quarta-feira, 23 de março de 2016

A origem da vergonha tóxica

Nós aprendemos quem somos através do que os outros nos mostram. Os outros reflectem sempre quem somos.
Isto é de extrema importância sobretudo nos primeiros anos de vida, quando somos capazes de comunicar unicamente através das nossas emoções.
Mas como pode um adulto mostrar-nos amor próprio e auto-estima, quando as suas necessidades básicas não estão preenchidas? Quando o próprio adulto, pai e mãe, necessitam do amor dos outros para serem validados?
Se o pai ou mãe são incapazes de amor-próprio irão procurar satisfazer as suas necessidades básicas através do filho. Precisam do filho para se sentirem amados. É aqui que tem início a vergonha tóxica.
A família vive de acordo com uma série de regras que nunca são faladas mas são o berço da vergonha tóxica.
Segundo John Bradshaw, as regras vividas pela família, e que provocam a vergonha tóxica, são as seguintes:
1.     Controlo ou Caos: o progenitor tem que controlar todas as situações e comportamentos a todos os momentos. O controlo passa a ser a estratégia de defesa para a criação da vergonha. A criança aprende assim a viver num mundo governado pelo caos, porque nunca sabe o que está certo ou errado no seu comportamento, dependendo sempre do estado de espírito do progenitor;
2.     Perfeccionismo: o progenitor tem que ter sempre razão. Para ter sempre razão o progenitor usa diferentes pesos e medidas, impedindo a criança de saber quando o seu comportamento é adequado. E, invariavelmente, a criança nunca consegue satisfazer as necessidades de perfeccionismo do progenitor. Num ambiente em que as regras são continuamente alteradas, a criança aprende que é falhada, incompleta;
3.     Culpa: sempre que as coisas não correm de acordo com os padrões do progenitor, este culpa a criança. Esta atitude de culpar os outros é mais um mecanismo de defesa da vergonha tóxica;
4.     Negação da liberdade: a necessidade de um falso perfeccionismo leva à quebra das liberdades mais básicas da criança. Isto diz à criança que não tem o direito de apreender a realidade tal como ela é, não tem o direito de pensar e sentir livremente, não pode ter desejos para além dos acordados em silêncio pelos progenitores, nem poderá ser imaginativa. Tudo isto deverá ser feito apenas de acordo com o perfeccionismo invisível do progenitor;
5.     Proibido falar: esta regra exige que a criança nunca expresse a totalidade dos seus sentimentos, necessidades e desejos. Assim, a criança, tal como o progenitor, está proibida de falar da sua solidão ou da sua verdadeira identidade;
6.     Proibido cometer erros: os erros revelam um eu incompleto, com falhas e vulnerável. Ao assumir um erro, o adulto expõe-se ao ridículo. Da mesma forma, como não quer esta experiencia, o progenitor procura os erros na criança;
7.     Proibido ouvir: todas as pessoas na família encontram-se tão ocupadas a defenderem-se ou a desempenhar um determinado papel, que ninguém ouve ninguém. Quando a criança fala das suas necessidades, o progenitor ouve apenas as suas necessidades (preciso que estejas calado, preciso que sejas bom aluno, preciso que tenhas saúde, preciso que sejas bem educado – estes precisos são uma forma de dizer que o progenitor só consegue alguma paz quando o comportamento da criança é o desejado. A criança é amada por fingir e não por revelar quem é de verdade);
8.     Infidelidade: o progenitor ensina a criança a não confiar nos outros. Fá-lo de uma maneira velada, ou abusiva. A relação entre o pai e a mãe ensina a criança a não confiar nos relacionamentos íntimos (a mãe que fica triste quando o pai chega tarde a casa, o pai que discute porque a mãe gasta mais dinheiro, etc.). Por outro lado, o progenitor que abandona a criança mostra-lhe que aqueles de quem depende para a sua sobrevivência, não estão presentes. Há muitas formas de abandono, desde o mais violento (abuso físico da integridade da criança) até ao abandono quando a criança necessita de ser ouvida e o progenitor prefere ver televisão;
9.     O mundo é um lugar perigoso: uma vez que ninguém ouve nem confia, e tudo é imprevisível, a criança aprende que o mundo é um lugar perigoso onde nunca se sabe como ser autêntico.
É assim que a Pedagogia Tóxica é exercida pelos progenitores, há milhares de anos. Basicamente os progenitores ensinam a criança que:
