quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Eu seria uma pessoa boa...

A minha actividade favorita é observar. Observo-me respirar. Observo-me pensar. Observo-me ser físico. Depois observo à minha volta.

Acredito profundamente que não existe um único ser humano mau, errado, defeituoso, ignorante, falso ou prepotente.

E acredito que não há um único ser humano que não tenha sido ferido enquanto crescia. E acredito que são essas feridas que nos impedem de ver a bondade suprema em cada ser humano.

Alguma vez te disseram que não prestavas, ou que não eras suficientemente bom?

Alguma vez te gozaram e fizeram sentir-te minúsculo?

Alguma vez te disseram que eras feio, mau ou burro?

Alguma vez te disseram que não eras capaz, ou que não valia a pena continuar?

Alguma vez falaram mal de ti pela roupa que vestias, os pais que tinhas, a casa onde vivias, ou as palavras que utilizavas?

Alguma vez um professor disse que eras um falhado, ignorante ou incapaz?

Alguma vez um amigo te abandonou por não partilhares as suas opiniões?

Alguma vez te abandonaram por seres quem eras?

Alguma vez te apontaram o dedo por seres diferente?

Alguma vez te disseram que não gostavam de ti, que não merecias ser amado?

Alguma vez se riram de ti por seres gordo, magro, alto ou baixo?

Alguma vez te pediram para seres quem não eras?

Alguma vez tiveste que fingir para que gostassem de ti e não te deixassem só?

Alguma vez te entregaste completamente ao amor de outro para ser depois traído?

Alguma vez deste o teu melhor para depois ser ignorado?

Alguma vez foste castigado por dizer a verdade?

Alguma vez falaste mal de um amigo apenas para pertencer ao grupo?

Alguma vez odiaste, ou desejaste que outro desaparecesse da tua vida?

Alguma vez sentiste um desespero tão grande que pensaste em pôr fim à tua vida?

Começas a ver como somos todos iguais? Como cada um carrega ás costas as suas feridas e, assim, se torna incapaz de ver as feridas dos outros?

Alguma vez paraste para pensar porque motivo alguém é antipático? Porque motivo alguém é frio e distante? Ou trata mal os outros? Porque motivo alguém só consegue viver se fingir ser quem não é? Porque motivo alguém rouba ou amesquinha outros? Porque motivo alguém mente ou é incapaz de ver a verdade?

Somos todos tão iguais. Todos a querer ter razão. Todos a querer impingir a nossa razão sobre os outros. Queremos desesperadamente que os outros concordem connosco, mas muitas vezes somos incapazes de calçar os sapatos do outro.

Quem acreditas que precisa mais do teu amor, da tua bondade? A pessoa alegre e simpática, ou aquela que grita e chora?

Quem precisará mais de um abraço? A pessoa que está de bem com todos ou aquela que desiste de viver e se esconde?

Quem precisará mais de um sorriso a partir do coração? A pessoa que nos trata bem e com respeito, ou aquela que acredita que tem que atacar para não ser magoada primeiro?

Eu observo. E torna-se literalmente impossível para mim não amar. Como posso não amar a pessoa que sofre? A pessoa que acredita que o mundo é mau, perigoso e injusto? A pessoa que chora, amordaça ou reprime? A pessoa que vive num inferno.

E essa pessoa sou eu de cada vez que vejo outra. E observo alguém em sofrimento. O amor que sinto nesse momento transborda. Por vezes não consigo reprimir as lágrimas. E sei que são lágrimas de amor puro e incondicional, sem qualquer contaminação nem necessidade de aprovação.

Todos, sem excepção, somos dignos de amor. Poderíamos começar por nós próprios? Como podes mostrar que te amas ainda hoje? Não tem que ser nada de radical, espiritual ou significativo. Um Chocolate Belga da Haagen Dazs é mais que suficiente. E se convidares a pessoa que passa por ti com um olhar triste, garanto-te que o sabor será multiplicado até ao infinito. Atreve-te! Ama-te! Não esperes por outros, podes começar agora.

