segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amor Incondicional

Começa por fazer duas respirações profundas, sem qualquer objectivo para além de que sabe bem respirar fundo... E agora recorda-te de um momento da tua infância especialmente delicioso. Quando tinhas não mais que 3 ou 4 anos de idade. Um momento em que sentiste que a vida era um gozo. Em que desfrutavas completamente de ti mesmo....

Talvez um momento em que brincavas com a tua boneca favorita, ou construías um carro lego... ou talvez um momento em que te divertias a cantar ou a dançar para ti... ou em que ajudavas a tua mãe ou pai a limpar a casa... Um momento em que nada era importante a não ser o prazer de desfrutar daquilo que estavas a fazer....

O que sentiste nessa altura foi amor incondicional por quem tu eras e pela vida tal como se apresentava. Um amor por tudo tal como estava a acontecer. Amor puro.

E talvez os adultos à tua volta te tenham aplaudido. Talvez tenham dito a menina bonita que eras ou menino bem comportado que eras. Talvez tenham sorrido e manifestado um gesto de carinho especial. Por tu te amares tanto que desfrutavas da vida a 100%.

Só que no preciso momento em que outros aplaudiram a tua experiência de amor-próprio, puro e incondicional, o teu ego aprendeu algo de pérfido: os outros amam-me.

Este foi o primeiro erro. Acreditar que o amor vinha dos outros, quando em realidade o amor estava já em ti e era sentido por ti.

O teu ego passou a acreditar que o que tu fazias era responsável pela quantidade de amor presente na tua vida. E que o amor vinha dos outros. A primeira e mais brutal mentira que o ego te poderia contar.

Aquele aplauso inicial fez-te acreditar que era importante ser amado por outros. Era importante ser amado para ter o sentimento que existia já dentro de ti. E que nunca te abandonou.

O que os adultos que te aplaudiram disseram foi isto: “o que tu fazes deixa-me feliz. E quando estou feliz pelo que tu fazes, eu amo-te.”

E transferimos assim a capacidade de sermos felizes para os outros, para aqueles que nos rodeiam.

O que o ego pensa é simples: se eu fizer aquilo que os outros gostam, então irei ter a sua aprovação e, por conseguinte, os outros irão amar-me. E irei ter novamente a experiência de amor puro e incondicional.

E nem por um só momento a criança é capaz de ver que o amor não vem dos outros, este amor que está já em si, a expressar-se através de uma brincadeira inocente.

E a criança irá tentar voltar a ter a mesma experiência. Irá fazer a mesma coisa que provocou a aprovação dos adultos à sua volta. Só que com cada repetição os adultos à sua volta vão perdendo o interesse na criança. Torna-se mais e mais difícil conseguir a mesma experiência de amor dos adultos.

E esta criança, que és tu, irá começar a fazer o mesmo jogo dos adultos. Este jogo que diz, se me amas farás assim... se me amas ficarás no teu cantinho... se me amas, brincarás comigo... se me amas, cantas para mim e fazes-me feliz... se me amas então terás que ser agradável, sorridente, bem-comportado e estar atento ás minhas necessidades.

E esta criança vai brincar com o seu melhor amigo. E na sua mente irão jogar à bola, ou brincar com as bonecas. Mas o melhor amigo prefere ver televisão, ou saltar à corda. E esta criança fica magoada. O pensamento na sua cabeça é este: “se fosses mesmo meu amigo, farias o que eu quero fazer.” E não sabe que o seu melhor amigo está a acreditar neste mesmíssimo pensamento.

E é assim que aprendemos a desrespeitar-nos. Aprendemos que para termos amigos temos que fazer o que eles querem, e eles têm que fazer o que nós queremos. E negamos uma parte de quem somos.

E tudo isto porque queremos voltar a ter aquela experiência inicial de amor puro e incondicional. E que esteve sempre dentro de nós, nunca fora!

Quando mais tarde nos apaixonamos iremos fazer tudo o que é possível para agradar à outra pessoa. E esperamos que ela faça o mesmo em relação a nós! Queremos que a outra pessoa também finja ser quem não é para nos agradar.

Por exemplo, o Manuel apaixona-se pela Maria. E sabe que ela gosta de passear nos centros comerciais. Para ter o amor da Maria, o Manuel irá dedicar-se durante algum tempo a passear de mão dada nos centros comerciais. A Maria, por outro lado, sabe que o Manuel gosta de se sentar em esplanadas a beber uma cerveja. E assim, a Maria irá fingir que gosta de se sentar numa esplanada, para conseguir o amor do Manuel.

O António irá fingir que gosta de dar beijos enquanto a Francisca finge que gosta de ser apalpada pelo homem da sua vida. A Fátima irá fingir que gosta de estar horas a ver televisão, enquanto o Pedro irá fingir que gosta de comida indiana. O João irá fingir que gosta de ir à discoteca, enquanto a Susana finge que gosta de cozinhar para os amigos do João.

É muito fácil acreditar nas falsas necessidades do nosso ego quando acreditamos que amamos outro. Seja um filho, um colega de trabalho ou o cônjuge. O que o ego acredita é qualquer coisa como isto: “Eu preciso de ver onde tu estás. Eu preciso que me digas o que estás a pensar. Eu preciso que me digas a verdade (a minha verdade, claro). Eu preciso que nunca me abandones. Que confies plenamente em mim. Que acredites em tudo o que eu digo. Que nunca te atrases. Que cumpras as tuas promessas. Que sorrias continuamente. Que me dês a mão quando passeamos. Que me ouças atentamente. Que estejas disponível para mim. Que me ajudes. Que vivas comigo para sempre. Que me dês tudo o que eu preciso de ti. Que me apoies e me dês segurança. Que concordes sempre comigo. Que vejas sempre que estás errado. Que saibas quando quero estar só. Que saibas o que eu quero de ti sem que eu tenha que te dizer. Que sejas mais afectuoso. Que sejas mais sensível. Que sejas menos sensível. Que deixes de ser amigo das pessoas de quem eu não gosto. Que sejas mais simpático para com os meus amigos. Que gostes da mesma música que eu. Que me ames sem questionar esse amor.”

E assim acreditas que os outros devem obedecer a todos os teus desejos. Isto pode parecer-te cruel, ao ouvi-lo agora. Mas olha para a tua vida e observa-te. Observa se não é assim que tens vivido. E é assim que consegues manter a ilusão da separação e aumentas o sentimento de impotência, frustração, depressão e raiva.

