terça-feira, 14 de junho de 2011

Meter o nariz onde não somos chamados

Observo como muitas pessoas me dizem que têm receio de participar num processo da sombra humana. Eu compreendo. Hoje observei com atenção este processo enquanto o aplicava numa cliente. Observava como alguém que observa um filme.

E descobri o que eu estava a fazer a esta cliente. A acordá-la. E descobri que ninguém gosta de ser acordado.

Imagina que passas um dia a trabalhar sem qualquer pausa. À noite chegas a casa e ainda tens que cozinhar o jantar, ajudar os filhos, arrumar a cozinha. Quando te vais deitar estás dorido e o teu corpo pede descanso. Deitas-te. E adormeces imediatamente. O que aconteceria se alguém te aparecesse em casa e te acordasse às duas da manhã? E mais! Acordava-te e mostrava-te como não tinhas feito nada ao longo do dia anterior, apenas fingiste. Não parece muito convidativo.

Mas é a dormir que andamos. Há milhares de anos. E acordar dói sempre. Não queremos acordar. Preferimos o sofrimento conhecido ao passeio pelo desconhecido e misterioso.

Encontro muitas pessoas que aparentemente estão a acordar. Mas continuam a fingir. Sabem todos os conceitos new age, compreendem todas as filosofias, falam de outras dimensões, comunicam com os anjos, conseguem manter sempre uma calma artificial. Enfim, sei do que falo, também já o fiz.

A mente que acredita que sabe está irremediavelmente perdida. Ou não. Mas estará sempre fechada.

Porque continuamos a dormir e a não querer acordar? Porque motivo sofremos?

O meu filho está muito doente. Os políticos mentem. A loja ao lado foi assaltada. A minha amiga foi assassinada. O meu pai faleceu. Tenho um cancro. A empresa onde trabalhava fechou as portas. Os colegas não me respeitam. O marido é alcoólico. Fui maltratado pelos meus pais. Só há desgraças no mundo. Os terroristas matam inocentes. Os medicamentos estão cada vez mais caros. Não posso confiar nos outros. A vida é injusta, coitado de mim.

Podes fazer alguma coisa em relação a cada uma das situações anteriores?... Nada. Zero.

E enquanto te dedicas a sofrer por aquilo que não controlas, há alguém a viver a tua vida? Ninguém. Enquanto tu falas e pensas em tudo o que está errado, enquanto te dedicas à vida dos outros, não te apercebes que não estás presente para a única pessoa que te é importante: tu mesmo.

Não estou a dizer que és mais importante que os outros. Não és. Mas és a pessoas mais importante para ti. Assume a tua vida. A cem por cento.

Hoje apareceu-me uma cliente com o seu filho, diagnosticado como sofrendo de comportamento anti-social. A senhora falava comigo e chorava. Perguntei-lhe se ela tinha algum problema. Olhou para o filho. Não compreendi. Voltei a perguntar. Ela apontou para o filho e começou a soluçar.

Mas se quem aparentemente tem um problema é a criança, porque motivo chora a mãe? Ou seja, não chega a criança sentir que é diferente do grupo, tem ainda a mãe a responsabilizá-la pela sua felicidade. Loucura!

Se a pessoa que me é mais querida fosse diagnosticada com uma doença e lhe fosse dito que teria apenas uma semana de vida, a única coisa que eu poderia fazer seria tirar essa semana para estar com esta pessoa. Desfrutar da sua companhia. Viver a pura felicidade de partilhar momentos. Mas fá-lo-ía em paz. Seria suficiente uma pessoa a sofrer.

E neste planeta as pessoas morrem. Ou pelo menos os corpos morrem. É o que acontece aqui, nesta realidade. As pessoas não podem morrer porque vivem onde sempre viveram: na nossa mente e no nosso coração.

E por vezes recordamos as pessoas cujos corpos partiram e choramos. Essas lágrimas são amor puro. Mas o ego chama-lhe tristeza pela perda. E sofremos. Como podemos perder algo que nunca possuímos? Se nem sequer a roupa que temos vestida é nossa. Um dia morremos e a roupa fica.

