segunda-feira, 6 de junho de 2016

Respeitinho, se faz favor

Ouço com frequência pessoas da minha idade e mais velhas queixarem-se que hoje em dia já não há respeito.
As pessoas que se queixam desta falta de respeito não param para observar se alguma vez houve respeito. Quando éramos adolescentes, se pararmos o tempo suficiente, descobriremos que nós também não tínhamos qualquer respeito pelos outros. Tínhamos outra coisa: medo ou resignação.
Não é possível falar de respeito quando nós mesmos não temos a experiência de nos respeitarmos. Acreditamos que o respeito é algo que se impõe ou se merece. E não é uma coisa nem outra. O respeito só pode ser experienciado a partir de dentro.

Algumas das formas de desrespeito que não consideramos:
-       O amigo que pede ajuda e nós ajudamos, não porque é natural em nós ajudar mas porque acreditamos que é o que um amigo é suposto fazer (o chamado “frete”);
-       O corpo adoece e nós tratamo-lo como estando errado ou a fazer algo que não gostamos (expressões inocentes como “as malditas das dores nas costas”);
-       Dedicarmo-nos à má-língua mesmo sabendo que nos sentimos mal ao fazê-lo;
-       Acusar os outros por fazerem aquilo que nós mesmos fazemos;
-       Fazermo-nos passar por vítimas para não ter que lidar com situações que nos são desagradáveis;
-       Culpar outros por tudo o que percepcionamos como errado nas nossas vidas;
-       Deitarmo-nos abaixo quando a vida não acontece como nós queremos.

Se para mim o respeito é um valor importante (e é), então será mais fácil começar esta história por mim.

Quando alguém opina, eu respeito a opinião mesmo que a minha experiência seja diferente. Uma amiga dizia-me que as mulheres sempre sofreram porque vivemos numa sociedade patriarcal. Respeito a opinião dela. A minha experiência é diferente (lá em casa era a mãe que mandava). Um cliente diz-me que os políticos são todos uns vigaristas. Respeito a opinião dele (este é um homem que esconde uma parte da fortuna para que a ex-mulher não lhe “leve tudo”). Um professor diz-me que os miúdos são cada vez mais mal-educados. Compreendo a sua opinião (ele não se dá conta que é má educação marcar uma sessão e desmarcar em cima da hora porque surgiu algo mais interessante ou está-se cansado). Um pai informa-me que os professores hoje em dia não prestam. Compreendo a sua opinião (este homem chega a passar um mês sem ver os três filhos de duas ex-mulheres).

Queres respeito? Começa por te respeitar a ti mesmo antes de exigir que outros o façam. Por exemplo, eu tenho um problema com pessoas que precisam de gritar quando comunicam com outros. É ok estas pessoas gritarem. E eu afasto-me. Respeito a necessidade do outro gritar e respeito a minha necessidade de calma. Há pessoas que se sentem bem a queixar-se acerca de tudo aquilo que nada podem fazer para mudar (a crueldade contra animais, a fome no mundo, os políticos corruptos), eu respeito a necessidade destas pessoas de se queixarem, e respeito a minha natureza que é de me afastar de queixas que levam a nenhures. Há pessoas que para se sentirem bem têm a necessidade de deitar abaixo os outros. Respeito esta qualidade e respeito a repulsa que sinto deste comportamento, mudando a conversa ou afastando-me.

Posso verificar que tenho poucos amigos. Talvez porque aqueles que tenho são merecedores do meu respeito. Respeito-os apenas na medida em que me respeito a mim. E em momento algum acredito que alguém me falte ao respeito. Não tenho que ser ditador nem exigir que os outros se comportem como eu quero. E se em algum momento observar que alguém me falta ao respeito, antes de acusar retiro-me para descobrir onde é que ainda me falto ao respeito.

Por vezes há pessoas que acreditam que eu concordo com elas nas suas teorias. Em realidade acredito em apenas duas ou três coisas nesta vida. Não acredito no que me dizem, e respeito a perspectiva de cada ser humano. É a sua perspectiva, merece tanto respeito como a minha.

Acontece-me com frequência ouvir pessoas perguntar-me se deveriam fazer este trabalho que chamo de educação emocional. A minha resposta só pode ser um não. E não explico de onde vem este “não”. Eu posso fazer um trabalho de educação emocional porque sinto um desejo de o fazer, ou posso fazê-lo porque me convenceram que será melhor para mim. E a minha função não é, definitivamente, convencer quem quer que seja do que quer que seja.