-       Os adultos são senhores absolutos das crianças e estas são inteiramente dependentes;
-       Os adultos é que determinam o que está certo e errado;
-       A criança é responsável pelos acessos de fúria dos pais;
-       Os pais devem esconder continuamente os seus sentimentos;
-       Os sentimentos verdadeiros da criança são uma ameaça para os pais;
-       As necessidades emocionais da criança deverão ser secundárias ao bem-estar dos pais;
Tudo isto deverá acontecer nos primeiros dois ou três anos de vida da criança, por forma a que ela não consiga descobrir as falhas e, assim, não exponha os adultos ao ridículo.
A vergonha tóxica é libertada seguindo regras precisas e nunca faladas. Um exemplo disto é quem pode maltratar quem. Por exemplo, o pai é o que pode falar mais alto em casa, e discordar de tudo e todos. A mãe pode falar mais alto e discordar de tudo e todos, excepto o pai. O filho mais velho pode falar mais alto e discordar de tudo e todos, excepto o pai e a mãe. Eventualmente chegamos ao filho mais novo, que pode maltratar o gato.
Como os pais começaram a sua relação partindo de necessidades que ninguém pode preencher (de amor-próprio e auto-estima), irão cada um procurar no outro o preenchimento dessas necessidades. No fundo são dois adultos-criança à procura de um pai e uma mãe no outro. Eventualmente descobrem que o outro não consegue preencher as suas necessidades. Muitas vezes o próprio adulto não tem a coragem de afirmar quais as suas necessidades. Tem medo do abandono se afirmar o que deseja do outro. Espera que o outro adivinhe.
Quando um filho nasce, ambos os progenitores procuram satisfazer as suas necessidades através da criança. Pervertem a hierarquia natural da família. Assim, o comportamento da criança irá ditar o comportamento do adulto.
A criança sabe instintivamente que as suas emoções são saudáveis, precisa de um adulto que a ensine que estas emoções são erradas. Gritar é errado. Alegria excessiva é errado. Tirar uma negativa é errado. Falar mal dos outros é errado. E entretanto é este o exemplo que os progenitores dão à criança.
Apenas com o intuito de elucidar os pais, descrevo brevemente de que maneira cada emoção rotulada de negativa é realmente saudável:
-       a Raiva é a energia que nos dá força. O Incrível Hulk torna-se poderoso e ajuda os fracos depois de um acesso de fúria;
-       a Tristeza é a energia que nos permite curar a dor de um evento. Libertamos a dor de uma perda através da tristeza. Os pais evitam a tristeza (criando mais tristeza) porque não querem sentir a vergonha de mostrarem vulnerabilidade;
-       o Medo liberta em nós a energia que nos previne de possíveis perigos. Ao ridicularizar a criança com medo, o adulto ensina a criança a esconder uma parte vital de si. O medo saudável leva-nos à nossa sabedoria interior;
-       A Culpa é o nosso juiz que nos informa da nossa responsabilidade. Diz-nos quando violamos a nossa integridade e a dos outros. Empurra-nos para a mudança. Como os pais não sabem lidar com a mudança usam a culpa para impedir o crescimento saudável da criança;
-       A Vergonha ensina-nos a evitar sermos perfeitos ou mais que humanos. A vergonha assinala os nossos limites;
-       A Alegria é a emoção que surge quando todas as nossas necessidades se encontram preenchidas. A criança quer cantar, pular, saltar. Mostra que tudo está bem;
-       O Desespero é a emoção que procura equilibrar as nossas necessidades básicas. É o desespero que nos leva a procurar alimento, água, conforto. Mas quando mostramos à criança que este comportamento é inadequado, ensinamos-lhe a preocupação e o preconceito. O desespero doente leva a muitos comportamentos disfuncionais da nossa sexualidade;
-       O Descontentamento segue um padrão idêntico ao desespero. Inicialmente era útil para procurar alimento, por exemplo. Hoje em dia é utilizado de maneira pouco saudável numa separação. As vitimas de abusos carregam ás costas vários níveis de descontentamento tóxico. Os violadores e assassinos fazem o que fazem impelidos por níveis elevados de descontentamento, raiva e desespero.
Quando os pais são incapazes de amar a criança por demonstrar abertamente as suas emoções, ensinam-ma a esconder quem ela é de verdade. A criança passa a desempenhar o papel de pai, na medida em que é responsável pela resposta emocional do progenitor.