Desejo-te todo o Amor e Bondade que a Vida tem para ti.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um dia perfeito

Esta manhã acordei a sentir dores articulares. E parecia que tinha engolido agulhas que agora permaneciam na garganta. E o nariz pingava. A cabeça parecia que ia rebentar. E transpirava. Será que é uma gripe? Ou o corpo quer descansar? Ou comi qualquer coisa ontem que afectou o corpo? Não sei. Mas não preciso de saber. O corpo pediu água. Levantei-me e fui beber água. Ao lado da água havia uma embalagem de geleia real. Tomei uma cápsula. Pareceu-me uma boa ideia. Depois o corpo pediu de comer. Tirei do frigorifico um iogurte e ao lado vi os frasquinhos de Metavir. Hummm. Vou tomar umas gotas, pensou-se.

Depois deitei-me no enorme sofá da sala. O corpo queria descansar. E eu observava. Vi televisão. Não sabia que estava a acontecer tanta coisa no mundo.

Foi delicioso descobrir que só as pessoas com um peso determinado é que podem ser felizes. E ri-me. E depois disseram-me que para ser feliz precisava da companhia certa. E ri-me mais um pouco. A seguir disseram-me que o hinduísmo é o caminho para uma vida feliz. E ri-me mais um pouco. O querido Rui fez chá de equinácia e eu bebi. Tão querido. E deu-me uma cápsula de alho. Tomei-a. Não vi motivos para não o fazer.

Apeteceu-me cozinhar. Preparei o almoço. Delicioso. E observava as articulações doridas, a cabeça pesada. O corpo a experienciar-se.

Depois de almoçar deitei-me no enorme tapete da sala. Não sei porque o fiz. Adormeci e só acordei ás quatro da tarde. O querido Rui tinha colocado uma manta a cobrir-me. Delicioso.

E quando acordei tinha a mente cheia de pensamentos que surgiram do nada.

Ninguém tem o direito de nos dizer como devemos viver a nossa vida. A pessoa que o faz está a tentar manipular e oprimir. E não respeita minimamente quem somos. Como é que alguém pode saber o que é melhor para mim?

E observo que há pessoas que utilizam a fé e a religião para fazer guerra. Utilizam as suas crenças religiosas para nos dizer que estamos errados. A arrogância!

Todos a exigir continuamente que todos sejam quem não são. Não me diz respeito se tu és católico, ou hinduísta, ou budista, ou islamista ou zen. É um assunto teu. E independentemente da tua religião (que se observares com atenção nunca foi uma escolha), eu continuo a amar-te. Mas o meu amor é puro egoísmo: faz-me sentir bem quando estou contigo. Não quero que mudes nem que tentes agradar-me. Não preciso. Amo-te tal como te apresentas.

Observo que todas as religiões possuem aspectos positivos. Excepto quando exigem que a pessoa deixe de ser quem é. Quando ensina a pessoa a afastar-se daqueles que não partilham os seus preceitos.

Descubro que não tenho o direito de exigir que os outros mudem para eu estar bem. Nem tento ensinar nada a ninguém. Só a mim. E quando eu me ensino, sei que outros poderão beneficiar. Ou não. E é ok.

A maior asneira que nos poderiam ensinar é que podemos controlar a vida. Que disparate insano! Ensinam-nos que se formos pessoas boas a vida irá recompensar-nos (e não é o que faz continuamente, independentemente do rótulo que colocamos na testa?). O que observo é que a vida acontece. Desenrola-se. Flui. E este corpo é como uma gota no oceano. Um oceano feito de amor. E a gota nunca sabe onde vai parar. E não se preocupa. Sabe que é parte desse oceano de amor. Tudo o mais são histórias.

Faz um favor a ti mesmo: não queiras que os outros sejam quem não são para tu estares bem. O que observo é que quando vivo assim, os outros são sempre perfeitos. Sempre amorosos. A serem quem são. E eu o privilegiado que está presente.

E a vida, sempre a fluir. Não quer saber dos nossos preconceitos, crenças, tradições ou culturas. Simplesmente flui. Haverá algo mais delicioso que observar a vida a fluir?

