segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Eu sou tu (projecções)


“Quando vemos outro ser humano como sendo básico ou atrasado, nós tornamo-nos atrasados e básicos.”
Este é um verdadeiro mantra da nova espiritualidade. Em tudo semelhante ao “tu és divino” ou “tu és o universo”.
Estes mantras provocavam-me algum prurido sobretudo porque não conseguia ver de que forma poderiam ser verdade. Ouvia isto e acreditava que de uma forma mágica o outro sentia o que eu sentia, via o que eu via, compreendia o que eu compreendia. Um filme de terror.
De que forma poderia eu ser quem tu és?
Talvez eu não seja quem tu és do ponto de vista do observador, em que ambos temos um corpo físico diferente. Talvez este “eu sou tu” esteja mais relacionado com o eu ver-te, contar uma história acerca de quem tu és, e ao identificar-me com essa história, estar a falar de mim. É a história que eu conto e na qual acredito que me permite interagir contigo.
Se conto a história da tua bondade, generosidade e simpatia irei aproximar-me de ti. Se conto a história da tua histeria, má educação e ganância irei afastar-me de ti. Em realidade não estou a aproximar-me ou afastar-me de ti mas da história que conto acerca de ti.
Então eu sou literalmente tu porque as histórias que conto acerca de ti nascem em mim. Não há nada que veja em ti que não esteja já em mim.
Para algumas pessoas isto pode ser difícil de assimilar. Deixo alguns exemplos.
·       Os alunos são mal-educados (eu sou mal-educado quando critico pessoas que não conheço, quando insulto o condutor que faz uma manobra perigosa sem saber o motivo, quando um amigo me ignora na rua, muito provavelmente porque não me viu, e mais tarde julgo-o depreciativamente. Sou mal-educado, mas como sou só um e os alunos são tantos, a minha má educação passa-me despercebida);
·       O pai foi violento fisicamente (eu sou violento nos meus amuos, sou violento quando os outros não se comportam como eu quero, sou violento quando me deito abaixo, sou violento quando a vida não acontece como eu quero, sou violento quando esqueço a bondade da vida);
·       A vizinha é alcoólica (a minha dependência é a aprovação dos outros e sou incapaz de dizer “não” para obter essa aprovação, a minha dependência são as novelas ou os programas chamados “reality shows”, a minha dependência é o corpo perfeito e saudável, a minha dependência é o sexo ou a pornografia, a minha dependência é a necessidade de ter sempre razão);
·       O irmão é mentiroso (eu sou mentiroso de cada vez que digo sim e quero dizer não, sou mentiroso ao fazer um frete só para que gostem de mim, sou mentiroso quando finjo gostar de algo, sou mentiroso quando falo de alguém que não conheço);
·       A filha da vizinha é prostituta (eu prostituo-me quando faço algo a troco de dinheiro e nem sequer desfruto da tarefa, prostituo-me quando não vivo a minha vida para me dedicar à vida dos outros, eu prostituo-me quando ofereço algo e espero um retorno);
Observação: quais os comportamentos que não gostas nos outros? Onde é que tu demonstras o mesmo comportamento?
Se te deres tempo suficiente irás descobrir que tudo aquilo que pensas dos outros está já em ti. Por este motivo os moralistas são mais cedo ou mais tarde descobertos como mentirosos ou adúlteros ou outras qualidades menos apropriadas. As pessoas que se dedicam a mostrar aos outros as boas maneiras, e a criticar os outros por não viverem de acordo com os seus elevados padrões de moralidade, são as mais falsas. Usam a simpatia e a caridade para esconder as suas feridas emocionais por sarar. Os que atacam e criticam escondem o medo e a vergonha de serem descobertos como vulneráveis ou fracos. E todos somos fracos e vulneráveis.
Cada ser humano que tenta magoar-te é um ser humano que foi danificado algures na infância ou adolescência. Tu és esse ser humano. Descobre as tuas feridas e trata-as, com respeito e carinho por ti.
Só tens que dedicar algum tempo a ti mesmo. A olhar-te sem necessidade de ter razão. Irás descobrir que és tudo o que pensas dos outros. Poderás acreditar, por exemplo, que as tuas mentiras são inconsequentes ou sem importância. Não deixam de ser mentiras. Poderás pensar que a violência que te infliges a ti mesmo não magoa outros, mas a realidade é que quando te magoas a ti, irás magoar outros.
Sempre que queremos que outros se comportem de maneira diferente daquela que se comportam estamos em realidade a pedir-lhes que finjam, que deixem de ser verdadeiros. Tal como nós.
Olha para as pessoas à tua volta. Descobre-te através do que vês nelas.
Presta atenção sobretudo se te consideras uma pessoa tolerante. A tolerância é nada mais que arrogância disfarçada de bondade. Quando afirmas que toleras outros, o que estás realmente a afirmar é que estás tão acima desses outros que permites que eles sejam quem são. Aqueles que toleras em realidade consideras como errados mas inocentes ou coitados. É muita maldade. Ou aceitas os outros como são ou não aceitas. Desiste de ser uma pessoa boazinha, não funciona. Carl Jung colocou esta questão de uma maneira deliciosa: preferes ser uma pessoa boa ou uma pessoa completa?