Começamos assim a compreender que enquanto precisarmos que um filho esteja bem (de acordo com os padrões e necessidades individuais de cada progenitor) para nós estarmos bem, esse filho será nosso refém.

terça-feira, 15 de março de 2016

A aventura de estar vivo

Se observarmos uma criança poderemos ver que a sua natureza é a curiosidade. Usa os sentidos para descobrir o mundo à sua volta. Não sabe o que vai acontecer a seguir. Se mexer naquela coisa enorme colorida encima da mesa, qual será o som que vai fazer ao cair no chão? Um som novo! E a seguir o som da mãe zangada porque o seu jarrão favorito já não é. E se puxar o rabo do gato, como é que ele irá reagir? E descobre o doce sabor das lágrimas depois dos arranhões nos braços. E a ameaça do pai por ser má.
E a curiosidade, o espírito de aventura, de não saber o que vai acontecer a seguir, é a nossa natureza. É esta curiosidade que conduziu e conduz pessoas como Einstein ou Lady Gaga, Edison ou Picasso.
Nesta fase de descoberta os adultos ensinam-nos a ter muito cuidado. Aprendemos a procurar a segurança da vida, e a tentar controlar essa vida. Uma vida de aventura é transformada num tédio em que não há nada de novo a partir dos cinco ou seis anos. E olhamos para os rebeldes como sendo inferiores, mal-educados, aberrações. E talvez o façamos com um pouco de inveja também.
Quando nos apaixonamos vivemos por um pequeno período de tempo a mesma aventura da infância. A descoberta do outro! O não saber e ser surpreendido! A curiosidade e aventura de estar vivo! A nossa natureza.
Mas dura pouco tempo, porque graças à formatação herdada, iremos querer o controle e a segurança. Iremos querer saber com quem o outro está, onde está, a fazer o quê, e, mais importante, quando voltará a estar connosco.
Bem-vindos ao tédio.
É aqui que começamos a viver um verdadeiro paradoxo. Por um lado queremos o entusiasmo, a aventura inicial da relação, a adrenalina e a serotonina do início. Por outro lado queremos controlar o outro. Queremos segurança.
A isto chama-se viver no inferno. Queremos, mas não queremos. Não queremos, mas queremos. Mais do mesmo.
Morremos um pouco mais de cada vez que esquecemos a nossa natureza. O controle e a segurança são aspectos contra-natura. Não são possíveis.
Quando acreditamos que temos tudo sob controle, e não haverá novidades, a vida prega-nos uma partida. Filhos morrem, maridos pedem o divórcio, esposas queimam o jantar. E isto, meus queridos, quer gostemos ou não, é a vida a viver-se. De mil e uma maneiras.
Podemos olhar para o que acontece como uma grande aventura. Ou podemos deprimir-nos, ou viver numa ansiedade louca, em busca de uma vida segura.
Permitir que cada pessoa na nossa vida seja quem é, e nós próprios permitir-nos ser quem somos. É aqui que reside a alegria de viver.
E quem sou eu? Não saber responder a esta questão é a liberdade absoluta. Sou meigo, e sou descuidado, e sou louco, e sou estúpido, e sou mau, e sou impaciente, e sou tolerante, e sou carinhoso, e sou carente, e sou inteligente. Sou tudo. Sou nada. Apenas curioso para descobrir a próxima pessoa a surgir aqui. Sem uma imagem a defender.
Aventureiros já todos fomos. Curiosos acerca da vida já todos fomos. Sem um rótulo de bom e mau, a vida vive-se na perfeição. Sem a necessidade de uma justificação, a vida torna-se leve.
Aquilo que é, é. E o que tiver que ser, será.