A minha mente diz-me que há: deitar-me no sofá e descobrir mais um pouco do mundo lá fora através da televisão. Delicioso.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Amar Tudo

Tudo aquilo que observo é uma projecção da minha mente. Não há excepções. As pessoas, a natureza, a qualidade. Tudo uma forma da mente interpretar a realidade.

O motivo porque digo que duas pessoas nunca se conheceram é que nós só conhecemos as histórias que contamos sobre os outros. Nunca iremos conhecer quem quer que seja. Apenas aquilo que a mente projecta.

Um exemplo. Estou numa estação de serviço na auto-estrada e o meu corpo pede-me água. Entro na loja e dirijo-me à estante das garrafas de água. E observo a minha mão. Qual será a garrafa que a minha mão vai pegar? E o braço estica-se, a mão abre-se. Eu observo. Deliciado.

E um homem, ao meu lado, pergunta-me, com uma voz que interpreto como de inquietação: “O que raio pensa que está a fazer?!”

É aqui que a minha mente começa a contar uma história, sobre este estranho. E só pode contar duas histórias. Uma que fala de agressão e outra que fala de amor. A minha mente pode contar esta história: “mas quem pensa ele que é? Como tem a ousadia de me interpelar desta forma sem me conhecer?” E recorre à necessidade de se defender. E assim a minha mente dá início à guerra. A defesa é sempre o primeiro acto de guerra. Claro que não estou à espera que ninguém compreenda isto. Só para mim é importante. Sou eu a passar por esta experiência. A segunda história pode ser esta: “Delicioso. Este homem, que ainda não me conhece, está interessado em saber o que estou a fazer.” A forma como ele mostra o seu interesse é irrelevante. E só uma história. A primeira história mostra-me agressão e a necessidade de me defender. Mostra-me que o mundo é um lugar perigoso. A segunda história mostra-me amor pelo momento. Qual é que escolho?

Nós escolhemos as histórias que contamos sobre os outros de acordo com o nosso passado. Há pessoas que ainda acreditam que precisamos de um passado para nos identificarmos. Se isto fosse verdade então os gatos iriam ladrar em vez de miar. O passado serve apenas para me informar quem sou. Acordo pela manhã e começo a identificar-me. As contas que tenho para pagar, os compromissos do dia, os afazeres. O problema é que quando eu acredito que sou esta pessoa, carrego ás costas todas as minhas superstições, preconceitos, mentiras, vergonhas, culpas, raivas, medos. E não consigo desfrutar plenamente do presente. Agora.

Para melhor compreender este conceito de ter um passado deixo-te mais um exemplo. Supõe que és uma pessoa que detesta a cor vermelha. Simplesmente não suportas ver pessoas com roupa vermelha. Para ti, as pessoas que vestem vermelho querem é ser o centro das atenções, e são provocadoras, e antipáticas. Esta é a história que tu contas sobre as pessoas que vestem vermelho. O que aconteceria se fosses a uma entrevista para um emprego de sonho, e a pessoa que te entrevista está vestida de vermelho? Imediatamente colocarias uma parede entre ti e essa pessoa. Não a ouvirias. Apenas conseguirias ouvir a tua história sobre as pessoas que vestem vermelho. Imagina que te apaixonas por alguém especial. Amas essa pessoa. A intimidade entre os dois cresce. Até um dia em que se encontram para ir jantar e essa pessoa veste uma camisola vermelha. Começas a compreender de que maneira o saber quem és pode provocar dissabores e impedir-te de desfrutar do momento? E se não sabes quem és, quando alguém veste uma peça de roupa vermelha, limitas-te a admirar a cor. Delicioso.

O que pensas da guerra? E da fome? E do cancro? E da sida? E dos árabes? E da inveja?

Enquanto não amares cada um deles, irás sempre projectar o que vês neles sobre os outros. Tudo aquilo que não queres ser não te deixará ser. Mas só 100% das vezes.

