terça-feira, 24 de outubro de 2017

Conflitos nos relacionamentos

Crescemos a acreditar que temos necessidades básicas que nunca o foram. Para estarmos vivos e bem de saúde não precisamos que outros validem quem somos nem o que fazemos, não precisamos de ter a atenção dos outros nem sequer o respeito. Tampouco precisamos que os outros nos compreendam ou saibam o que precisamos para estarmos bem. Mas crescemos a acreditar que precisamos.
É assim que nasce o conflito. Quando a outra pessoa não responde a uma pergunta nossa, quando se esquece do nosso aniversário, quando não elogia a refeição que preparámos, ou quando não compreende porque motivo estamos atrasados ou sem vontade de comer.

E por detrás de todas estas necessidades inventadas há ainda uma imagem que tentamos impingir aos outros. Mais conflito.

Queremos ser o bom profissional, a boa mãe, a boa amiga, o bom amante. Para cada uma destas imagens criamos um ideal e queremos que os outros nos vejam como esse ideal, perfeito. Por exemplo, se acreditar que uma boa mãe tem filhos bem educados e respeitadores, quando o pequeno faz birra a irritação da mãe deve-se a que os espectadores não irão ver a imagem da boa mãe, mas apenas uma mãe que não sabe educar um filho. E isto é falso. A mãe pode esforçar-se por educar um filho “à sua maneira” e o pequeno insistir em ser um javardolas. É a vida.

Criámos estas imagens de perfeição, desde o corpo perfeito à atitude perfeita e à resposta perfeita. E esquecemos que a vida é feita de caos. A vida é uma mudança constante. E nós queremos apenas a parte da felicidade e bem-estar.

Depois queremos ainda que o bem-estar e a felicidade entrem nas nossas vidas usando outros. Uso os filhos para me sentir bem (quando são educados e validam a minha imagem de bom pai ou mãe). Uso o companheiro para me sentir feliz (quando ele se comporta como eu quero, independentemente do que ele quer). Uso os colegas para me sentir realizado no trabalho (quando me felicitam pelo meu empenho ou congratulam por um objectivo atingido). Uso as amigas para me sentir com razão (quando concordam que o ex era um canalha e eu merecia melhor).

Isto pode parecer cruel, e é porque o é. Viver a partir de uma imagem que necessita constantemente de validação e aceitação é duro. Necessitar que outros gostem de nós é duro também.

A acrescentar a esta crueldade que aprendemos muito cedo há ainda os manuais de auto-ajuda e desenvolvimento pessoal que impingem esta ideia de ser possível viver feliz, feliz, feliz. Vendem-nos este paradigma de que sorrir é não só importante como ainda um direito e necessidade. E quem não sorri é porque não está grato à vida ou coisa parecida.

Em realidade a vida é feita com muitas cores, muitas emoções, muitas mudanças.
Aceitar que ao longo da vida iremos ter momentos felizes e momentos de desespero profundo. Iremos chorar de alegria e raiva. Iremos ser criticados, rejeitados, insultados. Isto é garantido para todos, sem excepções. E reconhecer que é ok isto ser assim é o primeiro passo para uma vida de sossego (não de felicidade, de sossego). Afinal, nós mesmos iremos também criticar, rejeitar e insultar inclusive aqueles que não conhecemos. Até não termos motivos para o fazer.

O conflito termina quando eu começo a aprender a amar-me, validar-me, aceitar-me e não necessitar que sejam os outros a fazer isto. E amar-me significa reconhecer que há em mim um ser de muita bondade que por vezes é capaz de maldades. Em mim há um ser generoso e humilde que por vezes é egoísta e arrogante. Em mim há tudo. E quando junto o bom e o mau, o certo e o errado, o bonito e o feio, encontro-me.

Descubro que eu sou tu.



PS – No próximo workshop, em Lisboa nos dias 1 e 2 de dezembro, 2017, iremos mergulhar nestes conflitos e descobrir o todo que há em nós para amar. Para seinscrever clique aqui.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A dificuldade em ouvir é igual à dificuldade em ficar calado

Observo com cada pessoa que surge no meu gabinete que a primeira coisa em que foco a atenção é a sua capacidade de ouvir. Numa escala de um a dez, em que um é a capacidade de ouvir de um recém-nascido e 10 é um buda, a maioria das pessoas encontra-se num um ou dois.

