo impulsiona tudo o que fazem. E garantem assim o seu sofrimento.

Mas será verdade que precisas de dinheiro? Quem é que serias sem dinheiro? Quem é que serias sem o teu trabalho? Estas são questões que podem assustar, mas que nos libertam do medo.

Quem é que tu serias se nunca acreditasses que precisas de um trabalho e de dinheiro?

O teu trabalho nesta realidade é só um: utilizar o teu emprego para julgar, criticar, investigar e conhecer-te. O teu emprego primário é só um: estar grato por quem tu és.

Acredito que nesta vida só há três tipos de assuntos: os meus, os dos outros e os de Deus. O dinheiro é um assunto de Deus e dos outros. Os meus pensamentos são um assunto meu. Isto é realidade. Se acreditas que controlas o teu salário ou o teu emprego, irás criar stress. O stress surge sempre a partir de um pensamento que é mentira. Será que ainda não conseguiste ver que não tens qualquer controlo sobre os teus rendimentos? Mas podes controlar os teus pensamentos. Questionando-os.

Tu podes acreditar que a tua vida seria muito melhor se tivesses um carro novo, ou um vestido novo, ou uma casa nova, ou um curso novo. Acreditas nisto porque te colas à ideia de uma história. O que diria a tua história se tivesses mais dinheiro? Que não és um falhado? Que sabes providenciar para a tua família? O que quer que seja que tenhas irá significar coisas diferentes para cada ser humano, dependendo da sua história. Tu vais na rua, a conduzir um Ferrari e alguém pensa “Uau! Que carro!”, enquanto outra pessoa pensa “Exibicionista! Quem andará a roubar?” e outra pessoa ainda irá pensar “Ganhou o euromilhões!” – cada pessoa irá pensar de acordo com a sua história. Mas qual é a tua história? Um carro é um carro.

O problema surge quando nos agarramos ao significado de algo. Conceitos.

Nós não ficamos agarrados a coisas, mas aos pensamentos acerca das coisas. Eu agarro-me à história do meu carro. “É bonito. Leva-me para o trabalho.” “É velho e está acabado.” “Sinto-me uma estrela no meu carro.” “O que pensarão os meus pais quando me virem neste carro?” Mas sem uma história, um carro é um carro. E posso ir para o trabalho no carro, no autocarro ou a pé. Não deixo de ser quem sou por causa do carro. A realidade é que podes ter um carro, entras nele e conduzes até ao trabalho. Ou não tens um carro e entras num autocarro para ir ao trabalho. A mentira está na história que contamos acerca do carro e do que significa para nós.

Muitas vezes já admirei as manhãs frias de inverno, em que os passarinhos chilreiam. Se o coração dos passarinhos pode cantar numa manhã gelada e sem alimento, poderias permitir que o teu coração cante neste momento? Claro que se tivesses mais dinheiro seria mais fácil. Mas poderias deixar o teu coração cantar sem te agarrar à história de precisar de mais dinheiro? A canção não significa que tens ou não dinheiro. Significa que estás vivo e não estás agarrado a uma história.

Quem é que tu serias se nunca acreditasses na história de que precisas mais dinheiro? Sem este pensamento, como te sentirias?

Acreditas mesmo que o dinheiro te dá mais? Nunca. Os teus pensamentos é que te dão mais.

Experimenta este exercício: escreve um pensamento que te cause stress sobre o dinheiro. Alguns exemplos: “Preciso de mais dinheiro”, “Nunca tenho dinheiro suficiente para o que preciso”, “O dinheiro é necessário para viver.” Estes são pensamentos que causam stress. Agora substitui a palavra dinheiro nesse pensamento por “tempo” ou “amor” ou “saúde” ou “amizade” ou “alegria” ou “vitalidade”... E o pensamento continuará a ser válido (pelo menos até o questionares). E tudo não passa de conceitos na mente. E quando questionados, descobrimos que são todos mentiras que contamos a nós mesmos tantas vezes que acreditamos neles.