O que acontece com as projecções é isto. Algures na infância disseram-te que era feio ser invejoso, ou mau, ou egoísta. E se te acusaram de o ser a tua delicada mente decidiu que jamais seria essas coisas. E passará o resto da vida a projectar essas qualidades. Nos outros.

Ainda não te apercebeste que atrais sempre o mesmo tipo de pessoas na tua vida? O mesmo tipo de situações? Repetem-se porque a mente identifica-se com opostos. Bom e mau, bonito e feio. E enquanto não terminares a guerra na tua mente, a tua vida será um reflexo dessa guerra.

Se te permitires ser inteiramente íntegro contigo mesmo irás descobrir que tudo aquilo de que acusas os outros tu mesmo andas já a fazê-lo. Há muito tempo. E a mente lê isto e irá justificar-se. A justificação é a melhor forma de entrar em negação daquilo que é.

Alguma vez paraste para pensar porque motivo te justificas? É simples: queres manipular a maneira como os outros te vêem. Se tens que sair mais cedo do trabalho justificas-te porque queres que os outros pensem de ti algo que tu próprio não acreditas. Se te justificas perante um filho queres que ele pense de ti algo em que tu não acreditas. Observa-te. Não te justifiques, limita-te a observar-te.

A maior superstição que encontro entre pessoas que se consideram evoluídas é a lei da atracção. Aparentemente se amarmos o cancro estaremos a atrair cancro nas nossas vidas. Se isto é verdade, o que podes dizer ao pai de uma criança com um cancro? Se isto é verdade, o que podes dizer à mulher que perdeu a capacidade de andar? Andaram ambos a sonhar com estas situações? Não creio. Karma? Pode ser, mas não tenho qualquer prova que me mostre isso. O karma, tanto quanto consigo observar, é mais uma justificação. E impede-me de desfrutar da vida completamente.

A única coisa que sei é que tudo em que acreditava é mentira. A única realidade é aquela projectada pela mente. Uma mente em guerra irá projectar ciúme, inveja, sofrimento, medo, mágoa, raiva. Uma mente em paz irá projectar amor. Só amor.

O que acontece, quando a mente não ama toda a realidade, tal como é, é simples também. Tu podes amar-me e adorar o que escrevo. E até considerar-me um mestre. Por experiência sei que é isso que pensas de ti, só que poderás não estar consciente. Eu serei sempre a pessoa que tu quiseres ver. Eu sou tu.

Mas se tu odeias o cancro, se odeias a guerra ou o assassino, no dia em que eu disser algo que mexa numa ferida tua, ou no dia em que eu não me comportar como tu esperas, irás transferir tudo o que pensas sobre o cancro ou sobre a guerra ou sobre o assassino e irás projectar essas qualidades em mim. De repente, passo de bestial a besta.

Permite-te observar todos os relacionamentos que terminaram já e fazem parte do teu passado. Agora. Escreve as qualidades das outras pessoas que te levaram a terminar a relação. Começas a observar um padrão que se repete?

E por favor não sintas a necessidade de te justificar nem sentir culpado. Não sabias melhor. Perfeito.

Poderias a partir de agora, deste momento, começar a fazer as pazes com as partes de ti que tens rejeitado e negado? O invejoso, o egoísta, o estúpido, o avarento, o traidor, o mal-educado? Ama cada uma destas qualidades e atinge assim a paz na tua vida. É ok cada pessoa ser quem é. Cada um só pode ser quem é. E tu nunca irás alterar nem controlar quem os outros são. Mas podes alterar a história que contas sobre cada pessoa.

Alterar histórias é relativamente fácil, uma vez que tenhas sarado as feridas do passado. Alguém chama-me estúpido. E só posso sentir compaixão por essa pessoa. Meu Deus, esta pessoa deve estar a sofrer. Eu sei o que isso é. Sei o que é ter que lidar com alguém que acredito ser estúpido. Já o fiz. E dói tanto. E o que eu fazia era afastar-me do estúpido. Até aparecer outro estúpido. E quando alguém diz que não gosta de mim só consigo sentir compaixão. Como é que alguém pode não gostar de mim? Que sofrimento. Eu já o fiz, sei o que isso é. Dói muito não gostar dos outros. Sofre-se. Quando alguém não gosta de mim está a acreditar numa história de sofrimento, de separação, de expectativas. Eu sou tu. Só vês em mim o que está em ti.

