terça-feira, 1 de março de 2011

A Vida a Fluir

Esta tarde regressava a casa no comboio. Um casal sentado à minha frente sorria.

Meditava sobre a mente. A mente. Acredita que é a autora dos pensamentos que percorrem a nossa cabeça. Não se apercebeu ainda que a sua atitude é esquizofrénica.

Os pensamentos de qualquer pessoa não são seus. Da mesma maneira que eu não controlo conscientemente o sangue que corre nas minhas veias, nem o batimento cardíaco, nem sequer o movimento das minhas pernas, também os meus pensamentos não são controláveis. Simplesmente surgem.

E observo que todos os pensamentos que me fazem sofrer são uma mentira.

“Preciso de uma casa. Preciso de companhia. Preciso de dinheiro. Preciso de um carro. Preciso de ficar curado. Preciso que me ames. Preciso que gostem de mim. Preciso de agradar aos outros. Preciso de ser pontual. Preciso de trabalhar. Preciso, preciso, preciso....” – e observo que é tudo mentira.

“Deveria ser mais simpático. Deveria fazer sol. Deveria trabalhar menos. Deveria ganhar mais. Deveria haver paz no mundo. Deveria chover. Deveria, deveria, deveria...” – e observo mais uma vez que é tudo mentira.

Mas a mente esquizofrénica acredita que os pensamentos são seus. Não se apercebe que são os pensamentos da humanidade, há milhares de anos.

Amamos o nosso cônjuge e quando descobrimos que nos foi infiel (como se tal fosse possível), sofremos. A única pessoa que tem o poder de ser infiel na minha vida sou eu mesmo. Quando não me ouço. Quando tento agradar. Quando compro o amor dos outros com amabilidades. Estou a trair a minha integridade. Os outros apenas reflectem o que ando a fazer há muito tempo.

Mas a mente esquizofrénica acredita que os outros é que detêm o poder sobre si. O seu pensamento é algo parecido a isto: “Se apenas os outros fossem diferentes de quem são, eu estaria bem.” Chama-se a isto um egoísmo doentio.

E depois a mente cria opiniões. As minhas opiniões. E nem se apercebe que as minhas opiniões não têm nada de original. São idênticas a milhares de outras opiniões e a milhares de indivíduos. E quando a mente se identifica com essas opiniões torna-se o seu pior inimigo. Porque agora que determina que estas opiniões são suas, irá ter que as defender sempre que forem postas em causa. E de cada vez que alguém contrariar uma opinião minha irei defender-me porque a mente se identifica com essa opinião. A identificação com uma opinião significa apenas que o ego acredita que é a opinião. E se alguém tem uma opinião diferente, para o ego isso significa apenas um ataque ao “eu”. Não é por acaso que muitas vezes chegamos ao ponto de matar para defender uma opinião.

E a mente acredita que a sua opinião é melhor que a dos outros. A mente esquizofrénica.

Quando o comboio chegou a Avanca saí. Sorria, enquanto meditava sobre a mente.

Ria-me de mim. Das minhas opiniões. Da mente que mente para poder assegurar o seu sofrimento.

E de repente não sabia quem era nem onde estava. Surgiu o pensamento “quem és?”... E não havia resposta. Não havia um nome, um adjectivo, uma qualidade. Nada. Apenas um sentimento que tentarei colocar por palavras. Era como se o sol estivesse a nascer dentro do meu corpo. Queimava cada célula. Recordo-me de chorar. E de abrir os braços. Nunca tinha estado ali antes. As casas, os terrenos, os cães, as pessoas. Tudo uma novidade! Para terem uma ideia, imaginem que viveram toda a vida na selva e de repente aterra à vossa frente um Boeing 747! E pessoas vestidas saem do avião. E mostram-vos um iPad! Com um vídeo da Lady Gaga!

Acho que o que sentia a Vida (não era eu, o Emídio, era a vida através deste corpo) era paz, amor, serenidade. E ao mesmo tempo uma tempestade de vazio. Mas isto são palavras. E são as que melhor sou capaz de utilizar para descrever esta experiência.

E apesar de não saber onde estava nem quem era, sentia que era levado pelo caminho certo para mim. Não era eu a caminhar. Era caminhado. E talvez fosse alegria a causa das lágrimas. E talvez fosse paz a causa de andar com os braços abertos, como as crianças quando fazem de conta que voam.