A minha experiência ensinou-me que tenho sempre o dinheiro que preciso. Porque é o dinheiro que tenho. Nem mais um cêntimo. Nunca irei ter mais dinheiro do que aquele que tenho. Pensar que deveria ter mais é a causa de sofrimento. O carro novo? A casa nova? A relação nova? Conceitos por questionar.

Em determinada altura da minha vida vivi alguns dias debaixo de um viaduto, em Londres. Sem dinheiro. Descobri que pior do que viver na rua era acreditar que não deveria viver na rua. A realidade é que vivia na rua. O pensamento de que não deveria ser assim era a causa do meu sofrimento. Ainda estou vivo. A experiência foi má? Apenas posso dizer que poderia passar novamente pela experiência e iria sentir-me em paz.

Ao terceiro dia de viver na rua acordei a rir-me de mim. Estava louco. Descobri que estava louco ao sofrer por querer viver numa casa quando estava a viver na rua. E se estava a viver na rua era porque precisava de viver na rua. Pelo simples facto de ser essa a realidade.

Se é bom ou mau viver na rua depende apenas de certos conceitos. Por ter vivido na rua aprendi que nunca estamos sós. Descobri que há pessoas capazes de dar sem esperar receber de volta. Aprendi que não temos qualquer necessidade para além do ar que respiramos. Aprendi ainda que quando estou só e me sinto mal estou em muito má companhia.

Os nossos problemas nunca são a realidade, aquilo que está a acontecer, mas apenas acreditarmos que a realidade deveria ser diferente daquilo que é.

Se neste momento tens dificuldades financeiras aprecia o momento. O que há de belo na tua vida, neste momento? De que te estás a esquecer e que pode deixar o teu coração a cantar? Começa por cantar a realidade de que estás vivo. E de que tens um coração. E de que consegues ler estas palavras. E de que algures há alguém a pensar em ti. E que neste preciso momento tens tudo o que precisas para estar vivo. Se assim não fosse, não estarias vivo.

E à medida que permites que o teu coração cante, desiste da necessidade de ter mais dinheiro. Não imponhas os teus conceitos à realidade, garanto-te que não funciona. Se tens dificuldades financeiras é porque precisas de as ter. Há lições para ti nesta situação. Pergunta-te a ti mesmo quais os benefícios reais para ti devido a esta realidade? Observa-te. Aprende a escutar a canção do teu coração. Em vez de acreditares no que pensas estar errado, abre os braços à vida tal como se apresenta. Afirma a ti mesmo “Eu quero ter a experiência de não ter o dinheiro suficiente para viver!” – e fá-lo com integridade e honestidade. Observa o que vai acontecer nos próximos dias.

Só te posso falar da minha experiência. Nunca temos mais dinheiro do que aquele que temos. E quando nos alinhamos com a realidade, o milagre é a realidade mudar.

Já agora, onde está a crise? Queres acreditar que está fora de ti? Bem-vindo ao inferno. Mas se fores suficientemente honesto e afirmares que a crise está dentro de ti, meu Deus, as mudanças que irás observar na tua vida!

A crise está em pensamentos que negam a realidade. Pensamentos que dizem que os outros deveriam ser diferentes de quem são. Pensamentos que dizem que quando tiveres mais sentir-te-ás melhor. Pensamentos que dizem que os outros não sabem e tu sabes. Pensamentos que te causam stress. Cada pensamento que te causa stress é uma mentira. Mas só 100% das vezes.

Pega numa folha e papel e escreve cinquenta coisas boas na tua vida neste momento. Podes começar pelo teu coração que bate sem teres que pensar nele. E depois ouve o teu coração cantar. De gratidão para com a vida, tal como é em vez de como não é.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O parodoxo espiritual

Nos vários cursos de Educação Emocional que já ofereci encontro com bastante frequência um mesmo problema: a aceitação do corpo físico tal como ele é.