Por este motivo sinto que a vida é deliciosa e todas as pessoas que encontro são deliciosas e um prazer conhecê-las. É a mim que estou a conhecer. A tua confusão é a minha confusão. A tua arrogância é a minha arrogância. A tua inveja é a minha inveja. Delicioso.

Hoje, neste primeiro dia da minha vida, acordei com um sentimento de êxtase. Imensamente grato por todas as pessoas que já conheci e conheço. Cada uma foi importante para me mostrar quem eu sou: tudo.

O passado é importante para aprendermos. Mas uma vez feita a aprendizagem, poderíamos largar esse passado? Deixar de cobrar aos outros pelas nossas falhas? Que nunca foram falhas. O ser humano não erra, é impossível. O ser humano simplesmente actua de acordo com o nível de consciência que possui no momento. Da mesma forma que uma criança nunca conseguiria andar de bicicleta antes de dominar o caminhar. Nunca um ser humano poderia amar outro sem primeiro amar-se a si mesmo.

Aquilo que eu considero uma falha em ti é uma falha em mim. A minha falha é não ser capaz de ver a perfeição que está já presente em ti.

A maioria das pessoas que já conheci fazem algo a que me dediquei durante anos. Pegam no seu passado e projectam-no no futuro. Incapazes de viver o momento presente. Se no passado tiveram uma relação em que foram traídos, irão projectar essa traição no futuro. E depois admiram-se das relações que criam. E tudo um trabalho da mente.

Enquanto não formos capazes de amar os outros sem querer que mudem, enquanto não formos capazes de amar aquilo que percepcionamos como falhas nos outros, enquanto não saborearmos o simples facto de os outros serem quem são, iremos viver um inferno. Iremos continuamente desejar que os outros sejam quem não são. E no fundo os outros serão sempre um espelho de tudo aquilo que não amamos em nós.

Quando digo que eu sou tu, o que quero dizer é que estou a perder a noção de quem sou. E é delicioso. Quando estou contigo consigo ouvir-te, é a mim que estou a ouvir. Consigo amar-te tal como és, é a mim que estou a amar. E não imponho condições. Podes acreditar no que tu quiseres, eu só posso amar-te e observar o sentimento em mim.

Quando escrevo, não é o Emídio quem escreve. És tu. Delicioso. O Emídio jamais seria capaz de escrever isto. Possuía demasiados preconceitos para o poder fazer. Mas tu, tu és a sabedoria por que esperamos. Tu és o meu melhor professor. Tu és o ser belo e magnífico que me mostra tudo o que tenho a descobrir sobre quem eu sou. E neste estado a mente permanece em paz.

Por vezes a mente tenta enganar-se a si mesma. E planeia um futuro. E depois a mente ri-se de si mesma. A arrogância de planear um futuro! Mas fá-lo. E depois permanece num estado de curiosidade. Deixa ver se isto vai acontecer... E se acontecer é bom, e se não acontecer também é bom. A mente que não sabe. Livre. A mente que não sabe está sempre disponível para amar. Não cola uma história de sofrimento sobre os outros. Observa os outros e ama. Delicioso.

A mente que não sabe poderá continuar a escrever. E é sempre delicioso. A mente que se identifica como Emídio irá parar um pouco. Dedicar-se aqueles que acredita serem clientes e vão ao seu gabinete. E irá acreditar que ajuda os outros. Delicioso.