De repente uma mulher disse isto: “Boa tarde, Dr Emídio.” E imediatamente respondi: “Ah! É isso, chamo-me Emídio!”

Nesse momento o Emídio regressou, olhou a Carla, funcionária do Crédito Agrícola e sorriu. Estava à entrada de casa.

Não sei o que a Carla ficou a pensar. É irrelevante. Mas a Vida, oh, a Vida! Sempre tão deliciosa! Sempre a oferecer-nos carinho incondicional.

Senti fisicamente que não é possível sofrer. O sofrimento só é possível quando a mente acredita numa mentira. Quando acredita que é o centro do Universo e não consegue ver que é a Vida a fluir. Sem rótulos.

Já em casa deitei-me. Parecia cheio de energia e ao mesmo tempo esgotado. E as sensações voltaram. Mas desta vez diferentes. Senti que era a Ângela, o André, A Rosa, o Rui, o João, a mãe, o avô... o amor tem destas coisas. E sei que não foi um trabalho da mente esquizofrénica. Porque a mente esquizofrénica precisa de se agarrar a conceitos e compreender.

Amo-te.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A perfeição é outro nome para a realidade

A única forma de conseguirmos ver algo como imperfeito é acreditando numa história que contamos e que vai contra a realidade. Isto é feio, é injusto, é inapropriado, é falso, é grosseiro, é mau. Mas será verdade?

Pego neste copo com sumo de frutas e observo que está lascado. E é um copo belo quando o olho sem contar uma história de como deveria ser diferente.

Observo o sem-abrigo a pedir dinheiro, com roupa suja e rasgada. E vejo a beleza do ser humano. Se não acreditar numa história que diz que não deveria haver pessoas sem-abrigo, ou que as pessoas sem-abrigo são perigosas, limito-me a observar a sua beleza e digo-lhe “obrigado”. Muitas pessoas já me observaram a agradecer a pessoas que pedem, sem dar nada. Não tenho nada para dar naquele momento para além da gratidão por ser testemunha da vida a fluir deliciosamente.

Ouço falar de guerra em países distantes. Sem a história de que não deveria haver guerra permaneço calmo. Pergunto-me se posso fazer algo. Posso procurar em mim um sentimento de paz. A guerra é perfeita. Podemos descobrir o amor incondicional, esquecermos os nossos dramas e ajudar a pessoa ao nosso lado.

Estou sentado no chão da sala. Qualquer pessoa poderia pensar que o meu comportamento é inapropriado. Há sofás na sala. Observo os sofás, e o meu corpo senta-se no chão. Perfeito. Delicioso. Outra pessoa poderá pensar que estou a desfrutar do chão. Histórias. Depois observo como as minhas pernas se esticam. Não fui eu quem as esticou. Elas tomaram a decisão de o fazer por mim. A vida flui. Perfeita.

Só a mente que acredita nos seus pensamentos é capaz de ver imperfeição onde não existe.

Estou completamente receptivo a qualquer desconforto. A ficar sem pernas, a perder a visão, a morrer numa explosão. Sei que é sempre perfeito. Como sei isto? Não consigo encontrar qualquer stress.

Uma vez acordei e não conseguia ver do olho esquerdo. Os médicos tinham dito que se o vírus atingisse o nervo óptico eu ficaria cego. Acordei de madrugada, cego. E só sentia paz. Um cego vê tanto! E que perfeição da vida! Bebi um sumo de laranja e voltei para a cama. Delicioso! A vida queria-me cego e sabia que era para o meu bem. Durante a noite a vida mudou de ideia e acordei com a visão restaurada. Delicioso.

As doenças são más. Outra história. As doenças são o que são: a vida a fluir. Pelo menos neste planeta. E observo que quando não luto, quando abro os braços à experiência, aquilo que outros vêem como um problema dissolve-se. Lembro-me das palavras da Debbie Ford: aquilo a que resistes, persiste.

Quanto mais lutamos contra algo, quanto mais queremos as coisas diferentes, maior é o nosso sofrimento.

E no amor a vida é ainda mais deliciosa. Eu amo-te. É a minha função. E tu ama quem te apetecer, é a tua função. E eu sei que me irás amar. Até ao dia em que mudes de ideia. E é sempre delicioso. Eu amo-te tanto que nem preciso que estejas vivo para te amar.

