sexta-feira, 17 de abril de 2020

Pandemias, Ciência e Misticismo

Acredito que a grande maioria das pessoas está mal educada na área das ciências. Em realidade muitas pessoas acreditam que “fazer” ciência é parecido a uma qualquer religião em que se vomita uma informação qualquer e acredita quem quiser.

Há ainda pessoas que são totalmente contra a ciência e tecnologia (e usam essa tecnologia para se fazerem ouvir, inconscientes da ironia).

Podemos começar pela peste negra, ou bubónica, que avassalou o planeta entre 1347 e 1351. Calcula-se que matou entre 75 a 200 milhões de seres humanos. Na Europa matou entre 30 a 60 por cento da população. Na altura as pessoas morriam e ninguém sabia o motivo. Acreditava-se na ira de um Deus, nos pecados do Homem, etc. Não havia a ciência nem tecnologia que há hoje para se saber que afinal era uma pulga, transportada por ratos em carregamentos que faziam a Rota da Seda, desde a China, a portadora de um vírus tão letal. A recuperação, na Europa, levou duzentos anos. 
Mais tarde surgiu a gripe espanhola, entre 1918 e 1920. Foram infectados cerca de quinhentos milhões de seres humanos, um quarto da população mundial. Morreram entre dezassete a cinquenta milhões de pessoas (não havia a tecnologia necessária para contabilizar melhor estes números). A maioria dos surtos desta gripe matava os mais jovens e mais idosos. A desnutrição, falta de higiene e uma pobreza generalizada contribuíram para uma taxa de mortalidade tão elevada. E, mais uma vez, não se sabia ao certo a causa de tanta mortalidade. A ciência ainda não tinha evoluído o suficiente para poder ajudar.

Chegamos ao século XXI. Três pandemias em vinte anos, sendo que as duas primeiras passaram despercebidas a muita gente sobretudo porque as suas condições de vida eram desfavoráveis à propagação do vírus. 
Temos agora o Covid 19. É graças à ciência e a cientistas dedicados em todo o mundo que nos é possível saber do que se trata (as pessoas que gostam de teorias de conspiração têm o direito de se dedicar às mesmas, verifiquem apenas se enquanto se dedicam a espalhar informações baseadas em pressupostos, em hipóteses não demonstradas e intuições mais ou menos espirituais, estarão a ajudar a melhorar a situação da população ou apenas a contribuir para mais medo e pânico).

A ciência baseia-se em factos. Os cientistas sabem que aquilo que hoje é verdade, amanhã não o é. O conhecimento evolui e a tecnologia também. Mas há uma coisa de que podemos ter a certeza: um cientista faz uma afirmação baseando-se em conhecimento demonstrável (ok, nem sempre, como em todas as áreas, há aqueles que atiram com suposições ao ar e os media encarregam-se de tornar essas suposições como verdades). A realidade é que a ciência não pede para ter fé ou acreditar em algo inatingível. Possui factos, ou não possui.

Há coisas más na ciência e tecnologia? Há, claro que há. Também há coisas más nas seitas e religiões do mundo. 

Um chá de gengibre é bom para ajudar a colmatar os sintomas de uma gripe? É, claro que sim. Uma sessão de reiki ajuda o sistema respiratório? Acredito que sim. O problema é quando alguém acredita que será o reiki ou o chá de gengibre a tratar alguém que está com uma falha no sistema respiratório e a necessitar de um ventilador.

É saudável, no meu parecer limitado, cuidarmos de nós e daqueles que amamos recorrendo a tudo aquilo a que temos acesso e possa melhorar a saúde. Já não me parece saudável uma atitude de desacreditação na ciência e nos avanços feitos nos últimos cinquenta anos. Sem a tecnologia que temos hoje, muito provavelmente não teria sido possível aos governantes tomar as medidas que tomaram a tempo de poupar muitas pessoas mais fragilizadas. É ainda a tecnologia que permite mantermo-nos em contacto com aqueles que nos são importantes. É a ciência a responsável, em grande parte, pela erradicação de doenças fatais nos últimos sessenta anos. 

Muitas pessoas, envolvidas em luz e amor infinitamente incondicional, vomitam muita história mas na prática contribuem menos que um piolho para a melhoria da vida dos seres humanos. Seria melhor uma atitude de colaboração entre todos, partilha de conhecimento e de bens. Mas conhecimento baseado em factos e não em medos ou inspirações. 
Aqueles que são contra a tecnologia sugeria que a deixassem de usar, seria mais congruente. Aos que duvidam da ciência, por favor isolem-se numa ilha e vivam felizes.

O ponto de equilíbrio, ou harmonia, pode ser encontrado num estado em que usamos os recursos disponíveis sem a pretensão de que uns são melhores que outros. O ser humano só faz comparações por três motivos: para provar que é superior aos outros, para provar que é inferior aos outros, ou para melhorar algo. 