As pessoas sentem um desejo enorme de se tornarem mais espirituais, mas têm uma enorme dificuldade em abraçar o seu corpo, em dar-lhe carinho, mimos, amor incondicional.

O nosso corpo físico representa um terço de quem somos: corpo, mente e alma. O corpo é o nosso aspecto mais denso e o que está mais ligado à realidade física.

Pela minha experiência é impossível sentirmos a ligação ao eterno e divino em nós enquanto não fizermos as pazes com o nosso corpo físico.

A maioria das pessoas é espiritual dentro da cabeça. Nunca tiveram a experiência espiritual através do coração, dos sentidos. Aquela experiência em que o amor dentro do coração é tanto que apenas nos resta chorar. Hoje sei que este chorar deve-se a que o Amor queima tudo aquilo que não é. Na experiência espiritual tudo o que não somos é queimado.

Como sei que tive já a experiência da minha espiritualidade? Quando estou em paz num mundo conturbado. Quando deixo de incluir no meu vocabulário todos os “devias”, “precisas de” e “tens que”. Quando o meu desejo de mudar o mundo desaparece e apenas me vou mudando aos poucos. Amando cada pedaço de mim, e depois cada pedaço dos outros. Vendo-me em todos à minha volta.

Mas este é um processo do coração e nunca da mente.

Recordo-me das palavras de Neale Donald Walsch: Só ouvirás a voz de Deus quando deixares de acreditar que já a ouviste. Só conhecerás a Deus quando deixares de acreditar que O conheces. Só serás tu mesmo quando deixares de acreditar que sabes quem és.

O nosso corpo é perfeito. Sempre. Mas enquanto eu olhar para o meu corpo e vir imperfeições, enquanto quiser que ele seja diferente, estarei em guerra com uma parte de quem sou. Num ambiente de guerra é impossível evoluir para além dos aspectos mais primitivos do ser humano: o amor condicionado.

Toda a gente apregoa o amor incondicional. Mas são poucos os que o praticam. Ainda esta manhã apanhei-me a julgar a minha irmã. E depois levei com as projecções encima de mim! Ao pensar que a minha irmã é uma ditadora, o que estava a pensar em realidade é que eu gostaria de ditar como ela deveria ser (e lá vem mais um “deverias”). Ninguém nos ensina mais do que aqueles que nos magoam. Mas só 100% das vezes.

A forma mais rápida de conseguir a paz dentro de nós é invertendo tudo o que pensamos dos outros e dirigi-lo a nós.

- Os americanos só estão bem a fazer guerra / eu só estou bem a fazer guerra (sobretudo na minha cabeça, contra os americanos);

- Os meus pais são sofredores natos, sempre doentes / eu sou um sofredor nato, sempre doente (sobretudo na minha cabeça, quando me dedico a focar a atenção nas doenças dos meus pais em vez de viver a vida);

- O meu vizinho é arrogante e um chato / eu sou um arrogante e um chato (sobretudo ao julgar-me superior ao meu vizinho e ao falar dele a terceiros);

- Não tenho amigos e sinto-me só / não sou meu amigo (principalmente quando me sinto só na minha companhia);

- Devia perder peso, estou gordo / devia perder pensamentos, sou um obeso mental (sobretudo na forma como trato o meu corpo);

- Odeio as pessoas teimosas e que querem ter sempre razão / odeio-me quando sou teimoso e quero ter sempre razão (esta é deliciosa: um teimoso só o é na presença de outro, e quando afirmo que os outros não têm razão o que estou a afirmar é que eu é que tenho razão!);

Este é um processo delicioso de libertação do ego. Nem sempre fácil. Mas sei apenas que tudo o que penso dos outros é de mim que estou a falar.

E voltamos ao corpo. Se eu tiver problemas com a parte de mim que é a mais presente no meu dia-a-dia, como posso ter paz com as restantes partes?