Acordar é isto: abandonar os negócios dos outros e dedicarmo-nos a nós. Se o fazemos com respeito por quem somos iremos sempre projectar paz, serenidade, calma, bem-estar.

Há muito tempo que não encontro uma pessoa triste, zangada, frustrada, danificada. Pelo menos enquanto está à minha frente. É que, caso ainda não tenhas acordado, eu sou tu. E não, tentar explicar isto não é possível. Ou o sentes ou não. E é ok.

Eu amo-te, sejas tu quem for. E isso não significa que vou dar-te pancadinhas nas costas, nem fingir acreditar nas tuas histórias. Nem sequer tenho que te conhecer. E amo-te tal como és. Não exijo nada. Se o que queres é sofrer, eu amo-te. Se o que queres é queixar-te, eu amo-te. Se o que queres é dormir, eu amo-te. E se quiseres acordar, podes vir ter comigo, eu ajudo-te (aviso que irá doer de início).

Na vida não há erros, apenas o ego consegue ver erros onde não existem.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Vergonha Saudável

A vergonha saudável permite-nos saber que somos limitados. Diz-nos que ser humano significa ser limitado. Em realidade o ser humano é limitado. Nenhum ser humano alguma vez poderá ter um poder ilimitado. O poder ilimitado que muitos gurus modernos apregoam é uma oferta feita de promessas falsas. Os seus discursos chamando-nos para o nosso poder ilimitado transformou-os em pessoas ricas, mas nós continuamos com a nossa vida na mesma, ou quase. Continuamos a enfrentar os mesmos conflitos, as mesmas situações adversas, as mesmas discussões, os mesmos relacionamentos. Em realidade estes gurus tocam nos nossos egos e movimentam a energia aí escondida: a vergonha tóxica.

Enquanto humanos somos “perfeitamente imperfeitos”. Ser limitado está na nossa natureza. Muitos problemas graves podem surgir do facto de não aceitarmos que somos limitados. A vergonha saudável ensina-nos sobre os nossos limites. Como todas as emoções quando são expressas de uma maneira saudável, a vergonha impele-nos na direcção das nossas necessidades básicas.

A vergonha saudável mantém-nos com os pés na terra. É como uma luzinha amarela que nos avisa das nossas limitações humanas. É a energia emocional que nos recorda que não somos Deus – que todos nós cometemos erros e precisamos de ajuda. A vergonha saudável dá-nos autorização para sermos humanos.

A vergonha saudável é parte integrante do poder humano presente em cada um de nós. Permite-nos conhecer os nossos limites, e, assim, utilizar a nossa energia de uma maneira mais eficiente. Conseguimos orientar-nos melhor quando estamos conscientes dos nossos limites. Não desperdiçamos as nossas capacidades indo atrás de objectivos que nos ultrapassam, ou querendo mudar aquilo que não nos é possível mudar. Não perdemos tempo criando objectivos irreais. A vergonha saudável permite-nos orientar a nossa energia para atingirmos o melhor que há em nós. E este melhor é muito variável, de pessoa para pessoa.

A espiritualidade é um acto de abraçar o sagrado em nós. A espiritualidade está relacionada com uma vida interior com valores e significados precisos. Está também relacionada com a nossa finitude – o nosso assombro e estupefacção perante os mistérios da vida. A espiritualidade diz respeito ao amor, à verdade, à bondade, à beleza, ao dar e receber. Sem impor qualquer condição. Amar o amigo que concorda connosco e ser contra a guerra, ou contra o cancro, é um sinal nítido de um ego espiritualizado. A vergonha doentia espiritualiza o ego e educa-o. Assim, consegue manter-se sempre a lutar contra a corrente, contra o fluir natural da vida.

A espiritualidade é o objectivo último de qualquer ser humano, a necessidade última. Leva-nos a procurar transcender-nos e tornarmo-nos conscientes da fonte verdadeira da vida: o desconhecido maravilhoso.