Mas há uma forma directa para conseguires tudo aquilo que desejas dos outros.

Em primeiro lugar, aprende a ser íntegro. Se para ti é importante que a pessoa amada se lembre dos teus anos, diz-lhe. “Querida, é importante que tu te recordes do meu aniversário. Por favor anota a data na tua agenda.” Estarás a ser honesto contigo.

Mas há mais que podes fazer. Por favor, de início, quando começares a aplicar o que te vou ensinar agora, sê carinhoso para contigo. Dá a ti mesmo o afecto e compreensão que pensas precisar dos outros.

Uma vez dei por mim a viver na rua, em Londres. Fui sem-abrigo durante uns dias. E durante esse tempo sofri a pensar como precisava de ter uma casa, e precisava de tomar banho, e precisava de me alimentar. E sofria. Um dia acordei, debaixo de um viaduto e só conseguia rir. Ria-me pelos pensamentos que iam na minha cabeça. Como podia pensar que devia estar a viver numa casa quando era na rua que vivia? Era óbvio que devia viver na rua, porque era aí que vivia. A realidade é sempre muito carinhosa. Mostra-nos sempre onde devemos estar. Eu devia estar a viver na rua, pelo simples facto de que era aí que estava a viver.

E na tua vida é precisamente a mesma coisa. Tu precisas exactamente daquilo que tens neste momento. Se neste momento estás numa relação caótica, é de uma relação caótica que precisas. Se estás a viver só, é de viver só que precisas. Se não tens dinheiro, é porque precisas de viver sem dinheiro. Se estás desempregado, é porque precisas de estar desempregado. Como sei que isto é verdade? É a realidade. E a realidade ganha sempre. Por mais que tentes manipular as pessoas que amas, a realidade irá dar-te sempre os relacionamentos que precisas. E cada relacionamento acontece para o teu bem, independentemente de gostares ou não da experiência.

Então já sabes, tu precisas daquilo que já tens. Como é que sabes que não precisas de te levantar? Estás deitado. Como é que sabes que precisas de estar sentado? Estás sentado. Imagina deitar-te e pensar que precisas de estar a andar. Uma loucura. Acreditas que precisas de tomar uma decisão. Não precisas, até que a decisão seja tomada.

O caminho mais directo para a felicidade é este, tu precisas apenas daquilo que está à tua frente. E o que está à tua frente irá sempre crescer. O que está à tua frente é sempre aquilo que é. À tua frente está amor disfarçado de mil e uma maneiras.

Os pensamentos na nossa cabeça são qualquer coisa como isto: eu preciso do amor do outro, e estou disposto a sacrificar um pouco de mim para ter esse amor. E espero que aquele que me ama esteja também disposto a fazer alguns sacrifícios para me amar. E ainda: eu preciso do apoio e segurança do outro, e estou disposto a fazer de conta que gosto do mesmo que ele gosta para ter esse apoio e segurança.

E temos o reverso da medalha também. Esperamos que a outra pessoa faça o mesmo. Esperamos que a outra pessoa também finja gostar do que nós gostamos. Acreditamos que o amor na nossa vida vem de fora. São os outros a fonte do nosso amor. E começamos a criar o nosso inferno pessoal.

É assim que usamos os outros como uma droga. Tornamo-nos ditadores. Para eu estar bem preciso que os meus filhos não chorem. Para eu estar bem preciso que os meus colegas me respeitem. Para eu estar bem preciso que o meu cônjuge aprove os meus gostos. Para eu estar bem preciso que os outros sejam quem eu quero que sejam.

E nas nossas cabeças passam a circular todas as regras e padrões que os outros deveriam respeitar, para estarmos bem. E tentamos também seguir as regras e padrões daqueles que são vitimas do nosso amor.

Só que estas regras nunca foram escritas nem faladas. Nunca foram discutidas. Só sabemos que existem quando as rompemos. E quando rompemos uma regra e não sabemos que era uma regra, não nos atrevemos a perguntar o que foi que fizemos de errado, porque há ainda outra regra escondida nos relacionamentos: tu devias saber o que fizeste de errado para me deixar triste, ou enraivecido, ou magoado, ou ansioso, ou, ou, ou...

Já alguma vez assististe a uma discussão entre dois adultos que aparentemente se amam?... Observa. Observa quando discutes com aqueles que amas. Acreditas mesmo que amas essa pessoa com quem estás a discutir? Como é possível abusar, física ou verbalmente de alguém que amamos? A verdade é que o nosso amor é condicionado, adulterado.

Claro que não amamos. Porque o amor ama tudo aquilo que é. Tudo é amor. E quando discutimos estamos em realidade a dizer à outra pessoa, seja o cônjuge ou um filho ou amigo, “O meu amor tem um preço, e se não estás preparado para pagar esse preço, estas são as consequências.” E cobramos.

E tudo porque queremos repetir a experiência do amor incondicional que sentimos dentro de nós, e que nós mesmos criámos, quando ainda crianças.

Enquanto precisares dos outros para te sentir bem, nunca serás capaz de experienciar o amor incondicional. Simplesmente não é possível. O que fazes é manipular os outros para que gostem de ti, da mesma forma que te manipulas a ti mesmo para gostares dos outros. É assim que te afastas do amor verdadeiro.

Uma forma de começar a amar-te é estar atento ao que queres dos outros. E só queres uma coisa: sentir-te bem contigo. Seria mais fácil se te respeitasses e não fingisses ser quem não és. Seria mais fácil amar-te se não precisasses de um intermediário.

Se o teu filho chora, em vez de tentar mil e uma manobras para que se cale, não seria mais fácil assumir o que pretendes dele? “Filho, eu preferia que não chorasses para eu me sentir bem”. Esta é a verdade. Poderias sentir-te bem independentemente do teu filho chorar ou não? Independentemente do teu filho se portar bem ou não (e quando um filho se porta mal lembra-te que o mau comportamento é julgado segundo os teus padrões de certo e errado).

E se o teu marido se esquece do teu aniversário, em vez de amuar e esperar que ele adivinhe porque estás amuada, poderias simplesmente dizer-lhe que estás amuada porque para ti é importante que um marido se lembre sempre do teu aniversário?... E que para te sentires bem precisas que o marido se lembre do teu aniversário? Isto é ser-se íntegro.

