quarta-feira, 30 de março de 2016

A vergonha na família

A vergonha tóxica é alimentada inicialmente nos relacionamentos que nos são importantes. Se não dermos qualquer valor a alguém é muito pouco provável que aquilo que essa pessoa diga ou faça tenha qualquer valor. Mas se os adultos mais próximos (pais e irmãos mais velhos) têm um comportamento enraizado na vergonha, irão passar essa vergonha (intoxicada) para nós. Não há qualquer forma de ensinar auto-estima a uma criança se o próprio adulto não tem a experiência da auto-estima.
A vergonha tóxica atravessa múltiplas gerações. As pessoas que carregam vergonha irão sentir atracção e criar laços de intimidade com outras pessoas que também carregam vergonha.
Uma vez que cada um dos parceiros numa relação amorosa transporte a sua própria vergonha, a relação terá as suas raízes na vergonha. O resultado mais significativo desta união será uma falta de intimidade. É muito difícil mostrar a totalidade que somos a alguém que nos é importante, quando tentamos esconder a nossa vergonha, quando sabemos que somos imperfeitos.
Os casais cuja relação está enraizada na vergonha mostram a falta de intimidade através de uma comunicação empobrecida, disputas constantes, jogos, manipulação, controlo, amuo, culpabilização e confluência (concordam em agradar um ao outro independentemente de existir respeito mútuo).
Quando uma criança nasce no seio de uma família enraizada na vergonha, o seu futuro está já decidido. A função dos pais é servirem de modelo. Este modelo significa ensinar como ser homem ou mulher, como relacionar-se intimamente com outro, como reconhecer e expressar emoções, como estabelecer fronteiras saudáveis com outros, como comunicar, como lidar e viver com os desafios da vida, como ser auto-disciplinado, e como amar-se a si mesmo e aos outros. Pais cuja origem seja a vergonha não poderão ensinar nenhuma destas coisas. Simplesmente não sabem como fazê-lo.
As crianças precisam da atenção e do tempo dos pais. Dar do seu tempo é parte do trabalho de amar alguém incondicionalmente. Significa estar presente para a criança, dar atenção ás necessidades da criança, em vez de prestar atenção ás suas próprias necessidades.
O que vemos são pais a prestar mais atenção ás suas necessidades que ás dos filhos. Ditam qual o comportamento que esperam dos filhos, por exemplo. Ou estão no mesmo aposento que os filhos, mas a dedicarem-se a algo que não interessa minimamente aos filhos.
Uma parte importante do trabalho de amar (e trabalho significa tornar sagrado qualquer acção) é saber ouvir. As crianças sabem muito bem quais as suas necessidades e irão transmiti-las aos pais de maneira clara. Os pais precisam de saber ouvir. Isto exige um grau de maturidade emocional acima da média. Para ouvir bem é imperativo que as necessidades dos pais estejam todas preenchidas. As necessidades de um adulto são como uma dor de dentes. Quando temos as nossas raízes feitas de vergonha apenas conseguimos focar a atenção na nossa própria dor.
Pais com necessidades baseadas na vergonha jamais serão capazes de responder de maneira apropriada ás necessidades dos seus filhos. A criança é envergonhada sempre que tem uma necessidade (seja de amor, atenção, afecto, etc.) porque esta irá colidir com as necessidades dos pais. A criança cresce. E torna-se num adulto. Mas por detrás da máscara de adulto há uma criança negligenciada com necessidades humanas básicas de reconhecimento, amor incondicional, carinho. As crianças com estas necessidades tornam-se insaciáveis. Possuem um buraco na sua alma criado por mágoas esquecidas e uma dependência na aprovação dos adultos enquanto crescia. Isto torna-a num adulto infantil. Nunca consegue ter o suficiente como adulto. Falta sempre qualquer coisa que nem o próprio adulto sabe bem o que é. Um adulto emocionalmente saudável sente-se satisfeito com a vida e com o que tem, e sabe que tem que trabalhar mais para ter mais. Um adulto infantil nunca tem o suficiente  porque são as necessidades da criança que não estão a ser preenchidas.
Quando dois adultos decidem iniciar uma família, a vergonha será o alimento tóxico que irá germinar novas vidas. As crianças irão crescer no solo da vergonha em vez de nos braços nutritivos do amor.
As famílias cuja origem é baseada na vergonha operam de acordo com as leis sociais impostas a partir do exterior. Se o sistema social for disfuncional, rígido e fechado, a família irá fazer a mesma coisa. Todos os indivíduos da família crescem envolvidos num transe que dita aquilo que não deve nunca ser dito ou feito. A vergonha da família. Em vez de prestarem atenção ás necessidades das crianças que crescem, estas famílias prestam atenção ás regras da sociedade e o que outros poderão ou não dizer deles.
Mais tarde as crianças irão frequentar uma escola, e será a vez da escola adicionar mais vergonha tóxica à alma. Ditando o que está certo e errado, e julgando o indivíduo em vez da acção, ou misturando as duas por forma a tornar-se impossível para a criança separar quem é daquilo que faz ou diz.
A criança tem uma boa nota e é apontada pelo professor. Não é a criança que é boa, é a nota que tira que a torna melhor que os outros. A criança que é “porquinha” porque se suja no recreio. Não é o acto de se sujar que é criticado e a causa da vergonha, mas antes a criança.
A proposta de preparação para esta primeira parte do curso de educação emocional é simples: verificar na lista abaixo quantas das situações apresentadas estão presentes na sua vida. Permita-se chorar se sentir que é apropriado. Tente ainda permanecer um pouco envolvido pelo que é dito e o que o seu corpo sente. Eu posso garantir-lhe que antes do final deste primeiro trimestre todas as suas vergonhas deixarão de o afectar de maneira negativa.