A nossa vergonha saudável é essencial como alicerce da nossa espiritualidade. Ao recordar-nos das nossas limitações básicas, esta vergonha permite-nos saber que não somos Deus. E mostra-nos a direcção para um significado abrangente da realidade

É na nossa vergonha saudável que experienciamos a humildade. Sem necessidade que os outros acreditem em nós, nem necessidade de manipular o que os outros dizem de nós. O silêncio impera.

A vergonha doentia leva o ego a continuamente se justificar. A necessidade de justificarmos um nosso comportamento nada mais é que a necessidade de manipular os outros para que pensem de nós o que queremos que pensem de nós.

Por exemplo no FaceBook podemos descobrir muitas pessoas com um perfil sem nome próprio, recorrendo a nomes virtuais que a mente associa facilmente com a espiritualidade, ou com uma foto de anjos ou estrelinhas ou golfinhos. É uma forma da vergonha doentia, escondida atrás de uma máscara, tentar manipular os outros. No fundo é uma tentativa do ego gritar aos outros “quero que pensem que sou uma pessoa boa e espiritualmente evoluída”. E em realidade, quando se é evoluído não é preciso convencer ninguém do que quer que seja. A perfeição está sempre presente.

Um nome é um nome. A foto da face é uma foto da face. Não há necessidade de esconder nem manipular. Por este motivo afirmo que já encontrei muitas pessoas que se afirmam como “ateus” que vivem uma espiritualidade mais viva e honesta que muitas pessoas que se julgam espirituais.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A passividade não é uma opção, excepto quando é.

Em cada momento, cada ser humano neste planeta está a fazer o melhor que é capaz de acordo com o nível de consciência em que se encontra. Da mesma forma que seria absurdo esperar que uma criança de seis meses caminhasse habilmente, não é menos absurdo que uma pessoa menos consciente tenha um comportamento mais consciente. Não é possível.

Assim, seria um absurdo da minha parte esperar que alguém insensível de repente se transformasse numa pessoa carinhosa. E quem será mais insensível, a pessoa que, sabe-se lá porquê, não é capaz de demonstrar carinho, ou a pessoa que observa e se afasta porque não gosta de pessoas insensíveis?

Quem será mais cruel, a pessoa que, sabe-se lá porquê, acredita que a guerra é a única solução para as situações que a vida lhe lança, ou aquela que a olha com desdém e aponta o dedo por ser quem é?

Quando alguém grita, não estarei eu a gritar ainda mais alto na minha cabeça para que essa pessoa se cale?

Quando alguém me falta ao respeito, não estarei eu faltando-me ainda mais ao respeito ao permitir-me olhar com desprezo para essa pessoa que não sabe mais?

Quando alguém fala mal de mim, não estarei eu a fazer pior ao falar dessa pessoa aos meus amigos e colegas?

Quando alguém está doente, e sente-se mal, não estarei eu a aumentar o seu sofrimento ao mostrar-me preocupado com a sua condição?

A Sombra Humana é tudo isto: aquilo que apontamos aos outros andamos nós a fazê-lo. Mas estamos inconscientes dos nossos actos. E ao estar inconscientes, iremos atrair mais pessoas que nos mostrem o que andamos a fazer, por forma a termos a oportunidade de crescer.

Por outro lado, enquanto não nos tornamos conscientes das qualidades humanas que rotulamos de negativas, estas ganham poder no nosso subconsciente. Por volta dos quarenta anos começam a controlar a nossa vida. Não é por acaso que se chama “crise da meia-idade”.

Mas estas qualidades, ditas negativas, quando trazidas à luz do consciente, são verdadeiros aliados que nos podem ajudar a crescer, a ser melhores e a criar harmonia à nossa volta.

Para tornar estas qualidades conscientes temos que começar em primeiro lugar, a expô-las. Uma a uma. Assumir que existem em nós. E depois observar de que maneira nos podem ser úteis. Esta é a parte que mais desafios cria. Como poderia a estupidez, a burrice, a antipatia, a crueldade, ser-nos útil? Podem. Mas enquanto não assumirmos estas qualidades elas irão surgir sempre na nossa vida através dos outros.