Mas se acreditar numa história que diz que para te amar tu tens que me amar de volta, irei criar um inferno na minha vida. Quando imponho as minhas condições à vida torno-a imperfeita. Antes das minhas condições a vida é perfeita. E continuará a ser perfeita, mas eu não conseguirei ver a perfeição.

Quando eu resisto à história que me conto, sofro. Não é a experiência que é má. É a minha história que afirma que a experiência deveria ser diferente daquilo que é.

Como é que eu sei que deveria ficar cego temporariamente? Fiquei.

Deus, Realidade, Universo, é sempre carinhosamente amoroso. A única coisa que me causa sofrimento é a história em que acredito. Para sofrer a mente tem que acreditar numa mentira. E a mentira é esta: a realidade é imperfeita. Não é. Nunca.

Independentemente do que está a acontecer, o amor é tudo o que existe. E manifesta-se como um copo lascado, uma sopa fria, um sem-abrigo, um cancro, uma flor, uma guerra, um abraço. E flui continuamente, quer eu ame ou não.

Quando a mente compreende que é apenas o reflexo do amor que criou tudo torna-se plena e vivencia um deleite supremo. Tudo é motivo de deleite. E nada é motivo de deleite também. Deleita-se na liberdade carinhosa de saber que é tudo e nada, sem identidade. Dança com a vida.

Tudo o que me aconteceu até hoje foi um presente deste amor. Não há excepções.

Acreditar na imperfeição é sofrer. E é mentira. Até isto que escrevo acaba por ser mentira. Não há nada para lá da mente.

Poderia a vida ser mais deliciosa?

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Eu seria uma pessoa boa...

A minha actividade favorita é observar. Observo-me respirar. Observo-me pensar. Observo-me ser físico. Depois observo à minha volta.

Acredito profundamente que não existe um único ser humano mau, errado, defeituoso, ignorante, falso ou prepotente.

E acredito que não há um único ser humano que não tenha sido ferido enquanto crescia. E acredito que são essas feridas que nos impedem de ver a bondade suprema em cada ser humano.

Alguma vez te disseram que não prestavas, ou que não eras suficientemente bom?

Alguma vez te gozaram e fizeram sentir-te minúsculo?

Alguma vez te disseram que eras feio, mau ou burro?

Alguma vez te disseram que não eras capaz, ou que não valia a pena continuar?

Alguma vez falaram mal de ti pela roupa que vestias, os pais que tinhas, a casa onde vivias, ou as palavras que utilizavas?

Alguma vez um professor disse que eras um falhado, ignorante ou incapaz?

Alguma vez um amigo te abandonou por não partilhares as suas opiniões?

Alguma vez te abandonaram por seres quem eras?

Alguma vez te apontaram o dedo por seres diferente?

Alguma vez te disseram que não gostavam de ti, que não merecias ser amado?

Alguma vez se riram de ti por seres gordo, magro, alto ou baixo?

Alguma vez te pediram para seres quem não eras?

Alguma vez tiveste que fingir para que gostassem de ti e não te deixassem só?

Alguma vez te entregaste completamente ao amor de outro para ser depois traído?

Alguma vez deste o teu melhor para depois ser ignorado?

Alguma vez foste castigado por dizer a verdade?

Alguma vez falaste mal de um amigo apenas para pertencer ao grupo?

Alguma vez odiaste, ou desejaste que outro desaparecesse da tua vida?

Alguma vez sentiste um desespero tão grande que pensaste em pôr fim à tua vida?

Começas a ver como somos todos iguais? Como cada um carrega ás costas as suas feridas e, assim, se torna incapaz de ver as feridas dos outros?

Alguma vez paraste para pensar porque motivo alguém é antipático? Porque motivo alguém é frio e distante? Ou trata mal os outros? Porque motivo alguém só consegue viver se fingir ser quem não é? Porque motivo alguém rouba ou amesquinha outros? Porque motivo alguém mente ou é incapaz de ver a verdade?

Somos todos tão iguais. Todos a querer ter razão. Todos a querer impingir a nossa razão sobre os outros. Queremos desesperadamente que os outros concordem connosco, mas muitas vezes somos incapazes de calçar os sapatos do outro.

Quem acreditas que precisa mais do teu amor, da tua bondade? A pessoa alegre e simpática, ou aquela que grita e chora?

Quem precisará mais de um abraço? A pessoa que está de bem com todos ou aquela que desiste de viver e se esconde?