O que a Vergonha faz
Quando conseguimos libertar-nos completamente das nossas vergonhas alcançamos uma paz de espírito em que nada nem ninguém nos perturba. Deixamos de ter necessidade de ter razão ou de apontar o dedo.
Para saber se já ultrapassou as vergonhas incutidas na infância, deixo abaixo os efeitos de termos sido envergonhados no passado.
1.    Os adultos que foram envergonhados em criança têm muito medo de mostrar a sua vulnerabilidade e receiam expor-se.
I.      Uma das formas que fazemos isto é tentando agradar aos outros, e desta forma tornarmos as nossas necessidades reais invisíveis. Tomamos a atitude de “quero lá eu saber” quando confrontados com decisões pessoais.

2.    Os adultos que foram envergonhados em criança podem sofrer de timidez e sentimentos de inferioridade. Não acreditam que cometem erros. Acreditam antes que SÃO um erro.
I.      Escondemos os nossos talentos, vivemos à custa de outros, e receamos mostrar ao mundo a nossa criatividade e capacidade de ser livres.

3.    Os adultos que foram envergonhados em criança receiam a intimidade e tendem a evitar relacionamentos íntimos. Têm um sentimento de que não precisam de outro ou podem perder a sua liberdade se se envolverem numa relação íntima. Isto leva a que nos relacionamentos, o adulto que foi envergonhado seja o que abandona a relação, em vez de ser abandonado. Sente ainda atracção por aqueles que não estão disponíveis ou criam um distanciamento através de um excesso de trabalho ou outras actividades.
I.      É aqui que dizemos “já não tenho idade para essas coisas”. Conseguimos egoicamente ter desculpas para os fracassos nos nossos relacionamentos e são sempre os outros os responsáveis pelos fracassos nas nossas relações.

4.    Os adultos que foram envergonhados em criança podem aparentar ser superiores e centrados em si mesmos, ou ainda mostrar que são altruístas. Estes últimos dão o poder e o controlo da sua vida aos outros. Em ambos os casos há um sofrimento interior enorme.
I.      Estes adultos foram envergonhados por sentirem necessidade do apoio dos adultos quando ainda muito jovens. Quanto mais independente a pessoa aparenta ser, maior terá sido a vergonha na infância.

5.    Os adultos que foram envergonhados em criança sentem que não importa o que façam nunca farão uma diferença na vida de outros. Sentem que não são merecedores de ser amados e definitivamente insuficientemente bons.
I.      A criança que tinha preguiça de fazer os trabalhos da escola e foi duramente criticada pelos pais. Quando faz os trabalhos e os pais mostram afecto a criança crê que o afecto dos pais é pelo trabalho feito e não por ela ser quem é.

6.    Os adultos que foram envergonhados em criança encontram-se quase sempre na defensiva mesmo em situações onde não há qualquer ameaça presente à sua integridade. Sofrem sentimentos de humilhação profundos se alguém lhes faz notar que cometeram um erro ou não fizeram um trabalho perfeito. Para um adulto que passou por uma experiência de vergonha na infância, não há erros menores. Ou se erra, ou não se erra.
I.      Estes adultos sentem-se com frequência inadequados ou inaptos para a vida em sociedade. Quando cometem um erro, não pensam “cometi um erro”. Em vez disso preferem pensar “Estou sempre a cometer erros. Sou um erro.”

7.    Os adultos que foram envergonhados em criança culpam outros antes que alguém os possa culpar a eles.
I.      Podem, por exemplo, esquecer-se das chaves do carro e, antes de dizer que o fizeram perguntam a quem esteja com eles “viste as chaves do meu carro?”

8.    Os adultos que foram envergonhados em criança podem sofrer de um sentimento de culpa debilitante. São pessoas que continuamente pedem desculpa. Assumem total responsabilidade pelo comportamento dos outros à sua volta.
I.      É o caso da mãe que apresenta um filho a alguém e começa logo por pedir desculpa pelo comportamento do filho. Ou a pessoa que aborda um estranho na rua para pedir informações e começa o diálogo com “desculpe....”

9.    Os adultos que foram envergonhados em criança sentem não pertencer na sociedade. Um sentimento de solidão permeia todo o seu ser, mesmo quando se encontram rodeados de pessoas que gostam deles.
I.      Quando uma criança corre para um adulto à espera de um abraço e não o obtém, por exemplo. Quando um pai diz “deixa-me em paz”. O sentimento de não ser merecedor é avassalador.

10. Os adultos que foram envergonhados em criança projectam os seus sentimentos sobre quem são de verdade nos outros. Dedicam-se a “adivinhar” o que os outros pensam de uma forma destrutiva.
I.      A pessoa que faz, ou não faz, algo porque já sabe como os outros irão reagir, e será sempre uma reacção que lhes é desfavorável.

11. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se com frequência enraivecidos e bastante críticos dos comportamentos dos outros, sobretudo quando observam nos outros qualidades negativas que sabem também possuir. Isto leva a uma necessidade de envergonhar os outros, criticando e falando mal nas suas costas.
I.      Isto vê-se mais frequentemente nos relacionamentos íntimos. O adulto começa a tomar consciência dos “defeitos” do outro e inicialmente tenta modificá-lo, envergonhando-o.

12. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se feios, imperfeitos e com defeitos. Isto pode levar o adulto a focar a sua atenção na roupa que veste, nas pessoas com quem se relaciona, ma maquilhagem que utiliza, por forma a esconder os defeitos que vê em si.
I.      As pessoas que dão muito valor ao aspecto físico, ás aparências. Estão atentas ás modas. E não gostam de se ver muito ao espelho, a menos que tenham algo de valor acrescentado, como maquilhagem ou um fio de ouro.

13. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se frequentemente controlados por coisas e pessoas exteriores a si. Não têm respostas espontâneas. Sentem-se envergonhadas se expressarem sentimentos naturalmente, como a alegria, o medo, a raiva, a sexualidade, a brincadeira ou a criatividade. Um pensamento típico é “o que vão pensar de mim se?....”
I.      Estes adultos foram criticados na infância por serem autênticos. Sentiram-se rejeitados e humilhados.

14. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem que ou bem que fazem algo na perfeição ou não vale a pena fazer. Esta crença leva a situações de ansiedade ou a deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.
I.      Estes adultos vão deixando de fazer o que precisam de fazer para evitar fazer asneiras ou ser julgados por outros.

15. Os adultos que foram envergonhados em criança têm as experiências mais severas de depressão.
I.      Isto sucede ou porque se culpam pelas acções de outros (raiva direccionada contra si mesmo) ou a sua auto-estima é tão baixa que sentem não serem merecedores de amor.

16. Os adultos que foram envergonhados em criança mentem continuamente a si mesmos e aos outros.
I.      Quando as crianças são julgadas, criticadas e envergonhadas pelas suas acções e escolhas, aprendem a mentir como forma de se protegerem. Como adultos podemos mentir, por exemplo, no valor de um bem adquirido.

17. Os adultos que foram envergonhados em criança bloqueiam os seus sentimentos de vergonha através de comportamentos compulsivos como o trabalho em excesso, problemas alimentares, necessidade de fazer compras, jogos, relacionamentos virtuais ou sonhar acordado sem agir.
I.      As crianças sujeitas a situações de vergonha aprendem a lidar com este sentimento dedicando-se a tarefas que as levem a esquecer o mundo real. Fantasiam, ocupam-se de coisas onde não têm que pensar e assim esquecem o sentimento profundo de vergonha.

18. Os adultos que foram envergonhados em criança têm muitos amigos, mas não são capazes de um relacionamento íntimo autêntico.
I.      Culpam os parceiros íntimos pelas suas próprias falhas, sentimentos de culpa e inadequação. Tentam estar sempre acompanhados de alguém com quem falar de outros de maneira depreciativa, por forma a abafar o seu sentimento de vergonha.

19. Os adultos que foram envergonhados em criança envolvem-se em processos de intelectualização e racionalização dos seus comportamentos como mecanismo de defesa.
I.      Estes adultos são capazes de explicar tudo o que fazem. As suas vidas acontecem nas suas cabeças.

20. Os adultos que foram envergonhados em criança ficam amarrados em relações de grande dependência emocional e financeira.
I.      Uma criança que é envergonhada na infância aprende que não é autónoma. Torna-se dependente das acções, palavras e sentimentos dos outros.

21. Os adultos que foram envergonhados em criança têm pouco discernimento em relação ás suas fronteiras pessoais. Sentem-se constantemente violados por outros. Criam fronteiras falsas com frequência, baseadas no amuo, raiva, isolamento ou necessidade de agradar aos outros. Se foram abusadas fisicamente, ou violadas sexualmente, também serão incapazes de estabelecer fronteiras físicas, confundindo carinho e afecto com a sexualidade. Daqui resulta uma necessidade constante de sexo ou a abstenção quase total.
I.      Esta é mais uma forma de mascarar a humilhação sofrida na infância.

