quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A mente e o coração amam de maneiras diferentes

A maioria do stress na nossa vida ocorre porque a mente e o coração falam linguagens diferentes.

A linguagem da mente é aprendida, transmitida ao longo dos séculos. Aprendemos a rotular objectos, pessoas, situações. Aprendemos que há coisas boas e más, situações certas e erradas, pessoas bonitas e feias. Tudo isto é apreendido desde muito cedo.

A mente acredita nestas histórias do certo e errado. Acredita que errou ou que poderia ter feito diferente. Acredita que há uma forma melhor de viver a vida. Acredita que há uma reacção apropriada. A mente sabe o que está fora de lugar. A mente sabe viver no caos, em busca da ordem. A mente dita como viver. A mente quer coisas.  A mente quer ser compreendida. A mente sabe o que é melhor para si e para os outros. Dá conselhos.

A linguagem do coração é completamente diferente. Por exemplo, muitas pessoas acreditam que a experiência de estar apaixonado é um evento do coração. Não é. A paixão é fabricada pela mente. A mente conta uma história acerca de uma pessoa e apaixonamos pela história que se conta e acreditamos que estamos apaixonados.

O amor, enquanto linguagem do coração, é uma experiência totalmente diferente. A experiência deste amor costuma provocar lágrimas. Consome-nos a partir de dentro. Uma parte de nós parece morrer (a parte criada pela mente). Este amor é uma experiência emocional sem palavras, em que há um chorar, um gritar, um urrar. O amor do coração não tem explicação nem é possível compreender.

A mente enlouquece perante a experiência deste amor porque quer compreender. O coração sabe que não há nada para compreender. Vive o momento.

A linguagem do coração é muitas vezes interpretada pela mente como estúpida ou errada. A mente sabe! E não se discute. O coração não sabe, e limita-se a viver momento a momento.

O coração é o que diz para amar mesmo quando o outro quer afastar-se. A mente resiste ao afastamento e quer outra história. O coração diz que amar outro sem que esse amor seja retribuído é ok.

Quando se ama realmente, a partir do coração, permitimos que o outro seja quem é. Respeitamos as suas decisões (maioritariamente da mente). Eu amo-te, e tu ama quem quiseres. Isto é uma atitude do coração. A mente afirmará algo como “eu amo-te, e se fores a pessoa que eu quero que sejas, seremos felizes.”

O amor que nasce do coração é doido e idiota. Ama simplesmente porque amar é a sua natureza. O amor da mente é aquele que vê a relação como um investimento no futuro, um apoio, uma segurança. A mente ama com algumas condições. O coração ama incondicionalmente.

A mente ama e quer ser amada de volta. A mente mata para ter amor. O coração ama, e respeita o que não ama de volta. Ama porque é a sua natureza. Mas não faz exigências.

O amor da mente conduz à depressão quando não é correspondido.
O amor do coração conduz a um regresso a si mesmo quando não é correspondido, através de lágrimas, de uma pressão no peito, uma angustia, que gritam “regressa a ti”.

ps: as canções ditas românticas falam do amor da mente, interesseiro e que ameaça morrer se não tem o que quer. O amor do coração raramente é cantado, não vende porque a mente não gosta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ser "frontal" ou ser adulto?

Há um oceano a separar o “agradar” do “ser adulto”. Entre o "ser frontal" e possuir espaço que permita que outros vejam a vida de maneira diferente.


Há pessoas que se dizem “frontais” e “honestas” e que não têm problemas em dizer o que realmente pensam acerca de um determinado assunto. E, nos dias em que se se sentem mais animadas, até afirmar que são quem são e não fazem nada para agradar, e quem está mal que se mude.

Isto é lindo. Lindo quando dito por uma criança de cinco anos. Porque um adulto que faz estas declarações obviamente que ainda não se apercebeu que é adulto e que as birras não lhe ficam bem. É um adulto sem filtros.

Agradar a outros significa fingir, fazer de conta, ou fazer um frete. Não é saudável, obviamente. Mas vejam se conseguem perceber a diferença entre o “agradar”, o “ser adulto” e o “sou criança em corpo de adulto e muito frontal acerca disso”.

Imaginemos a situação, real muitas vezes, de um grupo de amigos em que um deles é adepto do Benfica enquanto todos os outros são adoradores do futebol clube do Porto. Um dos portistas afirma que o porto é o melhor do mundo, o campeão, não há outro igual.
De acordo com a maturidade do benfiquista, as suas respostas possíveis serão:
“Ah, sim, claro.” – O que gosta de agradar.
“Compreendo que vocês são adeptos do Porto e as minhas preferências são outras, é ok vocês pensarem assim. Somos muito parecidos. Eu penso praticamente a mesma coisa acerca do Benfica.” – o adulto, adulto.
“O Porto?! Essa porcaria de clube?!?! Vê-se mesmo que não percebem puto de futebol! Então não se está mesmo a ver que o Benfica é o melhor do mundo?!” – o “frontal” e “honesto” que não guarda nada.

