quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A sombra humana alimenta-se da vergonha




“A vergonha maior do ser humano é fingir ser quem não é.”
Há vergonhas presentes em nós que podem ser úteis. Por exemplo a vergonha de atirar com lixo para o chão impede que o chão fique sujo. Ou a vergonha de que os outros nos vejam como gulosos impede-nos de comer mais doces. Há depois vergonhas que possuímos e não queremos que outros descubram. Por exemplo a vergonha de limpar o nariz com o dedo, ou a vergonha de fantasiar com a vizinha do lado. Estas vergonhas também são úteis porque impedem-nos de magoar outros ou a nós mesmos.
E depois há as vergonhas que já esquecemos e nos prejudicam, levando-nos a actos de auto-sabotagem. Verifica se te identificas em alguma das vergonhas apresentadas a seguir.
-       A vergonha de ser inteligente. Uma criança que gosta da leitura e de estudar mas que nasce no seio de uma família que preza a actividade física, ou que dá mais valor a ganhar dinheiro. Esta criança é gozada, ou até humilhada, por não saber fazer outra coisa a não ser estudar. Os pais olham para esta criança e afirmam coisas como “coitada, nunca chegará a ser alguém” ou “não és capaz de fazer nada bem feito”. Por mostrar a sua inteligência, a criança é acusada de estar errada e irá crescer com esta vergonha. Irá criar problemas na sua vida, irá sabotar qualquer oportunidade de sucesso, porque escondido no passado está a vergonha de ser diferente, errada.
-       A vergonha de ser carinhoso. A criança que é muito afectuosa, que gosta de dar mimos, muitos beijos e festas. Numa família em que o contacto íntimo é mal visto esta criança será envergonhada. Irá ser-lhe dito para não tocar nos outros, que é mau fazer festas a outros. E esta criança irá crescer com a vergonha de ser emocionalmente carente. E irá esconder esta vergonha tornando-se numa pessoa fria, distante, a detestar o contacto físico íntimo.
-       A vergonha de ser criativo. A criança que adora experimentar e é capaz de colocar detergente da loiça no aquário para lavar os peixinhos. Os adultos não irão querer saber porque o fez. E se perguntarem porque o fez será com o tom de voz que indica à criança que qualquer que seja a resposta, será errada. Depois de algumas experiências em que é humilhada ou feita ver que é má, a criança irá sentir vergonha da sua capacidade inventiva e maneira diferente de ver a vida. E irá crescer com esta vergonha de ser criativa. Irá esconder esta vergonha num emprego desenxabido onde fará todos os dias as mesmas coisas sem necessidade de recorrer ao seu espírito criativo.
-       A vergonha de ser independente. A criança que é criticada por não ter amigos, ou porque não brinca com os irmãos. Como adultos consideramos uma criança que gosta de estar na sua companhia como sendo uma criança sem aptidões sociais. Iremos forçar a criança a socializar. Esta criança irá ser envergonhada por ser “anti-social”. Como adulto esta criança irá tornar-se dependente da aprovação dos outros. Será incapaz de dizer não, sempre disponível para os outros e nunca para si.
A nossa maior vergonha, e a causa de muita auto-sabotagem e repetição de padrões que causam sofrimento, tem a sua origem numa qualidade muito positiva: o nosso dom.
Experimentação: uma forma rápida de ficares em paz com as tuas qualidades negativas é assumindo-as perante aqueles que te são importantes. Eu descobri que por vezes sou burro e estúpido, e também posso ser mesquinho.
Para descobrires qual é o teu dom, a qualidade que te é inata e que te ajudará a viver a vida na totalidade, começa por dedicar algum tempo a observar qual a qualidade negativa que se repete na tua vida. Talvez seja a preguiça, a inveja, a mentira, a frieza, a desorganização, a desobediência, a tristeza, a solidão, a mesquinhez, a insegurança, a desconfiança, o medo de arriscar. Observa qual é a qualidade negativa que está em ti e que te prejudica. Para muitas pessoas é uma qualidade tão simples como a necessidade de estar certo, de ter razão.
Pedia-te para parares de ler até descobrires a tua qualidade negativa número um. Pede ajuda a amigos e familiares. Diz-lhes que não ficarás magoado mas que precisas da sua ajuda e que te digam qual o maior defeito que vêem em ti. Outra forma de descobrires esta qualidade negativa é dedicar algum tempo aquilo que mais te envergonharia que outros dissessem de ti. Qual a qualidade negativa que mais vergonha te poderia causar?