Eu sei quem tu és sempre: uma projecção da minha mente. Por isso é-me fácil ser sincero quando te vejo e tratar-te por querido ou amar-te. Tu és perfeito. Só poderia sentir gratidão pelo facto de existires. Por me ensinares o que ainda tenho para aprender. E quando tentas magoar-me aprendo muito mais. Porque não és capaz de magoar-me. Apenas eu tenho esse poder. Apenas eu sou capaz de me magoar. Quando acredito numa mentira. Quando acredito que tu deverias ser quem tu não és. Perfeito.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Como viver no inferno em cinco passos fáceis

1. Começa por ver as falhas nos outros. Sobretudo toma nota nos defeitos daqueles que te estão mais próximos. E depois começa a procurar as falhas naqueles que te estão distantes e não conheces minimamente. No Papa, no Presidente da República, no jogador de futebol. A seguir, para mostrares que és um profissional, procura as falhas em grandes organizações ou países. Critica sem dó nem piedade. Fala abertamente dos teus preconceitos e faz de conta que conheces cada pessoa que criticas intimamente.

2. Aponta soluções para os problemas dos outros. Começa ao nível mais básico: a família. Depois, à medida que vais ganhando experiência, fala das soluções que tens para os problemas daqueles que não conheces, um actor, um politico, um líder religioso. A seguir, quando te sentires completamente cheio de respostas, fala das tuas soluções para os problemas de organizações, países e, porque não, as soluções para o planeta como um todo.

3. Acredita que tens sempre razão. Este passo irá garantir-te um inferno permanente. Mesmo que não saibas nada sobre o assunto, verbaliza a tua opinião e faz saber a todos que a tua opinião é a única viável. Excelente método para criar inimigos por onde quer que vás. Quando te sentires profissional serás capaz de manter a cabeça erguida, nariz empinado, dedo em riste e projectar a voz com mais decibéis que um Boeing 747 a levantar voo.

4. Mantém-te atento ao comportamento de todos e interpreta esse comportamento de maneira negativa. Este passo, para além de horas divertidas de terror, irá oferecer-te a possibilidade de ganhares uma depressão ou um tempo na cadeia ou hospital (e não poderás escolher a qual irás parar). A namorada não telefona: está com outro! A mãe esquece-se do teu aniversário: é fria e egoísta! O colega não reconhece o teu trabalho: é invejoso e arrogante! O filho tira uma negativa: é burro e preguiçoso! Estás parado no trânsito: os outros condutores são estafermos que não sabem utilizar transportes públicos nem sabem o importante que a estrada é para ti! E uma das favoritas de qualquer pessoa que adora chafurdar no seu inferno pessoal: há uma crise a todos os níveis, o que só pode significar que irás viver debaixo de uma ponte e os políticos estão a sugar-te cada tostão que ganhas (volta ao ponto 3 e observa-te a ter razão – delicioso viver no inferno, não é?).

5. Queixa-te de tudo a todos. Este passo é importante para assegurar que nunca terás um momento de alegria. Observa tudo o que está errado contigo, com o teu corpo, com os teus amigos, com o teu emprego, com o governo, e, porque não, com o próprio planeta! Sê profissional nas tuas queixas! Um queixinhas profissional faz questão de se queixar sempre ás pessoas erradas. Se tens um problema com um colega, queixa-te aos teus amigos. Se tens um problema com o teu cônjuge, queixa-te ao psicoterapeuta. Se tens um problema com um filho, queixa-te aos teus pais. Se tens um problema com a tua religião, queixa-te a um ateu. Escolhe a dedo as pessoas a quem te queixas para te certificares que nenhuma delas poderá ajudar-te a resolver a queixa.

6. Bónus: se estás mesmo decidido a viver o teu inferno pessoal, com diabinhos, fogo eterno, fome e pestilência, assume que és o centro do universo. Isto é relativamente fácil de conseguir: só tens que agir como se todos vivessem para te fazer a vida melhor.

E se queres viver no paraíso, os passos a seguir são muito mais fáceis!

1. Procura sempre algo de bom nos outros. Não te preocupes, há sempre algo de bom a observar. A tua colega “invejosa” sabe bastante de informática. O marido abraça-te quando te sentes abandonada. O filho sorri quando tudo parece um caos. A mãe ajuda-te quando não sabes o que fazer. Os amigos têm um telefone para te ouvir. Há sempre algo de amoroso em cada pessoa que observas. O Primeiro-ministro tem bom gosto no que toca a vestuário (se não gostaste de ler isto, volta ao #1 para viver no inferno), o Papa vive longe de ti, o planeta ainda rebola pelo universo. Tudo tão bom!