A pessoa “frontal” é muitas vezes acusada de “ter mau feitio”. Isto é uma forma adulta de dizer que a pessoa não tem filtros e vomita da boca para fora o que lhe vai na cabeça. Ou seja, acredita que as suas opiniões acerca de qualquer assunto são mais válidas do que as dos outros.  São as pessoas que julgam o sujeito em vez da acção. Em vez de afirmar que a sopa precisa de sal, preferem dizer que a cozinheira não sabe cozinhar. Estas pessoas, regra geral, têm muita dificuldade em ver a bondade da vida a acontecer diante dos seus olhos.

Há uma diferença enorme entre respeitar as opiniões dos outros e querer que os outros concordem com as nossas opiniões.
Muitas vezes temos um comportamento infantil quando a vida não acontece como nós queremos. Quando os outros não concordam connosco. Quando surgem desafios e acreditamos que somos merecedores de qualquer outra coisa menos o desafio à nossa frente.

Não temos que agradar aos outros. Mas também não temos que ter um comportamento infantil e atacar os que pensam e agem de forma diferente.

Agradar aos outros é típico da pessoa imatura, mas atacar a opinião ou comportamento do outro só porque é diferente é também imaturo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quem está mal que se mude

Observo como muitas pessoas gostam de afirmar que não mudam, como se isso fosse algo positivo. Não é.
A vida é toda ela feita de mudança. Sempre em mudança. Tudo muda. Excepto algumas pessoas que acreditam que mudar significa rejeitar-se enquanto ser humano.

A mudança de que falo, enquanto ser humano, é a capacidade de adaptabilidade. A vida muda, circunstâncias mudam, e nós podemos endurecer e lutar contra a mudança ou podemos adaptar-nos.

O nosso drama maior é acreditar que sabemos o que é melhor para nós e, consequentemente, para os outros também. O melhor para mim é viver ao teu lado. O melhor para ti é tratar-me com dignidade. Acreditar que sei o que é melhor para mim é não confiar na vida. Quando eu sei o que é melhor para mim (ter saúde, um bom salário e muitos amigos) e a vida atira-me para o desemprego, eu sofro. E não confio o suficiente na vida para saber que o desemprego pode ser uma oportunidade de mudança radical para algo melhor.

Nos relacionamentos também é importante mudar. Há uma diferença entre mudar para ter a outra pessoa ao nosso lado e mudar porque a vida pede mudança.
Um exemplo. A companheira gosta de passear à beira mar e tu gostas de visitar museus. No velho modelo, é esperado que mudes para agradar à companheira, negando os teus gostos. Isto é algo que só se consegue manter durante algum tempo. Num novo paradigma, tu podes experimentar um passeio à beira mar para aprender algo que te tenha escapado. Fazes o passeio com o objectivo de aprender e não de agradar. E no fim podes descobrir que realmente não gostas de passear à beira mar, e não há qualquer problema. Mas pelo menos deste-te a oportunidade de descobrir algo.

A mudança significa ainda que a pessoa que era ontem não existe. Hoje há uma nova pessoa aqui. Ontem acreditava que iria sofrer para sempre. Hoje alguém oferece-me um sorriso e mostra-me que o sofrimento é uma opção.

As pessoas que se mantêm em situações de sofrimento (seja num trabalho mal pago, num relacionamento violento ou a ir a festas que se detesta) fá-lo porque tem pavor da mudança. E também porque está a colher benefícios da situação. Detesto o trabalho que faço, mas paga as contas. Não gosto dos gritos histéricos da companheira, mas pelo menos não estou só. O pai trata-me mal, mas pelo menos posso contar com ele numa situação de aflição.

Acreditamos muitas vezes que temos a razão do nosso lado, e que os outros é que estão errados e deveriam mudar. Isto é acrescentar mais sofrimento à vida. O oposto é mais real: eu estou errado e eu é que posso mudar. Mudar de emprego, mudar de lugar, mudar a atitude. Mas ensinaram-nos que estar errado é mau, que fazer asneira é mau, e que perder a razão pode despoletar uma guerra mundial. Saber-me errado permite-me aprender mais. Saber-me sem razão permite-me ouvir os outros. Saber que fiz asneira permite-me reconhecer a vulnerabilidade de todos os seres humanos.

O que tens medo que aconteça se te permitires mudar? Se estiveres disponível para desistir da pessoa que acredita na maldade do ser humano e passares a acreditar na bondade de toda a humanidade? Que crenças e preconceitos barram o teu processo de mudança? 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Relacionamentos Saudáveis


Só é possível viver um relacionamento saudável com outro ser humano quando o relacionamento que temos connosco é saudável. 

Como me relaciono com este corpo? O que acredito acerca dele? Deveria ser diferente? Mais magro, mais gordo, mais alto, mais baixo, mais bonito, mais moreno? O que há acerca deste corpo que ainda não aceito?

Depois há a relação com as emoções. Emoções são a vida da alma. Surgem, visitam, querem viver-se em nós. Por outro lado fomos ensinados que há emoções negativas ou más, que é melhor suprimir. A supressão de uma emoção conduz inexoravelmente a feridas na alma. Permitir que a emoção se viva na totalidade é a única saída para um bom relacionamento intimo connosco. Uma fúria, um medo, uma angústia, um terror, uma ansiedade.
Permitir que a emoção se viva na totalidade pode ser assustador. Sobretudo se vivermos acostumados a suprimi-las (porque são más, obviamente). Nenhuma emoção é negativa ou má quando permitimos que se viva na sua totalidade. E isto não significa despejar os nossos estados emocionais para cima dos outros.