E quando um colega fala mal de ti no trabalho, em vez de fazeres o mesmo e contar aos teus amigos como esse colega é venenoso, poderias falar com o colega e dizer-lhe a verdade? E a verdade é que adorarias controlar o que os outros dizem de ti e não te sentes bem quando não o consegues fazer. E para te sentires bem precisas que toda a gente fale bem de ti. Seria muito mais honesto.

E quando a tua filha adolescente te pede para sair à noite, em vez de te preocupar e dizer que não a deixas sair porque é muito jovem, ou não tem experiência, ou é perigoso, poderias ser honesto e dizer-lhe que não queres que ela saia à noite porque tu precisas de te sentir bem contigo e se lhe acontecer alguma coisa irás sentir-te culpado? Seria muito mais amoroso.

Sempre que dizes ou fazes algo para agradar aos outros, ou para conseguir algo dos outros, ou para influenciar os outros, estás a agir a partir do medo. Medo que não te amem, que não aprovem quem tu és, que não te reconheçam. E o resultado do que dizes ou fazes será sempre a dor. Estarás a manipular os outros e assim manter a ilusão da separação. Acreditas que o amor puro vem de fora. E precisas de ser amado. Um inferno.

No momento em que tentas adquirir o amor de outro perdes completamente a experiência do amor. Não consegues ver o amor que está já em ti. Sempre que ages a partir do medo não conseguirás ter a experiência do amor. Estarás preso a pensamentos que te dizem o que tens que fazer para ser amado. E qualquer pensamento originado a partir do medo impede-te de ter a experiência do outro.

Sempre que tentas o reconhecimento ou a aprovação dos outros tornas-te na criança que grita “Olhem para mim! Gostem de mim!” Tornas-te necessitado. Necessitado do amor dos outros. E se os outros não gostarem de ti?... Sofres. E perdes a experiência do amor que existe dentro de ti. Outras vezes acreditas que és livre e não precisas da aprovação dos outros, e explicas-te dizendo que não te importas que os outros não gostem do teu carácter. Mas importas-te, e muito. Por que outro motivo te esforças tanto para ter razão?...

Ensinaram-te que quando se ama outro, e esse outro está em sofrimento, deves sentir compaixão. E a compaixão é sentir a dor do outro. Mais uma mentira.

Nunca poderás sentir a dor do outro. Apenas podes recordar-te de um momento do teu passado em que sofreste e projectar esse sofrimento sobre o outro. E assim, a pessoa que sofre passa a sofrer duas vezes mais. Sofre a sua dor e a dor que tu estás a projectar sobre ela. Um inferno. Em realidade a compaixão nada mais é que amar tudo tal como é, sem querer impor a nossa vontade. Quando te amo verdadeiramente não imponho condições. Não penso que seria melhor se não estivesses doente. Como posse dizer isso quando estás doente? Não te consigo ver na totalidade. Na minha mente estou a imaginar alguém que não existe: tu sem uma doença. E não sou capaz de te ver nem de te ouvir.

Amar significa que é perfeitamente ok tu estares mal. E se quando tu estás mal eu conseguir estar em paz, é paz o que irei projectar sobre ti. Só assim consegues sentir alivio pela tua dor quando estás comigo.

Uma vez visitei uma amiga que me telefonara meia hora antes a dizer que estava a morrer. Já quase não conseguia respirar, não tinha forças. E acreditava que tinha um cancro nos pulmões. Fui visitá-la feliz por ter a oportunidade de lhe dizer adeus. E feliz por poder participar em algo tão maravilhoso como ver alguém que deixa um corpo físico e está consciente de todo o processo. Estava radiante. A alegria estática de dar a mão a alguém que parte fisicamente. Levava comigo compaixão. E isto significava apenas uma coisa: é ok morreres. A morte é o inevitável da vida. Não fingi nunca. Estava feliz e em paz. E quando cheguei a casa desta amiga ela estava em pé, abraçou-me com força, falava alto e respirava profundamente. Talvez eu tivesse projectado sobre ela a serenidade e alegria do momento e ela só podia experienciar aquilo que eu projectava. Não sei. O que sei é que o Universo a tinha escolhido a ela para ter a experiência de não conseguir respirar, e tinha-me escolhido a mim para observar a sua experiência. Delicioso.

Se soubermos que cada momento é precioso e único e perfeito, não nos é possível ter outra experiência para além do amor incondicional. Para sofrermos temos que nos tornar ditadores. Decidir como os outros devem ser. Temos que acreditar que o amor é algo exterior a nós. E nunca é.

Outra forma muito utilizada para adulterar o amor é a cobrança de um favor. Ajudamos alguém e, aparentemente, fazêmo-lo de uma maneira altruísta, sem esperar nada em troca. Ou pelo menos é o que dizemos ao nosso amigo. E um dia depois descobrimos que esta pessoa que ajudámos altruisticamente anda a falar mal de nós nas nossas costas. E revoltamo-nos. E imitamos o amigo, ao falar mal dele por falar mal de nós. Anedótico. E em realidade estamos a cobrar a ajuda do dia anterior. O que pensamos é qualquer coisa como isto: “Ajudei-te e o preço da minha ajuda é tu falares bem de mim.”

Quando escolheres ajudar alguém fá-lo sem segundas intenções. Não queiras mais tarde cobrar. Irás sofrer. Garantido. Ajuda pelo prazer de ajudar. Pelo privilégio de a Vida te ter escolhido a ti para ajudar alguém que precisava de ajuda. E depois esquece. Assim consegues estar no momento presente. Nunca cobres o que quer que seja que faças por outro ser humano.

Experimenta pelo menos uma vez por dia ajudar alguém que não possa retribuir a tua ajuda. Pode ser um sorriso a alguém na rua. Pode ser um telefonema a um familiar. Uma oferta a uma instituição. E para ser uma ajuda verdadeira, pura e incondicional, nunca digas a ninguém o que fizeste. Já passou. O momento de ajudar passou, como tudo passa na vida. Lembra-te apenas disto: tu recebes no preciso momento em que dás.

Só ficamos magoados com os outros por um único motivo: acreditamos que precisamos do amor do outro. E quando o outro não demonstra o seu amor por nós, da maneira específica que nós idealizámos, iremos sofrer. Acreditamos que somos o centro do universo. Vêm à mente ideias loucas como “se me amasses não farias isso” ou “se gostasses de mim então dirias isto”...