Em qual destes grupos queres participar?

quarta-feira, 25 de março de 2020

As Notícias

Em primeiro lugar, pessoalmente sou a favor do distanciamento social e do isolamento, nesta notícia do covid-19.

Este artigo é apenas uma análise de como as notícias são muito mais um desserviço do que um meio de informação. Para esta análise irei pegar na grande notícia do momento a nível mundial: a pandemia provocada pelo covid-19.

As notícias falham sobretudo devido a três factores: não contextualizam a informação, não permitem um espaço para a reflexão, e não apontam qualquer resolução perante uma situação de conflito ou perigo. 

Abrir um noticiário, com um tom de voz grave a anunciar “33 mortes em Portugal até ao momento causadas pelo covid-19” é sensacionalismo puro. É uma forma de semear o pânico, o terror e a instabilidade social. Tal como as religiões, é uma forma de dizer “quem fica em casa é contra quem não fica em casa”, “nós contra eles”. Isto é perigoso em termos de manter uma estrutura social coesa e colaborativa. O ser humano, quando faz asneira, aprende e corrige-se mais facilmente através de um melhor conhecimento das suas falhas e efeitos produzidos nos outros do que através de uma simples acusação. Se dissermos a quem quer que seja que está a ser estúpido, essa pessoa agora é forçada a provar que não o é. 
Esta notícia poderia ser divulgada de outra forma. “Em Portugal, segundo o Instituto Nacional de Estatística, morrem em média, todos os meses, 400 pessoas devido a pneumonias de origem bacteriana. Desde o início da pandemia do covid-19 morreram 33 pessoas.” - isto é contextualizar. Poderia este serviço noticioso ir mais longe e informar que de momento não há um tratamento para a pneumonia provocada pelo covid-19, pelo que a melhor solução é o isolamento social. Notem que em vez de dizer que o covid-19 mata, dizer que ainda não há um tratamento seria muito mais produtivo. 
Por outro lado sabemos que a melhor forma de um grupo se tornar imune a um vírus é através da exposição ao mesmo. Isto deixa-nos numa situação periclitante. Por um lado ganhamos imunidade ao expormo-nos ao vírus, por outro lado não há tratamento e não sabemos quem reúne as condições físicas para superar o ataque viral. 

Aqui entra a parte da reflexão. Vamos ponderar, mantendo-nos isolados uns dos outros. E nesta ponderação poderemos descobrir muita matéria interessante. Deixo aqui apenas algumas das minhas descobertas feitas em isolamento nos últimos dias.

  1. Ao longo da história da humanidade houve muitas pandemias, esta é mais uma. As pessoas que adoram teorias de conspiração, por favor notem que esta pandemia não é uma novidade. Houve outras antes;
  2. Quando nos é diagnosticado um cancro, ou uma doença potencialmente fatal, o nosso organismo entra em modo de sobrevivência e utiliza todos os seus recursos para destruir a causa da doença. O Planeta Terra, enquanto organismo vivo, terá o mesmo comportamento;
  3. No presente, a humanidade, todos nós sem excepção, estamos a comportar-nos como um cancro, querendo mais e mais, nunca satisfeitos, não olhando a meios para atingir fins, e, de uma maneira geral, destruindo o nosso próprio habitat;
  4. O Planeta, enquanto organismo vivo, activou as suas defesas, neste caso através de um vírus a que chamamos covid-19. Pessoalmente considero golpe de génio. Basta observar a redução nos níveis de poluição, no tempo livre que de repente temos para repensar a nossa vida e decidir o que realmente é uma prioridade e importante, começarmos a dar importância às pequenas coisas que antes ignorávamos, e descobrimos que há muita coisa na nossa vida que é apenas excesso de bagagem;
  5. Somos obrigados a reflectir sobre a nossa mortalidade. Alguns de nós, levados na onda de pânico, falamos da morte como se fosse uma novidade. “Ah! Foda-se! Afinal sou mortal e a minha vida pode acabar a qualquer momento!” - A sério ?! Não sabiam disto? Cada dia que vivemos é um milagre. São tantas, mas tantas, as coisas que podem pôr um fim à nossa vida diariamente. Foi preciso um vírus para nos despertar para esta coisa da mortalidade;
  6. Ninguém quer morrer. Isto é um absoluto disparate. A única coisa que é garantida quando nascemos é precisamente a nossa morte. A nossa fragilidade. E se vivermos cada dia como sendo o último neste planeta? Talvez nos tornássemos pessoas melhores, mais atentos uns aos outros, mais colaborativos;
  7. Saber-me mortal, saber que este corpo pode não ter vida ao final do dia de hoje leva-me a ponderar acerca das minhas escolhas. Por exemplo, escolho não ir para a aldeia para junto dos pais, a ideia de os poder infectar é algo com o qual talvez não saiba lidar. Isto leva-me a pensar que participo no isolamento social não pelo medo de ser infectado ou morrer, mas pelo respeito à vida dos outros;
  8. Pessoalmente este corpo tem um sistema imunitário que de momento é bastante frágil. Isto leva-me a viver em paz cada dia sabendo que pode ser o último neste maravilhoso planeta. Leva-me a amar este corpo por manter-se vivo, só por hoje;
  9. A possibilidade de não estar vivo amanhã pode levar-nos a ser amáveis com os que nos rodeiam, a ser mais cuidadores, a esquecer as nossas birras infantis e a ser adultos que sabem mimar e cuidar e divertir-se também (se alguém tiver um Sancerre aí por casa que não precise, eu mando um Uber buscar);
  10. Enquanto espécie somos demasiados e o planeta não tem, no presente, recursos para sustentar a vida humana. Cada ser humano que morre é uma ajuda para a saúde do planeta. Esta é difícil de digerir, estou consciente disso. Por outro lado, e como pessoalmente estou em paz com a minha mortalidade, se tiver que ser um dos que deixa o planeta para que gerações futuras tenham uma vida melhor, que assim seja.