É imperativo tratar as nossas vergonhas antes que elas tratem de nós. De que maneira foste envergonhado na infância? De que forma foste julgado, criticado ou humilhado? Se tinhas boas notas, a atenção que recebias era pelas notas que tinhas na escola, ou era por seres quem eras? Se tinhas um irmão que sobressaía, como aprendeste a lidar com o ficar em segundo lugar na atenção dos teus pais? Qual é a maior vergonha que escondes?
Estas são perguntas libertadoras. Ao tomares consciência das vergonhas escondidas na sombra e ao ter a coragem de falar abertamente de cada uma, estarás mais próximo do Eu Autêntico.
De que partes de ti ainda tens vergonha? O que tens medo que outros descubram sobre ti e te cause vergonha? De que forma a tua vergonha está a arruinar a tua vida?
Devido à vergonha o nosso ego criou um sistema de defesa único: julgar os outros. Ao julgarmos os outros, ao criticar e apontar o dedo, esquecemos temporariamente as nossas vergonhas. Este é o motivo porque nem pensamos duas vezes antes de julgar os outros. E este é o mecanismo que o ego utiliza para reforçar a ideia de separação. Estamos todos separados uns dos outros, é a litania do ego.
Só quando me permito ver que sou igual a todos aqueles que julgo e critico é que me permito crescer.
Esta é outra forma de descobrir as minhas vergonhas: escrever sobre as qualidades negativas que vejo nos outros e julgo. Começa a tornar-se um jogo divertido. Porque depois de trabalharmos as nossas vergonhas ouviremos outros a queixarem-se de quem não está presente e nós, conscientes, sabemos que é deles mesmos que estão a queixar-se. É aqui que podemos começar a ajudar. Depois de curar os nossos sentimentos de vergonha.
Relacionamentos Vergonhosos
Abaixo ficam algumas das características de qualquer relacionamento baseado na vergonha. Mais tarde iremos descobrir como curar definitivamente este sentimento.
1.     Perdemo-nos completamente no amor do outro;
2.     Quando discutimos é como se estivéssemos a lutar pela própria vida;
3.     Gastamos imensa energia a adivinhar o que os outros pensam. Perguntamo-nos a nós mesmos o que a outra pessoa estará a pensar ou sentir, em vez de perguntar directamente à pessoa amada;
4.     Sai-nos muito caro o preço pago pelos poucos bons momentos da relação;
5.     Quando damos início à relação é como se assinássemos dois contractos, um consciente e outro inconsciente (este último garante que iremos sofrer);
6.     Culpamos a outra pessoa e culpamo-nos a nós mesmos;
7.     Desejamos a separação e quando acontece queremos a outra pessoa de volta;
8.     Sabemos que a dinâmica da relação irá mudar, mas queremos que se mantenha inalterada até ao fim;
9.     Sentimos com frequência que a outra pessoa controla o nosso comportamento;
10. Sentimos uma atracção irresistível pelas qualidades positivas que vemos na outra pessoa e que há muito rejeitámos em nós;
11. Com frequência dedicamo-nos a fantasias que não envolvem a outra pessoa;
12. Procuramos o amor incondicional da outra pessoa que não conseguimos obter quando ainda crianças.


Para já é apenas importante que comece a prestar mais atenção à sua relação. Se descubrir alguma destas características não entre em pânico. Com tempo tudo se resolverá.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Os efeitos da vergonha na infância


Quando conseguimos libertar-nos completamente das nossas vergonhas alcançamos uma paz de espírito em que nada nem ninguém nos perturba. Deixamos de ter necessidade de ter razão ou de apontar o dedo.
Para saber se já ultrapassou as vergonhas incutidas na infância, deixo abaixo os efeitos de termos sido envergonhados no passado.

1. Os adultos que foram envergonhados em criança têm muito medo de mostrar a sua vulnerabilidade e receiam expor-se.
1.1. Uma das formas que fazemos isto é tentando agradar aos outros, e desta forma tornarmos as nossas necessidades reais invisíveis. Tomamos a atitude de “quero lá eu saber” quando confrontados com decisões pessoais.

2. Os adultos que foram envergonhados em criança podem sofrer de timidez e sentimentos de inferioridade. Não acreditam que cometem erros. Acreditam antes que SÃO um erro.
2.1. Escondemos os nossos talentos, vivemos à custa de outros, e receamos mostrar ao mundo a nossa criatividade e capacidade de ser livres.

3. Os adultos que foram envergonhados em criança receiam a intimidade e tendem a evitar relacionamentos íntimos. Têm um sentimento de que não precisam de outro ou podem perder a sua liberdade se se envolverem numa relação íntima. Isto leva a que nos relacionamentos, o adulto que foi envergonhado seja o que abandona a relação, em vez de ser abandonado. Sente ainda atracção por aqueles que não estão disponíveis ou criam um distanciamento através de um excesso de trabalho ou outras actividades.
3.1. É aqui que dizemos “já não tenho idade para essas coisas”. Conseguimos egoicamente ter desculpas para os fracassos nos nossos relacionamentos e são sempre os outros os responsáveis pelos fracassos nas nossas relações.

4. Os adultos que foram envergonhados em criança podem aparentar ser superiores e centrados em si mesmos, ou ainda mostrar que são altruístas. Estes últimos dão o poder e o controlo da sua vida aos outros. Em ambos os casos há um sofrimento interior enorme.
4.1. Estes adultos foram envergonhados por sentirem necessidade do apoio dos adultos quando ainda muito jovens. Quanto mais independente a pessoa aparenta ser, maior terá sido a vergonha na infância.

5. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem que não importa o que façam nunca farão uma diferença na vida de outros. Sentem que não são merecedores de ser amados e definitivamente insuficientemente bons.
5.1. A criança que tinha preguiça de fazer os trabalhos da escola e foi duramente criticada pelos pais. Quando faz os trabalhos e os pais mostram afecto a criança crê que o afecto dos pais é pelo trabalho feito e não por ela ser quem é.

6. Os adultos que foram envergonhados em criança encontram-se quase sempre na defensiva mesmo em situações onde não há qualquer ameaça presente à sua integridade. Sofrem sentimentos de humilhação profundos se alguém lhes faz notar que cometeram um erro ou não fizeram um trabalho perfeito. Para um adulto que passou por uma experiência de vergonha na infância, não há erros menores. Ou se erra, ou não se erra.
6.1. Estes adultos sentem-se com frequência inadequados ou inaptos para a vida em sociedade. Quando cometem um erro, não pensam “cometi um erro”. Em vez disso preferem pensar “Estou sempre a cometer erros. Sou um erro.”