Para ouvir outros é necessário ter em conta alguns pontos.
Primeiro, saber que o que o outro diz é a sua experiência pessoal. Não temos que fazer nada com essa experiência. Nada! Mesmo! O mundo não vai acabar nem iremos perder um membro por ficarmos calados.
Segundo, saber que não temos que nos defender do que quer que seja que o outro diz. Mais uma vez, o mundo não vai acabar nem nos vão arrancar a cabeça por não nos defendermos.
Terceiro, saber que o outro está unicamente a partilhar as suas experiências, independentemente de serem positivas ou negativas. E sim, o mundo não acaba por ficarmos calados.
Quarto, saber que partilha é mesmo isso: ouvir o outro sabendo que não temos que fazer nada com a informação. É uma partilha apenas.
Há certas expressões que uso com muita frequência quando ouço outros.
“Estou a ouvir-te.”
“Compreendo o que estás a dizer.”
“Conta-me mais, não estou a compreender.”
“Ok.”
“És capaz de ter razão, e a minha experiência é diferente da tua.”
“Permites que te diga como eu vejo as coisas?”

Outro aspecto importante de ouvir os outros é criar um espaço de silêncio entre aquilo que o outro diz e a minha resposta. Dar-me tempo para processar o que foi dito. Um exemplo. Há algum tempo uma cliente dizia-me que não confiava no meu trabalho. Ouvi-a. Ela não confiava no que eu estava a fazer. No silêncio criado a seguir a este comentário surgiram pensamentos como estes:

“Será que ela tem razão?”, “Serei eu capaz de confiar no meu trabalho?”, “O que significa isto de não confiar no meu trabalho?”. O que fui observando é que esta cliente tinha toda a razão em não confiar no meu trabalho. Eu não mando nem controlo a vida. Faço o que sou capaz. E no processo de cura há tantos factores envolvidos que jamais seria capaz de os controlar ou eliminar ou acrescentar. Em realidade o meu trabalho limitava-se a mexer em pontos específicos dos pés, como me foi ensinado. Se este mexer em pontos iria trazer os resultados esperados ou não ultrapassava-me. Descobri ainda que eu também não confiava no meu trabalho. Por vezes os resultados são os esperados, e por vezes não são. Descobri que eu e esta cliente estávamos em concordância. E a minha resposta, que surgiu do silêncio criado, foi simplesmente, “sabe, por vezes eu também não confio no meu trabalho, e adoro quando as pessoas concordam comigo, bem-haja.” Isto não foi dito em tom sarcástico nem cínico. Foi apenas uma constatação.

Muitos conflitos entre nós surgem ainda do facto de não sabermos estar calados. Antes de abrir a boca para dizer o que quer que seja, questiono-me acerca do que vou dizer. As duas perguntas que me coloco são estas:
- O que vou dizer é útil a esta pessoa?
- O que vou dizer acrescenta bondade à vida desta pessoa?

Noto que também uso com muita frequência a expressão “Permites que te diga o que penso acerca disto?” ou “Posso falar-te da minha experiência?” – e se a resposta for um não, respeito-a e mantenho o silêncio.

Outro aspecto importante acerca da comunicação é saber quando falar. Não falo se a outra pessoa estiver alterada, se estiver nervosa ou irritada. Sei, pela minha experiência pessoal, que quando estamos num estado alterado não conseguimos mesmo ouvir os outros. Nestas situações limito-me a concordar com o que quer que seja que a outra pessoa trás para partilhar.

Um exercício que considero belíssimo é este: passa um dia inteiro a perguntar-te, antes de falar, se o que vais dizer é uma informação útil ao outro ou se acrescenta bondade. Irás experienciar muitos momentos de silêncio. E se o silêncio te incomodar, pergunta-te “o que quero que esta pessoa pense acerca de mim?”. É que muito, muito mesmo, daquilo que dizemos é para manipular o que os outros pensam acerca de nós. Fica atento, observa-te.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Relacionamentos de alta tecnologia

Regra geral dois adultos começam uma relação íntima devido a carências afectivas. Sinto-me só e na ausência de afecto, e como não gosto da minha companhia, procuro alguém que preencha esta ausência. Posso ter um trabalho, posso ter comida para comer, água para beber, uma cama para dormir, amigos com quem sair, mas falta-me o carinho, a intimidade. E o sexo, claro.
Então a necessidade de preencher esta carência afectiva torna-se o aspecto mais importante na minha vida. Como se a minha vida só pudesse funcionar harmoniosamente depois de partilhá-la com outro que me dê carinho, afecto, sexo.  O trabalho, a comida, os amigos, passam todos para segundo plano.