O problema das notícias é que não educam. Tentamos controlar as massas através do medo, como sempre se fez ao longo da história. E a história tem este hábito de se repetir até aprendermos. Talvez fosse possível controlar as massas sem a necessidade de as controlar, mas antes educando-as. A educação é fundamental. Tornámo-nos numa espécie tão perversa que pagamos mais a pessoas que nos entretém, desde jogadores da bola a actores de cinema, do que aqueles que realmente contribuem para o bem-estar da sociedade, como os professores e cientistas. 

Uma última reflexão, dirigida a todo o movimento de desenvolvimento pessoal e auto-ajuda que tem vindo a ganhar terreno. Esta é uma excelente oportunidade de aprender que frases feitas como “tu és capaz”, “nada é impossível”, “segue os teus sonhos”, são em realidade apelos ao consumismo desenfreado, a um desrespeito total pelos outros, a um egoísmo doentio em que não se considera a vida no seu todo. Seria mais saudável, como qualquer professor poderia explicar, que às vezes somos capazes e às vezes não somos. Por vezes conseguimos realizar os nossos sonhos, e por vezes não (e são mais as vezes em que não conseguimos). Aprender que acreditar que podemos controlar a vida é uma ilusão criada pela mente egóica e doente.

Por fim vamos olhar para a resolução das notícias, que não existe de momento. 
No caso do covid-19, seria excelente terminar qualquer notícia com informação acerca dos avanços que cientistas estão a fazer, como podemos reforçar o sistema imunitário. O nosso sistema de defesa pode ser fortalecido com alimentos, com boa disposição, alegria, anedotas, serenidade. Em vez disso, as notícias alimentam-nos com medo, pânico e ansiedade.

Há um quarto problema com as notícias, e que com a ajuda das redes sociais, se torna mesmo destrutivo. O excesso de informação. Somos bombardeados com muita, mesmo muita informação, desde o velhote na Suazilândia que matou os filhos até ao último disparate do presidente dos Estados Unidos. Como não processamos esta informação e nos limitamos a “engolir”, o nosso cérebro entra em modo de ansiedade e sobrevivência muito facilmente. O modo de sobrevivência por longos períodos de tempo inibe o sistema imunitário. 

Termino com o ditado oriental com o qual vivo há uns três anos.
“Sabendo tu que a tua morte é inevitável, e sabendo ainda que o dia da tua morte é desconhecido, o que realmente é importante hoje?”

Mimem-se.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Como arruinar um relacionamento íntimo em cinco passos fáceis