Qual será o som dos livros da estante a caírem no tapete?...  

quinta-feira, 3 de março de 2016

Vidas passadas, passaram.

Eu valido a minha existência através das histórias que me conto acerca de quem sou, de quem fui, de quem quero ser. Sem estas histórias não há um eu, há apenas vida a viver-se, momento a momento. Vida alegre, vida triste, vida ansiosa, vida preocupada, vida eufórica. Vida.

Acredito em vidas passadas como acredito no dia de ontem. Ontem existiu, sim. Mas existe agora? E se não existe agora, qual o benefício, para mim, de trazer ao presente algo que já não existe? Talvez para validar esta história de quem eu sou e de quem os outros são.

Recordo como ontem tu me ofereceste uma caixa de chocolates, conto a história do quanto tu me amas, e hoje eu aproximo-me de ti. Digo-te que te amo. Este “amo-te” é o amor dos romances, condicionado por feitos ou palavras. Não é amor no sentido da vida, no sentido de “tudo-incluído”. 
Recordo como ontem estavas em silêncio e a não querer partilhar o teu dia comigo, e conto-me a história que já não me amas. E assim consigo, neste momento, que é o único real, ausentar-me de ti.
E este movimento de afastamento ou aproximação não passou de uma história acerca de ontem, que não existe agora.

Com as vidas passadas acontece exactamente o mesmo. Ou seja, a necessidade de contar uma história para explicar porque me aproximo ou afasto de ti. Em realidade aproximo-me ou afasto-me de uma história.

Se eu apenas te amo quando tu te comportas como eu quero que te comportes, isso não é amor, é um jogo de interesses. E quando não te comportas como eu quero, conto uma história acerca do passado.

Digo que te amo se tu fores meigo, atencioso, presente. Mas só quando eu precisar, ok? Porque há alturas que eu quero ficar só comigo, a chafurdar em histórias de um passado que já não existe.

A nossa loucura acerca do passado é tal que procuramos formas de a alimentar. Recordo como eu alimentava o passado ouvindo música deprimente, lendo romances de faca e alguidar, ou visitando mentalmente situações do passado que não estavam a acontecer.

Amar alguém porque se comporta como queremos não é amor: é acreditar num regime ditatorial.

Quando afirmo que o amor é todo-inclusivo refiro-me a amar a criança que faz birra, e a respeitar essa birra. É amar o pai alcoólico, a mãe ausente, o patrão ganancioso, a tempestade que me impede de ir trabalhar, a doença que me leva ao hospital onde médicos e enfermeiros cuidarão de mim tanto quanto são capazes. Isto é amor.
O resto? O resto são histórias de um passado que já não está aqui, ou um futuro que também não existe.

Usamos as vidas passadas, incluindo a de ontem, para justificarmos algo tão surreal como uma escolha. Não escolhemos, tal não é possível. Acreditamos que sim, que fazemos escolhas “conscientes”. Em realidade contamos uma história e a escolha faz-se a partir da história em que acreditamos, raramente a partir do momento presente.

Entre duas pessoas, amor é algo tão simples como isto: eu amo-te porque me faz sentir bem amar-te, e não sei porque te amo.

Ah, consegues sentir a liberdade?