Quando tiveres a certeza da tua qualidade negativa, a que mais danos te causa, faz uma visita rápida ao teu passado. Pega em dez situações dolorosas do passado e verifica se essa qualidade estava presente. Outra forma de descobrires esta qualidade é perguntares-te porque fizeste o que fizeste, porque reagiste como reagiste. O motivo porque esta qualidade se manifesta na tua vida é simplesmente porque quando demonstraste o seu oposto foste envergonhado, humilhado ou castigado. Pode ser que te recordes deste evento inicial ou não.
A qualidade negativa que domina as nossas vidas tende a ser um padrão que se repete na família. Em algumas famílias é a mentira, noutras a violência, noutras ainda é a arrogância. Normalmente esta qualidade só se encontra bem visível num membro da família. A chamada “ovelha negra” da família. Em realidade esta é a pessoa que carrega a sombra da família e que permite que a mesma funcione na sua disfuncionalidade. Na família trabalhadora há um preguiçoso. Na família honesta há um mentiroso ou ladrão. Na família poupada há um gastador. Na família sóbria há um alcoólico.
Se soubéssemos como a sombra actua no seio da família, não haveria necessidade de um membro carregar a vergonha de todos os outros membros. E como resgatar a qualidade que projectamos neste membro da família? Podemos começar pela compaixão para com esta pessoa. Não recriminar, antes estar grato. Parece um paradoxo. Mas diz-me, se tu mesmo fores uma pessoa violenta ou dependente do álcool, quem ouvirias mais facilmente: a pessoa que te ama, te respeita e não julga, ou a pessoa que te critica, que se zanga contigo e te condena?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A Sombra Humana





“Tudo o que não queres ser, não te deixará ser.”

Porque motivo agimos como agimos? Como é que, mesmo sabendo e tendo aprendido como viver em paz, continuamos a sofrer? Porque não conseguimos viver uma vida livre de dor? Porque é tão difícil mudar?

Observação: quando sentires stress, seja raiva ou frustração, pergunta-te o que queres nessa situação? O que queres da vida e não estás a ter. Toma nota. E em vez de reagir, observa as sensações físicas que acontecem.
Uma criança quando nasce não sabe o que está certo ou errado, o que é bom ou mau. Exprime-se através da emoção. Comunica com os adultos à sua volta através da emoção. Nascemos seres emocionais e permanecemos seres emocionais. Uma criança é capaz de fazer uma birra às duas da manhã, acordar os vizinhos, espernear, até ter a atenção do adulto que irá pegar nela ao colo, ou dar-lhe de mamar. É o instinto de sobrevivência em acção. Um recém-nascido não quer saber se o pai está cansado, se a mãe está deprimida ou se o irmão precisa de dormir. Berra quando berra. É a vida a viver-se em si. Não tem consciência de um “eu”. Um recém-nascido não pensa “tenho fome, é melhor acordar os gigantes para que me alimentem”. Em realidade um recém-nascido, tanto quanto se sabe, é incapaz de formular pensamentos. Algo em si desperta, algo em si berra, e algo em si acalma. A vida vive-se plenamente num recém-nascido. Há uma sensação de fome, ou de desconforto, ou de cansaço. E o recém-nascido faz o que é para fazer, sem nunca ter aprendido que é assim que se faz.
Aos dois anos de idade já aprendemos que há coisas que fazemos e provocam uma reacção amorosa nos gigantes à nossa volta (pai, mãe, irmão, tia), e há coisas que fazemos e provocam uma reacção de rejeição. Os adultos têm as ideias confusas e misturam a acção com o sujeito. A criança que cai quando está a aprender a andar não é “trapalhona” nem “apressada”, é apenas uma criança a aprender a andar. A criança que arranca as cabeças das bonecas da irmã não é má, o acto cometido é que pode ser mau (ou bom, se os pais comprarem bonecas novas à irmã!). Claro que para um adulto é mais fácil, nesta situação das bonecas decapitadas, dizer que a criança foi má do que sentar-se com a criança e explorar as emoções que a levaram ao acto.
Há depois situações mais complexas, como a criança que não é desejada, ou que é responsabilizada pela infelicidade dos progenitores. Em realidade muitas crianças acreditam ser responsáveis pelo bem-estar emocional dos pais. Mais adiante iremos ver como.