Para eles:
  1. Começa a relação focando toda a tua atenção nas qualidades positivas da tua vítima. É importante ignorar os comportamentos dela que te afectam negativamente, correndo o risco que ela fique amuada e fuja. É fundamental praticar a arte da desonestidade e fingir que ela é só perfeição. Mais tarde, qualquer data a partir dos seis meses de relação, podes dar-te autorização para informá-la de tudo o que vês de errado nela;
  2. Torna-te o responsável pela felicidade da criatura. Se ela não estiver sempre feliz é porque estás a falhar e então é fundamental apontar o dedo com acusações. Diz-lhe que é uma mal-agradecida, que não te compreende, que é egocêntrica, que é mimada, e qualquer outro adjectivo que te ajude a rebaixá-la e te alivie o sentimento de estares a falhar no departamento de provedor da felicidade alheia;
  3. No início da relação é importante estares de acordo com praticamente tudo o que ela diz e acredita. Depois de seis a doze meses começa a discordar, a mostrar-lhe que a razão está do teu lado, tu é que sabes. Para apimentar um pouco a relação diz-lhe que ela é doida como a mãe, ou, melhor ainda, generaliza com uma afirmação do tipo “as gajas são todas umas complicadas”! Resultados garantidos sempre que usares esta opção;
  4. Também muito importante é ceder a todas as suas vontades, mas só nos primeiros meses! Depois torna-te rígido, inflexível e determinado. Afinal não queres ser um banana, certo? Para um melhor resultado pondera a possibilidade de levantar a voz, gritar, bater portas, sair com os amigos para uns copos ou sentar-te a ver um jogo da bola e ignorá-la completamente (este é especialmente bom se ela detestar futebol - uma espécie de movimento sado-masoquista do qual o Marquês de Sade ficaria orgulhoso);
  5. Queixa-te de cada falha, comportamento ou palavra que venha dela. Queixa-te a ela, aos teus amigos, às amigas dela, aos teus pais. Até podes, num acto de heroísmo, queixar-te num daqueles programas da manhã da TVI ou do CMtv! Acusa-a de ser a responsável do teu mau-humor. Faz-lhe saber que a tua vida é muito melhor sem ela. Pondera a possibilidade de a substituir pela amiga ruiva dela que é muito mais engraçada.
Para elas:
  1. É boa ideia começar a relação a acreditar que ele irá transformar a tua vida para melhor. Ele será o príncipe encantado que te levará ao êxtase, será o amigo verdadeiro do coração, o amante perspicaz, o oásis no deserto da tua vida;
  2. Torna-te sexualmente aventureira, mesmo que sexo seja uma coisa parva de gajo, porque uma mulher a sério tem outros interesses (como a amizade verdadeira, ser a conselheira honesta, a divina apontadora de defeitos masculinos). Depois de uns meses de aventuras em Vale de Lençóis deverás começar a mostrar um tédio e indisponibilidade para os prazeres carnais. Vai mais longe ainda e acusa-o de ser um tarado sexual que te vê apenas como objecto sexual (pontos extra se falares da submissão a que as mulheres são sujeitas e conseguires vomitar quatro ou cinco exemplos bem feministas, do tipo “já o meu pai era assim para a minha mãe, coitada.”);
  3. Toma nota no teu diário de cada falha do desgraçado. Isto é útil para mais tarde poderes justificar a tua indisponibilidade para a intimidade. Se fores capaz de dizer algo como “nunca esquecerei aquela tarde de chuva em que me obrigaste a ir contigo ao cinema ver um filme de terror!” Ou melhor ainda, atira-lhe uma pergunta em que qualquer que seja a resposta que te dê será sempre a resposta errada. Algumas pérolas: gostas mesmo de mim? Fazes isso só para me magoar, não é? Tu não me compreendes, pois não? - tenta manter um ar de vítima ou bruxa perseguida;
  4. De início é fundamental tornares o pobre na tua prioridade de vida. Com o passar dos meses, torna-o na tua segunda prioridade, depois na terceira. Eventualmente ele deverá ficar, na tua lista de prioridades, algures entre uma visita à tua tia com Alzheimer no lar de idosos e aquele anúncio no Facebook sobre o último aparador de pêlo indesejado;
  5. Torna a vida a dois complexa e cheia de ratoeiras. Se ele te abraçar, é porque quer sexo e te vê apenas como objecto sexual. Se não responder a uma piada tua é porque tem outra ou tu já não és importante. Se ele se mostrar ausente é porque é egoísta e só pensa nele. Se está ao teu lado na cozinha é para te criticar os cozinhados (confessa, os teus cozinhados até nem são lá grande coisa, certo?). Interpreta cada acção dele como se tivesses cinco anos e ele fosse o teu pai, e assim está garantido um envenenamento da relação por anos a fio. 

Para ambos, é importante que depois dos primeiros meses, em que ignoraram tudo o que era negativo no outro, em que fingiam adorar cada gesto ou palavra do outro, e engoliram as parvoíces um do outro, comecem a adoptar o comportamento de uma criança de cinco anos. Aqui vale tudo. Amuar, gritar, bater com as portas. É mesmo importante não reconhecerem nem mostrarem gratidão por pequenos gestos de carinho do outro. Em vez disso, empolem cada comportamento negativo que venha do outro como um ataque pessoal à vossa integridade.
Continuamente falem do passado, sobretudo das partes desagradáveis, porque essas são as memórias que vale a pena guardar, obviamente.