Cada ser humano neste planeta está a viver de acordo com aquilo que acredita. E eu respeito as crenças de cada um. A minha experiência pode ser diferente da tua. Apenas isso. No fundo somos muito parecidos em tudo. Ambos respiramos, mexemo-nos de A a B, bebemos, dormimos, comemos, vestimo-nos. Tudo o mais são histórias.
A vida é simples quando te respeito e me respeito. Quem tu respeitas não me diz respeito.

PS - Para os mais curiosos: em que acredito eu? Apenas naquilo que está a acontecer aqui e agora. Factos sem interpretações. Se por exemplo tu fizeres parte do meu Aqui e Agora e estiveres a gritar, acredito a cem por cento que a tua função é gritar (só assim este momento pode ser completo). Não é minha função impedir-te de gritar. E observo como estas pernas se movimentam numa outra direcção. Poderia a vida ser mais deliciosa?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

As histórias que contamos

As nossas histórias servem para nos identificar como únicos. Servem ainda para limitar as nossas possibilidades. Mantêm-nos afastados dos outros apesar de desejarmos fazer parte do todo, de um qualquer grupo.
As nossas histórias roubam-nos energia vital, deixando-nos cansados, desmotivados  e enfraquecidos. Quando vivemos dentro das nossas histórias limitamo-nos a repetir hábitos e comportamentos que cansam.
As conclusões que tiramos das nossas histórias transformam-se nas crenças da Sombra. Ao aceitarmos e vivermos dentro das nossas histórias estamos na verdade a ser vítimas num jogo viciado.
Mas se nós não somos as nossas histórias, quem é que somos?...
Temos medo que ao deixar partir os nossos dramas iremos perder a nossa identidade. E, se perdermos a nossa identidade, somos nada. Um vazio.

Faça o seguinte exercício: sentado e com as mãos sobre os joelhos imagine que uma das suas mãos representa a afirmação “Eu sou Tudo” e a outra mão representa “Eu sou Nada”. Faça inspirações calmas e profundas, imaginando o ar, ao expirar, sair pelas suas mãos. Aos poucos começará a ter consciência do significado destas duas afirmações. Nós somos de facto um microcosmo do macrocosmo: somos tudo e nada. Quando se sentir preparado, após 5, 10 ou 15 minutos, deixe que as suas mãos se unam. Depois abra os olhos e dê a si mesmo um grande abraço.

Só conseguimos sair das nossas histórias pessoais depois de aceitar que somos Tudo e Nada ao mesmo tempo.
Vemos a nossa história como um velho amigo. Sentimos o seu apoio, segurança e conforto. É aqui que a Sombra começa a intervir. A nossa Sombra sabe que podemos ser muito mais.
Há um Eu Falso por detrás de cada pedaço da nossa história. Ele acredita ser o herói ou vilão, a vítima ou o predador. É assim que conseguimos manter a nossa história intacta e obter uma paz temporária na previsibilidade da história.
Só que ao acreditarmos na nossa história perdemos o contacto com o Divino. Podemos intelectualizar que somos Um com a Vida. Mas nos cantos mais escuros do subconsciente não acreditamos porque nunca sentimos, a partir do coração, a união com o Todo.
É importante saber que as nossas histórias têm um propósito. São uma parte essencial da nossa evolução. Escondida nos nossos dramas há informação valiosa.
As nossas histórias contêm todos os ingredientes para sermos o melhor que podemos ser. Quais são os ingredientes?...
-       Dor;
-       Sofrimento;
-       Triunfo;
-       Alegria;
-       Falhas;
-       Vitórias...
É importante manter presente que a nossa dor tem um propósito. Serve para nos ensinar, guiar e dar-nos a sabedoria que necessitamos em cada momento. Mas enquanto não fizermos as pazes com a nossa história nunca estaremos livres para avançar.
O que conta a nossa história? Simples:
-       Ninguém gosta de mim;
-       Eu não pertenço em lado nenhum;
-       Eu sou estúpido;
-       Eu sou incompetente;
-       Eu não sou bem-vindo;
-       Eu não sou especial;
-       Eu não sou merecedor;
-       Eu sou um inadaptado;
-       Eu sou insignificante;
-       A minha vida não conta para nada;
-       Eu sou um Zé-ninguém;
-       Eu não presto;
-       Eu sou um erro;
-       Eu sou mau;
-       Eu sou incompleto;
-       Eu não mereço ser amado;
-       Eu sou um falhanço;
-       Eu não posso confiar em ninguém.