Eventualmente surge alguém especial. Alguém com exactamente as mesmas carências afectivas.

De início a relação funciona bem, porque o outro torna-se o aspecto mais importante da minha vida. E o oposto também ocorre. O outro torna-me o aspecto mais importante da sua vida.

O que acontece a seguir é o que acontece quando passamos dois dias sem beber água. Sedentos e prestes a entrar em delírio. Alguém oferece-nos uma garrafa de água. De repente esta garrafa é o que há de mais importante na minha vida. Mas só até ficar saciado. Uma vez a sede mitigada, a garrafa passa a ser algo secundário, menos importante. Lembramo-nos da sede anterior e temos algum receio de perder a garrafa de água. Mas já não temos sede! Sentimo-nos satisfeitos e podemos ocupar-nos de outros aspectos da nossa vida, como o trabalho ou os amigos ou a limpeza da sala. Porque sabemos que quando voltarmos a sentir sede há uma garrafa de água mesmo ali ao lado.

Num relacionamento acontece o mesmo. O outro vem saciar a nossa sede de afecto. Nós fazemos o mesmo ao outro. Tornamo-nos muito importantes um para o outro. Mas só até estarmos saciados. Uma vez saciados, o outro passa a um plano secundário. Há que dar importância ao trabalho, aos amigos, hobbies, televisão. Porque sabemos que o outro está ali ao lado da próxima vez que tivermos sede de afecto.

Antigamente este esquema funcionava relativamente bem. Não havia Tinder® nem Grindr® nem outras aplicações fabulosas que enchem a memória dos telemóveis.

Como hoje temos toda uma tecnologia que “aproxima” as pessoas, conhecemos alguém num momento de carência afectiva, envolvemo-nos até ficar saciados, passamos o outro para segundo plano e se o outro não compreende que há coisas mais importantes que uns afectos então damos início ao processo de apontar falhas e defeitos até que o outro se afaste (estava muito carente, era um cromo, colava-se como uma lapa, etc.). E da próxima vez que voltemos a sentir esta carência de afecto remediamos a coisa numa aplicação do telemóvel.

Manter uma relação a longo prazo exige primeiro que tudo tornar o outro o aspecto mais importante da nossa vida. É um trabalho a tempo inteiro. Aquilo que fazemos no início da relação? É para fazer até ao dia que quisermos terminar a relação.

Já agora, conhecem alguma aplicação que seja mais eficiente a encontrar alguém carente como eu? Mas só para esta manhã, que à tarde já tenho a agenda preenchida.


NB. O que escrevi não se aplica a toda a população mas apenas a uma grande, grande maioria da população (auto-excluo-me, obviamente)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A impossibilidade da felicidade

A felicidade é uma construção mental com menos de duzentos anos. E é uma construção mental porque a vida, a vida real, não se limita a um estado nem é estagnada.

Foi-nos impingida esta ideia de que a felicidade está dependente de factores externos. Serei feliz quando tiver a relação que desejo, o carro que desejo, a casa que desejo, os filhos que desejo. Quando a vida acontecer como eu desejo então haverá espaço para ser feliz.

Muitos autores e promotores do bem-estar emocional impingem esta ideia de que é importante ser-se feliz e, obviamente, eles sabem que se fizermos isto ou aquilo seremos felizes.

E contudo é impossível permanecer num estado de felicidade. Há morte, há doença, há divórcio, há desemprego, há fome, há injustiça. Como manter-me num estado de felicidade perante os desafios que a vida nos lança? Iremos falhar.

Por outro lado o nosso cérebro está biologicamente construído para nos manter vivos. Procura consciente e inconscientemente tudo aquilo que percepcione como uma ameaça à sua existência. Há dez mil anos essa ameaça era um mamute. Hoje é uma fila do trânsito. A resposta fisiológica ao mamute e à fila do trânsito é a mesma. Surge o stress. Queremos mudar o que está a acontecer porque a um nível inconsciente o cérebro vê a situação de stress como uma ameaça ao seu bem-estar.