Quem precisará mais de um sorriso a partir do coração? A pessoa que nos trata bem e com respeito, ou aquela que acredita que tem que atacar para não ser magoada primeiro?

Eu observo. E torna-se literalmente impossível para mim não amar. Como posso não amar a pessoa que sofre? A pessoa que acredita que o mundo é mau, perigoso e injusto? A pessoa que chora, amordaça ou reprime? A pessoa que vive num inferno.

E essa pessoa sou eu de cada vez que vejo outra. E observo alguém em sofrimento. O amor que sinto nesse momento transborda. Por vezes não consigo reprimir as lágrimas. E sei que são lágrimas de amor puro e incondicional, sem qualquer contaminação nem necessidade de aprovação.

Todos, sem excepção, somos dignos de amor. Poderíamos começar por nós próprios? Como podes mostrar que te amas ainda hoje? Não tem que ser nada de radical, espiritual ou significativo. Um Chocolate Belga da Haagen Dazs é mais que suficiente. E se convidares a pessoa que passa por ti com um olhar triste, garanto-te que o sabor será multiplicado até ao infinito. Atreve-te! Ama-te! Não esperes por outros, podes começar agora.

Desejo-te todo o Amor e Bondade que a Vida tem para ti.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Um dia perfeito

Esta manhã acordei a sentir dores articulares. E parecia que tinha engolido agulhas que agora permaneciam na garganta. E o nariz pingava. A cabeça parecia que ia rebentar. E transpirava. Será que é uma gripe? Ou o corpo quer descansar? Ou comi qualquer coisa ontem que afectou o corpo? Não sei. Mas não preciso de saber. O corpo pediu água. Levantei-me e fui beber água. Ao lado da água havia uma embalagem de geleia real. Tomei uma cápsula. Pareceu-me uma boa ideia. Depois o corpo pediu de comer. Tirei do frigorifico um iogurte e ao lado vi os frasquinhos de Metavir. Hummm. Vou tomar umas gotas, pensou-se.

Depois deitei-me no enorme sofá da sala. O corpo queria descansar. E eu observava. Vi televisão. Não sabia que estava a acontecer tanta coisa no mundo.

Foi delicioso descobrir que só as pessoas com um peso determinado é que podem ser felizes. E ri-me. E depois disseram-me que para ser feliz precisava da companhia certa. E ri-me mais um pouco. A seguir disseram-me que o hinduísmo é o caminho para uma vida feliz. E ri-me mais um pouco. O querido Rui fez chá de equinácia e eu bebi. Tão querido. E deu-me uma cápsula de alho. Tomei-a. Não vi motivos para não o fazer.

Apeteceu-me cozinhar. Preparei o almoço. Delicioso. E observava as articulações doridas, a cabeça pesada. O corpo a experienciar-se.

Depois de almoçar deitei-me no enorme tapete da sala. Não sei porque o fiz. Adormeci e só acordei ás quatro da tarde. O querido Rui tinha colocado uma manta a cobrir-me. Delicioso.

E quando acordei tinha a mente cheia de pensamentos que surgiram do nada.

Ninguém tem o direito de nos dizer como devemos viver a nossa vida. A pessoa que o faz está a tentar manipular e oprimir. E não respeita minimamente quem somos. Como é que alguém pode saber o que é melhor para mim?

E observo que há pessoas que utilizam a fé e a religião para fazer guerra. Utilizam as suas crenças religiosas para nos dizer que estamos errados. A arrogância!

Todos a exigir continuamente que todos sejam quem não são. Não me diz respeito se tu és católico, ou hinduísta, ou budista, ou islamista ou zen. É um assunto teu. E independentemente da tua religião (que se observares com atenção nunca foi uma escolha), eu continuo a amar-te. Mas o meu amor é puro egoísmo: faz-me sentir bem quando estou contigo. Não quero que mudes nem que tentes agradar-me. Não preciso. Amo-te tal como te apresentas.

Observo que todas as religiões possuem aspectos positivos. Excepto quando exigem que a pessoa deixe de ser quem é. Quando ensina a pessoa a afastar-se daqueles que não partilham os seus preceitos.

Descubro que não tenho o direito de exigir que os outros mudem para eu estar bem. Nem tento ensinar nada a ninguém. Só a mim. E quando eu me ensino, sei que outros poderão beneficiar. Ou não. E é ok.