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Um coitadinho à solta


“Sim, há maus momentos na vida. As boas notícias é que estão todos no passado.”
Desde muito cedo, devido em parte às experiências de vergonha, começamos a acreditar numa história falsa acerca de quem somos. É a história do coitadinho. Ninguém gosta de mim. Eu não sou merecedor. Eu estou só. Eu não sou importante. Eu estou perdido. Eu não valho nada. Eu não presto. Eu sou um produto danificado. Há algo de errado comigo.
Esta é a história que contamos: há algo de errado comigo. E tenho as provas todas em como isto é verdade. Claro que há algo de errado comigo quando:
·       Não tenho amigos;
·       Não tenho namorada/esposa;
·       Não tenho saúde;
·       Sou obeso;
·       Não tenho dinheiro;
·       Não consigo fazer as coisas bem feitas;
·       Ninguém me compreende;
·       Odeio o meu emprego e não consigo mudar;
·       A esposa pede o divórcio;
·       O filho não fala comigo;
·       _____________________ (acrescenta a tua desculpa favorita).
O que fazemos é generalizar a partir de eventos da infância. Construímos uma lenda baseada no sofrimento. E reunimos os elementos certos para repetir esta história diariamente, assim mantemos intacto o conceito que temos acerca de quem somos. Tu acreditas saber quem és através do que fazes. Pelo menos é assim que muitas vezes te defines. Se alguém te perguntar qual a tua profissão, observa que em vez de dizeres “a minha profissão é engenharia civil ou electricista” o que respondes é “eu sou engenheiro civil, ou electricista”.
Observação: o que acreditas acerca de ti? Sem qualquer filtro verifica o que acrescentas a seguir a “eu sou”. Tem em conta as qualidades negativas e positivas.
E sou inteligente porque tenho um curso superior (se tiveres um doutoramento é mais fácil convencer os outros). Eu sou casado (tenho mulher para o provar). Eu sou pai (tenho os filhos para o provar). Eu sou trabalhador (e saio de casa todos os dias às oito da manhã e regresso às oito da tarde para o provar). E sou anti-social (detesto festas). E sou muito sensível (choro quando a colega fala mal de mim). E sou muito justo (e discuto com todos os que não concordarem comigo para que vejam o quanto sou pela justiça).
Compreendes que a partir do momento em que acreditas algo acerca de ti, terás que ter a experiência para demonstrar que aquilo em que acreditas é verdade?
Para poder largar esta história de coitadinho é importante começares por observar quais os comportamentos, atitudes e pensamentos que acontecem quando estás a viver a tua história de coitadinho. Por exemplo, dentro da tua história os pensamentos habituais podem ser qualquer coisa como “ninguém me compreende”, “tenho muito que fazer”, “não tenho dinheiro para comprar isto ou aquilo”. O teu comportamento dentro da tua história pode ser jogar na defensiva. Alguém emite uma opinião acerca de ti e tu agrides imediatamente esse alguém verbalmente. Ou ficas atento à condução de outros condutores para poderes buzinar ou insultar. Ou dizes que sim com medo que a outra pessoa deixe de gostar de ti. Dentro da tua história comes mais do que precisas ou não és capaz de ir dormir sem comer qualquer coisa antes.
É fácil saber quando estás a repetir padrões de sofrimento e a viver dentro da tua história. Sentes stress. Este stress pode ser na forma de tristeza, angústia, ansiedade, mágoa, raiva, ódio, frustração ou medo. Isto não significa que não haja momentos de tristeza na tua vida. Claro que há ou haverá. Fazem parte de estar vivo. Mas há a tristeza com a qual não lutas (por exemplo quando morre uma pessoa que te é querida) e há tristeza que não gostas mesmo nada (por exemplo quando o filho tira negativa a Entropia Gastronómica).