Todas estas histórias têm como tema de fundo apenas um destes cenários:
-       Não sou suficientemente bom;
-       Eu não sou importante;
-       Há algo de errado comigo.

Claro que cada um deles serve apenas para afirmar o tema da história colectiva da humanidade, que é precisamente: coitadinho de mim.

Temos que possuir a humildade suficiente para saber que na verdade não sabemos que experiências precisamos para sentirmos o ser completo e divino que reside dentro de nós.

Quem é que eu seria sem uma história?... Talvez livre, talvez presente.

sábado, 14 de maio de 2016

Mudanças

Eu quero mudanças na minha vida mas sem que perca a segurança e controlo sobre a vida que tenho agora.

A mente/ego é, por natureza, insatisfeita. Continuamente a comparar-se com outros, a decidir que precisa de mais, de algo diferente, de mudança.
Mas é esta mesma mente que depois tem medo da mudança, da sensação de impotência, de perder o controle. Ainda não descobriu que nunca teve qualquer controle sobre a vida.
A Vida é aquilo que está a acontecer agora. A mente abandona a Vida e viaja até ao passado ou futuro, procura motivos para depois decidir se quer estar feliz, triste, ansiosa, deprimida, eufórica. Mas, de qualquer forma, raramente a viver o presente.

É que no presente a mente sabe que ela mesma não é assim tão importante. Tudo flui sem qualquer esforço da sua parte.
Estar presente, ao contrário do que muitos pensam, não significa uma atitude passiva.

Mas se sossegar um pouco a mente começo a observar que a Vida sabe sempre o que é melhor para mim. As minhas mãos mexem-se, sem que eu tenha decidido a maneira como se mexem. E uma vozinha diz “Vai buscar uma água das pedras”. Não vejo porque não. Levanto-me e vou à cozinha. Observo deliciado enquanto os braços, as mãos, os dedos, dançam à volta da garrafa de água, do copo. A vida é isto: uma dança. Eu sou o dançado. Completamente vulnerável, impotente e imperturbável nesta irresponsabilidade aparente. Delicioso.

Outra vez a vozinha. Desta vez diz “o que a querida Natália questionava é válido e é capaz de haver muitas pessoas na mesma situação. Escreve sobre isso.” Não vejo porque não. Sento-me à frente do computador e os dedos sabem o que fazer. Limito-me a observar como eles carregam num botão e magicamente o computador começa a funcionar. Depois vão até ao rato e pressionam num botãozinho. Abre-se um programa de edição de texto. Olho para o ecrã, mas por pouco tempo. Os dedos começam a escrever. Observo deliciado como os pensamentos fluem. Sei que são todos mentira. Mas como não provocam qualquer stress escolho acreditar neles.

Quando observo atentamente a Vida a fluir nunca fico desapontado com nada nem ninguém. Aprendo a ouvir os outros. Se alguém estiver a chorar posso perguntar se posso ser de ajuda. E se a pessoa disser “desaparece da minha vista!” eu obedeço, afasto-me. Não há nada pior para uma pessoa a viver num inferno do que ter alguém à sua frente a impor amor e harmonia. É uma violação da mente. Não o faço.
A mente ainda não observou que a mudança é a única garantia na vida. Tudo muda continuamente. Numa dança deliciosamente coreografada.

A mente começa a abrir as portas do seu inferno quando acredita que tudo o que acontece é pessoal, é a si que acontece. Observa a diferença entre estas duas afirmações: “O meu amigo não me ouve” e “O meu amigo não ouve”. Na primeira a mente cria a necessidade de julgar, criticar e defender-se. Na segunda situação a mente observa, em paz. Começa a ver a vida nesta perspectiva. Ninguém te faz nada para te magoar intencionalmente. Apenas a mente acredita nesta mentira. E quer ter razão, sempre! Cada pessoa na tua vida faz o que faz porque é o que faz. E a mente decide que o que é feito está certo ou errado. Um inferno.

Uma familiar minha diz muitas mentiras. Continuamente. Nunca me engana. Quando quero ouvir uma mentira telefono-lhe. Nunca me deixou ficar mal. O problema, para outros familiares meus, é que querem que ela não minta. Ou seja, querem que ela seja uma pessoa que ela não é. Ela é a pessoa que mente. É bom saber isto. Não há guerra nem necessidade de justificações. Quero ouvir uma mentira e sei a quem posso ir para a ouvir. E posso escolher não ir ter com esta pessoa quando não quero ouvir mentiras. A minha experiência é que as pessoas são sempre honestas. Nunca me desapontam.

