segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Aviso à Navegação (introdução do livro Simples)


A experiência humana neste planeta é feita de eventos intensos. Há situações de crianças que passam fome, adolescentes que são violadas, pais que morrem deixando filhos pequenos, mulheres usadas para o tráfico de droga, adultos que abusam de crianças de variadas maneiras.
Este livro não pretende ser a solução para estes desafios. Enquanto ser humano permite-te a humildade suficiente para ajudar apenas a pessoa mais próxima de ti. Ou permite-te estender a mão e pedir ajuda.
Ninguém é independente, e ninguém possui a solução para os desafios da humanidade. Mas podes começar por ti mesmo. Hoje. Se consegues ler este livro então já és beneficiado o suficiente para poder fazer uma diferença. Podes parar a violência em ti. Podes começar por ti. E depois poderás ajudar outros.
Há sofrimento na humanidade e não é minha intenção desvalorizar esse sofrimento. É real.
A minha intenção é partilhar com quem está preparado para se questionar e descobrir como pode terminar o seu sofrimento pessoal. Se conseguires dissolver o teu sofrimento serás menos um ser humano a participar no sofrimento da humanidade, e um exemplo para outros. E isto é tudo.
Já tive o privilégio de me sentar com pessoas que perderam todos os seus bens, que perderam os seus filhos, que foram maltratadas na infância de maneiras violentas, pessoas que não tinham uma cama onde dormir. Pessoas que foram literalmente abandonadas pelos pais quando tinham quatro ou cinco anos de idade. Pessoas que viram um ente querido morrer devido aos efeitos das drogas que consumiam. Pessoas que foram violadas por um progenitor. Pessoas que realmente sofreram.
E no entanto a razão deste livro é apenas aliviar um pouco do sofrimento na tua vida. Questiona aquilo em que acreditas. É tudo o que te peço, se fores capaz. Se não fores capaz, é ok.
A vida é perfeita neste momento, para ti apenas. E é neste momento que tu podes começar a descobrir-te. A fazer as pazes com a vida. Independentemente do que te aconteceu, agora é o único momento que existe.
Permite-te por vezes não saber. Permite-te perder a razão. Permite-te ficar em silêncio quando à tua volta parece existir apenas caos.
Desejo-te uma boa viagem.
Emídio Carvalho

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Razonite Aguda


A violência em qualquer relacionamento começa quando tentamos impor ao outro a nossa forma de experienciar a vida.
Acreditamos que a nossa interpretação da realidade é real.
E é apenas uma interpretação.
Acreditamos ainda que não ter razão implica estarmos errados, a nossa forma de ver e experienciar a vida está errada.

Em realidade praticamente todos os seres humanos têm a mesma experiência da vida. Colocamos cada experiência em uma de entre seis gavetas. Isto é bom ou mau, bonito ou feio, certo ou errado.

Esquecemos que muitas vezes o que é certo para um individuo é errado para outro. Por exemplo, eu acredito que gritar com alguém é errado. Mas há pessoas que, ou por problemas de audição, porque não sabem comunicar de outra forma ou por doenças endócrinas, gritam quando falam. E estas pessoas acreditam que estão certas. Ao dar razão à pessoa que grita não estou a ser a favor, nem a concordar, com uma comunicação feita aos gritos. Dar razão significa apenas que respeito a forma como o outro comunica. E é muito possível que me afaste desta pessoa. Simplesmente somos duas pessoas com experiências diferentes na área da comunicação. Querer que a pessoa que grita pare de gritar será uma perda de energia para mim. Poupo-me ao afastar-me.

Há pessoas, por exemplo, que lutam pelos direitos dos animais, ou por um planeta mais saudável, ou um mundo humano mais justo. Estas pessoas não se apercebem que o simples facto de lutarem implica violência. É como se a um mundo violento adicionar mais violência vá melhorar o que quer que seja.