E é aqui que reside uma grande anedota cósmica da vida: queremos os outros felizes e em paz com a vida antes de estarmos nós felizes e em paz com a vida. Sabias que para haver uma guerra são precisas pelo menos duas pessoas, e ambas querem ter razão?... E sabias que para haver paz basta apenas uma pessoa, que não precisa de ter razão?... É a pessoa que ama incondicionalmente, sem querer que tu mudes ou sejas diferente de quem és.

Pondera um pouco sobre isto: na tua vida não há nada, neste momento, que não seja amor incondicional da vida para contigo.

E se estás neste momento com um problema grave de saúde, poderias dedicar algum tempo a descobrir todas as bênçãos presentes no teu estado de saúde?... E se não tens dinheiro, poderias dedicar algum tempo a descobrir as bênçãos presentes na tua situação?.. E se alguém que pensavas amar se afastou da tua vida, podes ainda ponderar a possibilidade dessa separação ser para o teu melhor bem?... Porque é sempre.

Nós recorremos à nossa beleza, à nossa inteligência, afecto e humor para capturar outra pessoa com quem partilhar a vida, como se a outra pessoa fosse um animal. E quando este animal tenta sair da jaula que nós criámos, tornamo-nos violentos, ou ressentidos, ou deprimidos. Perdemos o animal capturado que julgávamos possuir. Isto pode ser muitas coisas, mas amor não é. E depois ainda temos a coragem de dizer que a outra pessoa nos magoou. Não é amor-próprio. Eu quero que tu queiras o que tu queres. Seja como for, é isso que tu queres, independentemente de eu gostar ou não das tuas escolhas. O amor incondicional é mesmo isto: desejar que os outros sejam quem são, e não quem nós queremos que sejam. Eu escolho amar-te a ti, e o meu amor por ti é tão puro e incondicional que ficarei feliz se tu escolheres amar outra pessoa que não eu. Quem tu amas é um assunto que só a ti te diz respeito, da mesma maneira que quem eu amo é um assunto que só a mim me diz respeito.

Eu quero para ti o que tu queres para ti. E se eu quiser para ti algo que tu não queres irei criar uma guerra com a realidade. E a realidade tem uma maneira mágica de vencer sempre.

Lembra-te continuamente que o teu ego não quer amar, quer coisas. O ego quer que os outros o compreendam, que os outros gostem dele, que os outros façam as coisas à sua maneira, que os outros sejam, no fundo, quem não são.

Os sentimentos de mágoa que possas sentir não podem nunca ser causados pelos outros, não é possível. Ninguém me pode magoar, simplesmente não é possível. Apenas eu posso magoar-me. Sou eu que me magoou ao acreditar em pensamentos que são mentira. Quando acredito que os outros deveriam ser diferentes de quem são. Se alguém faz afirmações pejorativas sobre mim sou eu quem decide levar a peito o que é dito. Sou eu quem decide acreditar no que é dito sobre mim.

Acredito que a pessoa com quem tenho uma relação, seja o cônjuge, o filho ou o colega de trabalho, deveria respeitar-me. Mas se eu faço sacrifícios para que o outro goste de mim, quem é que não se está a respeitar? Quem é que se está a faltar ao respeito?

A única relação íntima que alguma vez terás será sempre contigo mesmo. O único casamento possível é contigo mesmo. Os outros são os bónus que damos a nós mesmos. Esperas que a outra pessoa te ame incondicionalmente, mas és capaz de amar-te a ti incondicionalmente? E se te amares incondicionalmente então serás capaz de amar a outra pessoa, mesmo que ela se afaste. E se esperas que o outro te compreenda, poderias começar tu a compreender-te e saber que ninguém tem que te compreender? E se esperas que o outro seja simpático para contigo, poderias tu começar a ser mais simpático contigo mesmo e amar o outro quando não sabe ser simpático?

A única relação que podes ter é contigo mesmo. O que tu pensas dos outros é de ti que se trata. A pessoa com quem tens uma relação íntima neste momento é o teu melhor mestre. Irá sempre mostrar-te o que tens ainda para aprender sobre ti mesmo. Onde ainda não te amas, onde não te aceitas, onde ainda guardas rancor.

Quando falares de outra pessoa é de ti mesmo que estás a falar. Não há excepções. Os conselhos que dás aos outros são sempre para ti, mas tens que os verbalizar para te poderes ouvir.

Sempre que acreditares que precisas do amor de outra pessoa irás sofrer. A ideia que tu tens do amor é fabricada no ego e raramente os outros correspondem a essa ideia. Para alguém poder mostrar-te continuamente que te ama irá ter que fingir ser quem não é. Onde é que tu andas a fingir ser quem não és?

Há duas crenças doentes que todos partilhamos relacionadas com o amor. Primeiro acreditamos que para ter o amor dos outros temos que os manipular, sendo amáveis, simpáticos, dando-lhes o que pensamos que precisam, sorrindo, cedendo aos seus caprichos. E depois acreditamos que o amor é conseguirmos o que desejamos dos outros. Quando conseguir fazer o outro feliz, quando conseguir um abraço do outro, quando conseguir aliviar a dor do outro. Ou seja, o amor irá encontrar-se sempre num futuro que não existe.

Esperamos que a pessoa que amamos seja íntegra e honesta, mas quando lhe pedimos algo esperamos ouvir um “sim” que pode ser dito para nos agradar e nunca a resposta que a outra pessoa quer dar. Ficamos magoados se a outra pessoa nos responde “não”. Mas se eu amo alguém verdadeiramente, então ficarei feliz com o seu “não”. É a resposta verdadeira dada a partir da integridade da outra pessoa. Eu quero que a pessoa que amo viva a sua integridade, mesmo quando isso significa que essa pessoa não está disponível para me dar o que espero dela. Em realidade eu só espero da outra pessoa o que quer que seja que ela me queira dar. E se não me quiser dar nada, excelente. Não imponho qualquer condição para amar.

Quando dizemos a alguém que não conseguiríamos viver sem essa pessoa, estamos a usar essa pessoa e a responsabilizá-la pela nossa existência. Fazemos isto sobretudo em relação aos filhos. Pensamos “se o meu filho morresse não era capaz de viver”. Ou seja, de repente os filhos são responsáveis pela nossa própria existência. Como podemos depois experienciar um filho se ele é o responsável por estarmos vivos? E para o nosso ego parece uma coisa horrível pensar de maneira contrária. Mas a partir do momento que eu preciso que outros vivam para eu poder viver, estarei a usá-los como uma droga. E irei experienciar os outros a partir do medo de os perder. E onde existe medo não pode existir amor. Simplesmente não é possível.