Quando quero ter a experiência de esperar por alguém marco um encontro com o amigo que chega sempre atrasado. Nunca me desaponta. Quando quero um trabalho mal feito, também sei a quem recorrer. E quando quero um trabalho bem feito também sei a quem ir. Poderia a vida ser mais amorosa?

Mas a mente quer mudança! Quer que os outros mudem, de preferência agora. E quer que a vida seja diferente daquilo que é, mas sem perder o controle. Um inferno. Se quero mudança só posso abrir os braços à vida. Confiar plenamente na Vida. Sei que me apoia continuamente.

Neste momento o pescoço apoia a cabeça. A cadeira apoia o corpo. O chão apoia a cadeira. O ar apoia o organismo. Apoio total, a cem por cento, da Vida. Delicioso. E para sofrer tenho que abandonar este lugar, que é o único real, e decidir que a minha mãe não me apoia, ou o governo não me apoia, ou o meu vizinho não me apoia. Outro inferno.

E se tens medo da mudança convido-te a um exercício para as próximas semanas. Aconselho-te mesmo a dedicar algum tempo a cada situação. Não queiras apressar-te. Vai com calma, pois é calma o que a mente procura.

É essencial começarmos a tornar-nos conscientes que Deus é amor incondicional (e este Deus é o Deus em que tu escolhes acreditar). E a pergunta para a mente, a pergunta para meditar durante alguns dias, é esta: se Deus é amor, de que maneira o que está a acontecer agora é uma prova desse amor?

De que maneira ter um cancro é uma prova do amor de Deus?
De que forma ter pouco dinheiro é uma prova do amor de Deus?
De que forma estar num processo de divórcio é uma prova do amor de Deus?
De que forma a morte da pessoa que mais amo é uma prova do amor de Deus?

Procura pelo menos três respostas verdadeiras, não caias na armadilha da mente de tentar convencer-te de algo em que não acreditas.

Posso deixar-te os meus exemplos.

Se eu tivesse um cancro, em fase terminal, seria um alivio! A grande maioria das pessoas não sabe quanto tempo tem nesta Terra. Eu saberia: pouco. E neste pouco tempo que me resta, oh meu Deus! Poderia amar as pessoas à minha volta. Poderia descobrir que não sou o meu corpo. Poderia ainda dar sem esperar de volta. Estaria disponível para experienciar conscientemente a decadência do corpo. Poderia ainda ensinar aqueles que amo que nunca morrerei, apenas o corpo físico morre. E há muitas mais bênçãos! Posso escolher vê-las, ou queixar-me. Ambas as situações são ok.

Se não tivesse dinheiro para a próxima refeição, seria um alivio. Não teria que pensar no que vou comer a seguir, porque não há nada. E poderia ainda experienciar a humildade pura de pedir ajuda. E ainda permitir que outros tenham a experiência de servir. E poderia criar uma nova e original maneira de ganhar dinheiro. E poderia saber com toda a certeza quem são os meus amigos (um amigo que me dissesse “não” continuaria a ser um amigo honesto. Seria o amigo que não ajuda. Da próxima vez saberia que esse não é o amigo a quem pedir ajuda).

E se estivesse a passar por uma separação, poderia a vida ser mais carinhosa? Poderia aprender a amar-me. Aprender a não depender dos outros para o meu bem-estar emocional. Poderia finalmente estar grato à vida pela presença da outra pessoa na minha vida. Poderia finalmente sair à noite com os amigos sem ter que me justificar! (ok, esta última não vale. Não saio à noite). E poderia ainda descobrir-me, observando de que maneira fui totalmente a favor da separação.

E se a pessoa que me é mais querida morresse iria ter a prova definitiva de que as pessoas não morrem, só os corpos. As pessoas, depois do corpo morrer, continuam vivas onde sempre estiveram: na mente e no coração. Por este motivo digo que não preciso que estejas vivo para te amar. Porque é no meu coração que tu vives.

Quando começares a observar que nada é assim tão importante, que o universo continuará a existir mesmo depois de morreres, que a tua passagem aqui é efémera, irás começar a saborear os primeiros sabores da vida de braços abertos.