2. Decide que o que quer que seja que esteja a acontecer agora é o melhor para todos, mesmo que não compreendas de que maneira. Sempre que pensares num problema, diz a ti mesmo que a solução está já a acontecer, sem sequer saberes os “comos” nem os “porques”. Quando alguém te pedir ajuda para um problema, se nunca passaste pela mesma situação, diz a essa pessoa que não tens resposta. E se já passaste pela mesma situação, diz-lhe apenas o que tu fizeste sem insinuar que ela deve fazer o mesmo. Assim garantes que não te envolves nos assuntos alheios, que não te dizem respeito.

3. Assume que todo o mundo tem já uma opinião formada sobre tudo e todos. Escolhe o oposto: não sabes. A mente que nada sabe encontra-se sempre livre para experienciar cada momento tal como se apresenta. Mantém-te livre de todos os preconceitos afirmando a tua ignorância. A verdade é que nunca sabemos o que realmente está a acontecer na vida dos outros. E se alguém tentar insultar-te, dá-lhe razão. Provavelmente tem-na. Quando alguém te acusar de ser mesquinho, pondera antes de te defenderes. “Sou mesquinho... Deixa ver, és capaz de ter razão.” Não só desarmas a outra pessoa como crias um espaço onde a paz existe.

4. Desiste de querer saber porque motivo os outros são como são ou fazem o que fazem. Imagina-te um extra-terrestre a viver aqui, agora, pela primeira vez. Assombrado com tudo e deliciado com cada evento. O marido tarda em chegar a casa, que tal pensares “engraçado, ele está atrasado...” e não queiras fabricar o motivo do atraso, raramente saberás a verdade. Alguém fala mal de ti. “Curioso, aquela pessoa não me conhece... No problemo.” O namorado esquece-se do jantar de anos. “Delicioso, ele vive no seu mundo... tal como eu vivo no meu.”

5. Pára de te queixar. Este passo é relevante para viver em liberdade e paz. Já imaginaste se cada queixa tua é uma oportunidade da vida fazer algo melhor? A partir do momento que não sabes o que é melhor para os outros ou para ti, tudo o que acontece é perfeito. E descobrirás que quando estás com aqueles que para ti são importantes, sem te queixares, terás uma oportunidade de os ouvir a sério. Só ouvir! Nada de dar a tua opinião preconceituosa.

6. Bónus: acredita que cada pessoa nesta vida está sempre a fazer o melhor que é capaz de acordo com o seu nível de consciência. Torna-se assim tão fácil amar qualquer pessoa. E quando amas os outros, a vida reserva-te um prémio: o amor que sentes por ti aumenta até um nível em que não precisas do amor dos outros. Finalmente livre!

Uma pista que te leva direitinho ao paraiso: que tal parar de interpretar a realidade?... (Sobretudo de acordo com os teus pontos de vista do que é bom e mau, certo e errado).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Torna-te moralista se queres ser vencido pela imoralidade

Estar presente no agora significa viver sem controlo e sabendo que as tuas necessidades são todas preenchidas agora. Para as pessoas cansadas de sofrer não há nada pior que acreditar que podem controlar a sua dor. Se queres ter controlo absoluto, deixa partir a ilusão do controlo. Deixa que a vida se experiencie através de ti. É isso que a vida irá fazer, quer tu gostes ou não. Cada momento é mágico, único, perfeito.

Tu não fazes o sol nascer, nem a lua brilhar, nem a chuva cair. Não tens qualquer controlo sobre os teus pulmões ou o teu coração, a tua audição ou as tuas pernas. Estás bem e saudável e no minuto seguinte não estás. E se acreditas na “lei da atracção” talvez ainda não tenhas aberto os olhos para a realidade. Sempre perfeita.