Por outro lado, a Sombra leva-nos a lutar continuamente contra Aquilo Que É.

Estamos a passar por uma experiência que rotulamos de negativa, e a nossa mente luta para que a experiência não aconteça, quando está a acontecer!

Vou pegar na doença, como exemplo.

Observa-te quando estás doente. E observa a energia que gastas a lutar contra a doença. Essa energia poderia ser útil ao corpo para lidar com a doença. O corpo sabe o que fazer. Até agora manteve-te vivo sem teres que saber como se processa a digestão, a troca de oxigénio, o batimento cardíaco, a circulação sanguínea, etc.

O primeiro passo para a saúde passa por amar a doença. Isto não significa não ir ao médico ou outro profissional de saúde! Significa apenas fazer as pazes com a doença, deixar de a ver como o inimigo a abater.

O que observo neste planeta é que os corpos adoecem. Eventualmente acontece a todos. E quando eu não quero estar doente estou a lutar com a Realidade (para mim Realidade, Universo, Deus, é a mesma coisa). A única forma de amar a doença é ver os benefícios da sua manifestação no corpo. De que forma esta doença é uma prova de amor da Realidade? O que há de bom nesta doença? Há sempre algo.

Apenas alguns dos benefícios de uma qualquer doença:

- Aproxima-nos daqueles que são realmente importantes para nós;

- Permite-nos descansar;

- Dá-nos a coragem de pedir ajuda;

- Permite que outros sejam de serviço;

- Dá-nos tempo de avaliar a nossa vida;

- Ensina-nos, entre outras coisas, que nada é assim tão importante;

- Mostra-nos a nossa vulnerabilidade;

- Ajuda-nos a fazer mudanças radicais na nossa vida;

- Educa-nos sobre todas a bênçãos presentes na nossa vida;

- Dá-nos uma oportunidade de amar incondicionalmente.

E a lista não termina aqui! Amar a doença não significa ficar de braços cruzados. Procura ajuda profissional. Aquela em que tu acreditas ser a melhor para ti. Mas vai ao encontro dessa ajuda em paz, tranquilidade, a amar a vida, em vez de mostrar ingratidão para com a vida.

A forma mais rápida de ultrapassar qualquer desafio é assumir que queremos a experiência do desafio, amamos a sabedoria da vida através desse desafio, e procuramos ajuda. Em paz.

Há uns dias fiz uma viagem de 400 quilómetros. O carro estava cheio de poeira. À nossa frente havia muitas nuvens de chuva. E no entanto, ao longo de mais de 300 quilómetros, a chuva caía sempre onde o carro não se encontrava. Eu queria tanto apanhar chuva para lavar o carro de uma maneira ecológica! E a chuva estava sempre um passo à nossa frente. E de repente apercebi-me que em realidade não queria lavar o carro da maneira mais fácil e ecológica! Não queria a chuva a fazer o meu trabalho! Queria chegar a casa e ser eu a lavar o carro. Era o que estava a acontecer, gostasse ou não da experiência. Comecei a fazer mentalmente uma lista de todos os benefícios de não apanhar chuva ao longo do percurso. Ainda não tinha terminado a lista quando a chuva caiu sobre nós! Forte e capaz de limpar qualquer sujidade externa no carro! Fiquei desapontado uns breves instantes. Agora que já não queria que chovesse, que via todos os benefícios por não chover, a vida escolhe chover.

Quando estiveres a passar por uma experiência que consideres negativa, começa por assumir que queres essa experiência. Isto não é ser masoquista mas apenas estar em congruência com a realidade. Porque motivo quero a experiência de estar cansado? Porque estou! Porque motivo quero a experiência de um relacionamento tumultuoso? Porque o estou a viver! Porque motivo quero a experiência de não ter dinheiro? Porque não o tenho!

E depois dedica uma hora a escrever os benefícios da experiência. Escreve até sentires plena gratidão por estares a passar por essa experiência!