Quando abraçares a morte, estarás livre para viver e de braços abertos para a mudança. Assim como assim, o pior que pode acontecer é morrer. E esta é a única certeza que tenho: o corpo físico morre. Eventualmente.

domingo, 8 de maio de 2016

Querer não é poder

Aprendemos muito cedo que há algo de errado connosco. Quando a criança tem um comportamento que não é aprovado pela família irá ter a experiência da vergonha ou culpa, a experiência de que há algo de intrinsecamente errado consigo. Isto acontece porque não sabemos distinguir a acção do sujeito. Julgamos a criança em vez do comportamento. A criança não é mal-educada quando faz birra, fazer birra é que pode afastar os outros.
Devido a este processo de domesticação aprendemos que há comportamentos e emoções que são maus. É mau estar triste, é mau chorar, é mau gritar, é mau ficar zangado. Aprendemos a importância de estar bem. Estar feliz. Dizer sim aos mais velhos. Obedecer mesmo que esta obediência signifique desobediência à nossa natureza.

Observem o carinho com que um adulto faz uma criança sentir-se mal por não sorrir ou não querer dar um beijo à tia ou não lhe apetecer comer a sopa toda. É o carinho que diz “se não fizeres como eu quero irei retirar o meu amor por ti”. E assim aprendemos a necessitar do amor dos outros para estar bem.
O preço desta aprendizagem é muito elevado. Iremos fazer coisas para agradar aos outros, iremos dizer sim quando queremos dizer não, iremos lutar contra a nossa própria natureza.
Para algumas crianças esta experiência inicial de negação da sua natureza é tão forte que decidem nunca crescer. Tornam-se adultos carentes. Em vez de serem adultos que aprovam e amam crianças, tornam-se adultos em busca da aprovação e amor dos outros.

Há uma forma de crescer, de amadurecer. Chama-se silêncio. Observar-me em silêncio. Neste silêncio poderei descobrir o quanto exijo dos outros e o quanto luto com tudo o que acontece se não for do meu agrado.

Aprendemos que para estar bem precisamos de ter coisas. Precisamos de um carro, de uma casa, de roupa da moda, do último modelo de telemóvel, de namorado/a, de filhos (de preferência bem educados e saudáveis – ninguém quer um filho mal-educado ou doente), precisamos de dias de sol, de férias no verão, de amigos que nos compreendam. Um constante “eu, eu, eu, eu”. Um inferno.
E como não é possível ter tudo o que queremos, amuamos. Ficamos tristes e fechamo-nos porque a vida, ou a esposa, ou os pais, não nos dá aquilo que queremos e acreditamos precisar.

Surgem as depressões (não gosto da vida como está a acontecer) e as ansiedades (não irei gostar da vida que acredito irá acontecer). Se apenas soubéssemos que a tristeza é um sentimento nobre, que nos convida a olhar para dentro. Mas como fomos ensinados que estar triste é mau, sempre que este sentimento visita tentamos eliminá-lo. Vamos às compras, visitamos um amigo, vemos televisão. Ou ficamos na cama a pensar em tudo o que está errado nas nossas vidas.

É bom ter planos, é bom desejar algo. Mas sem o apego a que a vida aconteça de acordo com os nossos planos.

Aprender a querer aquilo que está a acontecer é a chave para estar bem. E isto não significa uma atitude passiva de forçar-me a acreditar que está tudo bem. Se alguém grita e vomita insultos, é isso que eu quero (porque é o que está a acontecer) e observo como este corpo se movimenta na direcção oposta desta pessoa. Se uma mágoa surge, é esta a emoção a que eu dou as boas-vindas. Recolho-me em mim. Dou-me atenção a mim. Sei que as pessoas não têm o poder de me magoar, apenas aquilo que eu penso acerca das pessoas pode magoar-me.

Querer o amor de outro é uma forma requintada de sofrer quando este amor não é correspondido. Se amo outro posso ficar bem na presença dos sentimentos que esse amor desperta. Mas se acreditar que preciso que este amor seja correspondido irei perder esta experiência de amor que nasce em mim e passarei a sofrer porque o amor que sinto não é retribuído. Se para me sentir bem a amar outro ser humano precisar que esse outro me ame de volta, isso não é amor: é carência afectiva.
Sabe bem amar outros sem necessitar de ser amado de volta. É a liberdade total.

Quando nada quero, tenho tudo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Coitadinho de mim

Todos nós, sem excepção, aprendemos na infância a ser coitadinhos. 
Os adultos à nossa volta mostraram-nos, de maneiras mais ou menos subtis, que não somos merecedores de amor, ou não somos importantes, ou não prestamos, ou não somos capazes, ou somos estúpidos. Como isto foi incutido à criança ainda antes desta ter desenvolvido filtros que lhe permitissem discernir o que lhe era dito ou feito, cresceu a acreditar num destes temas.