Isto é aplicável em qualquer relacionamento que desejam arruinar. Pode ser heterossexual, homossexual, transsexual, assexual. polissexual, e mais os outros sessenta géneros que andam por aí. 
Não é difícil, e qualquer um/a consegue. No fim terão uma bela história de terror com que se podem entreter na solidão do vosso quarto.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A nova espiritualidade pode causar mais danos que benefícios


A Nova espiritualidade e todo o movimento de auto-ajuda e revolução espiritual afirma, de maneira directa ou indirecta, que o poder sobre a vida do indivíduo está nele. Desde a “lei da atração” à visualização e PNL, há cada vez mais “estudos científicos” que afirmam que o ser humano é capaz de alterar a sua vida pelo simples poder da sua mente. Outros afirmam que é uma questão de percepção: muda a forma como interpretas o que está a acontecer, e o que está a acontecer mudará. Tentei isto no supermercado, com a percepção de que as folhas de papel higiénico eram dinheiro. A senhora na caixa tinha uma percepção diferente da minha, a cabra.

Vamos por partes. Inicialmente surge uma situação, algures na infância, onde aprendemos que há algo de errado connosco. Nasce assim a vergonha tóxica. A vergonha faz-nos acreditar que há algo de errado connosco, somos produto danificado. Porque fazemos xixi na cama (enurese nocturna para os mais eruditos), ou porque comemos os doces todos da avó, ou porque demos a resposta errada na sala de aula, ou porque rimos no funeral da tia da amiga da vizinha da mãe. Aprendemos que não somos suficientemente bons, ou que não merecemos (esta é uma favorita do novo movimento espiritual “eu sou merecedor de uma boa vida” é o mantra apregoado), ou que não somos capazes. 

Esta crença torna-se inconsciente e irá causar muitos dissabores ao longo da vida.

Há muitos, muitos factores que levam a que cada ser humano esteja onde está. Desde factores económicos (não nascemos todos em famílias da classe alta), a factores sociais (não nascemos todos no bairro culto e educado da cidade), até factores neurobiológicos (a forma como criámos conexões neuronais nos primeiros anos de vida). 

Todos temos e tivemos oportunidades diferentes. Todos interpretamos a vida de maneira diferente. 

Por volta dos 3 ou 4 anos os nossos pais, inocentemente, iniciam o processo de comparação (“a tua irmã já come sozinha” ou “A Mimi já sabe contar até 10 e tu não”). Depois somos nós que damos continuidade a este processo. Comparamo-nos com amigos que têm roupas de marca, com a amiga cujo marido é muito mais carinhoso, com o chefe que ganha muito mais que nós. A comparação costuma andar de mãos dadas com a responsabilidade.

Tiveste negativa no teste de matemática e só tu és o responsável (esquecemos que a criança pode não ter aptidão para as contas mas ser genial na dança, por exemplo). A forma como usamos a responsabilidade é muitas vezes tóxica porque invariavelmente implica a culpa: fizeste asneira, basicamente. 

Por mais que um indivíduo atenda workshops dedicados à deusa sagrada, à luz ultra-violeta de cura, ao shamanismo psicadélico ou ao movimento cosmológico invertido (este inventei agora mesmo e acho que é a solução de todos os males da humanidade), enquanto não abordarmos a vergonha, a culpa e os medos, seremos reféns de uma mente inconsciente que apenas tenta manter-nos vivos. 

É-nos incutido medo ou vergonha de falhar, fazer asneira. Criámos uma imagem do pai perfeito, a amante perfeita, os amigos perfeitos, os irmãos perfeitos, o chefe perfeito, e por aí fora. E sempre que a pessoa à nossa frente não tem o comportamento perfeito esperado dela, reagimos. Reagimos a partir de um estado em que há medo ou vergonha numa das suas muitas nuances (culpa, humilhação, frustração, etc.).

É-nos ainda ensinado a ter o controle sobre a nossa vida, seja através da visualização criativa ou da entoação de mantras. Em realidade nem sequer tomamos decisões conscientemente. Podemos sofrer horrores perante a necessidade de tomar uma decisão, mas nos bastidores do nosso cérebro há neurónios a discutir as implicações das nossas escolhas, de acordo com toda a nossa experiência de vida. Um exemplo simples. Uma criança que passou pela experiência de abandono na infância irá ter muita dificuldade em abandonar um emprego ou relação que lhe são desfavoráveis. Ou então, não se permitirá entregar-se a uma relação íntima para evitar o futuro abandono. Isto é um exemplo, não significa que é assim para todos. Cada um de nós lida com a vida de acordo com o que o nosso cérebro ainda imaturo foi aprendendo.

Não há escolhas certas ou erradas pelo simples facto que é impossível saber qual o resultado definitivo de uma decisão. Podemos fazer previsões, ter uma ideia, mas nunca saber com precisão qual o resultado final de uma escolha. 

A menos que uma pessoa sofra de graves perturbações mentais, ninguém acorda um dia a calcular como causar danos a si mesmo ou aos outros. Muitas vezes podemos causar danos a outros simplesmente porque estamos unicamente a pensar em nós (o caso da infidelidade, roubo, abuso físico ou psicológico). Isto não significa que não deve haver consequências para actos que atentem contra a integridade de outros.