A emoção que mais facilmente pode causar danos sérios, a ti mesmo e a outros, é a raiva. Ensinaram-nos a conter a raiva quando esta surge. Isto é um erro, porque a raiva acumulada irá fortalecer a nossa vergonha e medo. E eventualmente irá explodir. Não significa isto que tens que gritar com os outros ou partir a loiça sempre que o jantar fica queimado. Mas podes arranjar um tempo para libertar a raiva em grandes quantidades. Depois de quatro ou cinco sessões de libertação da raiva, libertar a raiva em público será um processo natural e sem consequências. Pode até ser divertido.
Para libertar a raiva já acumulada gosto de ensinar um processo que aprendi com a Debbie Ford e que funciona como uma grande catarse. É um processo que para quem participa parece simples e no entanto exige alguma preparação por parte do facilitador, incluindo o resgate de aspectos identificados nos participantes. Este é o principal motivo porque muitas pessoas que facilitam o trabalho da sombra não conseguem fazer um trabalho apropriado com os participantes.
Para te ajudar no teu processo de libertação de raiva, deixo algumas sugestões minhas e de alguns queridos amigos que aprenderam as suas próprias técnicas.
O passo mais importante é deixar que o sentimento de raiva surja primeiro, obviamente. Para algumas pessoas este passo é simples porque se encontram continuamente num estado de ansiedade ou nervosismo. Mas para a maiorias das pessoas não é assim tão fácil estar em contacto com esta emoção excepto quando estão já envolvidas na situação que provoca o sentimento de raiva.
Se conseguires tornar-te consciente, no meio de uma discussão ou confusão, que o que sentes é raiva, sem explicar-te (o explicar-te irá alimentar ainda mais este sentimento de raiva) limita-te a afastar-te fisicamente da pessoa ou pessoas e quando estiveres a uma distância segura (por exemplo, fechado numa casa de banho) dá dois gritos bem fortes. Isto é suficiente para a maioria das pessoas. Depois respira fundo duas ou três vezes. Foca a tua atenção nas sensações do corpo. E regressa ao local inicial. E podes sempre dizer o que fizeste, ou não.
Outra forma de libertar raiva é à beira mar ou no campo, sem outros por perto. Primeiro foca a atenção em situações do passado que sentes terem sido injustas e te tenham magoado. E quando a sensação se tornar visceral, grita. Dá murros no ar se necessário. Termina sempre com meia dúzia de respirações profundas. Podes ainda gritar dentro do carro, sobretudo ao passar num túnel. Ou dar uns murros fortes numa almofada.
Quando sentimos esta emoção o nosso corpo prepara-se fisiologicamente para uma situação de luta ou fuga. Isto significa que o teu corpo irá produzir alguns químicos potentes que te permitam sobreviver. Só para teres uma ideia, numa situação de stress o corpo produz glucagon, um polipeptídeo que tem o efeito oposto ao da insulina. Ou seja, aumenta os níveis de açúcar no sangue. Este açúcar encontra-se armazenado no fígado. Uma molécula de glucagon provoca a libertação de cem milhões de moléculas de glicogénio no fígado (açúcar). Consegues imaginar a tempestade química que ocorre no teu corpo numa situação de raiva? E esta tempestade tem que rebentar em algum lugar.
Pratica a libertação de raiva com alguma frequência durante pelo menos três a quatro meses. Lembra-te que o que provoca stress são sempre situações em que estamos a viver dentro da nossa história de coitadinho.
Se prestares atenção irás notar que ao longo do dia terás momentos em que te sentes bem e em paz com a vida, e terás momentos em que te sentirás mal, em stress. No primeiro caso estarás a viver fora da tua história pessoal de coitadinho, e no segundo caso estarás completamente dentro da tua história.
Para te ajudar a melhor identificares a tua história de coitadinho deixo-te o meu exemplo.
Dentro da minha história de coitadinho:
Pensamentos
Comportamentos
Atitudes
Locais
-“Não tenho dinheiro!”
-“Tenho muito que fazer”
-“Tenho contas para pagar”
-“Estou lixado!”
-“Tenho um problema”
-Gasto dinheiro em coisas que não preciso
-Olho muitas vezes para o relógio
-Como mais do que preciso
-Sabichão que precisa de ter a resposta pronta
-Vaidoso
-Egoísta, quero a atenção toda
-Centros comerciais
-Em família
-Reuniões de negócios


