quarta-feira, 20 de abril de 2011

A dor dói. Mas será verdade?

Ontem quis ter a experiência da dor. Como sei que queria esta experiência? Tive-a. Poderia a vida ser mais carinhosa?

Estava a assar sardinhas na brasa e os meus dedos escolheram pegar numa brasa. Poderia dizer que me tinha enganado, e pegado numa brasa em vez da sardinha. E começaria o meu inferno pessoal. A realidade é que os meus dedos queriam pegar numa brasa, porque foi no que pegaram.

E como não largaram a brasa de imediato, soube que queria ter a experiência da dor, de uma queimadura.

Entretanto as minhas pernas mexeram-se rapidamente e levaram-me à casa de banho. Estava curioso. O que iria fazer ali? A mente observava as dores provocadas pela queimadura e questionava-se.

“Não deveria estar com dores” – ria-me.

“Não vou poder fazer massagens” – ria-me.

“O que é que vou fazer agora?” – e continuava a rir-me.

A mente tentava deliciosamente arranjar pretextos para me causar sofrimento. Não conseguia. E experienciava as diferentes nuances da queimadura. As mãos agarraram num frasquinho de óleo puro de alfazema, abriram-no e despejaram o líquido sobre a queimadura. “Ah! Então é isto que a vida quer!”

A vida continuava a fluir através de mim, sem um grama de resistência da minha parte.

Claro que a mente queria queixar-se. Queixar-se a alguém como se os outros fossem um analgésico. A mente ainda não descobriu que a queixa é completamente inútil. Sem utilidade. Se acreditasse na mente, e me queixasse, estaria louco.

A dor física é algo natural. Mas o que pude observar é que o que causa mal-estar, sofrimento, não é a dor física mas a luta que a mente trava contra essa dor. A desejar que não exista, quando está presente. A querer as coisas diferentes daquilo que são.

Depois a vida levou-me para o jardim. Os dedos latejavam. Eu observava, à procura de pensamentos que pudessem causar-me sofrimento. Veio apenas mais um: “Este latejar provoca-me muito desconforto”. E vi imediatamente que o que me provocava desconforto era o pensamento. O latejar mantinha-se independentemente de a mente querer ou não a experiência. Mas eu sabia que queria esta experiência, pelo simples facto de estar a passar por ela.

Os pássaros chilreavam, gotas de chuva caiam, o vento soprava, e os meus dedos latejavam. Mantive-me envolvido na experiência total de estar vivo.

Eventualmente o latejar desapareceu, voltou ao lugar de onde tinha vindo: nada. E sorriu. É para lá que também um dia eu irei. Delicioso.

domingo, 10 de abril de 2011

Quero ter uma conta aberta no FB. Será verdade?...

Através desta rede social tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas especiais. Todas, sem excepção, me foram úteis na descoberta de quem sou. Sinto-me privilegiado. Algumas destas pessoas já conheci ou fiquei a conhecer pessoalmente. E é delicioso poder abraçar cada uma, sentir todo o carinho delicioso que brota de cada uma, sem esperar nada em retorno.

Pela minha experiência pessoal, o FB mostrou-me, tanto como na vida real, que só conseguimos abraçar a nossa luz depois de atravessada a escuridão. Aquela escuridão que tentamos a todo o custo que ninguém consiga descobrir. Enquanto as feridas da nossa infância e adolescência não forem saradas, por mais meditações e figurinhas de luz que imaginemos, iremos continuamente projectar os aspectos rejeitados da nossa alma.

Este é o crime de todos aqueles que não gostamos: mostram-nos as nossa qualidades deserdadas, doentes e que só conseguimos aguentar porque as projectamos sobre os outros, aqueles a quem apontamos o dedo. E uma vida assim nunca pode ser fácil.

Por outro lado, descubro que ninguém tem que fazer rigorosamente nada. Ninguém tem que mudar, nem evoluir, nem ser melhor. Apenas eu. Sou a única pessoa que posso mudar. Os outros podem fazê-lo, claro, mas não faço disso uma exigência para os amar.

Descubro que cada ser humano é digno de ser amado, independentemente do que fez ou disse, ou deixou de fazer ou dizer.

Descubro que todos somos amor puro, mas muitos esquecemo-nos disso, perdemos consciência que somos amor, e procuramo-lo continuamente nos lugares errados: fora de nós.

Descubro ainda que não há nada de que me possam acusar que não seja verdade. E observo que as pessoas com quem contacto presencialmente sentem um carinho especial por mim. É o carinho, o amor, que sempre esteve dentro de cada uma. Limito-me a recordar-lhes isso. E estar presente para cada uma, sem qualquer condição, é suficiente. Descubro que na presença do amor incondicional qualquer ser humano tem a capacidade de se tornar consciente que é isso: amor incondicional.