Este foi o principal motivo que me levou a criar o pequeno curso de Massagem Psico-sensual. Uma forma de fazermos as pazes uma vez por todas com o nosso corpo. E quando somos capazes de amar todo o nosso corpo, sentimo-nos bem na presença de quem quer que seja. E permitimos que outros nos dêem carinho e ternura, porque somos capazes de o fazer a nós mesmos e aos outros também.

É bom ter o meu corpo! Cada centímetro quadrado é maravilhoso e adorável.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As Descobertas do Verão

Nos últimos três meses vivi imerso numa experiência radical: ver-me em tudo e todos.

E não encontrei uma única excepção à regra: tudo o que pensava dos outros era de mim que estava a falar. Sempre.

Este é o poder das projecções e este é o motivo das guerras. Eu só consigo ver nos outros o que já está em mim, literalmente.

Alguns exemplos, que talvez o possam ajudar a si também.

- A minha mãe é uma queixinhas. (Em realidade ela é quem é, mas eu é que me estou sempre a queixar dela);

- O meu vizinho é teimoso. (Em realidade ele é quem é, só quando eu teimo com ele é que ele se torna teimoso. Quem é o teimoso?);

- A minha amiga L quer ter sempre razão. (E eu, ao não lhe dar razão, estou a agarrar-me à minha “razão”... Quem é que quer mesmo ter sempre razão?);

- A minha vizinha é infiel ao marido. (E eu, infiel a mim mesmo, não me respeitando quando digo “sim” e quero dizer “não”);

O meu trabalho ao longo destes três meses foi estar atento ao que pensava sobre os outros e depois inverter os pensamentos de forma a ser eu o sujeito. E conseguia encontrar sempre a verdade de cada inversão. Por vezes doía. Por vezes deixava-me angustiado. Mas no final destes três meses posso dizer que encontrei uma paz de espírito que nunca imaginei ser possível.

Outras coisas que aprendi: a defesa é o primeiro acto de guerra.

Quando alguém me acusa de algo, deve ter os seus motivos para fazer a acusação. Mas ao defender-me estou a entrar em conflito com o outro. Alguém acusou-me de ter a mania de saber as respostas a tudo. Ouvi a sua acusação. Ponderei o que me dizia e descobri que era verdade. Agradeci. O nosso problema é o querermos ter sempre razão, quando raramente a temos. O problema é que avançamos pela vida a não nos respeitarmos, a não nos amarmos, e depois esperamos que os outros nos respeitem e nos amem. Não vai acontecer nunca.

Há feridas profundas na nossa alma e em vez de as curarmos tentamos encontrar pensos rápidos que acalmem a dor. Uma relação extra-conjugal, um chocolate, um filme, uns boatos sobre alguém que mal conhecemos, a televisão, comida em excesso... Tudo formas de colmatar a dor na nossa alma e, ao mesmo tempo, querer ter razão.

Agora aprendi. Quando alguém me acusa de algo faço questão de repetir a acusação. Vou dentro de mim. Procuro a verdade. E quando a encontro agradeço ao outro o ter-me mostrado algo que ainda tinha para corrigir em mim.

Isto levou-me a outra descoberta: os insultos.

Um insulto é algo que dizem sobre nós e que nós temos medo que descubram por ser verdade. Ninguém quer ser rotulado de burro. Mas já todos fizemos burrices. Ninguém quer ser rotulado de mentiroso, mas já todos mentimos. Ninguém quer rotulado de palerma, mas já todos fizemos palermices. Se alguém me chamar estúpido não levo a peito. É verdade. Já fiz muita coisa estúpida na vida. E quando sou capaz de assumir todas as minhas imperfeições fico em paz. As palavras dos outros não me afectam.

Outra descoberta: eu vou ser para ti quem tu quiseres que eu seja. Sempre.