Qual é o tema da sua história de coitadinho? Se os seus relacionamentos costumam ser um fracasso, aprendeu que não é merecedor de ser amado. Se tem problemas no trabalho, aprendeu que não presta ou não é capaz. Se não é capaz de ser ouvido pelos outros, aprendeu que não é importante. E se não é capaz de se respeitar, permitindo que outros abusem de si de muitas maneiras, aprendeu que não é especial.

É isto o que se esconde na nossa sombra. Uma história de coitadinho.
 
Não quero aqui culpabilizar os nossos pais: eles fizeram o melhor que sabiam. Eles aprenderam a amar com os pais deles, que por sua vez aprenderam com os seus pais. 
Como é que eu sei que estou dentro da minha história que afirma ser eu um coitadinho? Prestando atenção ás minhas emoções. Sentimentos de ansiedade, tristeza, revolta, ira, mágoa, desalento, insatisfação, cansaço, desprezo, angústia, preocupação, são indicadores precisos que me informam estar a viver dentro de uma história que afirma peremptoriamente: “coitadinho de mim! Se ao menos...”

É importante não esquecer que é ok ter estes sentimentos. É perfeitamente normal, e saudável, sentir tristeza quando uma relação chega ao fim ou um ente querido parte. É perfeitamente normal sentir revolta quando assistimos a actos de injustiça. O problema é quando nos mantemos presos a esses sentimentos. Quando meses depois de uma separação ainda sentimos mágoa, ou revolta, ou ansiedade. Quando um ano depois de um colega de trabalho nos ter criticado ainda recordamos as palavras. Isto é viver dentro de uma história de coitadinho.
Esta história é sempre limitadora. Impede-nos de abraçar a totalidade que somos. Leva-nos a julgar os outros e a definir o que é certo e errado, de acordo com os nossos padrões.
Um dos aspectos mais importantes desta história de coitadinho é a auto-sabotagem que praticamos diariamente. Quando sabemos que podíamos ser mais e fazer mais, mas em vez disso dedicamo-nos a desculpar-nos e justificar-nos. Ou quando nos dedicamos ás queixinhas. A pessoa queixinhas vive dentro de uma história muito limitadora que afirma que não tem poder para mudar, não é capaz de auto-controle e, sobretudo, sabe que o mundo é um lugar mau cheio de pessoas más.
Quando nos dedicamos a apontar o dedo, a desvalorizar outros, a reagir de maneira inapropriada. Estamos dentro da nossa história. Quando nos comparamos aos demais. Quando nos preocupamos com coisas que podem ou não acontecer.
Gostaria de lhe pedir que se permitisse reflectir nisto:
No mundo há pessoas boas e pessoas más. No mundo há abundância e também pobreza. No mundo há justiça e injustiça. O mundo é um lugar dualista: nada existe sem o seu oposto. Noite precisa do dia da mesma forma que o quente precisa do frio. Alto e baixo, frente e verso, bom e mau. 
E saiba ainda isto: as pessoas mais “certinhas” são as que escondem maior escuridão. As pessoas mais moralistas são as que escondem mais falsidade. As pessoas que criticam continuamente os outros vivem num desassossego permanente. 
Sabe porque motivo algumas pessoas gostam de ver os noticiários na televisão? Dizem que é para se manterem informados. Mentira. Vêem os noticiários para se comparar e apaziguar um sentimento de culpa que os invade. O facto de eu desperdiçar tempo a visitar sites pornográficos na net é irrelevante comparado com o sujeito que foi preso ontem por ter violado uma mulher. O facto de eu dedicar tempo a falar mal de um colega não é nada comparado com o político que insulta outro em plena Assembleia da República. O eu tirar canetas ou papel do escritório não representa nada em relação ao desgraçado que foi apanhado a roubar um banco. As minhas vergonhas não são nada comparadas com aquilo que vejo nos noticiários!
Só que isto não é verdade. Existe em nós um circuito neuronal de integridade. E sempre que atentamos contra a nossa integridade, criticando e julgando outros ou tirando aquilo que não é nosso, ou roubando tempo aos outros, este circuito de integridade entra em conflito. E pagamos caro por isso. Inconscientemente iremos procurar formas de nos punir. Através de relacionamentos ocos, de perdas financeiras, doenças, etc.
Como podemos sair das nossas histórias de coitadinhos? Regras básicas:
-       Respeitar-me em tudo o que faço;
-       Respeitar os outros (significa não fazer juízos de valor sobre outros);
-       Ter a humildade de calçar os sapatos do outro (daquele a quem apontamos o dedo);
-       Parar de ver a maldade alheia e observar as maneiras em que sou mau para comigo;
-       Sorrir, independentemente do que sucede à minha volta.