O primeiro passo para efectivamente ter um pouco de controle sobre a nossa vida é a meditação activa. O parar, observar as sensações no corpo sem colocar rótulos, permanecer num estado de curiosidade e fascínio, a observar as sensações. E quando surge um desconforto perguntarmo-nos “o que significa para mim este desconforto?”

Estas pausas para observar o que se passa dentro permite-nos lidar de maneira mais eficiente com o que acontece lá fora. Em vez de cair no erro da “aceitação” e “perdão” e “ser invencível”, começar por assumir a nossa vulnerabilidade, a nossa incapacidade de lidar com os outros da maneira mais correcta, a nossa insustentável leveza do ser (MIlan Kundera). 

domingo, 13 de outubro de 2019

A importância das emoções negativas


O corpo humano possui mecanismos para se manter vivo. Todos estes mecanismos são importantes. Por exemplo, a insulina e o glucagon. Um excesso ou deficiência de açúcar no sangue provoca danos graves no corpo, levando eventualmente à morte. Para evitar que isto aconteça o corpo (pâncreas) produz insulina sempre que os níveis de açúcar aumentam (informa muitas das células para consumirem mais açúcar e dá ordens ao fígado para armazenar qualquer excesso). Por outro lado, se acontecer uma deficiência de açúcar, o pâncreas liberta glucagon, o qual informa o fígado que está na hora de libertar algum do stock de açúcar armazenado. 

O mesmo acontece com as emoções. São um mecanismo essencial ao bom funcionamento do indivíduo enquanto parte de uma sociedade. Cada emoção tem um efeito sobre determinados órgãos. Por exemplo o medo, a ansiedade, a culpa. Estas emoções servem para que a pessoa tenha um comportamento que a mantenha viva enquanto ser humano e enquanto parte de um grupo. As emoções são uma herança dos nossos antepassados. A culpa era fundamental para o indivíduo pertencer ao grupo. Se não fosse caçar com a tribo, o sentimento de culpa levá-lo-ia a sentir-se mal e a esforçar-se da próxima vez, caso contrário poderia ser excluído da tribo e a sua sobrevivência ficaria em causa. Este sentimento conduz à produção de neuropeptídeos que por sua vez afectarão determinados órgãos. 

As emoções são a linguagem primordial que nos levam a desejar fazer parte de um grupo. A sentirmos uma conexão com os outros, ou a sentir uma desconexão.

Assim como seria idiotice impedir o pâncreas de produzir insulina quando esta é necessária, impedir que uma emoção seja vivida ou tentar eliminá-la tem um efeito negativo. Interromper uma emoção de se viver na totalidade causa danos a todos os níveis, desde o físico ao emocional e mental.

Não temos que compreender o processo fisiológico de uma emoção para que esta se viva na sua totalidade. E também não temos que atacar os outros quando a emoção é tão avassaladora que sentimos estar a morrer.

Tomemos a raiva, uma emoção de sobrevivência pura. Esta emoção era essencial quando vivíamos em cavernas. A raiva leva à produção de cortisol e adrenalina, entre outros. O seu efeito faz-se sentir desde os rins até aos olhos. A raiva é o que nos leva a lutar até à morte. Nos dias de hoje são muito raras as situações em que precisamos de lutar até à morte. Mas se nos lembrarmos do motivo porque a raiva surge, saberemos viver esta emoção na sua totalidade. A raiva é a emoção que diz “pára imediatamente tudo o que estás a fazer e muda de direcção. Faz qualquer coisa pela tua vida, agora”. Não é para amanhã, nem para daqui a dois meses. É agora. Muda. Já. Pode ser mudar a atitude, mudar de lugar, mudar de relação. Ouvir e permitir que esta emoção se viva significa gritar, dar murros no ar, correr. É uma emoção que liberta muita energia no corpo. Impedir que se viva na totalidade levará a problemas nos rins, fígado, olhos, ouvidos, coração, estômago, intestinos… E no entanto somos ensinados a abafar a raiva. É mal vista. Significa ser-se mal-educado. A raiva abafada levará a comportamentos destrutivos. Iremos atacar verbal ou fisicamente aqueles que nos são próximos. Iremos fazer coisas das quais nos arrependeremos mais tarde.