7. Os adultos que foram envergonhados em criança culpam outros antes que alguém os possa culpar a eles.
7.1. Podem, por exemplo, esquecer-se das chaves do carro e, antes de dizer que o fizeram perguntam a quem esteja com eles “viste as chaves do meu carro?”

8. Os adultos que foram envergonhados em criança podem sofrer de um sentimento de culpa debilitante. São pessoas que continuamente pedem desculpa. Assumem total responsabilidade pelo comportamento dos outros à sua volta.
8.1. É o caso da mãe que apresenta um filho a alguém e começa logo por pedir desculpa pelo comportamento do filho. Ou a pessoa que aborda um estranho na rua para pedir informações e começa o diálogo com “desculpe....”

9. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem não pertencer na sociedade. Um sentimento de solidão permeia todo o seu ser, mesmo quando se encontram rodeados de pessoas que gostam deles.
9.1. Quando uma criança corre para um adulto à espera de um abraço e não o obtém, por exemplo. Quando um pai diz “deixa-me em paz”. O sentimento de não ser merecedor é avassalador.

10. Os adultos que foram envergonhados em criança projectam os seus sentimentos sobre quem são de verdade nos outros. Dedicam-se a “adivinhar” o que os outros pensam de uma forma destrutiva.
10.1. A pessoa que faz, ou não faz, algo porque já sabe como os outros irão reagir, e será sempre uma reacção que lhes é desfavorável.

11. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se com frequência enraivecidos e bastante críticos dos comportamentos dos outros, sobretudo quando observam nos outros qualidades negativas que sabem também possuir. Isto leva a uma necessidade de envergonhar os outros, criticando e falando mal nas suas costas.
11.1. Isto vê-se mais frequentemente nos relacionamentos íntimos. O adulto começa a tomar consciência dos “defeitos” do outro e inicialmente tenta modificá-lo, envergonhando-o.

12. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se feios, imperfeitos e com defeitos. Isto pode levar o adulto a focar a sua atenção na roupa que veste, nas pessoas com quem se relaciona, ma maquilhagem que utiliza, por forma a esconder os defeitos que vê em si.
12.1. As pessoas que dão muito valor ao aspecto físico, ás aparências. Estão atentas às modas. E não gostam de se ver muito ao espelho, a menos que tenham algo de valor acrescentado, como maquilhagem ou um fio de ouro.

13. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem-se frequentemente controlados por coisas e pessoas exteriores a si. Não têm respostas espontâneas. Sentem-se envergonhadas se expressarem sentimentos naturalmente, como a alegria, o medo, a raiva, a sexualidade, a brincadeira ou a criatividade. Um pensamento típico é “o que vão pensar de mim se?....”
13.1. Estes adultos foram criticados na infância por serem autênticos. Sentiram-se rejeitados e humilhados.

14. Os adultos que foram envergonhados em criança sentem que ou bem que fazem algo na perfeição ou não vale a pena fazer. Esta crença leva a situações de ansiedade ou a deixar para amanhã o que pode ser feito hoje.
14.1. Estes adultos vão deixando de fazer o que precisam de fazer para evitar fazer asneiras ou ser julgados por outros.

15. Os adultos que foram envergonhados em criança têm as experiências mais severas de depressão.
15.1. Isto sucede ou porque se culpam pelas acções de outros (raiva direccionada contra si mesmo) ou a sua auto-estima é tão baixa que sentem não serem merecedores de amor.

16. Os adultos que foram envergonhados em criança mentem continuamente a si mesmos e aos outros.
16.1. Quando as crianças são julgadas, criticadas e envergonhadas pelas suas acções e escolhas, aprendem a mentir como forma de se protegerem. Como adultos podemos mentir, por exemplo, no valor de um bem adquirido.

17. Os adultos que foram envergonhados em criança bloqueiam os seus sentimentos de vergonha através de comportamentos compulsivos como o trabalho em excesso, problemas alimentares, necessidade de fazer compras, jogos, relacionamentos virtuais ou sonhar acordado sem agir.
17.1. As crianças sujeitas a situações de vergonha aprendem a lidar com este sentimento dedicando-se a tarefas que as levem a esquecer o mundo real. Fantasiam, ocupam-se de coisas onde não têm que pensar e assim esquecem o sentimento profundo de vergonha.

18. Os adultos que foram envergonhados em criança têm muitos amigos, mas não são capazes de um relacionamento íntimo autêntico.
18.1. Culpam os parceiros íntimos pelas suas próprias falhas, sentimentos de culpa e inadequação. Tentam estar sempre acompanhados de alguém com quem falar de outros de maneira depreciativa, por forma a abafar o seu sentimento de vergonha.

19. Os adultos que foram envergonhados em criança envolvem-se em processos de intelectualização e racionalização dos seus comportamentos como mecanismo de defesa.
19.1. Estes adultos são capazes de explicar tudo o que fazem. As suas vidas acontecem nas suas cabeças.

20. Os adultos que foram envergonhados em criança ficam amarrados em relações de grande dependência emocional e financeira.
21.1. Uma criança que é envergonhada na infância aprende que não é autónoma. Torna-se dependente das acções, palavras e sentimentos dos outros.