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Emoções negativas são produtivas

Desde muito cedo aprendemos que há emoções positivas e negativas. A criança ri e os pais batem palmas. A criança chora e os pais preocupam-se.
Aos poucos aprendemos que há coisas más na vida que provocam estados de espírito negativos. E há coisas boas, que provocam estados de espírito positivos.
E assim começamos a aprender a não respeitarmos este ser humano que se vive. Eu consigo gostar de mim quando sinto alegria, entusiasmo, compaixão, serenidade. E deito-me abaixo quando o sentimento é deprimente, ansioso ou angustiante.
E uma emoção é apenas uma experiência sensorial. Sentimo-la. É física.
A natureza é feita de polaridades. Há o verão e o inverno. A criação e a destruição. A noite e o dia. Maré alta e maré baixa. O silêncio e o ruído.
Queremos eliminar as emoções negativas, excluí-las da nossa vida. Porque são más.
Acreditamos tanto naquilo que nos é ensinado que nem paramos para nos questionarmos, para observar, para sentir. Surge uma tristeza ou angústia e imediatamente tentamos livrar-nos da sensação. Telefonamos à amiga, vamos às compras, comemos chocolate ou vamos à internet. Qualquer coisa para não estar presente para a emoção rotulada de negativa.
Este fugir de certas emoções tornou-se tão viral que quase todos os livros e cursos de desenvolvimento pessoal são focados no eliminar as emoções negativas. Como se houvesse uma obrigação de ser feliz. E nem sequer questionamos o que é isto de ser feliz.
Uma abordagem mais construtiva seria observar a emoção, parar, escutar. Que pensamentos se constroem à volta da emoção? Que histórias contamos? E enquanto contamos uma história, será que conseguimos estar presentes para o que está a acontecer?
A minha experiência com algumas destas emoções.
A Tristeza. Esta emoção surge na presença do amor-próprio e amor pelo próximo. Há um desejo de querer alguém ausente, de algo acontecer. A emoção é um pedido muito intimo de ficar presente no momento. De observar este amor. O filho distante, a mãe que morreu, o diagnóstico de um cancro, o marido que pede o divórcio. A tristeza recorda-nos que amamos. Que é impossível eliminar este amor. E por vezes a emoção é tão forte que surgem lágrimas e uma necessidade de uivar. Torna-se avassaladora. Parece queimar e dissolver uma parte de nós. E é mesmo isso. Destrói a parte de nós que não está consciente deste amor. Ao não reconhecer este amor, a tristeza invade todos os aspectos da nossa vida, levando-nos aquilo que se chama depressão.
A Angústia. Esta emoção costuma sentir-se fisicamente no abdómen ou no peito. Por vezes é tão intensa que se torna difícil respirar. É uma emoção que contrai, endurece o corpo, cria tensão. E surge para nos recordar que estamos ausentes, a visitar um futuro que não existe agora ou um passado que não se repete. Pode ainda mostrar-nos o quanto estamos em luta com a vida, a querer que a vida seja diferente daquilo que é. Esta emoção acorda-nos. É uma bênção. Muitas vezes esta emoção pede algo de físico, como correr, gritar, dar uns murros na almofada. Ignorada, esta emoção leva a um desrespeito total pela nossa natureza, dizemos sim quando queremos dizer não, gritamos com aqueles que amamos, afastamo-nos do que é bom e querido na nossa vida, fechamo-nos num sofrimento acerca do futuro ou passado.
A Ansiedade. Um sentimento nobre que tenta mostrar-nos que estamos a criar expectativas irreais acerca do futuro. O futuro é como um pais estrangeiro que nunca visitámos. A ideia de visitar este país pode encher-nos de curiosidade pelo que iremos encontrar, ou enterrar-nos num medo pelo que poderá estar à nossa espera. Esta emoção é intensa, podendo chegar a um estado de pânico, porque só assim podemos acordar para o momento presente. A ansiedade é a emoção que nos pede para verificarmos os nossos pés, as mãos, a respiração, e o que nos rodeia no momento presente. É o sentimento que nos ensina que estamos a acreditar numa mentira, porque o futuro não está aqui. Esta emoção pede-nos para regressar ao momento presente. É uma amiga do presente. Algumas perguntas que a ansiedade ajuda a responder: neste momento tens roupa para vestir? Tens água para beber? Tens onde te sentar? Consegues respirar?
As emoções rotuladas de negativas podem mostrar-nos o quanto não nos respeitamos, o quanto rejeitamos o ser humano que somos.
E o que podemos fazer com estas emoções? Estar presente quando surgem. Verificar o que aconteceu no passado ou imaginamos vir a acontecer no futuro e que é o combustível da emoção. Este é um começo. Não querer curar nada, porque o que está presente é o que está presente. Não há nada para curar, pelo simples facto de que o estado emocional que sentes é o estado emocional que sentes. Não há nada de errado com o que sentes. Dá as boas-vindas à emoção. Permite-te observar a presença da emoção fisicamente. Pergunta-te o que essa emoção poderá estar a querer mostrar-te. E aguarda a resposta.
Enquanto rotularmos a experiência humana como boa ou má, a paz será sempre algo temporário.