O importante a saber sobre os primeiros seis anos de vida é isto: quando a criança tiver um comportamento aceite pelos adultos, irá experienciar o afecto destes. E quando tiver um comportamento que não é aceite pelos adultos irá experienciar o afastamento desse afecto.
A criança aprende ainda como ter a atenção dos adultos. Torna-se boazinha, ou torna-se rebelde. De qualquer forma irá ter a atenção dos adultos. Afecto ou rejeição.
E assim a criança aprende que quando é estúpida, ou burra, ou má, ou egoísta, ou mal-educada, ou gananciosa, os adultos se afastam ou repreendem ou castigam. E, recordo, a criança não é nenhum destes adjectivos. No pior dos casos, a acção cometida pode ser rotulada com um destes adjectivos. A criança aprende ainda que quando é inteligente, carinhosa, amigável, altruísta, os adultos batem palmas ou oferecem o seu afecto.
E assim a criança aprende que há uma parte de si que é má, ou está errada, e que o melhor a fazer é esconder esta parte de si. No fundo, aprende que há algo de errado consigo.
Outro aspecto importante é que a criança nasce com necessidades básicas. Precisa de alimento, fraldas limpas, dormir, banho. À medida que a criança cresce é-lhe ensinado que precisa de outras coisas. Brinquedos, rebuçados, roupa, etc. Aos cinco anos de idade a criança já acredita que precisa de muitas coisas fora de si para estar bem. Nota que inicialmente estas coisas eram muito básicas. Comida, dormida, bebida (de preferência leite e água). Agora acredita que é a playstation ou a Xbox que precisa para estar bem. Aos quinze anos até acredita que precisa de namorado para estar bem! Aos vinte precisa de namorado (um que a compreenda, obviamente), um bom emprego, uma boa casa, e muitas outras coisas boas.
Nota como de algo tão básico como alimento e sono passamos a acreditar que este planeta tem que nos dar tudo o que acreditamos precisar! E de cada vez que é negada à criança algo ela irá acreditar que ou não é merecedora, ou é má, ou os pais são maus, etc. Ou seja, o foco da sua atenção continua fora de si.
Como seres emocionais, procuramos experienciar emoções. Mesmo a pessoa que se afirma “racional” é emocional (normalmente estas pessoas querem dizer que não se envolvem emocionalmente nas situações, embora o manter-se insensível ou distante é em si um estado emocional). Muito do que fazemos, fazemo-lo para poder experienciar determinadas emoções. Quando dizemos que amamos alguém, em realidade estamos a afirmar a experiência de certas emoções com esse alguém.
Entretanto, à medida que vamos crescendo iremos ter comportamentos que para nós são naturais, e que no entanto são interpretados pelos adultos à nossa volta como inapropriados. É assim que aprendemos a viver num inferno.
Alguns exemplos deste processo.
·       A tia pede um beijinho à criança e a criança diz que não quer dar. A resposta dos adultos irá desde um insistir que dê o beijo à tia, até ao insulto (má, feia, não gosto de ti). A criança estava a respeitar-se apenas. Não lhe apetecia dar um beijo. Isto é um comportamento perfeitamente natural. Por vezes não nos apetece fazer algo. E como é que os adultos reagem à criança que se está a respeitar?
·       Oferecem à criança uma caixa de chocolates e depois é-lhe pedido que partilhe com o irmão. A criança acredita que os chocolates lhe foram oferecidos e são apenas para si, daí não querer partilhar. E como reagem os adultos? Desde “egoísta” a “só pensas em ti” até um “de castigo para o teu quarto por seres mau” tudo pode acontecer. E a criança aprende que é má, egoísta. Como adulto, esta criança irá fazer muitas coisas para agradar aos outros mas que em realidade não lhe apetece fazer. Os chamados “fretes”.
·       A criança, enquanto brinca, deixa cair o jarrão favorito da mãe. Foi um acto desajeitado, distraído. Mas para os adultos o drama é o jarrão quebrado e não a criança, o jarrão torna-se mais importante que a criança. Então a criança é desajeitada, distraída, inquieta, rebelde, etc. E esta criança irá aprender a ter muito cuidado com o que os outros pensam dela! E irá tentar esconder qualquer falha, qualquer coisa que considere mal feita ou errada em si.