21. Os adultos que foram envergonhados em criança têm pouco discernimento em relação às suas fronteiras pessoais. Sentem-se constantemente violados por outros. Criam fronteiras falsas com frequência, baseadas no amuo, raiva, isolamento ou necessidade de agradar aos outros. Se foram abusadas fisicamente, ou violadas sexualmente, também serão incapazes de estabelecer fronteiras físicas, confundindo carinho e afecto com a sexualidade. Daqui resulta uma necessidade constante de sexo ou a abstenção quase total.
21.1. Esta é mais uma forma de mascarar a humilhação sofrida na infância.

quarta-feira, 23 de março de 2016

A origem da vergonha tóxica

Nós aprendemos quem somos através do que os outros nos mostram. Os outros reflectem sempre quem somos.
Isto é de extrema importância sobretudo nos primeiros anos de vida, quando somos capazes de comunicar unicamente através das nossas emoções.
Mas como pode um adulto mostrar-nos amor próprio e auto-estima, quando as suas necessidades básicas não estão preenchidas? Quando o próprio adulto, pai e mãe, necessitam do amor dos outros para serem validados?
Se o pai ou mãe são incapazes de amor-próprio irão procurar satisfazer as suas necessidades básicas através do filho. Precisam do filho para se sentirem amados. É aqui que tem início a vergonha tóxica.
A família vive de acordo com uma série de regras que nunca são faladas mas são o berço da vergonha tóxica.
Segundo John Bradshaw, as regras vividas pela família, e que provocam a vergonha tóxica, são as seguintes:
1.     Controlo ou Caos: o progenitor tem que controlar todas as situações e comportamentos a todos os momentos. O controlo passa a ser a estratégia de defesa para a criação da vergonha. A criança aprende assim a viver num mundo governado pelo caos, porque nunca sabe o que está certo ou errado no seu comportamento, dependendo sempre do estado de espírito do progenitor;
2.     Perfeccionismo: o progenitor tem que ter sempre razão. Para ter sempre razão o progenitor usa diferentes pesos e medidas, impedindo a criança de saber quando o seu comportamento é adequado. E, invariavelmente, a criança nunca consegue satisfazer as necessidades de perfeccionismo do progenitor. Num ambiente em que as regras são continuamente alteradas, a criança aprende que é falhada, incompleta;
3.     Culpa: sempre que as coisas não correm de acordo com os padrões do progenitor, este culpa a criança. Esta atitude de culpar os outros é mais um mecanismo de defesa da vergonha tóxica;
4.     Negação da liberdade: a necessidade de um falso perfeccionismo leva à quebra das liberdades mais básicas da criança. Isto diz à criança que não tem o direito de apreender a realidade tal como ela é, não tem o direito de pensar e sentir livremente, não pode ter desejos para além dos acordados em silêncio pelos progenitores, nem poderá ser imaginativa. Tudo isto deverá ser feito apenas de acordo com o perfeccionismo invisível do progenitor;
5.     Proibido falar: esta regra exige que a criança nunca expresse a totalidade dos seus sentimentos, necessidades e desejos. Assim, a criança, tal como o progenitor, está proibida de falar da sua solidão ou da sua verdadeira identidade;
6.     Proibido cometer erros: os erros revelam um eu incompleto, com falhas e vulnerável. Ao assumir um erro, o adulto expõe-se ao ridículo. Da mesma forma, como não quer esta experiencia, o progenitor procura os erros na criança;
7.     Proibido ouvir: todas as pessoas na família encontram-se tão ocupadas a defenderem-se ou a desempenhar um determinado papel, que ninguém ouve ninguém. Quando a criança fala das suas necessidades, o progenitor ouve apenas as suas necessidades (preciso que estejas calado, preciso que sejas bom aluno, preciso que tenhas saúde, preciso que sejas bem educado – estes precisos são uma forma de dizer que o progenitor só consegue alguma paz quando o comportamento da criança é o desejado. A criança é amada por fingir e não por revelar quem é de verdade);
8.     Infidelidade: o progenitor ensina a criança a não confiar nos outros. Fá-lo de uma maneira velada, ou abusiva. A relação entre o pai e a mãe ensina a criança a não confiar nos relacionamentos íntimos (a mãe que fica triste quando o pai chega tarde a casa, o pai que discute porque a mãe gasta mais dinheiro, etc.). Por outro lado, o progenitor que abandona a criança mostra-lhe que aqueles de quem depende para a sua sobrevivência, não estão presentes. Há muitas formas de abandono, desde o mais violento (abuso físico da integridade da criança) até ao abandono quando a criança necessita de ser ouvida e o progenitor prefere ver televisão;