Fora da minha história de coitadinho:
Pensamentos
Comportamentos
Atitudes
Locais
-“tenho dinheiro suficiente agora”
-“Posso descansar”
-“De momento não tenho contas para pagar”
-“Estou bem, a minha vida é boa!”
-“Gosto de viver!”
-Antes de comprar algo verifico se realmente preciso
-Esqueço as horas
-Como pouco e fico satisfeito com pouca comida
-Ouvinte, não interrompo o outro
-Sinto-me bem com o que visto sem precisar que os outros gostem
-Dou atenção aos outros
-Em férias
-Refeição com amigos
-Em passeio

Se prestares atenção será fácil verificar que são mais as vezes que te encontras dentro da tua história do que fora dela. É ok. O importante é começares a estar consciente deste drama.
Observação: quais as situações onde mais facilmente ficas stressado? O que podes fazer para não entrar em stress nessas situações?
Podes ainda criar estratégias para sair da tua história. É importante que estas estratégias sejam físicas, algo que te obrigue a movimentar o corpo. Isto porque uma vez dentro da tua história é muito difícil saíres. Experimenta deixar de te preocupar quando estás preocupado e verás como é difícil.
As minhas estratégias incluíam dar dois saltos no ar (e sim, cheguei a fazê-lo dentro de lojas, quando estava à beira de comprar algo que não precisava ou a preocupar-me com dinheiro), trautear “uma pequena música da noite” do Mozart, beliscar-me, bater palmas e andar ao pé coxinho.
E agora que sabes que vivemos muitas vezes dentro das nossas histórias de coitadinhos, por favor abstém-te de avisar os outros quando vivem dentro das suas! Só irás dar força às suas sombras, vergonhas, medos e culpas. Este trabalho é para ti, não é para impingir aos outros à tua volta.
Sempre que estiveres a queixar-te de algo ou alguém podes ter a certeza que estás dentro da tua história. Uma coisa é expor ao médico os sintomas do mal-estar ou informar o advogado da situação que te leva a processar o vizinho. Outra coisa é falares dos sintomas do teu mal-estar à irmã, ao tio, ao vizinho e à senhora na caixa do supermercado.
Compreendes agora melhor a importância das emoções negativas? Servem muitas vezes para te informar do quanto estás dentro da tua história de coitadinho. Um amuo, uma raiva, uma insegurança, uma frustração. Emoções que te pretendem acordar. Quanto mais intensa a emoção mais imerso estarás na tua história. A depressão é viver continuamente dentro da tua história. É a versão adulta da birra infantil.
A depressão é a forma passiva-agressiva de dizermos “não gosto como a vida acontece”. E a vida não quer saber da nossa opinião. Talvez haja pessoas tristes devido a disfunções orgânicas. Digo talvez porque todas as pessoas, sem excepção, que passaram por mim até hoje com o diagnóstico de depressão eram realmente pessoas imersas numa história acerca da injustiça da vida e de como estavam magoadas com a vida. E isto é apenas a minha opinião, não tens que acreditar. Questiona.
O que fazes para te deprimir? Em que pensas? Quais são os pensamentos em que acreditas para ficar deprimido? E será que isso em que acreditas está a acontecer agora? Quem é que serias tu se não pudesses acreditar nesses pensamentos que não controlas? Estas questões fazem parte de um trabalho poderoso da Byron Katie. Se quiseres saber mais, está disponível gratuitamente em www.thework.com

Cérebro 2.0

O nosso cérebro, de uma maneira geral, é o responsável por manter-nos vivos. A sua única função é evitar a morte e o sofrimento....