terça-feira, 22 de dezembro de 2015
A mente normal
domingo, 11 de novembro de 2012
Abraçar a Sombra
sábado, 10 de março de 2012
Qual é a tua história?
Observa como a mente conta histórias. Acerca dos políticos, dos pais, do dinheiro, dos amigos, do corpo e da vida. Que histórias conta a tua mente?
O ser humano possui um mecanismo natural que lhe permite saber sempre que a mente conta uma história que é mentira: o corpo cria mal-estar.
Se te sentes mal, presta atenção às mentiras que a mente está a contar. A mentira maior é esta: aquilo que aconteceu não deveria ter acontecido. É mentira pelo simples facto de que aconteceu o que aconteceu. Por mais que eu fique triste por já ser noite, o sol não nascerá até amanhã. Ou não. Posso sempre partir antes do próximo nascer do sol.
A luta com a realidade é a única causa de sofrimento. Isto não significa ter uma atitude passiva perante a vida.
Uma forma de viver em paz é perguntar-me continuamente: o que é para fazer a seguir? Levanta-te. Levanto-me. O que é para fazer a seguir? Caminha até à casa de banho. Caminho. O que é para fazer a seguir? Cuida do teu corpo. Cuido. O que é para fazer a seguir? Caminha até à cozinha. Caminho. O que é para fazer a seguir? Faz um sumo de fruta. Faço-o. O que é para fazer a seguir? Bebe o sumo. Bebo-o. O que é para fazer a seguir? Lava a máquina dos sumos. Lavo-a. E eventualmente surge uma altura em que o que é para fazer a seguir é sentar-me e planificar o próximo mês ou o próximo ano. Faço-o também.
Mas nas planificações não exijo que aconteça tudo como eu quero. A vida pode ter outros planos para mim.
A mente conta histórias. É o que faz. Mas sou eu quem tem o poder de escolher acreditar nas histórias que a mente conta.
Para nos livramos das histórias da mente tentamos um anti-depressivo, ou reiki, ou danças tribais, ou sexo. E enquanto nos dedicamos a qualquer destas actividades conseguimos por momentos libertar-nos das histórias da mente. Elas não desaparecem, ficam a aguardar o momento mais oportuno para surgir novamente.
Tentamos depois procurar respostas, soluções, fora de nós. Lemos livros de auto-ajuda, vemos filmes inspiradores, vamos a um seminário de hipnose colectiva. Mas ao fim do dia, ou da semana, regressamos a nós, à mente, e às histórias que a mente conta.
Ninguém tem respostas para ti. Ninguém. Pelo simples facto de que ninguém vive na tua mente, ninguém sabe exactamente os filmes que tu fazes, as perguntas que te colocas, as dúvidas que te assaltam. Ninguém sabe. Só tu. E muitas vezes nem mesmo tu.
Independentemente do que te provoca mal-estar, as respostas nunca serão encontradas nos outros. As respostas dos outros são paliativos.
Apenas as tuas respostas te podem dar paz, liberdade e bem-estar.
A chave está nas perguntas que te podem fazer. As perguntas que levam a tua mente a descobrir-se. Porque no momento mágico da pergunta a tua mente descobre a mentira e liberta-se.
Desisti de procurar respostas há algum tempo. Agora fascinam-me as perguntas. Deliciosas.
Quem serias tu se não acreditasses na história “eu sou...”?
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Quem me quer aturar?...
Ontem estava a jantar em casa de uma querida amiga que decidiu afastar-se do companheiro de 20 anos. Dizia-me que estava farta de o aturar.
Observei que não sabia o significado do que me dizia. Sempre a aprender. O que significa aturar outro ser humano?... Perguntei-lhe como é que o aturava.
A resposta dela foi qualquer coisa como “Emídio, numa relação tens sempre que aturar a outra pessoa, quer gostes quer não!”
Não respondi. Se o fizesse seria como espetar-lhe uma faca no peito.
Desde que saí da casa dos meus pais aos dezoito anos, que nunca aturei ninguém. Já me tinha esquecido do que era isso. Olhei para as relações que tenho, os pais, amigos, todas as relações. E não descobri onde estava a aturar quem quer que fosse. Se faço algo por alguém é por mim que o faço. Faço o que faço porque não vejo um motivo para não o fazer. Faço-o porque me faz sentir bem comigo. Se os outros gostam ou não é secundário.
Observei com mais atenção.
O que significa “aturar” outra pessoa? E porque o faríamos?
Aturar o outro significa abdicar do que queremos numa relação. Significa fingir para que o outro goste de nós. E começa o inferno. Porque no fundo sabemos que o outro se mantém na relação não porque nos ama, mas porque ama quem fingimos ser.
Aturamos o outro porque queremos algo em troca. Pode ser segurança, carinho, validação, a necessidade de companhia, o conforto de não estarmos sós.
Ou seja, se estamos numa relação e aturamos a outra pessoa, é apenas porque queremos algo em troca. Não somos honestos com o outro. Não seria mais fácil aturarmos primeiro a nós mesmos? E dar a nós mesmos o que esperamos dos outros?
Como poderá alguém validar-me se eu mesmo não sei quem sou? Ao longo dos anos fui engolindo tantas coisas que não gostava, fui fingindo tanto, que no final perdi noção de quem sou e do que quero.
Quando quero algo e não o obtenho a causa é sempre a mesma: a mente está a acreditar em pensamentos contrários ao que eu quero. A mente é a causa, a vida é o efeito. Sem mente a vida não tem significado.
Como pode alguém amar-me quando os meus pensamentos são de guerra? Não gosto disto, não quero aquilo, odeio aqueloutro... Quero que tu sejas quem não és para eu te amar, é o que dizemos. Quero que abras o teu coração à minha pessoa, e depois de o fazeres eu poderei fazer o mesmo.