9.     O mundo é um lugar perigoso: uma vez que ninguém ouve nem confia, e tudo é imprevisível, a criança aprende que o mundo é um lugar perigoso onde nunca se sabe como ser autêntico.
É assim que a Pedagogia Tóxica é exercida pelos progenitores, há milhares de anos. Basicamente os progenitores ensinam a criança que:
-       Os adultos são senhores absolutos das crianças e estas são inteiramente dependentes;
-       Os adultos é que determinam o que está certo e errado;
-       A criança é responsável pelos acessos de fúria dos pais;
-       Os pais devem esconder continuamente os seus sentimentos;
-       Os sentimentos verdadeiros da criança são uma ameaça para os pais;
-       As necessidades emocionais da criança deverão ser secundárias ao bem-estar dos pais;
Tudo isto deverá acontecer nos primeiros dois ou três anos de vida da criança, por forma a que ela não consiga descobrir as falhas e, assim, não exponha os adultos ao ridículo.
A vergonha tóxica é libertada seguindo regras precisas e nunca faladas. Um exemplo disto é quem pode maltratar quem. Por exemplo, o pai é o que pode falar mais alto em casa, e discordar de tudo e todos. A mãe pode falar mais alto e discordar de tudo e todos, excepto o pai. O filho mais velho pode falar mais alto e discordar de tudo e todos, excepto o pai e a mãe. Eventualmente chegamos ao filho mais novo, que pode maltratar o gato.
Como os pais começaram a sua relação partindo de necessidades que ninguém pode preencher (de amor-próprio e auto-estima), irão cada um procurar no outro o preenchimento dessas necessidades. No fundo são dois adultos-criança à procura de um pai e uma mãe no outro. Eventualmente descobrem que o outro não consegue preencher as suas necessidades. Muitas vezes o próprio adulto não tem a coragem de afirmar quais as suas necessidades. Tem medo do abandono se afirmar o que deseja do outro. Espera que o outro adivinhe.
Quando um filho nasce, ambos os progenitores procuram satisfazer as suas necessidades através da criança. Pervertem a hierarquia natural da família. Assim, o comportamento da criança irá ditar o comportamento do adulto.
A criança sabe instintivamente que as suas emoções são saudáveis, precisa de um adulto que a ensine que estas emoções são erradas. Gritar é errado. Alegria excessiva é errado. Tirar uma negativa é errado. Falar mal dos outros é errado. E entretanto é este o exemplo que os progenitores dão à criança.
Apenas com o intuito de elucidar os pais, descrevo brevemente de que maneira cada emoção rotulada de negativa é realmente saudável:
-       a Raiva é a energia que nos dá força. O Incrível Hulk torna-se poderoso e ajuda os fracos depois de um acesso de fúria;
-       a Tristeza é a energia que nos permite curar a dor de um evento. Libertamos a dor de uma perda através da tristeza. Os pais evitam a tristeza (criando mais tristeza) porque não querem sentir a vergonha de mostrarem vulnerabilidade;
-       o Medo liberta em nós a energia que nos previne de possíveis perigos. Ao ridicularizar a criança com medo, o adulto ensina a criança a esconder uma parte vital de si. O medo saudável leva-nos à nossa sabedoria interior;
-       A Culpa é o nosso juiz que nos informa da nossa responsabilidade. Diz-nos quando violamos a nossa integridade e a dos outros. Empurra-nos para a mudança. Como os pais não sabem lidar com a mudança usam a culpa para impedir o crescimento saudável da criança;
-       A Vergonha ensina-nos a evitar sermos perfeitos ou mais que humanos. A vergonha assinala os nossos limites;
-       A Alegria é a emoção que surge quando todas as nossas necessidades se encontram preenchidas. A criança quer cantar, pular, saltar. Mostra que tudo está bem;
-       O Desespero é a emoção que procura equilibrar as nossas necessidades básicas. É o desespero que nos leva a procurar alimento, água, conforto. Mas quando mostramos à criança que este comportamento é inadequado, ensinamos-lhe a preocupação e o preconceito. O desespero doente leva a muitos comportamentos disfuncionais da nossa sexualidade;
-       O Descontentamento segue um padrão idêntico ao desespero. Inicialmente era útil para procurar alimento, por exemplo. Hoje em dia é utilizado de maneira pouco saudável numa separação. As vitimas de abusos carregam ás costas vários níveis de descontentamento tóxico. Os violadores e assassinos fazem o que fazem impelidos por níveis elevados de descontentamento, raiva e desespero.
Quando os pais são incapazes de amar a criança por demonstrar abertamente as suas emoções, ensinam-ma a esconder quem ela é de verdade. A criança passa a desempenhar o papel de pai, na medida em que é responsável pela resposta emocional do progenitor.