A maior asneira que nos poderiam ensinar é que podemos controlar a vida. Que disparate insano! Ensinam-nos que se formos pessoas boas a vida irá recompensar-nos (e não é o que faz continuamente, independentemente do rótulo que colocamos na testa?). O que observo é que a vida acontece. Desenrola-se. Flui. E este corpo é como uma gota no oceano. Um oceano feito de amor. E a gota nunca sabe onde vai parar. E não se preocupa. Sabe que é parte desse oceano de amor. Tudo o mais são histórias.

Faz um favor a ti mesmo: não queiras que os outros sejam quem não são para tu estares bem. O que observo é que quando vivo assim, os outros são sempre perfeitos. Sempre amorosos. A serem quem são. E eu o privilegiado que está presente.

E a vida, sempre a fluir. Não quer saber dos nossos preconceitos, crenças, tradições ou culturas. Simplesmente flui. Haverá algo mais delicioso que observar a vida a fluir?

A minha mente diz-me que há: deitar-me no sofá e descobrir mais um pouco do mundo lá fora através da televisão. Delicioso.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Amar Tudo

Tudo aquilo que observo é uma projecção da minha mente. Não há excepções. As pessoas, a natureza, a qualidade. Tudo uma forma da mente interpretar a realidade.

O motivo porque digo que duas pessoas nunca se conheceram é que nós só conhecemos as histórias que contamos sobre os outros. Nunca iremos conhecer quem quer que seja. Apenas aquilo que a mente projecta.

Um exemplo. Estou numa estação de serviço na auto-estrada e o meu corpo pede-me água. Entro na loja e dirijo-me à estante das garrafas de água. E observo a minha mão. Qual será a garrafa que a minha mão vai pegar? E o braço estica-se, a mão abre-se. Eu observo. Deliciado.

E um homem, ao meu lado, pergunta-me, com uma voz que interpreto como de inquietação: “O que raio pensa que está a fazer?!”

É aqui que a minha mente começa a contar uma história, sobre este estranho. E só pode contar duas histórias. Uma que fala de agressão e outra que fala de amor. A minha mente pode contar esta história: “mas quem pensa ele que é? Como tem a ousadia de me interpelar desta forma sem me conhecer?” E recorre à necessidade de se defender. E assim a minha mente dá início à guerra. A defesa é sempre o primeiro acto de guerra. Claro que não estou à espera que ninguém compreenda isto. Só para mim é importante. Sou eu a passar por esta experiência. A segunda história pode ser esta: “Delicioso. Este homem, que ainda não me conhece, está interessado em saber o que estou a fazer.” A forma como ele mostra o seu interesse é irrelevante. E só uma história. A primeira história mostra-me agressão e a necessidade de me defender. Mostra-me que o mundo é um lugar perigoso. A segunda história mostra-me amor pelo momento. Qual é que escolho?

Nós escolhemos as histórias que contamos sobre os outros de acordo com o nosso passado. Há pessoas que ainda acreditam que precisamos de um passado para nos identificarmos. Se isto fosse verdade então os gatos iriam ladrar em vez de miar. O passado serve apenas para me informar quem sou. Acordo pela manhã e começo a identificar-me. As contas que tenho para pagar, os compromissos do dia, os afazeres. O problema é que quando eu acredito que sou esta pessoa, carrego ás costas todas as minhas superstições, preconceitos, mentiras, vergonhas, culpas, raivas, medos. E não consigo desfrutar plenamente do presente. Agora.

Para melhor compreender este conceito de ter um passado deixo-te mais um exemplo. Supõe que és uma pessoa que detesta a cor vermelha. Simplesmente não suportas ver pessoas com roupa vermelha. Para ti, as pessoas que vestem vermelho querem é ser o centro das atenções, e são provocadoras, e antipáticas. Esta é a história que tu contas sobre as pessoas que vestem vermelho. O que aconteceria se fosses a uma entrevista para um emprego de sonho, e a pessoa que te entrevista está vestida de vermelho? Imediatamente colocarias uma parede entre ti e essa pessoa. Não a ouvirias. Apenas conseguirias ouvir a tua história sobre as pessoas que vestem vermelho. Imagina que te apaixonas por alguém especial. Amas essa pessoa. A intimidade entre os dois cresce. Até um dia em que se encontram para ir jantar e essa pessoa veste uma camisola vermelha. Começas a compreender de que maneira o saber quem és pode provocar dissabores e impedir-te de desfrutar do momento? E se não sabes quem és, quando alguém veste uma peça de roupa vermelha, limitas-te a admirar a cor. Delicioso.