Isto também acontece ás pessoas que ainda acreditam na história das almas gémeas. Acreditam que há outra pessoa que as completa. Enquanto acreditarmos que só somos completos na presença de outra pessoa não poderemos ter a experiência de amar incondicionalmente essa pessoa. Precisaremos dela para nos completar. A realidade é que só quando nos sentimos completos é que podemos experienciar a outra pessoa na sua totalidade. Sem precisar.

Poderíamos parar este jogo de precisar dos outros para estarmos bem? É que enquanto precisarmos dos outros, iremos sofrer sempre. Mas quando nos amamos completamente iremos colocar-nos num espaço em que o outro é livre para ser quem é. E somos capazes de amar incondicionalmente. Sem precisarmos de fingir sermos quem não somos. Fingir exige muita energia.

Sempre que estiveres na presença de alguém que amas e sentires stress podes ter a certeza de duas coisas: estás a acreditar numa mentira sobre a outra pessoa e, não menos importante, estás a tentar manipular essa pessoa. Neste caso olha a pessoa nos olhos, imagina-te no seu lugar. Sente a pessoa que amas no teu coração. Ela está a fazer o melhor que é capaz nesse momento. Sem impor qualquer condição, poderias simplesmente amá-la?

Sempre que olhares para aqueles que amas e vires falhas descobre de que forma essas falhas são uma oportunidade para amar essa pessoa. Pode ser que a pessoa que amas seja gananciosa, ou antipática, ou fala com a boca cheia, ou fala muito alto... Se não conseguires amar a pessoa por causa daquilo que percepcionas como falhas, eventualmente irás atacá-la. Com raiva. Ou então tornas-te frustrado e entras em depressão, impotente para mudar as falhas aparentes da pessoa que amas.

Uma forma simples de começar a amar-te a ti mesmo é deixando de procurar a aprovação dos outros. Quando não precisares que os outros aprovem quem tu és, descobres que não precisas de te defender. E quando não precisas de te defender não é possível estar em guerra com quem quer que seja. Quando te sentes bem contigo, independentemente do que acontece à tua volta, não precisas que os outros te amem. Sentes-te completo. Incondicionalmente completo.

Ao acreditares que os outros deveriam ser diferentes de quem são é o mesmo que acreditar que o céu deveria ser terra, ou que um pássaro deveria ser uma árvore. É desejar que aquilo que é não seja. E ao viver assim impedimo-nos de ter a experiência do amor incondicional.

Sê íntegro contigo mesmo. Diz aqueles que amas o que realmente esperas deles. E à medida que te fores conhecendo irás descobrir que não precisas nada dos outros. O que quer que seja que os outros façam ou digam é o que tu queres que eles façam ou digam.

Diz a ti mesmo sempre que estiveres em frente daqueles que amas: “eu amo-te e tu és livre para amar quem tu quiseres.” E sente o que pensas. É a verdade do amor incondicional.

E depois de tudo dito, só posso desejar-te uma aventura deliciosa de amor. Bem-hajas por estares presente para ti.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Amor é Tudo

A maior parte das pessoas, quando fala de amor refere-se a um conceito criado pelo ego. O amor entre pais e filhos, o amor pelo trabalho, o amor pelo dia de sol. E mantêm assim a separação, ou a ilusão da separação. Ainda não conseguem sentir que Tudo é Amor. Uma formiga não é menos amor que a minha perna direita. Um soldado que dispara a metralhadora não é menos amor que uma bênção de um líder religioso.

Outra coisa interessante sobre o amor é que não se consegue ensinar, apenas experienciá-lo.

Por vezes estou com pessoas, ou só a saborear uma torrada amorosa, e sou invadido por orgasmos intensos de suprema felicidade. A Vida experiencia-se através de mim. Não escolho nada. A Vida fá-lo na perfeição.

Não escolho respirar, nem escolho quais os dedos que pegam na torrada. Nem escolho a pessoa que está à minha frente. Amoroso.

E descubro que não há morte. A Vida amorosamente a experienciar-se num ciclo interminável.

Estou a ouvir música e não fui eu quem a escolheu ouvir. E é deliciosa.

E depois de mais de quarenta anos a querer descobrir os “porquês” da vida delicio-me nos “porques”. A resposta a tudo é “porque sim”. Delicioso.

Porque há nações em guerra? Porque sim. Não tenho uma opinião formada quando me encontro assim. Deliciado com a Vida tal como é.

O meu assistente filtra os meus emails. Ele diz que é para me poupar tempo. Delicioso. Não tive que decidir isso. A minha amiga Augusta convida-me para jantar. Também não tive que decidir ir. Se me convidou é porque era para ir. E o jantar é uma salada de tomate e abacate e uns bifes com arroz de ervilhas. Como muita pouca carne, mas se está à minha frente num prato, é óbvio que é para comer. Como bastante salada. Tudo delicioso.

A mãe do querido Rui caiu e tem um golpe na cabeça. Ela não escolheu cair. Nem escolheu o golpe. A Vida escolheu por ela. Delicioso. O golpe foi perfeito, no local perfeito da sua cabeça perfeita. E o sangue que saía também era perfeito. E como é que sei que era eu quem devia cuidar do ferimento? A Augusta pediu-me.

E cada movimento, cada gesto, cada palavra, brotam da Vida através de mim. Sem luta. De braços abertos.

Como é que eu sei que devias ler isto? Estás a ler.

Deveria estar preocupado com o dia de amanhã? Que inutilidade. Amanhã não existe. Ainda.

Mas neste momento a Vida experiencia-se através de mim na totalidade. A sensação de enfartamento que sinto no estômago é perfeita. Manifesta-se com precisão tal como deveria ser. Como sei que deveria sentir-me enfartado? É assim que me sinto.

Entretanto ouço uma voz na minha cabeça que me diz que estou com sono e que quero dormir. Delicioso.

A Vida é sempre tão carinhosa. Tenho que viajar até um passado que já não existe ou um futuro que também não existe para conseguir sofrer.

Só há amor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vivemos num mundo onde a razão é esquizofrénica.

Fomos educados a acreditar que é responsabilidade dos outros respeitar-nos, apreciar-nos e amar-nos.

E depois carregamos ás costas o estandarte do mártir. E queixamo-nos.