Em vez de lutar pelos direitos dos animais, o que posso fazer para que a vida de um animal seja melhor? Em vez de lutar por um planeta mais limpo, poderei deixar de comprar produtos plásticos, usar transportes públicos e consumir apenas produtos biológicos? Em vez de lutar para que haja justiça na sociedade poderia começar por ver onde sou injusto ainda? Por exemplo, costumava ser muito injusto para com pessoas que considerava preconceituosas.

Gandhi e Mandela são dois exemplos de como não lutar trás resultados muito, mas muito mais eficientes para a sociedade. Tanto Gandhi como Mandela foram maltratados inúmeras vezes, espancados até. Mandela viveu vinte cinco anos numa cadeia por crimes que não tinha cometido. Ambos mostraram uma compaixão tremenda para com os agressores. Aceitaram que os agressores eram quem eram, e escolheram a via da paz. Pacificamente conseguiram que a Índia saísse das mãos dos ingleses e que a África do Sul terminasse a sua política de apartheid. Se isto foi o melhor ou não, é outra história.

Cada ser humano tem a sua razão, tendo em conta a educação a que teve acesso (e mesmo que fosse uma boa educação, muitos faltaram às aulas de civismo), cada ser humano reúne em si uma série de experiências que lhe ensina a viver. Há pessoas que acreditam na violência, outras acreditam no álcool e outras ainda nas mensagens da música pop.

A pessoa que tem um doutoramento não é melhor nem mais sábia que o varredor de ruas: é diferente. Os dois têm experiências de vida diferentes, e os dois podem ensinar algo ao outro.

A questão é simples: estou disponível para ouvir o outro sem o julgar? E poderia simplesmente escolher aproximar-me ou afastar-me sem necessidade de luta?

O melhor que cada um de nós pode fazer é oferecer o nosso exemplo. Isto é tudo. Mesmo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A muDANÇA da Vida


Aprendemos muito cedo a procurar a segurança. Como se a nossa vida dependesse de um mundo seguro onde não há imprevistos, onde a vida só age depois de nos pedir autorização.

Aprendemos ainda muito cedo que é importante sermos pessoas de quem os outros gostem. Agradamos aos outros para comprar a sua aprovação e validação. E neste processo esquecemos quem somos e o que queremos experienciar.

A tecnologia parece vir a piorar este estado de coisas, ao tornar tudo mais rápido, mais eficiente, sem falhas aparentes. Queremos algo, e queremos ainda hoje.

O remédio para uma vida amorosa começa por abrandar. Abrandar o suficiente para observar a vida a viver-se. As estações a mudar. O céu com nuvens, sem nuvens, claro e escuro. Os carros que passam e o espaço que fica quando não passam. Há o sem-abrigo e o homem de negócios, a criança que falta à escola e a mulher que vende flores. Uma buzinadela aqui, um grito ali, um abraço acolá.

A vida vive-se sem nos pedir autorização. Damo-nos crédito quando a vida acontece como desejamos, e sofremos quando assim não é. Acreditamos que podemos exercer um poder qualquer sobre a vida, desde a lei da atração até à bomba atómica. E não exercemos qualquer poder.

A consciência de que não exercemos qualquer poder sobre a vida é o que nos conduz de volta ao nosso estado natural de curiosidade, de resolver situações complexas, de descobrir algo de útil à humanidade. A curiosidade só é possível quando perdemos necessidade de segurança, quando sabemos que é ok falhar, e que iremos falhar muitas vezes.

Ninguém tem que gostar de nós nem do nosso trabalho. Isso compete-nos a nós. Ninguém tem que nos elogiar ou agradecer. Isso compete-nos a nós.

A vida vive-se, dança-se. Gosto de ti, e daqui a pouco já não gosto, e depois volto a gostar. Quereres que eu goste sempre de ti é pedir-me o impossível. E no entanto, eventualmente, é possível gostar sempre de ti e de tudo o que tu fazes e dizes, e danço na liberdade de saber que posso afastar-me. Nada a ganhar e nada a perder.