O que pensas da guerra? E da fome? E do cancro? E da sida? E dos árabes? E da inveja?

Enquanto não amares cada um deles, irás sempre projectar o que vês neles sobre os outros. Tudo aquilo que não queres ser não te deixará ser. Mas só 100% das vezes.

O que acontece com as projecções é isto. Algures na infância disseram-te que era feio ser invejoso, ou mau, ou egoísta. E se te acusaram de o ser a tua delicada mente decidiu que jamais seria essas coisas. E passará o resto da vida a projectar essas qualidades. Nos outros.

Ainda não te apercebeste que atrais sempre o mesmo tipo de pessoas na tua vida? O mesmo tipo de situações? Repetem-se porque a mente identifica-se com opostos. Bom e mau, bonito e feio. E enquanto não terminares a guerra na tua mente, a tua vida será um reflexo dessa guerra.

Se te permitires ser inteiramente íntegro contigo mesmo irás descobrir que tudo aquilo de que acusas os outros tu mesmo andas já a fazê-lo. Há muito tempo. E a mente lê isto e irá justificar-se. A justificação é a melhor forma de entrar em negação daquilo que é.

Alguma vez paraste para pensar porque motivo te justificas? É simples: queres manipular a maneira como os outros te vêem. Se tens que sair mais cedo do trabalho justificas-te porque queres que os outros pensem de ti algo que tu próprio não acreditas. Se te justificas perante um filho queres que ele pense de ti algo em que tu não acreditas. Observa-te. Não te justifiques, limita-te a observar-te.

A maior superstição que encontro entre pessoas que se consideram evoluídas é a lei da atracção. Aparentemente se amarmos o cancro estaremos a atrair cancro nas nossas vidas. Se isto é verdade, o que podes dizer ao pai de uma criança com um cancro? Se isto é verdade, o que podes dizer à mulher que perdeu a capacidade de andar? Andaram ambos a sonhar com estas situações? Não creio. Karma? Pode ser, mas não tenho qualquer prova que me mostre isso. O karma, tanto quanto consigo observar, é mais uma justificação. E impede-me de desfrutar da vida completamente.

A única coisa que sei é que tudo em que acreditava é mentira. A única realidade é aquela projectada pela mente. Uma mente em guerra irá projectar ciúme, inveja, sofrimento, medo, mágoa, raiva. Uma mente em paz irá projectar amor. Só amor.

O que acontece, quando a mente não ama toda a realidade, tal como é, é simples também. Tu podes amar-me e adorar o que escrevo. E até considerar-me um mestre. Por experiência sei que é isso que pensas de ti, só que poderás não estar consciente. Eu serei sempre a pessoa que tu quiseres ver. Eu sou tu.

Mas se tu odeias o cancro, se odeias a guerra ou o assassino, no dia em que eu disser algo que mexa numa ferida tua, ou no dia em que eu não me comportar como tu esperas, irás transferir tudo o que pensas sobre o cancro ou sobre a guerra ou sobre o assassino e irás projectar essas qualidades em mim. De repente, passo de bestial a besta.

Permite-te observar todos os relacionamentos que terminaram já e fazem parte do teu passado. Agora. Escreve as qualidades das outras pessoas que te levaram a terminar a relação. Começas a observar um padrão que se repete?

E por favor não sintas a necessidade de te justificar nem sentir culpado. Não sabias melhor. Perfeito.

Poderias a partir de agora, deste momento, começar a fazer as pazes com as partes de ti que tens rejeitado e negado? O invejoso, o egoísta, o estúpido, o avarento, o traidor, o mal-educado? Ama cada uma destas qualidades e atinge assim a paz na tua vida. É ok cada pessoa ser quem é. Cada um só pode ser quem é. E tu nunca irás alterar nem controlar quem os outros são. Mas podes alterar a história que contas sobre cada pessoa.