A nossa vida é feita de muitas histórias, todas elas recicladas. As histórias que contamos a nós mesmos mil vezes ao dia, e que se têm repetido ao longo de milhares de anos, soam a isto:

- tu devias amar-me;

- o meu patrão devia reconhecer o meu trabalho;

- o meu filho devia ser um bom estudante;

- eu preciso de mais dinheiro;

- eu quero um trabalho seguro;

- tu não deverias falar mal de mim;

- eu preciso que os meus amigos me respeitem;

- as pessoas deveriam ser simpáticas;

- os governantes precisam de olhar pelo seu povo;

- o meu corpo devia ter uns quilos a menos;

- etc. etc. etc...

Todos os “deveria”, “preciso” e “quero” que contamos a nós próprios são histórias em perfeita confrontação com a realidade.

As histórias que contamos a nós próprios, e que nos fazem sofrer, colocam sempre o poder das nossas vidas nas mãos de outros. E enquanto o poder das nossas vidas estiver nas mãos dos outros só podemos experienciar a impotência, a angústia e ansiedade de não saber o que irá acontecer a seguir. Vivemos no presente com a mente num eterno futuro que nunca acontece. O futuro é agora. E agora. E agora.

Eu conto uma história sobre o meu pai. Nessa história o meu pai deveria ter-me respeitado, amado e reconhecido o meu valor. De acordo com os meus padrões, é claro.

E de cada vez que vejo o meu pai lembro-me da minha história sobre quem ele é e quem deveria ser. E sofro.

No lugar de pai, sente-te livre para colocar marido, pais, alunos, governos, vizinhos, amigos, colegas ou amante.

Quando te amo e espero que me ames de volta não estou a ser íntegro. Isto é tudo menos amor. Em realidade é cobrar um preço pelo que chamo de amor.

E se eu não acreditasse nas minhas histórias? Se não fosse possível acreditar que tu deverias ser diferente de quem és?

Eu sei que todo o mundo me ama. Mais de sete mil milhões de pessoas amam-me. Só que é provável que muitas ainda não estejam conscientes desse amor. Mas isso não me impede de amar cada ser humano tal como é, sem querer que seja diferente.

Se é assim tão fácil amar-te, respeitar-te, ou valorizar-te, poderias começar por dar-nos o exemplo? Poderias começar a amar-te sem esperar nada de volta? Poderias começar a respeitar-te, sem qualquer exigência? Poderias começar a valorizar o simples facto de existires?

Enquanto precisar que outros me valorizem, amem ou respeitem, irei viver sempre num inferno. Irei estar sempre à defesa. Sempre à espera da próxima agressão, ainda que inconsciente de que o faço.

Ouço professores que se queixam de alunos desobedientes e barulhentos. E não conseguem ver as mil e uma maneiras que eles próprios não se obedecem nem ouvem o ruído infernal nas suas cabeças. Os alunos apenas lhes mostram o que andam a fazer, inconscientemente.

Ouço pais a queixarem-se dos filhos que não estudam. E quando lhes pergunto se gostam de estudar, e o que andam a estudar, olham para mim como se lhes tivesse perguntado sobre a possibilidade da existência de vida em Neptuno. Se estudar é assim tão divertido e excitante, poderiam os pais ser o exemplo para os filhos?

Ouço mulheres a queixarem-se que os maridos não lhes dão carinho. E quando lhes pergunto quando foi a última vez que deram um carinho ao marido, sem esperar nada em troca, olham-me como se tivesse proferido uma heresia.

Queres mais amor na tua vida? É fácil. Dá a ti mesmo esse amor. Mostra-nos que é fácil amar-te, amando todos à tua volta, especialmente de acordo com os teus padrões (e isso inclui-te primeiro a ti como aquele que ama). Isso é amor.

Queres mais respeito na tua vida? Dá o exemplo. Começa por te respeitar a ti mesmo. Deixa de te preocupar com o que os outros possam dizer de ti, deixa de fazer fretes, e, por favor, pára de falar mal das pessoas que não estão presentes. Isso é respeito.

Queres que os outros reconheçam o teu trabalho? Que tal começares por te valorizar a ti mesmo? Onde tens valor? Não precisas que os outros digam que és bom, só tu podes fazer isso.

Enquanto tivermos uma história sobre como a vida deveria ser, como os outros deveriam ser, iremos criar um inferno nas nossas vidas.

A realidade é sempre carinhosa. Mostra-nos sem qualquer decepção aquilo que é. E nós acreditamos que somos Deus, e exigimos que a realidade mude e seja diferente daquilo que é, para podermos estar bem. Um horror. Uma história, incompatível com aquilo que é.

E as perguntas que me fazem são sempre as mesmas: mas não deveríamos querer um mundo sem guerra, um mundo de amor e compreensão?

Claro que sim. E se é assim tão fácil estar continuamente em paz e a amar tudo e todos, poderias começar por dar-nos o exemplo? Em vez de exigir que os outros mudem, poderias mudar tu? Tu és o nosso professor. Através do teu exemplo.

Começa a resgatar o teu poder. De cada vez que te ouvires a pensar “ela deveria amar-me” inverte o pensamento: eu deveria amar-me. E ama-te, sem impor condições ao teu amor. E de cada vez que te ouvires a pensar “eles deveriam estar sossegados” inverte para: eu deveria estar mais sossegado (sobretudo na minha cabeça). É sempre de ti que se trata.

A realidade é carinhosa. Ama-nos incondicionalmente. Mostra-nos sempre aquilo que é, sem histórias nem segundas intenções.

A única história real é esta: tudo o que vês em mim está já em ti.

Por este motivo digo que sempre que me sinto mal é porque estou a acreditar num pensamento que é mentira. Uma história falsa.

Pondera.

domingo, 31 de outubro de 2010

Os monstros dentro de mim

O “Dia Das Bruxas” poderia ser uma oportunidade de aprendermos sobre os monstros que ensombram as nossas vidas.

Monstros reais que destroem a nossa auto-estima, os nossos relacionamentos, a nossa saúde, as nossas finanças, e a própria vida.

Estes monstros vivem dentro de nós, no nosso subconsciente. E aterrorizam-nos todos os dias.

São muitos os monstros: Inveja, Ódio, Mentira, Vergonha, Raiva, Desonestidade, Impotência, Impaciência, Arrogância, Hipocrisia, Bisbilhotice, Infidelidade, Ciúme, etc.

São os mesmos monstros que atormentam os nossos pais. E antes deles, os nossos avós. E podemos recuar até aos primórdios da humanidade. Estes monstros começaram a surgir um pouco antes do primeiro medo: a morte.