A emoção que mais danos causa quando não assumida e vivida é a vergonha. Ensinam-nos muito cedo a “ter vergonha”. Há uma diferença entre a vergonha e a culpa. Enquanto a culpa é um sentimento que nos indica que fizemos algo de errado, algo que podemos corrigir, a vergonha é o sentimento que nos mostra haver algo de errado connosco, que somos produto danificado. A culpa diz-nos que falar mal dos outros é errado. A vergonha diz-nos que somos pessoas más, ou que não somos suficientemente boas para ser aceites no grupo. A vergonha leva-nos a esconder a nossa humanidade, a atacar qualquer pessoa que toque nas nossas feridas emocionais, e a desvalorizar  o sofrimento, nosso ou dos outros. Observa, por exemplo, o que acontece quando alguém que nos é querido se sente triste, deprimido ou chora. Tentamos que mude, que deixe de chorar. O seu comportamento envergonha-nos porque nos faz sentir impotentes, o que é uma vergonha. Ou seja, queremos interromper o processo emocional de alguém que nos é querido, porque permitir isso leva a que se inicie em nós um processo tóxico de vergonha. Aliás, nós próprios temos vergonha da nossa tristeza ou da necessidade de chorar, considerando isto como um sinal de fraqueza, fragilidade, impotência. (A propósito, são estas qualidades que nos tornam humanos). 

O processo de pacificação com emoções rotuladas de negativas começa por permitir que se vivam na sua totalidade (muitos de nós já nem sabemos como se faz isso). Se é um amigo, mãe, ou filho que está a passar por um processo doloroso, ficar ao seu lado e simplesmente dizer “eu estou aqui” é a melhor resposta para respeitar o processo em si. 

Nos retiros do Processo da Sombra, os exercícios em que nos permitimos sentir na totalidade estas emoções, os sentimentos de não sermos suficientemente bons, de acreditar que há algo de errado connosco, são sempre os mais intensos. E também os mais libertadores. 

terça-feira, 18 de junho de 2019

Cérebro 2.0


O nosso cérebro, de uma maneira geral, é o responsável por manter-nos vivos. A sua única função é evitar a morte e o sofrimento. Para cumprir isto encarrega-se dos eventos em todo o corpo e vida. Desde o ar que entra nos pulmões até aquela sobremesa extra que sabíamos que não era para comer.

Há toda uma melodia a ser tocada no nosso corpo cujas notas são os neurotransmissores. Demasiada adrenalina e o coração dispara. Pouca ocitocina e sentimo-nos uns desgraçados. Muita luz solar e ficamos activos, pouca água e apodera-se de nós uma ansiedade. 

Mas todas estas emoções são o cérebro a fazer o seu trabalho para nos manter vivos. Elementos externos, como a luz, os alimentos, os relacionamentos e trabalho, provocam a produção ou inibição de químicos e/ou  sinais eléctricos que por sua vez resultam em estados emocionais.

E é aqui que encontramos muitos dos nossos dramas de hoje. O cérebro continuamente processa informação exterior para saber o que fazer. E o que é para fazer é simples: manter o corpinho vivo. Até há poucos anos a grande maioria das pessoas ocupava a mente pensante com problemas a sério. Organizar a casa, trabalhar para ter comida e roupa, estudar para ter casa, ser simpático para poder procriar.

Nos nossos dias esses problemas praticamente não existem nos países ocidentais. Poucas pessoas têm que efectivamente preocupar-se com a próxima refeição (mesmo um sem-abrigo tem organizações a fornecer refeições gratuitamente). Mas a mente não sabe ficar sossegada. Obedece a uma ordem ancestral implantada no nosso cérebro reptiliano: mantém-te vivo. 

Obedecer a esta ordem implica procurar problemas para resolver. Porque resolver problemas é o que o cérebro gosta de fazer, ou pelo menos está programado para isso. 
E que problemas temos hoje que impeçam estarmos vivos? Zero! Nada! Rien! Zilch! 

Então, a mente, que não sossega, inventa problemas. Preciso de um telemóvel novo com ecrã  de 20 polegadas, som Dolby 7.0, e reconhecimento genital. Preciso de ir de férias para aquela ilha a sul da Nova Zelândia. Tenho que convencer os colegas de trabalho que o meu sentido de moda é o melhor. Se não conseguir parceiro antes dos 16 anos é porque há algo de errado comigo. Se a minha parceira terminar a relação não saberei o que fazer à minha vida. Há crianças a morrer à fome num país qualquer ali ao lado daquele país qualquer. O plástico está a destruir o planeta e tenho que que me revoltar com esta sociedade.

Transformar estas situações em questões de sobrevivência é estúpido. E é o que a mente faz, na sua loucura. 

Pouco a pouco estamos a destruir o ser humano animal, o que procura comida, refugio, sexo, e a querer criar um ser humano ideal, perfeito, sempre feliz. Isto é a causa de muito mal-estar emocional. No fundo, se pararmos, sabemos que aquilo que nos atormenta muitas vezes não tem qualquer implicação real na nossa vida enquanto seres vivos. 