·       A criança diz que a avó, acamada, cheira mal. É uma informação que pode ser verdadeira, apesar de desnecessária. E os adultos irão reprovar a criança, chamar-lhe mal-educada ou castigá-la. Já tive o privilégio de trabalhar com muitas pessoas rotuladas de mentirosas compulsivas e todas têm o mesmo em comum: foram punidas em criança por dizerem a verdade.
A sombra humana foi assim apelidada por Carl Jung para se referir aos aspectos deserdados do ser humano. Aquelas qualidades que aprendemos que são más ou erradas e não devem existir. O estúpido, o burro, o egoísta.  Daí a nossa reacção quando alguém nos chama um destes adjectivos. Não queremos ser burros ou mentirosos ou invejosos. Escondemos estas qualidades. Ninguém nos explica que todas estas qualidades podem ser úteis em determinadas  situações.
Observação: o que consideras mau ou errado em ti? Como tentas esconder essas qualidades dos outros? .
Aos vinte anos já são muitas as qualidades que não somos. Não somos desonestos, nem injustos, nem burros, nem estúpidos. Escondemos tudo isto e esperamos que ninguém descubra. No fundo sabemos que somos desonestos ou falsos. E ficamos aterrados se outros descobrem. Somos falsos quando fazemos algo apenas para agradar. Somos desonestos sempre que dizemos sim mas queremos dizer não. Somos burros quando fingimos compreender o que não compreendemos. E somos muito estúpidos porque acreditamos em muitas regras sociais que simplesmente servem para nos manipular e fazer parte de um grupo do qual muitas vezes nem queremos fazer parte.
O que podemos fazer com estas qualidades rejeitadas? Projectamos sobre outros. Enquanto tu fores o estúpido ou burro eu não tenho que o ser. O fenómeno da projecção é relativamente fácil de reconhecer. Sempre que a tua reacção ao comportamento de outro for inapropriada, estás a projectar uma qualidade tua que rejeitas. Alguém pode mentir, e podes reconhecer que mente simplesmente. Podes ainda dizer-lhe “sabes, essa não é a minha experiência.” Mas se a tua reacção for alterar o tom de voz, acusar o outro de ser mentiroso, gritar, então estás perante uma projecção tua. Ou seja, estás frente a uma qualidade tua que vês como má e não queres reconhecer. A pergunta a fazer-te, neste caso, é simples: onde é que eu já menti? Mentimos muito quando procuramos a aprovação dos outros. Dizemos sim quando queremos dizer não, fazemos coisas que não queremos fazer, criticamos pessoas que nem sequer conhecemos.
Experimentação: da próxima vez que não concordares com a opinião de outro experimenta dizer “eu estou a ouvir-te, e a minha experiência é diferente”.
O processo de resgatar estas qualidades rejeitadas é feito de muitas maneiras. Num grupo torna-se bastante intenso mas ao mesmo tempo muito eficaz.
Uma forma de descobrires o que escondes na tua sombra é começar por anotar as qualidades positivas que gostas que outros vejam em ti. Por exemplo, eu gostava que vissem que sou uma pessoa inteligente, bem humorada, perspicaz, financeiramente auto-suficiente e com estilo.
Apenas depois de escreveres as qualidades que tentas mostrar ao mundo é que te aconselho a continuar a ler. A sério. Faz uma pausa. Toma nota. Afinal são qualidades positivas que todos gostamos.
Agora observa o número de pessoas à tua volta, que conheces, e que te mostram o oposto dessas qualidades. No meu caso, vivia rodeado de pessoas burras, que não compreendiam as coisas à primeira, tristes, estúpidas e com dificuldades financeiras. E eu era o seu salvador, obviamente.
Depois de anotar as qualidades negativas que vês nos outros dedica alguns dias a descobrir onde é que tu expressas essas mesmas qualidades. Permite-te sentir algum carinho por ti, por fazeres este trabalho. Não se trata de culpa ou condenação mas apenas de despertar.
Continuando com o meu exemplo, eu era muito burro porque raramente tinha tempo para mim, envolvido a resolver os problemas dos outros. Era burro porque quando ía a restaurantes com amigos era quase sempre eu a pagar a factura total (eles tinham problemas financeiros e eu não), era burro quando não cobrava pelos meus serviços (não queria que pensassem que era ganancioso), e era burro quando acreditava que o que os outros pensavam de mim era mais importante do que o que eu pensava de mim. Era deprimido quando estava só. Várias vezes contemplei o suicídio. Sozinho era invadido por uma tristeza imensa, que só desaparecia quando me tornava burro e saía com amigos a quem pagava tudo. No fundo, vivia uma vida muito estúpida.