E tentamos apaziguar estes monstros através de rituais também subconscientes. Desde abusar da comida, das drogas, álcool, medicação, adultério, sexo, vício das compras, hipocondria, relacionamentos disfuncionais, etc.

E se não fizermos as pazes com os monstros que habitam dentro de nós, eventualmente eles irão vingar-se. Sabem que não os amamos. Ninguém nos ensinou como expressar de maneira saudável cada um deles. E não é por acaso que o número de pessoas a depender de ansiolíticos, antidepressivos, álcool, pornografia, desiquilibrios alimentares, etc., aumenta exponencialmente. Os monstros estão a controlar-nos e nós continuamos a acreditar que o mal está fora de nós.

Quais são os monstros escondidos no teu subconsciente? E como tornar consciente algo que se esconde no subconsciente?

Através de um fenómeno bastante aprofundado por Jung, chamado “projecção”. Iremos projectar sempre os monstros que habitam no nosso subconsciente. Só assim podemos tornar-nos conscientes da sua existência e fazer as pazes com cada um.

O monstro que mais danos te causa é fácil de reconhecer. Pensa na tua melhor qualidade. Pode ser o afecto, a honestidade, a alegria, a compaixão, a coragem, ou mesmo a pontualidade. Qual é a tua melhor qualidade?

E agora qual é o oposto dessa qualidade?.... E quantas pessoas conheces com esta qualidade negativa? É este o monstro-mor, aquele que mais danos te irá causar.

Se te consideras uma pessoa honesta, irás atrair pessoas desonestas que se aproveitarão de ti. Se te consideras extremamente fiel, só conseguirás ter relacionamentos íntimos com pessoas que te irão atraiçoar. Se acreditas que és alguém sincero, viverás com pessoas que mentem com a maior das naturalidades.

É este o poder do monstro-mor dentro de ti. Eventualmente irá levar-te a fazer aquilo que condenas nos outros. Naquelas situações em que pensas “não sei onde tinha a cabeça”!

É que os nossos monstros interiores levam-nos sempre a fazer precisamente aquilo que mais detestamos nos outros. Não há excepções.

As boas noticias. Cada um destes monstros existe para nos ajudar a sermos os seres humanos completos que somos. Se aprendermos a amá-los e vê-los como ajudas excepcionais que são.

A Inveja, por exemplo, quando expressa de maneira saudável, levar-te-á a ir mais longe. Sem necessidade de deitar abaixo quem quer que seja.

A Burrice, pode levar-te a evitar uma transacção em que irias perder algo de valioso, como o teu tempo ou dinheiro.

A Arrogância saudável irá dar-te a auto-estima que precisas para pedir o que precisas, sem forçar a tua vontade.

A Impotência pode mostrar-te de maneira carinhosa que não é função tua controlar o que os outros pensam ou fazem, e libertar-te de preocupações desnecessárias.

Observa as pessoas à tua volta. Cada qualidade negativa que vejas nos outros e repudies podes ter a certeza que é um monstro dentro de ti. Faz as pazes com ele. E ele irá oferecer-te a paz. Cem por cento das vezes.

Qual o monstro que queres abraçar hoje? Eu escolhi abraçar o incompetente. É uma parte de mim muito querida, e que me sussurra que não preciso de ter todas as respostas. Amo-o.

Descobre os teus monstros, ama-os e aprende com eles. São a porta para uma vida de amor, paz e tranquilidade.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Receber está no Dar

Descubro que um dos principais motivos porque a humanidade sofre deve-se a nunca se ter observado sem expectativas.

Acreditamos que os outros nos devem algo. E sofremos.

Acredito que os meus pais deveriam amar-me mais, e sofro. Acredito que não deveria haver uma crise, e sofro. Acredito que os meus amigos deveriam ser simpáticos, e sofro. Acredito que Deus deveria fazer as coisas “à minha maneira”, e sofro.

Os meus pais amaram-me sempre. Não como eu queria, mas como foram capazes. Quando é que eu decidi tornar-me ditador? “Agora vão amar-me à minha maneira, caso contrário não serão dignos do meu amor!” – consegues ouvir a arrogância? E se é assim tão fácil para os meus pais amarem-me como eu quero, poderia eu ser o exemplo e amá-los como eles querem?

O nosso sofrimento é feito de pensamentos por questionar. Mas só 100% das vezes. Olhamos para a realidade e decidimos que deveria ser diferente. Diferente de acordo com os padrões de quem? Ah, dos meus! Eu sei o que é melhor para o mundo, e se todos fizeram o que eu digo, iremos ser todos felizes. Consegues ouvir a arrogância? Se é assim tão fácil ser feliz, poderias dar o exemplo? Mostra-nos como é, e não exijas nada em retorno.

Os pensamentos que nos fazem sofrer são crenças que nunca questionámos.

Os políticos deveriam ser honestos e olhar pelo povo. – Desde quando?
Os pais deveriam amar os filhos incondicionalmente. – Desde quando?
Os funcionários públicos deveriam ser atenciosos e simpáticos. – Desde quando?

Se é assim tão fácil ser simpático, poderias mostrar-me isso num dia em que só consigo ser antipático? Se é assim tão fácil ser honesto e olhar pelos outros, poderias mostrar-me isso dando sem esperar um retorno e parar de fingir? Se amar incondicionalmente é assim tão fácil, poderias amar o familiar que te caluniou? Mostra-me que és capaz de fazer aquilo que esperas de mim.

Observo que muitas pessoas ainda não aprenderam a receber. Dão algo e ficam à espera do retorno. E sofrem.

Quando te dou um abraço, eu recebo no momento em que te dou o abraço. Se tu decidires não devolver esse abraço, mesmo que decidas afastar-te, nada podes fazer em relação ao que eu recebi já de ti: o abraço que te dei. Recebi o que tinha a receber no momento em que te dei. Mas se um ano mais tarde passar por ti na rua e tu não falares comigo, e eu acreditar que um dia te dei um abraço e agora é assim que me tratas, estarei a mentir e a sofrer.

Eu amo-te. E recebo o amor que te dou no preciso momento em que o dou. Se tu decidires amar-me de volta ou não é irrelevante. Mas se eu te amo e fico à espera que me ames de volta, o que é que te dei a ti? Um presente envenenado. Um amor com uma etiqueta com preço.

Ontem estive com um homem destroçado. A esposa tinha-o abandonado. No mesmo mês, o seu melhor amigo morreu e não teve tempo de lhe devolver cinquenta mil euros que lhe tinha emprestado. E foi diagnosticado com um tumor no pâncreas.