A verdade é que só aturamos os outros porque queremos. Porque acreditamos em mentiras há milhares de anos. Queremos ser validados. Queremos alguém que concorde com as nossas histórias, porque se mergulharmos bem dentro de nós saberemos que são uma mentira.
Muitas pessoas à minha volta dizem que a verdade dói. Descubro que a verdade é deliciosa, descobrir que vivíamos na mentira é que pode doer.
E se tiver coragem suficiente descobrirei que não sou eu que te aturo a ti, mas és tu que me aturas a mim, porque eu não sou capaz de me aturar a mim. Delicioso e libertador descobrir isto.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Meter o nariz onde não somos chamados
Observo como muitas pessoas me dizem que têm receio de participar num processo da sombra humana. Eu compreendo. Hoje observei com atenção este processo enquanto o aplicava numa cliente. Observava como alguém que observa um filme.
E descobri o que eu estava a fazer a esta cliente. A acordá-la. E descobri que ninguém gosta de ser acordado.
Imagina que passas um dia a trabalhar sem qualquer pausa. À noite chegas a casa e ainda tens que cozinhar o jantar, ajudar os filhos, arrumar a cozinha. Quando te vais deitar estás dorido e o teu corpo pede descanso. Deitas-te. E adormeces imediatamente. O que aconteceria se alguém te aparecesse em casa e te acordasse às duas da manhã? E mais! Acordava-te e mostrava-te como não tinhas feito nada ao longo do dia anterior, apenas fingiste. Não parece muito convidativo.
Mas é a dormir que andamos. Há milhares de anos. E acordar dói sempre. Não queremos acordar. Preferimos o sofrimento conhecido ao passeio pelo desconhecido e misterioso.
Encontro muitas pessoas que aparentemente estão a acordar. Mas continuam a fingir. Sabem todos os conceitos new age, compreendem todas as filosofias, falam de outras dimensões, comunicam com os anjos, conseguem manter sempre uma calma artificial. Enfim, sei do que falo, também já o fiz.
A mente que acredita que sabe está irremediavelmente perdida. Ou não. Mas estará sempre fechada.
Porque continuamos a dormir e a não querer acordar? Porque motivo sofremos?
O meu filho está muito doente. Os políticos mentem. A loja ao lado foi assaltada. A minha amiga foi assassinada. O meu pai faleceu. Tenho um cancro. A empresa onde trabalhava fechou as portas. Os colegas não me respeitam. O marido é alcoólico. Fui maltratado pelos meus pais. Só há desgraças no mundo. Os terroristas matam inocentes. Os medicamentos estão cada vez mais caros. Não posso confiar nos outros. A vida é injusta, coitado de mim.
Podes fazer alguma coisa em relação a cada uma das situações anteriores?... Nada. Zero.
E enquanto te dedicas a sofrer por aquilo que não controlas, há alguém a viver a tua vida? Ninguém. Enquanto tu falas e pensas em tudo o que está errado, enquanto te dedicas à vida dos outros, não te apercebes que não estás presente para a única pessoa que te é importante: tu mesmo.
Não estou a dizer que és mais importante que os outros. Não és. Mas és a pessoas mais importante para ti. Assume a tua vida. A cem por cento.
Hoje apareceu-me uma cliente com o seu filho, diagnosticado como sofrendo de comportamento anti-social. A senhora falava comigo e chorava. Perguntei-lhe se ela tinha algum problema. Olhou para o filho. Não compreendi. Voltei a perguntar. Ela apontou para o filho e começou a soluçar.
Mas se quem aparentemente tem um problema é a criança, porque motivo chora a mãe? Ou seja, não chega a criança sentir que é diferente do grupo, tem ainda a mãe a responsabilizá-la pela sua felicidade. Loucura!
Se a pessoa que me é mais querida fosse diagnosticada com uma doença e lhe fosse dito que teria apenas uma semana de vida, a única coisa que eu poderia fazer seria tirar essa semana para estar com esta pessoa. Desfrutar da sua companhia. Viver a pura felicidade de partilhar momentos. Mas fá-lo-ía em paz. Seria suficiente uma pessoa a sofrer.
E neste planeta as pessoas morrem. Ou pelo menos os corpos morrem. É o que acontece aqui, nesta realidade. As pessoas não podem morrer porque vivem onde sempre viveram: na nossa mente e no nosso coração.
E por vezes recordamos as pessoas cujos corpos partiram e choramos. Essas lágrimas são amor puro. Mas o ego chama-lhe tristeza pela perda. E sofremos. Como podemos perder algo que nunca possuímos? Se nem sequer a roupa que temos vestida é nossa. Um dia morremos e a roupa fica.
Acordar é isto: abandonar os negócios dos outros e dedicarmo-nos a nós. Se o fazemos com respeito por quem somos iremos sempre projectar paz, serenidade, calma, bem-estar.
Há muito tempo que não encontro uma pessoa triste, zangada, frustrada, danificada. Pelo menos enquanto está à minha frente. É que, caso ainda não tenhas acordado, eu sou tu. E não, tentar explicar isto não é possível. Ou o sentes ou não. E é ok.
Eu amo-te, sejas tu quem for. E isso não significa que vou dar-te pancadinhas nas costas, nem fingir acreditar nas tuas histórias. Nem sequer tenho que te conhecer. E amo-te tal como és. Não exijo nada. Se o que queres é sofrer, eu amo-te. Se o que queres é queixar-te, eu amo-te. Se o que queres é dormir, eu amo-te. E se quiseres acordar, podes vir ter comigo, eu ajudo-te (aviso que irá doer de início).
Na vida não há erros, apenas o ego consegue ver erros onde não existem.