Perdoo a todas as pessoas que me enviaram mensagens e ás quais não respondi. Há já algum tempo que desisti de as ler. Eram uma média de 30 a 40 por dia.

O FB foi ainda um teste delicioso para comprovar que de facto ninguém tem o poder suficiente para me magoar, apenas eu tenho esse poder. E sinto que o estou a perder a uma velocidade deliciosamente ideal.

Aprendi que é delicioso viver uma vida em que só desejamos que os outros sejam quem são e nunca quem gostaríamos que fossem.

Aprendi a ouvir sem a necessidade de me defender. A defesa é sempre o primeiro acto de guerra, e como diz a querida BK, todas as guerras se resolvem numa folha de papel.

Aprendi que não penso, sou pensado. E que para sofrer tenho que acreditar nos pensamentos como sendo de minha autoria. Nunca o são. Fluem. E são iguais aos do meu vizinho, do meu amigo e do meu pai. Não há pensamentos novos que causem stress emocional. São sempre os mesmos.

Sinto que estou a viver um momento de crise. Uma oportunidade única de crescimento e bem-estar. É isso que significa para mim a palavra crise. Não estou a tentar embelezar o belo nem a negar o que quer que seja. Uma crise é sempre uma oportunidade de crescimento. Se tivermos a coragem de abrir os olhos em vez de apontar o dedo.

As mudanças que observo à minha volta são muitas e muito aceleradas. Escolho o silêncio, a calma, a paz e o amor. Continuarei a escrever no meu blog, ou não. E irei continuar a enviar com alguma periodicidade a newsletter aos que estão inscritos nela, ou não. De qualquer forma, a minha caixa de correio electrónica mantém-se receptiva a qualquer email: emidiocarvalho@gmail.com . Mas por favor não me enviem emails reencaminhados (aqueles com um FWD), nunca os abro.

Escolho dedicar uma grande parte do tempo disponível à preparação da primeira Escola Residencial, com a duração de uma semana, em Julho. É um desejo do meu coração que cada pessoa que participe consiga todos os objectivos que a levarão até lá. E sei que irá acontecer.

Porque, com a ajuda do FB, descobri que na presença do amor, a realidade torna-se amorosa, deliciosa, de braços abertos, e sempre com um sorriso. A vida flui. Eu sigo este fluir. Assombrado. Deliciado. Sem histórias. Tudo e nada na perfeição.

Ah! E é verdade, adoro cada amigo virtual do FB! Cada um é sempre tão perfeito, tão igual a si mesmo, tão autêntico. Como poderia não amar cada um? Impossível.

E a vida continua, sempre a fluir. Vou a Madrid, ou não. Vou à Madeira, ou não. Sempre curioso. Será que isto irá acontecer?... Estou curioso. E a vida sorri sempre, nunca me decepciona. A vida é aquilo que é e nunca aquilo que o ego gostaria que fosse.

Não é delicioso?

sábado, 26 de março de 2011

Recebi este email ontem, da querida A.

Um ano depois de começar o Curso de Educação Emocional...

Olhei para a altura em que encontrava algo de bom para cada situação do passado, sobretudo o que vivi com o pai e tinha de fazer um esforço. Não sentia o que escrevia...

Ontem, observei o presente ... e numa conversa com o pai, apercebi-me que ele já não me conta a sua história de vitima da infância e da adolescência.

Conta-me novas histórias, que não me lembro alguma vez de ter ouvido. Vi uma pessoa corajosa, determinada, ousada, aventureira; uma pessoa que venceu graças às situações adversas.

De repente soltou-se uma voz: Sou eu, sou eu, sou eu! E ainda estou de boca aberta.

Não sei que é feito da pessoa que se lamenta e que me conta histórias de coitadinho. Não consegui mesmo ver !

A primeira vez que me apercebi disto foi este mês e pareceu-me curioso. Ontem à noite repetiu-se e foi aí que eu vi. Fui eu que mudei !

E disse-lhe ... afinal tu eras corajoso, aventureiro, bom comunicador, dinâmico, saías de qualquer situação difícil... ele ficou calado e depois disse... Bem é verdade! Eu fiquei de boca aberta e imóvel. Não tive qualquer outra reacção...

Agora estou a trabalhar a filha e estou parva com tanta coisa que estou a descobrir através dela.