Sentei-me ao lado dele a ouvir a sua história. Não o avisei de que eu sou um homem sem futuro. Sem objectivos nem expectativas. A vida sabe sempre o que é melhor para mim. Naquele momento o melhor para mim era ouvir um homem a queixar-se da vida. Delicioso. Fiz-lhe algumas perguntas. Mas fi-las a partir do coração. Não era minha intenção magoar o seu ego, nem interrogá-lo para o colocar no seu lugar. Fi-lo porque o sofrimento dele era o meu sofrimento: confusão mental.

Escolhes quem queres amar? E poderias ponderar a possibilidade de a tua ex-esposa ter o mesmo direito? Tu escolheste amar a tua ex-esposa, ela escolheu amar outro homem. Perfeito. Mas se enquanto a amaste esperavas um retorno, então nunca a amaste. Cobraste. Quanto é que custou o amor que lhe deste? Observa o teu sofrimento por ela amar outro. É esse o preço.

Emprestaste cinquenta mil euros a um amigo que agora está morto. Tens a certeza que emprestaste? É que o que eu observo é que tu lhe deste esse dinheiro. Como sei isso? Deste-o. No momento em que lhe deste o dinheiro, em que tinhas a disponibilidade financeira para o ajudar, como é que te sentiste? É bom saber que na altura te sentiste capaz, útil, amoroso, generoso. Ok, já recebeste. Ao dar o dinheiro recebeste algo de muito mais valioso: o amor que tens por ti. Mas enquanto acreditares que esse dinheiro era teu e tinha que voltar a ti, irás sofrer. E não serás capaz de amar o teu amigo que partiu. E não serás capaz de sentir o amor da vida para contigo. E não serás capaz de te amar. Dói.

Começas a compreender porque tens um cancro no pâncreas? Começas a ver o quanto estás à espera que os outros te amem? Se é assim tão fácil para os outros amarem-te, podes começar a dar o exemplo? Poderias começar a amar-te a ti mesmo?

Eu sei que recebo sempre da vida no momento em que dou. Quando odeio um politico, recebo de volta o ódio. Quem é que sente o ódio? Eu. Nunca se tratou dos outros, mas de mim.

Ofereci a uma querida amiga um curso de massagens. E recebi no momento em que o ofereci. O prazer de dar. Delicioso. Sem preço. Mas se um dia esta minha querida amiga se afastar, teria a coragem de cobrar-lhe a oferta? Nunca. Já recebi.

Proponho-te uma tarefa herculeana para as próximas quatro semanas: descobrir-te.

Acredito que na vida só há três tipos de negócios: os meus, os dos outros e os de Deus. Quando preciso que me ames, estou envolvido nos teus negócios. Quem tu amas é um negócio teu. Quando me preocupo com o estado de saúde do meu corpo estou nos negócios de Deus. Cuido do meu corpo, mas o seu estado não é um negócio meu. E quem é que se encontra a gerir os meus negócios quando eu estou envolvido nos teus ou nos de Deus? Ninguém.

O nosso maior medo é perder o controlo sobre as nossas vidas. Um pesadelo. Desde quando é que controlas o teu corpo? Sabes quais os químicos a produzir no cérebro para poderes respirar? Sabes quais os músculos que tens que contrair e relaxar, em perfeita sintonia, para respirares? E mesmo que saibas, quantas vezes ao dia é que dás ordens ao teu corpo para respirar? Nunca. O mesmo pode ser dito para qualquer parte do teu corpo. Acreditas mesmo que és tu quem anda? O que acontece quando as tuas pernas não andarem? Sofres. Tu não andas, és andado. As tuas pernas mexem-se sem que tu tenhas qualquer intervenção. Observa-te.
Acreditas que controlas as tuas finanças? Desde quando? Um minuto tens um bom emprego e és bem pago. No minuto seguinte estás desempregado e a viver na rua.

Mas a crença, mentira, de que tens controlo sobre a vida é a causa de todo o teu sofrimento. Em realidade passas a maior parte da tua vida envolvido nos negócios dos outros. Como os outros deveriam ser, como deveriam comportar-se, como deveriam amar-te. E ninguém para gerir os teus negócios. Os teus negócios são os pensamentos que surgem na tua mente. Questiona-os. Descobre a verdade.

Eu descobri que sempre que tenho um pensamento que é uma mentira, sofro. E quando tenho um pensamento que é verdade, fico em paz. Neste momento surge o pensamento “Odeio a chuva” e está a chover. Como sei que este pensamento é uma mentira? Está a chover. E eu estou à chuva. É óbvio que gosto da chuva, caso contrário ficaria em casa.

Então, meu querido amigo, nas próximas quatro semanas observa as vezes que te envolves nos negócios dos outros. Sempre que surgir um pensamento com um “deveria/não deveria” ou “preciso/não preciso” ou “tenho que/não tenho que” sei que estou nos negócios dos outros ou nos de Deus. Da próxima vez que pensares “A minha esposa deveria amar-me” poderias apenas observar-te a mentir? A tua esposa ama quem ela quer. Poderias amá-la a ela sem impor um retorno? Garanto-te que te sentirás muito melhor.

Escreve onde andas em conflito com a realidade. E descobre a verdade. A verdade é aquilo que é, e é sempre deliciosa.

Há algum tempo estava com o pai de um amigo meu, a conversarmos. De repente o homem pareceu estar a ter um AVC. A boca dele ficou torcida para um lado, os olhos em pânico. Ele olhou para mim, aterrado. E eu fiquei pasmado, quase em êxtase. Estava a ter a oportunidade de observar alguém a ter um AVC! Fiquei parado a observar, envolvido na experiência, a saborear cada momento. A dada altura o homem disse-me, em pânico e revoltado, “Não vai fazer nada, pois não?!” E eu disse-lhe a verdade: “não.”. Não havia necessidade de fazer nada porque não havia nada a fazer. Ele continuou a olhar para mim, enfurecido. E depois começou a rir-se. E eu ri-me com ele. E rimo-nos mais. E a sua cara voltou ao normal. E ambos descobrimos que tudo passa, até um AVC.

Mas poderias ser tu o nosso exemplo? Poderias tu começar a estar grato por receber no momento em que dás? Sem cobrar nada de volta? Experimenta. A minha experiência ensinou-me que é delicioso.

Bem-vindo a casa.