Uma vez que descubras as qualidades negativas que tens andado a rejeitar, dedica mais algum tempo a ver onde é que estas qualidades te podem ser úteis.
Por exemplo, quando estou em paz com o burro que há em mim é fácil pedir a outro que se explique melhor porque não estou a compreender. O mentiroso em mim pode ser útil quando se trata de uma situação mais dramática, por exemplo se estiver a andar sozinho à noite e desconfiar de estar a ser seguido posso fingir ao telemóvel que um amigo está mesmo ao virar da esquina. O triste em mim pode ser muito útil para aprender a estar presente para mim.
Quando reconheço que tudo aquilo de que acuso os outros está já em mim e consigo fazer as pazes com estes aspectos, a vida torna-se mais pacífica. Sem necessidade de ser vítima.
A pergunta a fazer-te mais frequentemente, quando alguém tem um comportamento que não te agrada, é esta: onde é que eu sou assim?
Sempre que falo de outros, mostro quem eu sou. Isto é a sombra e as projecções em acção. Observa-se muito facilmente na política, no desporto, na religião. Alguns exemplos de sombra em acção:
-       O bom pai de família que em casa maltrata a esposa ou tem uma amante;
-       O líder religioso que condena o sexo extra-marital e abusa sexualmente de crianças;
-       A mãe exemplar que se dedica à má-língua ou esquece as necessidades dos filhos;
-       O patrão que dirige uma empresa bem reputada e se dedica a maltratar os funcionários;
-       O banqueiro exemplar que se mete em negociatas ilegais;
-       O filho bom estudante que consome drogas;
-       A professora moralista que passa horas a ver pornografia na internet;
-       O politico que pretende liderar a nação e rouba dinheiro dos contribuintes.
Quanto mais moralista uma pessoa for, maior é a sua sombra e mais projecta sobre outros. Já alguma vez te aconteceu teres um comportamento que mais tarde consideraste inapropriado (“onde é que eu tinha a cabeça?” costuma ser o desabafo)? É que continuamente projectamos e somos a projecção de outros. Há pessoas que provocam em nós medo ou raiva ou pena. Estamos a ser a projecção dessa pessoa.
Sempre que alguém fica emocionalmente alterado é um sinal da sua sombra activa. Nesta situação a melhor atitude que podemos tomar é respeitar a sombra. É ok tu acreditares que todas as mulheres são muito emotivas, ou que os políticos são todos corruptos, ou que eu não te amo, ou que não deveria chover. Porque quando tu afirmas algo assim estás possuído pela tua sombra e eu não estarei a falar contigo, com a pessoa que conheço, mas apenas com aspectos teus que rejeitas há muito tempo. O meu “ok” não significa que concordo contigo mas apenas que respeito o pensares assim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A vida acontece sem a tua autorização.


“Não é o que acontece que causa sofrimento, é o significado que atribuímos ao que acontece.”
Este livro é para as pessoas que se encontram cansadas de livros de auto-ajuda, de seminários dedicados à deusa interior, de workshops para o guerreiro da luz, e de conferências sobre vidas passadas. Ou seja, para aqueles que se estão a passar com tanta teoria que em nada facilita esta coisa a que se chama vida.
Ouvimos muitos gurus e mestres discursar sobre tudo o que é quântico, como se soubessem do que falam. Agora a Física Quântica é o bode expiatório que tudo explica e em que tudo se encaixa na perfeição. Depois de dois anos a estudar esta ciência apenas posso afirmar isto: nem os próprios cientistas que dedicam a sua vida ao assunto compreendem muito bem o que se está a passar.
Lemos acerca da matéria, iões, fotões, energia e universos paralelos. Mas o que raio é tudo isso? E será que preciso de compreender isso para estar de bem com a vida?
Depois, para os mais sofredores de entre nós, temos ainda a oferta de almas gémeas. E os karmas familiares. Se isto não é masoquismo, só pode ser sadismo. O karma, muito resumidamente, e para o comum dos mortais, resume-se a isto: numa outra vida passada fizeste asneira e agora estás a pagar. É o mesmo que meterem-te na prisão por um crime que cometeste mas nem tu nem ninguém sabe qual foi o crime. Vais pagar por um crime, mas não sabes que crime! Se isto não é uma aberração, só pode ser humor negro.
