sábado, 29 de agosto de 2009

Como construímos a sombra humana

Durante a leitura deste texto mantenha presente apenas esta imagem: um recém-nascido é capaz de ir da raiva mais agressiva até um estado de alegria eufórica em menos de dois minutos!

Imagine que quando nasce você é um castelo. Um castelo com mais de duas centenas de aposentos! Possui uma cozinha da generosidade e um salão do egoísmo. Uma cave da maldade e um quarto da bondade. Uma sala da amizade e outra da traição. Possui ainda aposentos de inteligência, amor, humildade, paz e respeito. E possui aposentos de estupidez, ódio, arrogância, guerra e desprezo. Muitos aposentos e todos eles úteis no momento certo. Os adultos à sua volta deveriam ensinar-lhe quando é apropriado visitar cada um dos aposentos. Deveriam dizer-lhe que possui aposentos que muito provavelmente nunca sentirá necessidade de visitar, e outros que lhe serão úteis inúmeras vezes, à medida que passeia pelo seu castelo.

O que acontece na realidade é isto: um dia visita o aposento do egoísmo e um adulto diz-lhe que esse aposento é feio. E você fecha a porta e atira com a chave. Algum tempo mais tarde visita a sala da bondade e outro adulto bate palmas e diz-lhe que essa sala é muito bonita. E você decide que irá passar muitos dias aí, mesmo que isso signifique sacrificar uma grande parte de quem é. Noutro dia visita a cave do desprezo. E outro adulto, que vê a sua visita, diz-lhe que essa cave é má! E mais: se você insistir em visitar essa cave novamente será punido! E você fecha a porta e atira com a chave dessa cave!

Por volta dos oito anos encontra-se a viver em cerca de 10 por cento dos aposentos do seu castelo. Aos vinte anos vive num T2, dentro do seu castelo!

Isto é o que acontece a todos os seres humanos! Exceptuando os muito poucos que foram educados por pais verdadeiramente iluminados que compreendiam o ser completo que você era, e é!

Durante os primeiros quarenta anos da sua vida, aproximadamente, irá fechar aposento atrás de aposento. Limitar-se-á mais e mais. Porque, ainda por cima, ensinaram-no a não correr riscos, a procurar a segurança da rotina, nem que sacrifique mais um pouco da sua vida e de quem é!

Por volta dos vinte e poucos anos começa a ter problemas com os aposentos que fechou. E ensinam-lhe a decorar afirmações positivas e a recitar mantras como solução! Isto é o mesmo que viver numa casa que está a cair e você, num acto louco, decide pintar a casa de rosa, para criar a ilusão que a casa é nova em folha! Claro que ela irá cair!

As afirmações positivas são boas, deliciosas na verdade. Mas primeiro verifique o que está escondido na sua mente! A sua sombra, aquilo que você “não é”, os aposentos que se esqueceu já que existem. A maior parte dos nossos pensamentos são projectados a partir do subconsciente. Chamo-lhe a “voz da caixa da sombra”. O que temos nos pensamentos das pessoas que recitam afirmações positivas é um monólogo parecido a isto: “Eu amo-me e aceito-me tal como sou... (sorriso) Olha-me para aquele velho que não vê para onde vai, o estúpido!... Eu sou um com o Amor Divino (mais um sorriso)... Odeio esta gente que fuma e não tem respeito pelos outros! Javardolas!... Eu perdoo todos os que me magoaram... Agora, como é que posso estragar o dia ao palhaço do meu colega?... Meu Deus, esta dor de costas não me larga! Será que é alguma coisa grave?... A minha mãe deixa-me com os nervos em franja! Se ela hoje me diz que preciso de mudar de vida outra vez, mato-a!... O dinheiro vem a mim facilmente... Eu não posso focar a atenção no que não quero! Eu amo-me e amo os outros... (outro sorriso, mas menos convincente) Estou outra vez atrasado, raios!

O problema real é que não nos apercebemos sequer do diálogo que coloco aqui a itálico! É o diálogo que vem da sombra e que nem nos apercebemos! Excepto se começarmos a prestar verdadeira atenção aos nossos pensamentos. Sei do que falo por experiência própria.

Ainda não encontrei uma pessoa que pratique “pensamento positivo” que esteja verdadeiramente de bem com a vida! Que esteja verdadeiramente entusiasmado e apaixonado pela vida. Há aquelas pessoas que se esforçam tanto por mostrar que isto funciona, mas basta picar as suas sombra e vê-los a espernear! É giro! E assim lá se expressa o meu lado sádico de uma maneira pouco saudável! (Eu sei que há essas pessoas, com uma vida fantástica porque recitavam continuamente afirmações positivas, existem! Conheço inclusive alguns dos livros, que podem ser uma ajuda preciosa para acordar – mas para a maioria dos mortais é só isso: servem para acordar).

Há ainda pessoas que fazem muita meditação e paz e amam tudo e todos... E depois alguém trata-os abaixo de cão! Ou são vítimas de violência física... E lá cai por terra a teoria da Lei da Atracção! (Eu também já acreditei nessa teoria – infelizmente está incompleta).

Será que você seria capaz de matar, de atraiçoar, de mentir? Claro que sim! Em dois minutos mostro-lhe uma situação em que o faria sem pensar! Há em nós uma coisa que se chama “instinto de sobrevivência” o qual ultrapassa, fisicamente, a mente consciente, os nossos preceitos morais e todo o lixo mental acumulado, e simplesmente entra em acção.

O problema para muitos pais é como explicar a um filho em que situações o seu medo, estupidez, arrogância, egoísmo, maldade e inveja, para nomear apenas alguns dos comportamentos humanos “negativos”, podem ser úteis.

Dediquem algum tempo a estudar isto. Vejam em que situações ser mau pode ser bom.

Eu podia dizer-lhe, mas se o fizesse como ganhava a vida? Há um avarento que precisa de viver, aqui dentro de mim. E esse avarento gasta muito dinheiro com livros, workshops, seminários, viagens cansativas... E quer a sua recompensa! Mas prometo-lhe que se participar num seminário dedicado à Sombra a sua vida começará a mudar.

Para terminar: nós passamos os primeiros 40 anos da nossa vida a acumular sombra. E os restantes a tentar recuperar essa sombra. Os ingleses chamam-lhe “midlife crisis”. Os Sábios chamam-lhe a “noite escura da alma” – uma idade em que perdemos a segurança numa área da nossa vida que nos é querida. E isto acontece por um único motivo: Aquilo que tu não queres ser não te deixará ser.

5 comentários:

  1. Adorei! A metafora do castelo eu costume usar para o coracao com outro sentido... E o pre e pos 40 esta delicioso e tao certeiro.
    Obrigada.

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  2. Olá Emídio! Este post está fantástico! Partilho com a Mafalda o facto de considerar interessante a metáfora do Castelo ;-)

    No entanto há algo que me despertou ainda mais curiosidade: quando afrima que a Lei da Atracção é incompleta! É que eu ainda acredito nesta lei e não consigo ver em que é que ela é incompleta!

    Agradeço-lhe se me puder esclarecer esta névoa que acabou de me criar!

    Um grande Beijo e Bom Fim de semana :)

    *

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  3. Obrigado pelo comentário, Cláudia. O próximo post será precisamente sobre a Lei da Atracção... :9
    Beijinhos!

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  4. Que óptimo :D
    Estou mesmo curiosa por ler!!!

    Beijinhos **

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