Começamos assim a compreender que enquanto precisarmos que um filho esteja bem (de acordo com os padrões e necessidades individuais de cada progenitor) para nós estarmos bem, esse filho será nosso refém.

terça-feira, 15 de março de 2016

A aventura de estar vivo

Se observarmos uma criança poderemos ver que a sua natureza é a curiosidade. Usa os sentidos para descobrir o mundo à sua volta. Não sabe o que vai acontecer a seguir. Se mexer naquela coisa enorme colorida encima da mesa, qual será o som que vai fazer ao cair no chão? Um som novo! E a seguir o som da mãe zangada porque o seu jarrão favorito já não é. E se puxar o rabo do gato, como é que ele irá reagir? E descobre o doce sabor das lágrimas depois dos arranhões nos braços. E a ameaça do pai por ser má.
E a curiosidade, o espírito de aventura, de não saber o que vai acontecer a seguir, é a nossa natureza. É esta curiosidade que conduziu e conduz pessoas como Einstein ou Lady Gaga, Edison ou Picasso.
Nesta fase de descoberta os adultos ensinam-nos a ter muito cuidado. Aprendemos a procurar a segurança da vida, e a tentar controlar essa vida. Uma vida de aventura é transformada num tédio em que não há nada de novo a partir dos cinco ou seis anos. E olhamos para os rebeldes como sendo inferiores, mal-educados, aberrações. E talvez o façamos com um pouco de inveja também.
Quando nos apaixonamos vivemos por um pequeno período de tempo a mesma aventura da infância. A descoberta do outro! O não saber e ser surpreendido! A curiosidade e aventura de estar vivo! A nossa natureza.
Mas dura pouco tempo, porque graças à formatação herdada, iremos querer o controle e a segurança. Iremos querer saber com quem o outro está, onde está, a fazer o quê, e, mais importante, quando voltará a estar connosco.
Bem-vindos ao tédio.
É aqui que começamos a viver um verdadeiro paradoxo. Por um lado queremos o entusiasmo, a aventura inicial da relação, a adrenalina e a serotonina do início. Por outro lado queremos controlar o outro. Queremos segurança.
A isto chama-se viver no inferno. Queremos, mas não queremos. Não queremos, mas queremos. Mais do mesmo.
Morremos um pouco mais de cada vez que esquecemos a nossa natureza. O controle e a segurança são aspectos contra-natura. Não são possíveis.
Quando acreditamos que temos tudo sob controle, e não haverá novidades, a vida prega-nos uma partida. Filhos morrem, maridos pedem o divórcio, esposas queimam o jantar. E isto, meus queridos, quer gostemos ou não, é a vida a viver-se. De mil e uma maneiras.
Podemos olhar para o que acontece como uma grande aventura. Ou podemos deprimir-nos, ou viver numa ansiedade louca, em busca de uma vida segura.
Permitir que cada pessoa na nossa vida seja quem é, e nós próprios permitir-nos ser quem somos. É aqui que reside a alegria de viver.
E quem sou eu? Não saber responder a esta questão é a liberdade absoluta. Sou meigo, e sou descuidado, e sou louco, e sou estúpido, e sou mau, e sou impaciente, e sou tolerante, e sou carinhoso, e sou carente, e sou inteligente. Sou tudo. Sou nada. Apenas curioso para descobrir a próxima pessoa a surgir aqui. Sem uma imagem a defender.
Aventureiros já todos fomos. Curiosos acerca da vida já todos fomos. Sem um rótulo de bom e mau, a vida vive-se na perfeição. Sem a necessidade de uma justificação, a vida torna-se leve.
Aquilo que é, é. E o que tiver que ser, será.

Qual será o som dos livros da estante a caírem no tapete?...  

quinta-feira, 3 de março de 2016

Vidas passadas, passaram.

Eu valido a minha existência através das histórias que me conto acerca de quem sou, de quem fui, de quem quero ser. Sem estas histórias não há um eu, há apenas vida a viver-se, momento a momento. Vida alegre, vida triste, vida ansiosa, vida preocupada, vida eufórica. Vida.

Acredito em vidas passadas como acredito no dia de ontem. Ontem existiu, sim. Mas existe agora? E se não existe agora, qual o benefício, para mim, de trazer ao presente algo que já não existe? Talvez para validar esta história de quem eu sou e de quem os outros são.

Recordo como ontem tu me ofereceste uma caixa de chocolates, conto a história do quanto tu me amas, e hoje eu aproximo-me de ti. Digo-te que te amo. Este “amo-te” é o amor dos romances, condicionado por feitos ou palavras. Não é amor no sentido da vida, no sentido de “tudo-incluído”. 
Recordo como ontem estavas em silêncio e a não querer partilhar o teu dia comigo, e conto-me a história que já não me amas. E assim consigo, neste momento, que é o único real, ausentar-me de ti.
E este movimento de afastamento ou aproximação não passou de uma história acerca de ontem, que não existe agora.

Com as vidas passadas acontece exactamente o mesmo. Ou seja, a necessidade de contar uma história para explicar porque me aproximo ou afasto de ti. Em realidade aproximo-me ou afasto-me de uma história.

Se eu apenas te amo quando tu te comportas como eu quero que te comportes, isso não é amor, é um jogo de interesses. E quando não te comportas como eu quero, conto uma história acerca do passado.

Digo que te amo se tu fores meigo, atencioso, presente. Mas só quando eu precisar, ok? Porque há alturas que eu quero ficar só comigo, a chafurdar em histórias de um passado que já não existe.

A nossa loucura acerca do passado é tal que procuramos formas de a alimentar. Recordo como eu alimentava o passado ouvindo música deprimente, lendo romances de faca e alguidar, ou visitando mentalmente situações do passado que não estavam a acontecer.

Amar alguém porque se comporta como queremos não é amor: é acreditar num regime ditatorial.

Quando afirmo que o amor é todo-inclusivo refiro-me a amar a criança que faz birra, e a respeitar essa birra. É amar o pai alcoólico, a mãe ausente, o patrão ganancioso, a tempestade que me impede de ir trabalhar, a doença que me leva ao hospital onde médicos e enfermeiros cuidarão de mim tanto quanto são capazes. Isto é amor.
O resto? O resto são histórias de um passado que já não está aqui, ou um futuro que também não existe.

Usamos as vidas passadas, incluindo a de ontem, para justificarmos algo tão surreal como uma escolha. Não escolhemos, tal não é possível. Acreditamos que sim, que fazemos escolhas “conscientes”. Em realidade contamos uma história e a escolha faz-se a partir da história em que acreditamos, raramente a partir do momento presente.

Entre duas pessoas, amor é algo tão simples como isto: eu amo-te porque me faz sentir bem amar-te, e não sei porque te amo.

Ah, consegues sentir a liberdade?