E isto também se pode aplicar ao futuro, claro. Se estás preocupado com uma situação que poderá ou não acontecer no futuro, começa já a ver os benefícios da situação. Imagina o pior cenário possível. E descobre os benefícios!

Deixo-te um exemplo recente meu. Tinha algum dinheiro amealhado para ir de férias em Agosto. Entretanto esqueci-me que tinha concorrido para um projecto na Tanzânia para ir como voluntário. Quando me aceitarem, pediram-me (de uma maneira tão diplomática como só os britânicos sabem) que enviasse o dinheiro para as viagens e demais custos (esta quantia não é obrigatória por parte dos voluntários, mas ajuda muito a organização). O meu objectivo era apenas a experiência de ir para um lugar remoto e ajudar pessoas da melhor forma que fosse capaz. Aqui estava a oportunidade. Paguei. Entreguei todo o dinheiro que tinha amealhado. Senti-me a pessoa mais feliz do mundo!

Entretanto recebo também a confirmação de que posso ser aprendiz na Escola da Byron Katie na Alemanha. Para o privilégio de servir a aprender com esta pessoa extraordinária pedem-me três mil euros. Confesso que existia em mim um desejo ardente de participar nesta semana especial a aprender a simplesmente ser. Mas também sei que financeiramente não é uma possibilidade viável. Elaborei uma lista com todos os benefícios por não poder participar nesta semana com a Byron Katie, e o que descobri deixou-me tão grato à vida! É claro que não é para ir à Alemanha e estar com a Byron Katie!

A mente luta nesta fase. É natural. A mente quer sempre ter razão, e raramente a tem. Observava os pensamentos, velozes. “Se estivesses com a Byron antes de ir para a Tanzânia, irias levar mais contigo para África.” “Se não tivesses feito a candidatura para ir para África, agora podias ir para a Alemanha!” e por aí fora. Um inferno!

Depois surgiu a parte deliciosa. Neste momento na Alemanha parece que há uma qualquer coisa que afecta seriamente a saúde das pessoas (como se o facto de estarmos vivos não fosse suficiente para que algo nos afecte!). É óbvio que a vida sabe que estou preparado para os desafios na Tanzânia, caso contrário eu teria obstáculos na candidatura. Não ir à Alemanha deixa-me tempo para mim. Para me dedicar à minha horta, por exemplo! E depois de uma lista com mais de vinte itens, foi fácil ver porque motivo é bom para mim não ter a experiência de estar uma semana com a Byron. Aceito a paz.

Será que vou à Alemanha? Esta é uma questão que me provoca um sorriso. Ir ou não ir é irrelevante. Estar presente agora é-o mais.

Qual é o teu maior desafio no presente? Consegues ver benefícios nesse desafio? Enquanto os não vires ser-te-á muito difícil sair da situação. Descobre os benefícios. Dedica-te. E quando sentires gratidão pela experiência presente, a vida irá observar que já não precisas da experiência. E, com muito carinho, enviar-te-á nova experiência. Afinal é disso que trata a vida.

Poderias estar num lugar mais delicioso agora?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Amor não é uma condição, nem provoca sofrimento

Estive a trabalhar com uma querida amiga que está a passar por uma situação de separação, ao fim de 12 anos de casamento.

O homem que amava trocou-a pela sua melhor amiga, a quem agora rotula de “hipócrita”.

Foi delicioso observar como em menos de uma hora esta amiga descobriu todas as mentiras em que estava a acreditar para manter-se num espaço de sofrimento (a que eu chamo o inferno pessoal).

A minha experiência ensinou-me que se eu te der as respostas, elas serão sempre minhas. Nunca as irás aplicar no teu dia-a-dia. Mas quando me limito a fazer-te as perguntas e tu encontras as respostas bem dentro de ti, oh meu Deus! A delícia de te observar a conquistar a paz e amor que sempre foste!

Esta minha amiga começou a relação a mentir-se a ela mesma. Acreditava que a sua função era fazer o companheiro feliz, e a função do companheiro era fazê-la a ela feliz. Esta é a receita ideal para criar um inferno. Só posso fazer-me feliz a mim, e dar o exemplo.