Cada um de nós vive dentro de uma história. Nessa história o mundo é feito de pessoas boas e más, egoístas e altruístas, simpáticas e antipáticas. E se eu procurar alguém para me confirmar que no mundo há pessoas burras, irei ver burrice em ti, independentemente do que digas ou faças. Eu escrevo estas palavras e se na tua história há pessoas que só dizem disparates, irás ver aqui um grande disparate. E terás razão. Confirmas a tua história.

Outra descoberta: a vida irá dar-me de volta o que eu projecto a partir do meu interior. Sempre. O problema é que o processo é todo ele inconsciente. Como é que sei o que ando a projectar? Observando as pessoas à minha volta. Que tipo de pessoas fazem parte da minha vida? É isso o que eu ando a projectar. Então começo a projectar conscientemente o que quero observar. Amor é um bom começo.

Outra descoberta: não há pessoas más, apenas desconhecedoras da realidade. Cada ser humano só pode fazer aos outros o que acreditar ser o melhor. Claro que aquilo que eu considero melhor para mim não é necessariamente o melhor para os outros. Esta deu-me cabo dos neurónios durante dias a fio. Mas a realidade é que se víssemos todos os outros como pedaços de quem nós somos, alguma vez teríamos a coragem de os criticar, deitar abaixo, envenenar?... Não creio.

O primeiro passo para a cura de qualquer problema é ser útil aos outros. Quando sou útil aos outros esqueço os meus problemas. E quando esqueço os meus problemas há um Poder Maior que os resolve. Claro que o meu ego irá querer ditar a forma como os meus problemas se resolvem. Isto significa não acreditar num Universo Amigo.

Ainda outra descoberta: não sou responsável pelos pensamentos que rodopiam na minha cabeça. Os pensamentos surgem, simplesmente. E um pensamento dá origem a muitos outros idênticos. É função da mente/ego confirmar cada pensamento. Então, quando eu penso que o meu colega é estúpido, a mente irá procurar todas as situações que confirmem este pensamento. A única forma de parar esta tortura é questionando os meus pensamentos, tornando-me observador de mim mesmo. Penso “O Carlos é um idiota”. Ok, será que isto é verdade? E como é que me sinto quando tenho este pensamento e estou com o Carlos? Como é que o trato, quando tenho este pensamento? E sem este pensamento, como é que me sinto? E depois, claro, dou a volta ao pensamento original: “Eu sou um idiota” (sobretudo por não me permitir ver a totalidade do Carlos e reduzi-lo a uma única qualidade!). Se quiser mergulhar a fundo nos seus pensamentos, aprenda com a Byron Katie (www.thework.com).

E agora sei que é verdade: eu não estou no mundo, o mundo está em mim. Obrigado, Krishnamurti.

terça-feira, 1 de junho de 2010

As Desculpas

Por que motivo as pessoas, depois de muito lerem e aprenderem, depois de muitos seminários e workshops, continuam a ter as mesmas experiências, as mesmas situações, os mesmos relacionamentos e problemas?

Talvez porque nunca ninguém lhes tenha dito que têm que olhar para as suas feridas, as suas mágoas, as mil e uma maneiras que arranjam para se violarem.

Para cada insucesso na nossa vida temos uma série de desculpas que nos justificam e acalmam o nosso ego. Fazem-nos esquecer momentaneamente que só nós somos responsáveis por tudo o que nos acontece.

Nos próximos dias pedia-lhe para escrever cinco objectivos que gostaria de atingir e debaixo de cada objectivo escreva pelo menos 5 desculpas que lhe mostrem porque ainda não conseguiu atingir cada um deles. Permita-se ser brutalmente honesto consigo mesmo.