É ok sentir uma tristeza, uma ansiedade, uma preocupação, um medo. É ok. E irá passar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Um Guia Para Ser Feliz

Vamos todos aprender a ser felizes! 
Vamos aprender o que dizer e quando o dizer. O que fazer e quando o fazer! Vamos aprender leis universais de sucesso infalíveis que irão produzir muita alegria e abundância financeira (embora nenhum de nós se considere materialista, obviamente.).
Já ouvi pessoas aparentemente iluminadas convidar outros para retiros onde é possível ser-se autêntico e abraçar a totalidade que somos. Desde que ser autêntico não inclua comer carne, ou dizer asneiras (têm uma carga energética negativa, sabias?), ou se vistam de preto, ou que não saibam entoar um mantra correctamente.
Ainda acreditamos que para ser feliz é obrigatório eliminar toda a negatividade da vida. Isto é o mesmo que dizer que só irei viver no planeta terra depois de eliminarem todos os animais perigosos, a poluição, a doença, os movimentos das placas tectónicas, etc.
A felicidade é um conceito. Não é uma experiência. O nosso conceito de felicidade inclui muitas vezes aquilo que não corresponde à realidade. Seremos felizes se as pessoas à nossa volta forem honestas e bondosas, se tivermos mais dinheiro do que precisamos, se o nosso companheiro/a nos compreender, se não engordarmos nem envelhecermos, se não adoecermos.
Seremos felizes se não encontrarmos pessoas violentas, as pessoas que amamos não adoecerem ou morrerem, se não danificarmos o carro ao estacionar, se não houver mosquitas transmissoras de doenças, se...
A felicidade enquanto conceito implica muitas condições. Não é possível permanecer num estado de felicidade enquanto impuser condições.
Talvez não seja necessário estar feliz para viver.
Se fosses pai ou mãe, amarias menos um filho por nascer com uma disfunção qualquer? Abandonarias um familiar porque está com dificuldades?
Observa as imposições que colocas sobre ti mesmo e sobre os outros para atingir um estado emocional que é apenas possível por momentos. Exiges que as pessoas sejam honestas? E se o companheiro, na sua honestidade, disser que se quer afastar, o que acontece à tua felicidade? E será que queres esse tipo de honestidade?
Em vez de querer ser feliz, talvez fosse uma boa opção escolher estar presente para o que quer que seja que surja. Uma alegria, uma tristeza, uma angustia, um latejar. Emoções que nos visitam sem pedir autorização.
É ok os outros serem quem são, fazerem o que fazem, dizerem o que dizem. Poderíamos respeitar os outros por serem quem são, sem as nossas condições, as nossas regras?
Lembrar-me que eu tenho razão na forma como vivo, e os outros também têm razão na forma como vivem. Ninguém sabe mais do que sabe, ninguém faz melhor do que faz.
Não quero ser feliz, quero estar presente para aquilo que a vida me oferece agora. Eu não mando, não controlo a vida. Ela acontece. Posso apenas fazer o meu melhor, de acordo com aquilo em que acredito. E é assim para todos os seres humanos, embora possam não o saber.
Impingir aos outros a minha forma de viver é um inferno, para mim e para os outros. Não há qualquer felicidade aqui.