O comportamento da filha (fez o que disse que ía fazer e não ligou ao que eu lhe dizia, ou seja, eu disse-lhe para ir para o ATL no intervalo das aulas e ela disse que não ia e não foi) e quando me perguntei de que forma faço o mesmo, comecei a ver inúmeras cenas do passado, que quando comecei este curso só via a vitima e agora saltaram com nova dimensão ... ex. Tinha 4 anos e ia varias vezes passar a tarde a casa de uma vizinha velhota e almoçava lá também. Uma vez eu disse que não queria comer porque não gostava da comida. A vizinha, zangou-se comigo, pegou-me pelo braço e levou-me a casa e disse à minha mãe que eu lhe tinha chamado ''velha'' e por isso não me queria mais em sua casa. A memória que ficou a repetir-se muitos anos foi '' injustiça. ela mentiu e eu disse a verdade''.

Ontem, quando me saltou esta memória veio de outra maneira: sorri para mim e disse-me ''eu tinha muita personalidade; já era muito corajosa; já me respeitava; a vizinha não devia saber lidar com a situação e inventou uma desculpa! ''

E a seguir a esta comecei a ver sem esforço uma série de outros eventos que rotulei estes anos todos de injustos, e só via o meu lado corajoso; o meu lado em que me respeitei, mesmo quando outros me '' abandonaram '' e esta não é a verdade; para chegar aqui, vi primeiro que eu é que me abandonei todas a vezes que considerei que outros me abandonaram, desde os 5 anos ... e como a emoção era forte, lembrei-me do que costumas dizer... encontra o oposto ... fui à procura e libertou-me quando encontrei nas mesmas situações as atitudes em que me respeitei, em que fui corajosa, em que fui ousada, em que fui amorosa ... e já não vi as outras.

Tenho percepção que só vemos uma coisa boa ou uma coisa má de cada vez. Não se consegue ver as duas. Quando estou a focar-me nestas atitudes corajosas, ousadas, determinadas, amorosas, estou a sentir uma emoção/energia que inunda o meu corpo de algo parecido com abundância, compaixão, aceitação, amor-próprio, gratidão... deus, não sei o que lhe posso chamar mas é isto que estou a sentir desde ontem.

Desde que comecei esta parte do Curso, que a maioria desistiu de fazer, entro várias vezes ao longo do dia em estado de observação e vejo mais do que todos os 8 meses anteriores do Curso; se pudesse dizer a todos os que desistiram ou os que estão a fazer e não pensam continuar, dizia-lhes ... não sabem o que estão a perder.

Quando cheguei a Dezembro acreditava que já tinha trabalhado muito o pai, a mãe, o marido, os filhos, a sogra ... mentira ... com a observação continua é que estou a ver mais, mas estou é a ver mais de mim !

Por outro lado estou também a encontrar resistência, dificuldade em dar resposta diferente às situações em que estou a querer agradar ... sinto-me sem controlo nenhum. Apanho-me inúmeras vezes ao longo do dia com intenções subtis, a dizer coisas e a ver em simultâneo a intenção que está por trás e estou consciente de estar a manipular. O receio do que possam pensar de mim; no trabalho está a acontecer todos os dias; com o marido também; com amigos; com vizinhos; com os filhos; mesmo encontrando as razões que estão por trás e sabendo que é mentira, não estou a conseguir de momento ter outra atitude. As desculpas e as explicações.

Neste momento agradeço-te por me dares estas ferramentas para trabalhar e agradeço-me por ter pegado nelas. Uma vezes consigo e outras não. Estou com a percepção de que isto é o principio. O Curso pode terminar mas o estado de observação de mim e da realidade não. E isso só depende de mim.

Um abraço muito apertado.

(o meu corpo e eu desfrutamos neste momento a sensação de plenitude ''está a valer a pena !'' ehehe :)))


NB - Só tenho a acrescentar uma recordação à querida A: eu não fiz nada. Nunca fiz mais nada a não ser observar-te e respeitar o teu processo, o teu caminhar. A vida é sempre deliciosa, quer estejamos acordados ou não. E o que observo é que tu, querida amiga, estás a acordar do sono profundo da mente. Poderia a vida ser mais deliciosa?

domingo, 20 de março de 2011

Pensamentos soltos que foram surgindo ao longo do dia de hoje

Um amante daquilo que é espera com alegria tudo o que possa vir na sua direcção. A vida, a morte, a doença, a perda, tremores de terra, bombas, tudo aquilo a que a mente possa chamar de “mau”. A Vida irá trazer-lhe tudo o que precisa, para lhe mostrar aquilo que ainda não ama. Nada fora de mim pode causar-me sofrimento. Apenas os pensamentos por questionar podem causar dor, tudo o mais é um paraíso.