A nossa incongruência reside no facto de apesar de estarmos a viver numa história de coitadinho, comportamo-nos como se fossemos o centro do universo. Convençamo-nos de uma vez por todas que o mundo continuará a movimentar-se mesmo depois de morrermos. O mundo não pára só porque nós estamos tristes ou ansiosos ou doentes. Nada é assim tão importante. Literalmente. Mas comportamo-nos como se a nossa vida dependesse de termos razão o tempo inteiro, quando em realidade raras vezes a temos.
Temos ainda que assumir que a única pessoa que podemos controlar e mudar somos nós mesmos. Nunca mudaremos quem quer que seja com uma critica. Nunca mudaremos quem quer que seja só porque lhe dizemos umas “verdades” (regra geral a nossa verdade pessoal). 
Se temos problemas com alguém, a melhor solução é perguntar-nos: o que esta pessoa me está a pedir? E dar o que a outra pessoa pede.

Vejo isto com muitos professores. Querem alunos bem comportados e cumpridores. Mas os próprios professores comportam-se pessimamente em relação a eles próprios. Desrespeitam-se continuamente. São incongruentes, julgam e criticam sem pensar duas vezes. Nas suas cabeças há um caos aterrador de pensamentos carregados de ira, revolta, mágoa, desprezo. E depois querem ter razão. Acredito que os professores com alunos “problemáticos” nada mais fazem do que projectar o seu “problematismo” sobre os alunos. E enquanto não aceitarem que os alunos apenas lhes mostram o que andam a fazer a eles mesmos, nunca terão alunos como desejam.
 

É anedótico ver um professor a exigir respeito a um aluno. Fá-lo com prepotência e uma autoridade que não é reconhecida. Eu jamais conseguirei que outros me respeitem enquanto eu não me respeitar a mim mesmo primeiro. Se quero uma sala de aula atenta tenho que primeiro procurar o silêncio e calma dentro de mim. Pedia aos professores que da próxima vez que estiverem frente a uma turma barulhenta se observem a eles mesmos. Observem o ruído mental nas suas cabeças.

Este é um dos motivos porque temos cada vez mais crianças e adolescentes rebeldes, maus, irados. Eles estão a mostrar-nos a revolta que vai dentro de nós, a ira que sentimos pelas injustiças cometidas contra nós por governantes prepotentes. E nada fazemos em relação a esta situação, excepto criticar. E os adolescentes mostram-nos a nossa raiva. Claro que isto é apenas a minha opinião, sem qualquer valor para além do que decidir atribuir-lhe.

Seria arrogância da minha parte acreditar que sou capaz de mudar quem quer que seja. Nunca irá acontecer. Mas posso mudar-me a mim. O que estará a pedir um aluno irrequieto ou mal-educado? “Aceita-me como sou!”. Aceita-me por ser uma criança que se sente abandonada, julgada, criticada. Uma criança cujos pais não sabem dar amor. Uma criança cuja escola serve para simplesmente julgar no final de cada período. Os maus alunos estão a pedir aceitação, amor incondicional.
 
Se se permitir parar de apontar o dedo e calçar os sapatos de outra pessoa irá descobrir que a pandemia que assola a humanidade é o auto-ódio, e o antídoto é o amor incondicional.

Tenho uma amiga, professora, que nunca teve problemas com os seus alunos. Sempre que lhe aparece um aluno “mau” ela escreve-lhe uma pequena carta. Basicamente diz-lhe que gosta dele, independentemente de ele ser bom ou mau, estudioso ou preguiçoso. Diz-lhe ainda que se ele alguma vez quiser conversar em privado ela está disponível. Ela sabe que o “mau” aluno apenas quer ser aceite, com todos os seus defeitos, vergonhas, culpas e medos.

Alguma vez pensou porque motivo qualquer pessoa se rende ao sorriso de um bebé ou ao olhar de um cachorrinho? Porque nesse olhar não há qualquer juízo ou critica. O bebé e o cachorrinho, através do olhar, dizem-nos que é ok sermos quem somos.