Esta dança com a tristeza, a mágoa, a alegria e a depressão, a euforia e a frustração. Todas as emoções bem-vindas. Cada uma traz consigo uma mensagem.

A tristeza pede-me que cuide de mim, a mágoa pede-me para abrir mão de tudo o que está presente, a alegria pede-me que celebre a vida, a depressão avisa-me que há muito tempo que não cuido de mim.

E a vida dança-se. Assim. Em mudança constante. Saber que ao longo do dia vão ser muitas as vezes que estou errado e que nada é como eu interpreto irá provocar-me riso. Esta mudança que me coloca em stress apenas para me avisar que o que quer que seja que esteja a pensar não corresponde à realidade.

A realidade é feita de bom e mau, bonito e feio, certo e errado. Querer que a realidade seja apenas metade é sofrer e parar de dançar, embora a vida continue a dançar-se.

É que a vida não nos pede autorização para se viver.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

As coisas boas da vida....


Nos últimos trinta ou quarenta anos temos vindo a criar esta ideia de que a vida só vale a pena se formos felizes. Tudo é vendido sob a premissa que iremos ser mais felizes se obtivermos este produto ou aquele serviço. Procuramos o prazer de estar vivos incessantemente.

Esta busca é a causa de muitas depressões e actos de agressividade. Queremos filhos bem comportados, alimentos saudáveis, companheiros que nos fazem felizes, tempo de lazer fantástico, amigos incríveis, carros fabulosos, empregos sem stress mas que nos encham a alma.

A sensação de prazer, como a sensação de tristeza, mágoa, frustração, perda, alegria, entusiasmo, etc. é uma emoção passageira. Em realidade é mais do que uma emoção passageira. É a recompensa por termos feito algo. Não é possível experienciar emoções positivas sem antes termos passado por uma emoção negativa.

Este escapismo das emoções negativas apenas serve para nos sentirmos mais e mais negativos, tristes, sem alento.

Queremos acordar pela manhã cheios de energia e felizes por estar vivos. Mas verificamos que não temos a casa de sonho, ou o companheiro de sonho, ou os filhos de sonho, ou o emprego de sonho. E começamos a luta pelo prazer de estar vivos. Lutamos com a cara ensonada (queremos aquela expressão de vida radiante no espelho), lutamos com a cozinha por ser pequena, lutamos com o filho porque não está a sorrir e pronto a tomar o pequeno-almoço. Lutamos com o companheiro por não ter ajudado nas lides da manhã com um sorriso de orelha a orelha. Depois lutamos com o trânsito por não andarmos à velocidade que queremos. Lutamos com a colega de trabalho porque não elogiou o vestido novo. Lutamos com o chefe porque não nos deu o crédito suficiente pelo trabalho de ontem. Quando chegamos a casa ao fim do dia continuamos a lutar.

Se pudéssemos abrandar poderíamos observar que o desassossego matinal pode ser apenas uma sensação que nos empurra para cuidar de nós e dos filhos, por exemplo. E depois de o ter feito, surgirá a sensação de ter realizado algo. Sentir-nos-emos satisfeitos. A sensação de desespero que surge por estarmos presos no trânsito pode levar-nos a sair de casa mais cedo, evitando os engarrafamentos da hora de ponta, e que terá como resultado uma sensação de bem-estar ao chegar ao trabalho mais cedo e com tempo para tomar um café com calma. O sentimento de revolta ao chegar a casa e ver o companheiro de trombas pode levar-nos a preparar uma refeição deliciosa que irá produzir a sensação de auto-valorização e realização por cuidarmos daqueles que amamos.

Quando compreendemos que emoções negativas são a força que nos impele à acção, então o prazer, o deleite, o estar bem onde estou, surgirá naturalmente. Sem a necessidade de recorrer ao último modelo de iPad ou máquina de fazer gelados em 20 minutos.

Mas enquanto acreditar que o prazer é importante, irei continuamente procurar uma fuga dos momentos que são a fonte do prazer.