Eu estou livre para ir a qualquer lugar, porque não consigo projectar perigo. Em realidade Emídio é apenas um conceito, e há algum tempo que deixei de acreditar em conceitos. Sem a história de quem o Emídio é, ou deveria ser, estou livre para ser uma expressão da Vida. Não há um lugar onde não possa ir. E eu adoro ir, porque adoro a viagem e a pessoa com quem viajo. Que pode ser a pessoa a ler isto. Uma mente que não acredita em si encontra-se em paz, a sanidade presente. Uma mente sem mentiras curva-se perante a beleza da sua reflexão no mundo à sua volta. Não adiciona nem subtrai nada à realidade. Sabe a diferença entre a realidade e a fantasia e assim não consegue conceber o conceito de perigo.

Qualquer pessoa que acredite no mal irá ter medo e, por conseguinte, sentir-se confusa. O mal é apenas mais uma história que nos impede de experienciar o amor. O que observo é que Deus, Universo, Fonte, é tudo, e é Amor Incondicional. Apenas a mente confusa é capaz de criar separação, de ver o mundo a duas cores. E se acredita no medo irá necessitar de se defender. Começa a guerra.

Não há nada mais carinhoso que uma mente aberta. Uma vez que não acredita naquilo que pensa, torna-se flexível, porosa, sem oposição, sem defesa. Nada a consegue dominar. Nada a consegue resistir. Mesmo a coisa mais impenetrável do mundo – uma mente fechada que precisa de ter razão – não consegue resistir ao seu poder. Eventualmente até a mente mais endurecida se torna flexível e fluida na presença da mente aberta.

As pessoas têm medo de ser nada. Mas ser nada é apenas um aspecto daquilo que é. Nada não só é um motivo para celebrar como também para sentir gratidão e não ter medo. Sem a história de stress em que a mente acredita – o mundo é perigoso, há mal, preciso de ganhar dinheiro – o stress desaparece. Quando não acreditas nos teus pensamentos apenas pode existir alegria e riso.

Apenas a mente que acredita nos seus pensamentos é capaz de criar a imperfeição.

Tudo na vida acontece sem a nossa aprovação. A rosa abre-se e deixa cair as pétalas. Eventualmente morre. Sem qualquer indicação da tua parte um carro buzina na rua, uma criança salta, o sol brilha, a tua amiga telefona-te. Sem qualquer interferência da tua parte os países entram em guerra, os teus pais discutem e os teus amigos falam nas tuas costas. Sem o teu consentimento crianças nascem, amantes abraçam-se e uma refeição é preparada. Poderia a vida ser mais deliciosa?... Tudo a acontecer para ti, para que te descubras. A vida, esta dança perfeita que te mostra continuamente quem és e não exige nada de ti.

Quando estou com uma pessoa pela primeira vez sinto uma torrente de gratidão e amor pela vida. Sei que toda a minha vida aconteceu para este momento especial. Para te ver e desfrutar desta oportunidade única de te amar por seres quem és e não quem eu gostaria que fosses. Não tenho uma história de ti, dedico-me a ouvir-te. A tua história, que é uma mentira, é tão deliciosa que é uma honra e um privilégio poder ouvir-te. Apenas a mente confusa acredita em histórias de sofrimento e separação. Mas não espero que me compreendas, nem exijo de ti outra coisa que não seres quem tu és. E neste espaço, sem qualquer expectativa, posso abraçar-te. Oh meu Deus, poderia a vida ser mais deliciosa?!

domingo, 13 de março de 2011

A Realidade é sempre deliciosa

A realidade é sempre muito clara e simples quando a mente se encontra desperta e num estado de simplicidade. O problema começa quando a mente decide que há um qualquer significado escondido por detrás da realidade, daquilo que está a acontecer. Mas a realidade é aquilo que é, aquilo que está a acontecer agora. O que quer que seja que esteja a acontecer é bom, e se não consegues ver esta bondade podes sempre questionar os pensamentos que ocorrem na tua mente e discutem com a realidade.

Quando vejo as coisas e as pessoas sem uma história, faço uma escolha entre o aproximar-me ou afastar-me, sem discussões internas e sem juízos de valor. Nem sequer preciso de saber porque o faço. E este movimento é sempre perfeito, e eu nem tenho que perguntar-me porque ocorre.

E porque na realidade nada tem segundos significados, a realidade é esta: homem sentado numa cadeira em frente a um computador, a pressionar teclas num teclado, que olha de vez em quando pela janela, bebe água de um copo. Poderia a vida ser mais simples? É só isto o que está a acontecer agora. É a única história possível. Quando amamos aquilo que é, a vida torna-se simples e carinhosa. Quando a mente descobre que tudo é como deveria ser.