Continuando com a nossa história de coitadinho:
Sabemos que estamos fora da nossa história quando nos sentimos alegres, de bem com o mundo, satisfeitos com o nosso trabalho, plenos, cheios de energia, com esperança num futuro melhor, animados, sem preocupações e tranquilos. Provavelmente conseguimos permanecer fora das nossas histórias de coitadinhos durante alguns minutos por dia.

O que pode fazer para sair da sua história:
Comece por observar os seus comportamentos, atitudes e pensamentos. Dentro das nossas histórias lutamos contra a realidade. Observamos algo e decidimos que não deveria ser assim. E lutamos contra aquilo que é. Um exemplo simples: vemos na rua alguém a deitar lixo para o chão e decidimos que é errado. Errado para quem? Definitivamente que não é errado para a pessoa que deita o lixo para o chão. Em vez de criticarmos esta atitude, aceitamos aquilo que é e fazemos o que podemos. Podemos falar com a pessoa, ou, mais simples ainda, pegar nesse lixo e deitar num recipiente apropriado. Sem conflito com a realidade. Isto não significa ser escravo dos outros nem andar a fazer o trabalho dos outros. Este tipo de pensamento rouba-nos muita energia. 

Quando vejo alguém a deitar lixo ao chão fico grato pelo que vejo. Penso sempre “obrigado por me mostrares que ainda ando a atirar com lixo para cima de outros”. Depois observo-me, tento descobrir que lixo ainda carrego comigo. Talvez um pensamento que me diz que não sou capaz. Ou uma critica feroz contra um amigo. O pior lixo não é o que vemos nas ruas, é o lixo nas nossas mentes. Aqueles pensamentos que afirmam milhares de vezes ao dia que o mundo é um lugar perigoso, que as pessoas são más, que eu não mereço ser amado, que o meu corpo está mal. Isto é o verdadeiro lixo que polui a vida de cada um de nós. E enquanto não reciclarmos o lixo das nossas mentes será impossível eliminar o lixo que se acumula sobre este nosso glorioso planeta.

Dentro das nossas histórias de coitadinho temos sempre razão, estamos certos e os outros são os maus da fita. Fora das nossas histórias sabemos que tudo é como deveria ser (pelo simples facto de ser assim). Fora das nossas histórias não precisamos que os outros mudem: mudamos nós. Fora das nossas histórias não levamos o comportamento dos outros a peito. Sabemos que cada um está a fazer o melhor que é capaz. E esse melhor pode não ser o melhor que nós queremos, mas nós não somos os directores gerais do universo nem os proprietários do planeta.

Em vez de criticar as pessoas que abandonam animais, porque não começar a criar um grupo de pessoas que possam acolher esses animais? Em vez de criticar o colega preguiçoso porque não começar a ver de que forma poderíamos ser nós no seu lugar, se tivéssemos a vida que ele tem? Em vez de esperar que os alunos me respeitem, porque não começar a respeitar-me a mim mesmo?
 

Tive uma professora, que ainda hoje admiro, que parecia estar sempre bem. Mesmo quando o marido faleceu de cancro ou o filho foi atropelado e ficou em coma. Dizia-nos que tudo o que nos acontece são lições para aprendermos a ser o melhor que podemos ser. E dizia ainda outra coisa: num grupo, a pessoa que fala mais alto raramente tem razão.

É uma opção que cada um pode fazer, constantemente. Prefere ver as nuvens no céu ou o lixo num passeio? Prefere sentir compaixão pela pessoa que sofre e com o seu sofrimento trata mal os outros, ou escolhe antes criticar essa pessoa?

A realidade é que cada ser humano está a viver dentro de uma história limitadora. E eu não tenho o direito de julgar as histórias dos outros. Mas posso olhar para a minha história e começar a criar uma nova história. Uma história em que sou o melhor que sou capaz de ser. Uma história onde me amo e aceito cada desafio da vida como uma lição. Uma história em que paro a revolta em mim e amo incondicionalmente. Eu não tenho nem mais nem menos direitos que os outros. E, sobretudo, não tenho o direito de impingir a minha “verdade” sobre quem quer que seja.

E esta é a minha verdade apenas. Ninguém tem que a aceitar. Ninguém tem que concordar com o que digo. Ninguém tem que refutar nada do que digo. Apenas eu tenho o poder para o fazer. E no fim do dia apenas tenho que me sentir bem comigo por saber que fiz o meu melhor. Chegar ao fim do dia e acariciar-me como se acaricia uma criança de dois anos, com muito carinho e amor, sem julgar.