A minha amiga descobriu que queria ver o companheiro feliz, com ela! Ou seja, o discurso na sua mente era algo como isto: “quero que sejas feliz. Aqui está a condição: só o podes ser ao meu lado!” Ou seja, em realidade o que ela pensava, apesar de não estar consciente, era isto: “Não quero saber da tua felicidade para nada. Quero é que fiques ao meu lado independentemente do que for melhor para ti!”

Porque a realidade é esta: se amamos alguém ao ponto de desejar que esse alguém seja feliz, nunca poderemos ter a arrogância de saber o que fará essa pessoa feliz. Se impomos a condição de que queremos que o outro seja feliz, AO NOSSO LADO, então não amamos. Tornamo-nos ditadores.

Observa como ao longo do dia vais ditando como queres que os outros sejam para TU estares bem! Queres o filho saudável (por que outro motivo ficas preocupado ou ansioso quando ele está doente?), queres o companheiro ao teu lado e a apoiar-te sempre (por que outro motivo ficarias revoltada se ele partisse?), queres a mãe a sorrir e a concordar com as tuas decisões (então porque raio lhe pedes a opinião?).

Quando amamos verdadeiramente, e não impomos condição alguma, permitimos que cada um seja feliz à sua maneira. Há muitas maneiras de ser feliz. Deixando uma relação para começar outra, vivendo com um cancro (as pessoas com um cancro, caso não tenhas reparado não estão a morrer mais do que aquelas que não têm: estão vivas.), dependente do álcool, viciado no jogo, a criticar pelas costas os amigos, a viver na rua... muitas maneiras de se ser feliz. Só que a mente não se apercebe disto. Como é que eu sei o que é melhor para ti? Aquilo que está a acontecer agora é o melhor para ti. Não há excepções.

A única relação íntima possível é contigo mesmo. Os outros, os maridos, os filhos, os amigos, só te irão devolver o amor que sobra de ti depois de te amares. E se para tu estares bem precisas que os outros estejam bem (de acordo com os teus padrões, claro) então não amas: impões a tua vontade. É duro viver com alguém que nos impõe continuamente a sua vontade. Um inferno. Começas a ver porque as pessoas se afastam? Ninguém gosta de ditadores.

O meu irmão ficou com o pé negro depois de uma pancada. O olhar dele mostrava-me dor. Mas era a sua dor, não era a minha. Porque motivo haveria eu de ficar triste? O universo precisava de alguém com dores no pé, o meu irmão foi o voluntário. Eu fui o voluntário que lhe fez um tratamento. Em paz, tranquilo. Em realidade sorria. Fui de serviço a Deus. Poderia haver algo melhor na vida?

Quando alguém está doente, e com dores, sofre (pelo menos até acordar). E quando essa pessoa nos olha nos olhos e vê preocupação, ou medo, ou ansiedade, irá acreditar que o seu estado é pior do que aquilo que pensava antes de nos olhar.

É assim que ensinamos os mais pequenos. “Olha como eu sofro quando o pai chega atrasado!” ou “Olha como fico triste quando tiras uma negativa!” Isto é ensinar as crianças a procurar a paz e a felicidade fora delas, onde nunca a encontrarão.

A realidade nunca nos desilude, só nós temos esse poder. A realidade é aquilo que é. Como é que eu sei que o companheiro da minha amiga está melhor com outra mulher? É com a outra mulher que ele está. A realidade não nos engana. Mas se acreditar que o lugar dele é com a minha amiga, irei torná-lo no meu inimigo. A guerra começa sempre naquele que se defende.

É engraçado como nos afastamos daqueles que chamamos de amigos. Até acordarmos, os nossos amigos são aquelas pessoas que concordam com as nossas histórias.

(Eu): tive um dia terrível no trabalho!

(Amigo): coitado, tens um trabalho pesado!

(Eu): hoje tive uma discussão com o meu filho, não arruma o quarto!

(Amigo): o teu filho nem sabe a sorte que tem contigo, coitado de ti.