Mas se olhares para mim e contares uma história, irás distorcer a realidade e entrar em guerra. A tua mente pode pensar algo como “Emídio, a arquitectar um plano para convencer alguém a fazer algo que não quer fazer, e que não sabe o quanto custa a vida, a divertir-se à minha custa.” Entras numa história e discutes com a realidade. E a realidade tem uma forma doce de vencer sempre. Observa sempre que entras em stress, estarás a discutir com a realidade.

Observo um jovem a chamar nomes a uma mulher idosa. As pessoas à minha volta começam a comentar. Começam a discutir com a realidade. O que dizem é isto: “não tem vergonha! Olha como insulta a pobre velhota! Se fosse meu filho levava um par de estaladas na cara!” – e não conseguem observar o que acontece. Acreditam numa história que diz que os mais novos não deveriam dizer o que dizem, e sobretudo a alguém mais velho. A realidade? As pessoas dizem o que dizem e fazem o que fazem. Não é certo nem errado, é o que é. Observo que as pessoas que tecem os comentários entram em stress. Eu observo. Procuro em mim onde ando a desrespeitar-me. Ah! Já sei! Deito-me tarde e levanto-me cedo, bebo demasiado café, ando a correr, não tenho meditado, preocupo-me com o bem-estar dos outros (como se eu pudesse fazer alguma coisa em relação ao que os outros sentem!). E a lista continua. Sorriu. Mentalmente agradeço ao jovem. Depois observo que a discussão não existe. Parou. O jovem dá dois beijos à idosa e parte. Ela senta-se na mesa ao meu lado. Olho para ela e sorriu. Tem uma expressão deliciosa. Ela sorri de volta e diz “é a juventude!” Concordo. Gosto desta história simples. E aprecio o pastel de nata, enquanto as pessoas à minha volta ainda discursam sobre o que aconteceu antes, aquilo que já não é. Agarram-se ao passado.

Quando falo e escrevo faço-o a partir de um eu que sei que não existe, é mais uma mentira. Eventualmente descobrirás a mentira também. Também falo a partir de Deus, da Terra, de um grão de areia. Se estas coisas existem mesmo, eu sou a sua origem. E eu acredito que sou estas coisas porque não tenho um ponto de referência para “eu”.

Se conseguires contemplar a realidade sem uma história, a vida torna-se carinhosa. Para sofreres tens que impor um “deveria” ou “quero” ou “preciso”. Acreditas mesmo que é possível compreender a vida a partir de vinte e três consoantes e vogais?

Eu sou tudo, a mente é tudo. Falo a partir de um “eu” para evitar a alienação dos outros. Durante uma semana vivi sem “eu” e observei como os outros ficavam confusos. Dizia: “ele agora gostava de beber vinho” e as pessoas olhavam-me confusas. Então aprendi a substituir a referência à mente e chamar-lhe um “eu”.

Falo com as pessoas a partir de um ponto em que sou amigo e se as pessoas confiarem em mim é porque vou ao seu encontro a partir do mesmo nível em que elas se encontram. Sinto-me apaixonado. É uma relação amorosa de mim para mim, e inclui tudo. Ao ir ao encontro dos outros sem qualquer imposição ou condição é ir ao meu encontro sem qualquer condição ou imposição. Sinto-me apaixonado por tudo. Vaidade pura. Ontem dei um beijo à porta da casa – é tudo eu.

Gosto de falar como um ser humano – é o meu disfarce. Uma das primeiras coisas que notei, quando comecei a abrir os olhos, foi a consciência que sou tudo o que observo. Não há nada que não seja eu. E depois apaixonei-me por tudo, pelos olhos, pelas mãos, pelas pernas, pelo solo, pela chuva, pelo carro que buzina. Nada está separado da mente. Eu sou isso. E sou isso. E sou isso também. Sou tudo e sou nada. Nada se encontra separado.

Olho para o céu e não sei que é céu até lhe colocar o rótulo. E no momento em que coloco o rótulo torna-se realidade. Antes de haver um rótulo não há realidade.

E é delicioso observar como a minha mente raramente acredita em si mesma. Sem um significado tudo existe de maneira perfeita. Eu sou o velho e o novo, o princípio e o fim, eu sou tu, eu sou tudo – este batimento extático, esta alegria sem nome, esta dança contínua, este nada luminoso.

Até começar a acordar precisei de questionar tudo. Tudo o que a mente acreditava. E observar como tudo era mentira. E inicialmente assustei-me. E depois descobri que o próprio medo era uma mentira.

A realidade é sempre carinhosa, sem decepções – é aquilo que é, sem uma história.