Sempre que procuras a segurança irás viver a tua vida a tentar ser extremamente cuidadoso e, assim, descobrir que não estás a viver de todo. Tudo existe para te nutrir. Lembro-me de umas palavras deliciosas da Katie: “Não tentes ser muito cuidadoso, podes magoar-te!”

Jamais serás capaz de aumentar a moral dos outros. As pessoas são quem são. E irão fazer o que irão fazer. Independentemente das tuas regras. Jamais conseguirás as pessoas a manterem-se sóbrias quando elas querem estar embriagadas, ou honestas quando querem mentir, ou bondosas quando querem fazer mal. Podes gritar “Isso não se faz” até ficares vermelho de raiva, e mesmo assim as pessoas irão sempre fazer o que quiserem fazer.

A única maneira de teres algum efeito sobre os outros é servindo como exemplo em vez de impor a tua vontade.

Os pais tentam impor a sua vontade sobre os filhos ensinando-lhes o que está bem e mal, mas os exemplos que dão são péssimos. Fingem entre si, discutem, acusam-se mutuamente, amuam, escondem os seus actos. E ensinam os filhos a mentir. Ensinam-lhes que a melhor forma de viverem todos juntos é vivendo uma parte da sua vida em segredo. No relacionamento entre pai e mãe os filhos têm o exemplo a seguir. Mas só 100% das vezes.

Dói muito acreditar que sabemos o que é melhor para os outros. Sejam eles os filhos, pais, amigos, colegas ou amantes. Irás falhar. Quando ensinas os outros a terem cuidado e a buscar a segurança estarás a ensinar-lhes ansiedade e dependência. Não funciona.

Mas quando és capaz de desfrutar cada momento, quando os outros são quem são e tu só podes sentir-te privilegiado por poder participar na vida dos outros, quando amas os outros sem impor qualquer condição, quando cada palavra é saboreada e cada olhar delicioso, estarás a dar o exemplo que a humanidade aguarda. Na presença de alguém que não consegue ver um problema ninguém consegue agarrar-se a um problema durante muito tempo.

Mas se a tua felicidade depende da felicidade dos teus filhos, ou dos teus amigos, ou dos teus colegas, irás fazer deles reféns. Poderias ser feliz sem precisar dos outros? É muito melhor e mais fácil. Chama-se a isto Amor Incondicional.

Muitas pessoas acreditam que descobriram o que é melhor para todos e tentam a todo o custo impingir a sua “verdade”. Todos conhecem a pessoa que sabe que uma dieta vegetariana é melhor, ou que o budismo é melhor, ou que o pensamento positivo é melhor, ou que dizer não ás drogas é melhor, ou que não ver televisão é melhor, ou que... Conheces alguém assim? Eu conheço: eu. Durante anos acreditava que a minha forma de estar na vida era a melhor. Um inferno. Depois descobri que tudo aquilo em que acreditava era mentira. E aos poucos fui-me libertando. E hoje sei que a minha forma de viver não é melhor que outra. Simplesmente deixei de exigir intermediários para estar de bem com a vida. Descobri que sempre que falamos de alguém é de nós que estamos a falar. Sem excepções.

Só há duas formas de viver. A amar cada momento, cada pessoa à nossa frente, cada lufada de ar, cada pedaço de vida. Ou a querer que a vida seja diferente daquilo que é, ou seja, em sofrimento. Imagina uma vida em que cada gesto teu é um acto de amor, em que o êxtase está presente, a alegria vibra em ti. É assim que sabes estar presente. Sem necessidade de mudar quem quer que seja. Sem necessidade de querer manipular quem quer que seja. Delicioso.

Como poderia eu dar conselhos aos outros se nunca saberei o que é melhor para eles? Só posso falar daquilo que é melhor para mim. Se aquilo que os outros fazem lhes proporciona felicidade, é isso que eu quero para eles. E se aquilo que os outros fazem lhes proporciona infelicidade, também é isso que eu quero para eles. Só assim eles aprenderão aquilo que eu jamais poderia ensinar.

Vivo a confiar totalmente que as pessoas serão quem são. Sem exigências. Confio em cada pessoa para ser quem ela é. Nunca fico desiludido. Delicioso.