Deixo-lhe um exemplo meu: durante anos vivi só e sempre que começava uma relação íntima tratava de me sabotar para que a mesma tivesse uma curta duração. O meu objectivo era partilhar a minha vida íntima com alguém especial. As desculpas porque não estava a viver numa relação amorosa:

- Se me entregar completamente irei sair ferido;

- Não tenho tempo para uma vida íntima;

- A vida a dois dá muito trabalho;

- Vou ter que desistir de algumas das coisas que gosto de fazer sozinho;

- Se estiver numa relação perderei controlo sobre parte da minha vida.

Estas eram algumas das desculpas. Depois de ver as desculpas, descubra quais as crenças por detrás das desculpas. Quais as crenças que tenho nesta área da minha vida? No fundo, e devido à minha experiência em criança, acreditava que as pessoas que nos amam são também as que mais nos magoam. E ninguém quer ser magoado!

O processo seguinte é amar a parte de nós que deserdámos e rejeitámos. No meu caso foi preciso amar a parte de mim que se sentia magoada. Amar o Emídio Magoado. Sentir compaixão pelo Emídio que é magoado não foi fácil. Não o foi porque este era um aspecto que eu tinha rejeitado e não queria que voltasse a ter vida. Só que aquilo a que resistimos, aquilo que não queremos ser, não só persiste como não nos deixa ser.

A compaixão é um sentimento nobre e, ao mesmo tempo, simples: amar tudo tal como é.

Para poder ultrapassar as minhas desculpas tive que passar algum tempo a amar o Emídio Coitadinho, o Emídio Magoado, o Emídio que mentia para agradar, o Emídio que tinha medo de perder, o Emídio Invejoso, o Emídio Cruel, o Emídio sem qualquer controlo sobre a sua vida.

Como podemos nós viver plenamente quando rejeitamos tantos aspectos de nós? Como pode alguém amar-nos quando nós não nos amamos a nós mesmos? Como podemos ser belos e magníficos quando gastamos tanta energia a negar aspectos de nós presentes na nossa alma?

É fácil amarmos quem somos quando somos alegres, ajudamos outros, somos úteis, gostamos do que fazemos. É fácil.

Mas como amar-nos quando passam por nós pensamentos de egoísmo, inveja, medo, culpa, vergonha? Só que enquanto não amarmos estes aspectos eles irão aparecer continuamente na nossa vida. Iremos atrair as pessoas que nos mostrem estes aspectos deserdados.

O mais difícil de amar é a vergonha. Fomos envergonhados ainda crianças. E essa vergonha impede-nos de sermos autênticos. E a pessoa que for capaz de afirmar que não possui uma carga emocional de vergonha está em negação. E para o próximo ano irá fazer mais um workshop, mais um livro de auto-ajuda. Irá acreditar que algures no futuro encontra-se o amor da sua vida. O futuro não existe. Só o presente. E no presente, seria capaz de sentir compaixão pela parte de si que sente vergonha? A parte de si que foi envergonhada e a quem foi dito “tu não mereces existir”?

Que tal começar o seu dia com uma simples questão? O que posso fazer hoje que me mostre que me amo?

As nossas crenças, aquelas que nos impedem de amarmos a totalidade da nossa vida, são paredes invisíveis que nos separam dos nossos sonhos. E têm como finalidade impedir-nos de ver e sarar as nossas feridas emocionais. Por detrás de cada crença negativa há uma ferida emocional à espera de ser sarada, amada e abraçada. E só depois podemos avançar.

Passei alguns dias com a Debbie Ford em Londres. Uma das crenças que eu ainda tinha relacionada com dinheiro era “o dinheiro entra facilmente na minha vida, e desaparece ainda mais facilmente”. Por detrás desta crença descobri uma ferida profunda de quando tinha 10 anos: fazia parte de uma turma em que as outras crianças eram filhos de pessoas com muito dinheiro (na minha perspectiva, claro). Os meus colegas tinham sempre as roupas da moda, os brinquedos da moda, etc. E eu não. E isso magoava. O facto de sentir-me menos que os outros, inferior.