Permitimos, inconscientemente, que a nossa vida se tornasse tão rápida, tão agitada, que vivemos continuamente em modo reactivo. A reagir ao relógio, aos telemóveis, ao emprego, ao companheiro, aos filhos, à televisão, ao trânsito, às promoções nas lojas. Sempre a reagir a algo. Reagimos ao que a mãe diz. Reagimos ao que a amiga faz. Reagimos ao que acontece e ao que não acontece. E isto é viver um inferno.
Experimenta parar um pouco e observar. Cinco minutos são suficientes. Observa os pensamentos que se sucedem, sem decidires que são bons ou maus. Simplesmente mantém-te presente para os pensamentos que vão surgindo.
Experimentação: faz uma lista das coisas, pessoas e situações às quais reages negativamente. Experimenta depois travar-te, não reagir.
Observa como a respiração acontece sem a tua intervenção consciente. Os músculos contraem e relaxam em sintonia, o cérebro produz químicos específicos para que esses músculos funcionem de maneira correcta, o ar entra e sai. Tudo na perfeição. E tudo sem a tua intervenção directa. Observa como levas a comida à boca, a digeres e separas os nutrientes que necessitas daqueles que não são precisos. E mais uma vez sem a tua intervenção directa. Não tens que saber quais os órgãos que produzem enzimas para que a digestão aconteça! E observa ainda o sangue. A forma como o sangue leva nutrientes e oxigénio a todo o corpo. Como o coração abranda ou acelera sem que dês qualquer instrução consciente. A vida vive-se em ti sem a tua autorização. Para o tempo suficiente para te tornares consciente de tudo isto. Uma tarde, um dia. Faz nada excepto observar a vida a acontecer.
Observa agora os teus pensamentos. Observa como vão surgindo do nada e regressam ao nada. “Está a chover”, “O meu pai não gosta de mim”, “preciso de mais dinheiro”, “não sei o que fazer”, “isto está difícil”, etc. Estes pensamentos que vão aparecendo ao longo do dia. Será que és tu a pensar, a escolher cada pensamento, ou será que os pensamentos simplesmente surgem? Observa como os pensamentos que surgem e causam sofrimento são repetidos. São a história que afirma “coitado de mim”.
De onde surgem estes pensamentos? Os pensamentos que afirmam que não és capaz, que não mereces, que a vida é injusta, que ninguém te compreende, que estás só. Talvez estes pensamentos não sejam teus. Talvez alguém te tenha ensinado a acreditar neles. Pondera um pouco isto: se fosses o único ser humano no planeta, alguma vez terias estes pensamentos?
Talvez tu não penses, talvez sejas pensado. Talvez os pensamentos que causam sofrimento tenham origem na sociedade à tua volta. Já te deste conta que a mesma situação pode ser causa de alegria numa sociedade, e tristeza noutra?
E talvez nem sequer consigas controlar esta coisa de pensar. Talvez os pensamentos surjam, as histórias constroem-se e tu és o mero espectador.
Pela manhã despertas. E nem sequer pensas “agora vou pensar no dia entediante que tenho pela frente! Vou aborrecer-me até à morte, e assim consigo sair da cama de mau humor!”. O que acontece é que os pensamentos simplesmente aparecem. Um atrás do outro. E há pensamentos que não te afectam, e outros que te afectam. Para descobrires porque motivo uns pensamentos te afectam e outros não, descobre a tua história de coitadinho. Por exemplo, talvez acredites que ninguém gosta de ti, ou que não vales nada, que estás só, que a vida é dura, que nunca fazes nada bem feito. Mais adiante iremos ver quais as histórias em que acreditamos e que são a causa do sofrimento. Para já, e para começares a descobrir-te, imagina que a tua história anda à volta de “ninguém gosta de mim”.
Experimentação: tenta pensar aquilo que estás a fazer no momento. Por exemplo “eu agora estou a caminhar para a sala. Os meus pés avançam, um e depois outro. Agora acendo a luz”.