(Eu): A minha professora chumbou-me!

(Amigo): é uma cabra!

Quando os nossos amigos deixam de concordar com as nossas histórias, arranjamos muito rapidamente uma desculpa para nos afastarmos. Não gostamos que discordem das nossas histórias de coitadinho.

Por isso digo que enquanto não amares a guerra, o cancro, a violência doméstica, os políticos, irás projectar tudo o que pensas destes no primeiro instante que um amigo não concordar contigo.

Consegues ver onde andas tu em guerra? Quando queres que os outros sejam quem não são. Consegues ver onde te andas a odiar? Quando dedicas tempo a falar mal dos que não estão presentes. Consegues ver onde és estúpido? Quando não te respeitas e deixas para amanhã o que sabes que é para fazer agora.

A minha experiência ensinou-me que as pessoas à nossa volta são os professores que precisamos. Se apenas estivermos dispostos a aprender.

Ah! No final da nossa conversa, a minha amiga conseguiu conhecer o companheiro pela primeira vez. E agora ama-o tanto que só quer mesmo que ele fique com a sua amiga. E conseguiu ainda telefonar à amiga (a que era hipócrita) e pedir-lhe perdão por não a ouvir.

Claro que numa relação a dois é importante o dar e receber. Eu dou, e nesse momento recebo! E se a outra pessoa dá algo, delicioso! Mas não dou à espera de receber. Isso não é dar, é uma troca comercial com a etiqueta do preço escondida. Quando dou e espero receber, mais cedo ou mais tarde irei cobrar. E quando aqueles que amo escolhem afastar-se, eis a oportunidade de estar a sós com a pessoa mais amorosa do mundo: eu! Pelo menos para mim.

E respeitar-me não significa que irei fazer sempre o que me pedes. Pedes algo e verifico se posso fazer o que me pedes. Sem violar a minha integridade. Hoje pedes-me para ir ao cinema contigo. Não vejo porque não, tenho a tarde livre. Amanhã pedes-me para ficar contigo à noite, e eu já tinha dito ao meu pai que iria jantar com ele. Digo-te que agradeço o teu pedido, mas já tenho outros compromissos. E amo-te à mesma. E se tu não estás em paz contigo, irás acusar-me de ser insensível e distante. É ok, meu querido. Também sou isso.

Haverá algo melhor que a paz? Só o amor incondicional.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Vou ser pontual. Ou não.

A mente tem esta capacidade brilhante de interpretar a realidade à sua maneira, por forma a criar um falso estado de tranquilidade.

Observo como algumas pessoas me dizem, sem qualquer desconforto, que estão a seguir o meu conselho, porque é a realidade. E então dizem coisas como “prometo chegar a horas. Ou não.” e “Eu vou jantar contigo. Ou não.” e “Eu termino este projecto até quinta-feira. Ou não.”

E depois não cumprem e, aparentemente, é perfeitamente ok, porque tinham avisado que poderiam não cumprir.

Chamo a isto manter-se num estado de negação da realidade.

Quando me comprometo a algo e afirmo que há uma possibilidade de não cumprir não estou a dizer que posso ter um ataque de preguiça, ou que de repente surgiu algo melhor. Não podia estar mais longe da doce realidade!

O que eu quero dizer é muito mais simples. Eu prometo ir à tua festa de anos. Ou não. Este “ou não” significa apenas que a Vida pode ter outros planos para mim. Ser atropelado por um camião, por exemplo. Ou um amigo ou familiar ser hospitalizado. Ou ter um enfarte que me atira para um hospital (ou cemitério). É isto o que significa “ou não”.

Mas jamais me ocorreria comprometer-me a fazer algo e mais tarde mudar de ideia e fazer outra coisa, ou comprometer-me com outra pessoa. Isto é viver em estado de negação (para não falar em oportunismo).

A pessoa que se compromete comigo a um encontro, por exemplo, e depois não aparece é a pessoa perfeita para a próxima vez que eu quiser marcar um encontro com alguém que não aparece. Não fico magoado nem triste. Rapidamente sei que a Vida tem outros planos para mim. Mas não volto a contar com essa pessoa. Ela é a pessoa que não cumpre.