Para sarar esta ferida tive que abraçar e amar o Emídio Invejoso. Não é fácil. Comecei por abraçar a minha incapacidade de sentir o Emídio Invejoso. E eventualmente ele veio à superfície. Foi como um soco no estômago. Fiquei fisicamente doente. Chorei. Abracei-me a mim mesmo. Dei-me a ternura e o carinho que não tinha recebido durante algumas décadas. O Emídio Invejoso apenas queria ser amado por ser quem era.

É aqui que os milagres sucedem. Quando amamos os nossos aspectos rejeitados eles deixam de nos atacar, deixam de querer chamar a nossa atenção. E todas as pessoas invejosas que atraímos simplesmente mudam ou afastam-se. Quando nos permitimos iluminar a escuridão em nós libertamo-nos, tornamo-nos completos.

E tu, estás preparado para abraçar o teu lado escuro? Estás preparado para abandonar por momentos o teu ego ferido e abraçar a totalidade que és? Estás preparado para abandonar as tuas desculpas e começar a amar a tua vida, tal como ela está agora? O amor é só isso: amar tudo tal como é, agora.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Receita para fazer do mundo à tua volta o teu inimigo

Guarda segredos – uma vida de segredos dá energia à sombra humana e aumenta o seu poder sobre a mente. Algumas das formas em que guardas segredos: negação, decepção deliberada, medo de te expores, condicionamentos provocados por uma família disfuncional, querer agradar compulsivamente os outros, não falar dos teus sentimentos.

Alimenta sentimentos de culpa e vergonha – todos somos falíveis. Ninguém é perfeito. Mas se tu tens vergonha dos teus erros e sentes culpa em relação ás tuas imperfeições, a sombra em ti ganha poder.

Aponta o dedo aos outros e a ti mesmo – se não encontrares uma forma de te libertar dos sentimentos de culpa e vergonha é muito fácil decidir que tu, ou os outros, mereces o que a vida te dá. Julgar os outros e a ti mesmo é a culpa com uma máscara para disfarçar a dor do ego.

Encontra alguém a quem culpar – uma vez que decidas que a tua dor interior é um assunto moral, irá ser-te muito fácil encontrar alguém a quem condenas por ser inferior a ti de alguma forma.

Ignora as tuas fraquezas enquanto criticas os outros à tua volta – este é o processo da projecção, que muitas pessoas não compreendem muito bem. Sempre que estás com alguém e o que sentes são emoções negativas (ansiedade, nervosismo, irritação, desespero, raiva, medo, etc.) estás a projectar aspectos teus que há muito rejeitaste. Sempre que explicas uma situação como sendo um acto divino ou diabólico, estás a projectar. Quando afirmas que “os outros” são os maus e tu o “bom”, estás a projectar. Se acreditas que o problema são “os outros” estás a projectar o teu próprio medo em vez de o assumir.

Cria a ilusão da separação – a partir do momento que separas o mundo em “nós” contra “eles”, irás automaticamente identificar-te com os “bons” enquanto os outros são os “maus”. Este isolamento cria um sentimento de medo e suspeita, os quais são ingredientes essenciais para o crescimento da sombra.

Luta para manter o mal à distância – este último ingrediente é o necessário para acreditares que a maldade está por toda a parte. O que acontece em realidade é que tu, enquanto criador de toda esta ilusão, acreditas na ilusão que criaste. E assim a tua sombra ganha o poder suficiente para comandar a tua vida.

Este processo é uma verdadeira espiral para baixo. Começamos por acreditar que temos que guardar segredos (desde o facto de alimentar um ódio para com o vizinho, até visitar sites pornográficos, todos têm segredos dos quais se envergonham). Estes segredos tornam-se numa fonte de vergonha e culpa. Entra em acção a auto-critica. Aqui torna-se muito difícil viver com quem somos, e então procuramos alguém a quem culpar. Este processo irá conduzir-nos à desilusão, isolamento e negação. Quando por fim deres por ti a lutar contra o pecado e a maldade, perdeste já há muito tempo a noção do facto básico que te salvaria: entraste neste processo de livre vontade ao fazer escolhas bastante simples.