Acordas pela manhã e os pensamentos vão surgindo. Qualquer coisa como “Oh, tenho que me levantar! Não me apetece nada ir trabalhar hoje. Deixa ver como está o tempo. Não sei se vista a camisa azul ou a verde. Talvez a azul se estiver bom tempo. Tenho que comer mais fruta, estou a engordar. Deixa-me ir beber um copo de água.” Pensamentos inocentes vão surgindo. Sem interrupção. Nem te apercebes quando te levantas, ou quando já estás na casa de banho, ou a tomar o pequeno-almoço. Tudo vai acontecendo, enquanto os pensamentos acerca do que não está a acontecer vão surgindo na mente. Mais ou menos pacífico, até surgir um pensamento que tu identifiques como sendo a tua história. Aparece, por exemplo, o pensamento “O meu colega não respondeu à mensagem que lhe enviei ontem!” – este pensamento confirma a tua história de ‘ninguém gosta de mim’, por exemplo. A partir daqui a mente começa a carregar outros pensamentos que ajudam a manter a história intacta. “Talvez esteja zangado comigo! Também pudera, quem é que suporta aquele idiota? Ainda por cima fala mal de mim nas minhas costas!”. E por aí fora. E assim transforma-se um bom começo de dia num inferno.
Todavia fica atento a observar como apesar dos pensamentos que vão surgindo na mente, a vida se vai vivendo. Levantas-te, cuidas de ti, comes, preparas-te para ir trabalhar, e nem sequer te apercebes que tens pés! Ou que as tuas mãos fizeram tantas coisas ainda antes de sair de casa! Ou que tens casa!
Para já não é necessário ficares a pensar como escapar disto. Não é possível escapar. Não há uma estratégia. Não há pensamento positivo algum que te ajude. Porque o pensar é automático. Mais tarde poderás descobrir-te e os pensamentos que antes te causavam sofrimento deixarão de te visitar com tanta frequência.
Presta ainda atenção como independentemente do que tu consideras certo ou errado, cada ser humano faz o que faz. Talvez muito do certo e errado seja uma questão de educação, ou cultural.
Observação: a vida acontece à tua volta. Presta atenção apenas. Desde as nuvens ao autocarro, da criança que chora ao mendigo que pede esmola. Limita-te a observar a vida durante algum tempo.
Pessoas gritam, atravessam-se à tua frente, ficam doentes, enriquecem, casam-se, perdem o emprego, zangam-se. Tudo a acontecer à tua volta. E tu não tens qualquer poder para mudar o que quer que seja neste preciso momento. Então para quê ficar magoado? Consegues que a criança doente melhore só porque tu ficas preocupado? Não me parece. Consegues que a amiga deixe de falar mal de ti nas tuas costas só porque amuas à frente dela? Também não me parece. E consegues que a mãe goste mais de ti porque lhe ofereces flores? Pois é. Não controlas nada à tua volta. Então para quê reagir ao que acontece de aparentemente mau à tua volta? A tua vida seria melhor se reagisses sempre ao que os outros fazem ou dizem. Acreditas mesmo nisto?
Talvez a vida não aconteça para te provocar ou magoar. Talvez a vida aconteça como acontece para te acordar.
A única coisa que te peço por agora é que estejas atento a este fenómeno: toda a vida acontece sem o teu envolvimento consciente. O coração bate, o estômago recebe alimentos, os dedos mexem-se. E nem uma vez estiveste consciente de isto acontecer. Amigos afastam-se, casais separam-se, empregos desaparecem, doenças acontecem. E mais uma vez, não houve qualquer envolvimento consciente da tua parte.
E é verdade que há uma corrente de pensamento que afirma que tu crias a tua realidade e tudo o que te acontece. Considero isto absoluta ingenuidade. Pondera a possibilidade de esta filosofia ser incompleta e reducionista. Se nós criamos a nossa própria realidade, então o que podemos dizer do cancro, da guerra, do divórcio? Talvez esta filosofia apenas ajude a aumentar o sentimento de culpa e vergonha. Porque se és tu quem cria o cancro, então também tu podes eliminar esse cancro, segundo esta filosofia. Talvez não seja assim. Talvez seja ainda mais simples.
Por agora, apenas vai prestando atenção à vida a acontecer. Observa como os teus olhos vêem estas palavras e o cérebro as interpreta. Observa como os dedos tocam estas folhas, e as sensações que daí surgem. Observa os sons à tua volta. A sensação da roupa a tocar-te na pele. Os pés a suportar o peso do corpo. Tudo a acontecer sem teres que dar uma ordem. Sem saber o nome de um músculo, de um som, de um cheiro.