Depois disto, dedica algum tempo a descobrir a tua natureza. A nossa natureza é uma qualidade. Pode ser a bondade, a generosidade, o carinho, a alegria, a calma. Qual a qualidade que expressas naturalmente sem esforço? Vive a partir daí.

E passamos para os relacionamentos com aqueles que nos rodeiam, desde a companheira ao pai ou tio ou colega de trabalho.

Quando a relação que mantemos connosco é amorosa iremos dar por nós a precisar de comunicar  verbalmente muito pouco com os outros. O nosso exemplo é suficiente. Através do nosso comportamento mostramos o que gostamos, o que apreciamos. Os outros poderão ver o nosso exemplo e segui-lo, ou podem não estar no ponto necessário para ver e ouvir. E é ok que assim seja.

Ultimamente tenho estado mais consciente do quanto não conseguimos ouvir os outros. Porque não nos ouvimos a nós mesmos.

Se para ti é importante o carinho, para a pessoa ao teu lado pode não ser. Podes mostrar a essa pessoa que o carinho é importante. E se essa pessoa não está disposta a demonstrar carinho, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar. Se para ti é importante a calma, a tranquilidade, e a pessoa com quem vives tem acessos de fúria, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar.

Temos medo muitas vezes de abandonar um relacionamento porque o medo do desconhecido nos foi incutido desde muito cedo. Este medo só é possível enquanto a relação que manténs contigo não for saudável.

No próximo workshop na Espiral (Lisboa) em Janeiro de 2017, iremos mergulhar sobretudo nesta coisa chamada auto-estima, amor-próprio e relação amorosa connosco. A todos os que escolherem participar desde já informo que será um privilégio para mim poder acompanhar o processo individual de cada um.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vamos aprender a fazer uma sopa de miso, lasanha de legumes e dois lutos

Isto de haver um processo de se fazer o luto é o mesmo que comparar esta experiência a uma qualquer experiência que envolve acção. Fazer.

Mas será que o luto é algo que se faz, ou é algo que se experiencia?

A própria palavra, luto, limita toda a experiência de não voltar a conviver fisicamente com alguém que nos é querido. Isto só por si pode ser catastrófico para a pessoa a quem morre um ente querido.

Não sei quais são as fases do luto. Parece-me que saber isto servirá apenas para me atormentar. Quanto tempo devo “fazer” o luto? Haverá um tempo? E quem decide acerca desse tempo?

A minha experiência pessoal em relação a este tema é muito difícil de colocar em palavras, como todas as experiências emocionais intensas. Fica-se a saber da morte de alguém que nos é querido e aqui, neste corpo, fisicamente, surgem emoções como a tristeza, a revolta, a vontade de chorar, urrar, bater murros fortes numa parede, soluçar, rir, e de um modo geral, todo um cocktail de emoções, muitas delas avassaladoras. E para mim é ok. Deixo que cada emoção visite. Respeito a emoção. Não a considero errada ou má. Sei que com o tempo estas emoções irão diluir-se. Mas serão sempre bem-vindas.

Quem é que terá decidido que a tristeza, a raiva, a mágoa, são emoções más? Emoções a eliminar da nossa vida? Porque o haveríamos de fazer? Em realidade não conseguimos eliminar estas emoções. Quanto mais lutamos para que elas não marquem a sua presença mais fortes elas se tornam.

Dizer a alguém a passar pela experiência da perda física de um ente querido que “tenha força” ou, mais absurdo ainda, “coragem”, é fazer um pedido para que enterre sentimentos avassaladores. É pedir que não grite, quando há um grito no peito a querer viver-se. É pedir que não chore, quando há uma tristeza profunda a querer mostrar-se.

Em realidade parece-me que a muitas pessoas incomoda a demonstração destas emoções. Como se presenciar alguém a viver sentimentos de desespero fosse incomodativo ou houvesse a necessidade de ajudar a superar o momento. A lógica por detrás de um “tens que ter força” é louca, é a lógica do “se começares para aí a gritar eu vou ter que te ajudar e não sei como fazer isso”.

Na presença de alguém que perde um ente querido a minha atitude é extremamente simples. Estou presente. Faço saber que estou presente. Só isso. E se a pessoa quer gritar, gritar é bem-vindo. Se a pessoa quer chorar, chorar é bem-vindo. E se a pessoa quer falar, o diálogo é delicioso. A pessoa fala, eu ouço. Não tenho que mudar nada, porque não há nada para mudar. Não tento distrair nem animar a pessoa, porque sei que a experiência do outro é única, é a sua experiência. Respeito-a. Isto é tudo.
Há beleza no rosto da pessoa que não esconde o que se faz sentir em si.
E posso sempre convidar a um abraço, um passeio ou um café. Não há forma de errar aqui.