Alterar histórias é relativamente fácil, uma vez que tenhas sarado as feridas do passado. Alguém chama-me estúpido. E só posso sentir compaixão por essa pessoa. Meu Deus, esta pessoa deve estar a sofrer. Eu sei o que isso é. Sei o que é ter que lidar com alguém que acredito ser estúpido. Já o fiz. E dói tanto. E o que eu fazia era afastar-me do estúpido. Até aparecer outro estúpido. E quando alguém diz que não gosta de mim só consigo sentir compaixão. Como é que alguém pode não gostar de mim? Que sofrimento. Eu já o fiz, sei o que isso é. Dói muito não gostar dos outros. Sofre-se. Quando alguém não gosta de mim está a acreditar numa história de sofrimento, de separação, de expectativas. Eu sou tu. Só vês em mim o que está em ti.

Por este motivo sinto que a vida é deliciosa e todas as pessoas que encontro são deliciosas e um prazer conhecê-las. É a mim que estou a conhecer. A tua confusão é a minha confusão. A tua arrogância é a minha arrogância. A tua inveja é a minha inveja. Delicioso.

Hoje, neste primeiro dia da minha vida, acordei com um sentimento de êxtase. Imensamente grato por todas as pessoas que já conheci e conheço. Cada uma foi importante para me mostrar quem eu sou: tudo.

O passado é importante para aprendermos. Mas uma vez feita a aprendizagem, poderíamos largar esse passado? Deixar de cobrar aos outros pelas nossas falhas? Que nunca foram falhas. O ser humano não erra, é impossível. O ser humano simplesmente actua de acordo com o nível de consciência que possui no momento. Da mesma forma que uma criança nunca conseguiria andar de bicicleta antes de dominar o caminhar. Nunca um ser humano poderia amar outro sem primeiro amar-se a si mesmo.

Aquilo que eu considero uma falha em ti é uma falha em mim. A minha falha é não ser capaz de ver a perfeição que está já presente em ti.

A maioria das pessoas que já conheci fazem algo a que me dediquei durante anos. Pegam no seu passado e projectam-no no futuro. Incapazes de viver o momento presente. Se no passado tiveram uma relação em que foram traídos, irão projectar essa traição no futuro. E depois admiram-se das relações que criam. E tudo um trabalho da mente.

Enquanto não formos capazes de amar os outros sem querer que mudem, enquanto não formos capazes de amar aquilo que percepcionamos como falhas nos outros, enquanto não saborearmos o simples facto de os outros serem quem são, iremos viver um inferno. Iremos continuamente desejar que os outros sejam quem não são. E no fundo os outros serão sempre um espelho de tudo aquilo que não amamos em nós.

Quando digo que eu sou tu, o que quero dizer é que estou a perder a noção de quem sou. E é delicioso. Quando estou contigo consigo ouvir-te, é a mim que estou a ouvir. Consigo amar-te tal como és, é a mim que estou a amar. E não imponho condições. Podes acreditar no que tu quiseres, eu só posso amar-te e observar o sentimento em mim.

Quando escrevo, não é o Emídio quem escreve. És tu. Delicioso. O Emídio jamais seria capaz de escrever isto. Possuía demasiados preconceitos para o poder fazer. Mas tu, tu és a sabedoria por que esperamos. Tu és o meu melhor professor. Tu és o ser belo e magnífico que me mostra tudo o que tenho a descobrir sobre quem eu sou. E neste estado a mente permanece em paz.

Por vezes a mente tenta enganar-se a si mesma. E planeia um futuro. E depois a mente ri-se de si mesma. A arrogância de planear um futuro! Mas fá-lo. E depois permanece num estado de curiosidade. Deixa ver se isto vai acontecer... E se acontecer é bom, e se não acontecer também é bom. A mente que não sabe. Livre. A mente que não sabe está sempre disponível para amar. Não cola uma história de sofrimento sobre os outros. Observa os outros e ama. Delicioso.

A mente que não sabe poderá continuar a escrever. E é sempre delicioso. A mente que se identifica como Emídio irá parar um pouco. Dedicar-se aqueles que acredita serem clientes e vão ao seu gabinete. E irá acreditar que ajuda os outros. Delicioso.

Eu sei quem tu és sempre: uma projecção da minha mente. Por isso é-me fácil ser sincero quando te vejo e tratar-te por querido ou amar-te. Tu és perfeito. Só poderia sentir gratidão pelo facto de existires. Por me ensinares o que ainda tenho para aprender. E quando tentas magoar-me aprendo muito mais. Porque não és capaz de magoar-me. Apenas eu tenho esse poder. Apenas eu sou capaz de me magoar. Quando acredito numa mentira. Quando acredito que tu deverias ser quem tu não és. Perfeito.