Por outro lado um recém-nascido aprende que precisa da atenção dos adultos para que a sua vida seja sustentável. Se chorar será alimentado, acarinhado, etc. E como não desaprendemos isto, passamos toda uma vida a buscar a atenção dos outros porque o cérebro tem um só registo: preciso da atenção dos outros para estar vivo.

Como seria a tua vida sem a necessidade da atenção dos outros? Como seria a tua vida se soubesses que tudo acontece para te apoiar? Se soubesses que aquilo que aparentemente é mau esconde algo de positivo?

É aqui que surge o conceito de felicidade. Queremos tudo o que há de positivo, queremos pessoas boas e amáveis, relacionamentos funcionais, um corpo saudável e elegante, uma conta bancária sustentável, um emprego que nos garante prazer. E aí sim, seremos felizes.

Talvez nunca se tenha tratado de ser feliz. Talvez seja mais uma questão de estar em paz com o que acontece, incluindo um estado emocional que provoca desconforto.

Cada emoção pode ser vista como uma mensagem da alma, do Além. Uma tristeza pode significar apenas um aviso para tirar tempo para estarmos sós, connosco, para nos dedicarmos a nós, para verificar o que queremos e não queremos. Uma raiva pode ser tão-só um grito a dizer “não é por aí”.

Em vez de afirmações positivas e estados de negação, talvez fosse melhor prestar atenção ao que os nossos estados emocionais significam. Não há emoções negativas, há emoções que comunicam connosco, com a mente racional. Receber cada emoção como uma visita, ouvi-la, aprender algo acerca de nós e da vida, é o caminho para a paz.

A felicidade não é possível porque é uma teoria que luta com a própria existência. Já a paz é possível a qualquer um. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Prioridades

Diariamente, momento a momento, a vida apresenta-se como uma série ininterrupta de escolhas.
Levanto-me agora, ou fico na cama mais cinco minutos? Lavo o cabelo ou deixo isso para a noite? Tomo um café ou espero até chegar ao trabalho? Olho para os lados antes de atravessar a rua, ou arrisco um atropelamento? Telefono ao amigo ou vou ao Facebook ver o que todos os outros “amigos” andam a fazer? Preparo um jantar surpresa para a pessoa que digo amar ou espero que ele/ela o faça por mim? Foco a atenção no que está a acontecer aqui e agora ou dedico-me a pensar em tudo o que de mau aconteceu no passado e crio ansiedade em relação a um futuro que ainda não chegou?

Pois é. Prioridades.

Isto significa perguntar-me constantemente o que realmente é importante para mim neste momento. E, claro, isto parece ser muito trabalhoso. Não é. Em realidade estamos constantemente a responder a esta questão através das nossas acções. Inconscientemente.

A companheira pode dizer que nos ama, e as suas acções mostram que queixar-se à amiga acerca de um hábito nosso tem prioridade em relação ao afecto que pode demonstrar por nós. O companheiro diz que somos importantes na sua vida, e as suas acções mostram que a prioridade do dia é agradar ao chefe e não surpeeender-nos com o nosso chocolate favorito. A amiga diz que nós somos importantes na sua vida, e as suas acções mostram que a sua prioridade é colocar fotos maravilhosas e sorridentes no Facebook em vez de um telefonema a falar-nos da sua vida ou perguntar-nos acerca da nossa.

Tornar-me consciente significa perguntar-me, conscientemente, o que é mais importante para mim neste preciso momento. É mais importante mandar um recado público pelo Facebook, ou partilhar um café com um amigo de longa data? É melhor passear e colocar as ideias em ordem, ou passar uma hora na maledicência?

Muitos amigos meus já me ouviram dizer isto: não ouço o que as pessoas dizem, ouço o que fazem. E quando tu deixas de ser uma prioridade na minha vida, a questão a colocar-te é simples: onde é que as minhas palavras e as minhas acções se tornaram incompatíveis, ou incongruentes?

Num relacionamento a dois esta questão das prioridades é o que mantém a relação viva ou a condena à morte ou sofrimento. Como seres humanos é natural querermos coisas uns dos outros. Mentimos se dissermos que não esperamos nada do outro. E se nós tornamos o outro a nossa prioridade e não vemos o mesmo do outro, claro que as nossas prioridades irão mudar também. É natural.

Fazemos todos o mesmo jogo. E hoje, apenas hoje, quais serão as tuas prioridades?