Para escapar a tudo isto só tens que fazer escolhas opostas ás iniciais:

1. Pára de projectar;

2. Aceita Aquilo Que É e Deixa Partir;

3. Desiste de te julgar e julgar os outros;

4. Recria o teu corpo emocional.

A parte mais difícil é saber quando estamos a projectar. Algumas pistas:

Atitude de superioridade – afirmações que dizem que és melhor que os outros. Acreditar que a tua opinião é a única válida. Comparar-te com outros que estão na vida em pior situação que tu;

Sentimento de injustiça – queixares-te das coisas “más” que apenas te acontecem a ti. Sentir que não mereces aquilo que alguém disse de ti. Falar mal de alguém, segundo a tua perspectiva, e que magoou outros;

Arrogância – sentir-te tão acima de alguém que nem vale a pena pensar nessa pessoa. Irritar-te com a presença de outra pessoa;

Necessidade de te defenderes – acreditas que os outros te querem atacar. Ignoras o que outros dizem. Não consegues ouvir o que é dito, preferindo ouvir aquilo que não é dito, lendo nas entrelinhas;

Culpa – a atitude de “eu não fiz nada, foi-me feito.”Apontar o dedo e responsabilizar outros pela tua vida;

Colocar outros num pedestal – aceitar cada palavra proferida por um superior hierárquico como sendo a palavra única e verdadeira. Admirar alguém ao ponto de não conseguir ver os seus defeitos e apenas virtudes;

Preconceito – quando acreditas, por exemplo, que “os ciganos são todos iguais” ou “os árabes são perigosos”. Quando tens medo dos negros porque podem roubar-te;

Inveja – quando na tua mente passam pensamentos que dizem que o teu companheiro anda a trair-te. Ris-te quando alguém tropeça. Cobiças o emprego de um amigo;

Paranóia – ao acreditares em teorias de conspiração. “Eles andam aí”!

Quando te deparas com uma destas atitudes podes ter a certeza que há um sentimento inconsciente escondido na sombra e o qual não queres enfrentar. Deixo aqui alguns exemplos:

Superioridade – disfarça o sentimento que tens de que és um falhado ou de que outros te rejeitariam se soubessem quem tu és de verdade;

Injustiça – disfarça o sentimento de pecado, ou a sensação que és sempre tu o culpado;

Arrogância – disfarça a raiva contida, e por detrás dessa raiva esconde-se uma dor profunda;

Estar na defesa – disfarça o sentimento de que não mereces, de que és fraco. A menos que te defendas dos outros, irás atacar-te a ti mesmo;

Culpa – disfarça o sentimento de que estás em falta para contigo e deverias ter vergonha por isso;

Colocar alguém num pedestal – disfarça o sentimento que és fraco, uma criança desamparada que precisa de protecção e segurança;

Preconceito – disfarça o sentimento de inferioridade e merecer ser rejeitado;

Inveja – disfarça os teus impulsos para tudo o que é proibido ou mal visto pela sociedade, ou a sensação de uma sexualidade doentia;

Paranóia – disfarça uma ansiedade profunda.

Krishnamurti disse algo de intemporal e em que acredito profundamente: “Tu não estás no mundo, o mundo está em ti.”

Por este motivo é que faço este trabalho da sombra humana. Em cada seminário em que alguém consegue curar as suas feridas e abraçar a sua sombra eu sei que um pedaço de quem eu sou foi curado. Não há um “tu” e um “eu”. Há um “nós”. Se num seminário vejo alguém arrogante tenho que me perguntar “de que maneira sou arrogante”?

Escrever num caderno tudo o que criticamos nos outros e nos afecta e descobrir depois de que maneira somos iguais é o primeiro passo para sarar as feridas da nossa alma.