Claro que se esta pessoa não cumpre por motivos de força maior, eu compreendo. Não vejo porque motivo não haveria de compreender.

Por outro lado, presto sempre atenção ás desculpas e justificações dadas. Gosto da realidade. Basta dizer “o meu pai está mal.” Eu compreendo. Não há necessidade de prosseguir com aquelas histórias que dizem “quero que penses de mim o que eu mesmo não sou capaz de pensar de mim.”

Observa-te de cada vez que estiveres a justificar-te. Descobre onde estás a mentir. Eu sei que estás. Se estivesses a ser sincero não te justificavas, não precisarias que outros pensassem de ti o que quer que seja.

Somos educados a pensar que é falta de educação faltar a um compromisso e depois não nos justificarmos. A falta de educação pode ser o faltar ao compromisso porque surgiu algo melhor. Mas não é a justificação que irá remediar essa falta. Desiste de te justificares. E quando tiveres mesmo a necessidade de te justificar, sê breve.

A justificação, na grande maioria das vezes, é uma forma de manipular os outros. Por detrás da justificação há a necessidade de mostrar que somos pessoas boas. Se somos pessoas boas porque motivo haveríamos de necessitar de uma justificação?

Recordo-me das palavras do Yoda (Guerra das Estrelas): “Ou fazes ou não fazes, não há tentar.”

Quantas pessoas se refugiam em desculpas como estas:

“Não sou capaz.”

“Não tenho tempo.”

“Eu tentei mas...”

“Não sei o que acontece, mas vou deixando as coisas por fazer...”

“Eu podia fazer melhor, mas...”

Estas desculpas são mesmo e irremediavelmente os pregos com que construímos uma casa de falhanços.

Se estiveres num processo de acordar irás observar o seguinte:

- Consegues ouvir uma voz suave que te diz o que é para fazer a seguir;

- Não tentas “destruir” o ego (querer destruir uma ilusão é acreditar que é real);

- Raramente, ou nunca, precisas de te desculpar;

- As pessoas à tua volta sentem-se bem;

- Os outros sabem que estás presente e consegues ouvir de verdade;

- Não tentas manipular ninguém (nem mesmo os filhos);

- Ninguém te consegue magoar;

- Respeitas-te continuamente e observas que ninguém te falta ao respeito;

- Não dependes das opiniões dos outros sobre o que fazes ou dizes;

- A imperturbabilidade é o teu estado natural ao longo do dia;

- Não tentas “desapegar-te” das coisas e pessoas. O tentar o desapego é uma das actividades favoritas de um ego espiritualizado. Em vez disso, desfrutas de cada coisa e pessoa no momento, sem qualquer expectativa nem receio;

- Não impinges a tua filosofia a quem quer que seja. Eu, por exemplo, que me considero a começar a levantar um nadinha as pálpebras, sei que ninguém tem que seguir a minha filosofia nem sequer tem que fazer um curso meu ou ler o que quer que seja de minha autoria. A única coisa que espero de qualquer pessoa é que seja quem ela é;

- Quando estás com alguém, seja quem for, entregas-te completamente a essa pessoa. Só ela existe;

- Observas, observas, observas. Sem necessidade de comentar o que quer que seja. Excepto se te for pedido um comentário. E mesmo assim, estarás perfeitamente tranquilo para o não fazer;

- Consegues ver perfeição em tudo;

- Deixas de ditar como as coisas deveriam ser;

- Sentimentos de ódio, revolta, ansiedade, angústia, tristeza, são situações que ultrapassas em minutos.

Claro que posso estar completamente errado. Mas para mim funciona. Para ti? Descobre o que te faz sentir bem e sem necessidade de te desculpares.

A outra forma deliciosa de manipular os outros é fazer-lhes uma pergunta e quando não gostamos da resposta insistimos na pergunta. Seria mais íntegro fazer a pergunta e informar os outros de qual a resposta que esperamos ouvir.