Pessoas entram e saem das nossas vidas. É natural. Coisas entram e saem das nossas vidas. E também é natural. Querer que a vida seja como nós queremos é um movimento fútil de pura arrogância. A vida está-se nas tintas para os nossos quereres. Vive-se. Ponto final. 

Então, como podemos nós parar esta tendência para a loucura da nossa mente? 

Abrandando. Mais devagar. Dedicarmo-nos ao que realmente é importante. O que comemos, com quem estamos, o que fazemos. Brincar. Trabalhar. Socializar. Sem expectativas. 
Aprender a sermos directos com os outros, em vez de tentar subtilezas e indirectas. Dizer sim quando é sim que queremos dizer. E não, quando queremos dizer não. Não esperar que os outros adivinhem o que vai nas nossas cabecinhas loucas. Aprender com as situações difíceis (são muito, muito poucas, mesmo!). 

O parceiro que sai da relação não significa o fim da vida. O fémur fracturado não significa que vai haver pestilência ou fome a devastar o planeta. O trânsito parado não significa a queda de um asteróide a aniquilar a vida tal como a conhecemos. 

Alterar os processos dementes da mente é relativamente simples. Em cada situação aprende algo, descobre a bondade da vida, ou questiona-te sobre o significado que estás a atribuir à situação. Em vez de querer controlar a vida (iremos falhar), experimenta permitir que a vida se viva em ti. Dá as boas-vindas a qualquer emoção e permite que se viva em ti completamente. Não te agarres ao pesadelo de querer destruir o que está presente. Nada é para sempre, nada é constante. Tudo muda. Incluindo a tristeza, mágoa ou euforia. A vida é movimento. E o cérebro sabe-o.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Maturidade emocional


Como adultos experienciamos a vida da mesma forma que uma criança: o que está fora de nós afecta o que sentimos dentro de nós.

Uma criança depende dos adultos (não necessariamente um pai ou mãe) para viver. Vai buscar aos adultos uma certa segurança, apoio, nutrição, afecto. Isto é natural e é suposto ser assim.

A adolescência é o período de aprendizagem intensivo em que supostamente aprenderíamos a inverter este processo e desenvolveríamos ferramentas para  cuidar da nossa vida, ser os autores da nossa experiência. Muitas tribos têm os chamados rituais de passagem, os quais têm lugar entre os doze e dezoito anos. Não é por acaso que o nosso corpo, do ponto de vista biológico, está preparado para a reprodução por volta dos doze anos. Há uma maturidade biológica que se atinge, mas a maturidade emocional parece não existir.

Com a tendência cada vez maior de os progenitores cuidarem dos problemas dos filhos numa idade em que não é psicologicamente saudável, as criaturas adolescentes não ganham ferramentas para lidar com os desafios de estar vivo. Não aprendem a lidar com a rejeição, por exemplo. Buscam continuamente nos outros o seu bem-estar emocional, e tornam-se muitas vezes incapazes de assumir compromissos.

Como pode um adulto ensinar um adolescente que este não depende emocionalmente de outros, quando o próprio adulto é carente de atenção e validação?

O nosso cérebro continua programado para acreditar que a nossa vida depende literalmente das relações que criamos. Embora haja alguma verdade nisto, não dependemos emocionalmente dos outros para ter paz ou estar bem.

Na busca das experiências emocionais que nos são prometidas nos relacionamentos esquecemos que apenas nós somos responsáveis pelo nosso bem-estar.

Cuidar do meu bem-estar emocional permite-me estar presente para mim e, por conseguinte, para os outros.

Adultos criam ligações emocionais através do elogio, gratidão, compaixão, partilha de momentos. E desconectam-se emocionalmente através da crítica, do apontar defeitos, do estar insatisfeito e acusar os outros desta insatisfação.

E enquanto estivermos desconectados de nós mesmos, iremos desconectar-nos dos que nos rodeiam.

Como podemos cuidar do nosso bem-estar emocional? Dando-nos o que exigimos dos outros. Se o que queremos é um jantar romântico, um filme no sofá com pipocas, um passeio na natureza ou roupas bonitas, então para quê esperar que outros nos ofereçam isto se o podemos oferecer a nós mesmos? E se a ideia de um jantar íntimo sozinho é algo que não te apraz, então compreenderás que outros poderão também não gostar da tua companhia. A companhia que nos fazemos quando estamos sós será a companhia que iremos ter quando estivermos com outros.

Observa a relação que crias com filhos, amigos, amantes. Estás mais ocupado em tentar corrigir o outro, em mudá-lo, ou optas por ver o que há de bom nesta pessoa? Iremos fazer aos outros o que fazemos connosco. Quanto mais julgo negativamente a pessoa que sou, mais irei julgar depreciativamente aqueles que me rodeiam. Por outras palavras, quando me trato mal a mim, irei tratar-te mal a ti. E quando me trato bem a mim, irei tratar-te bem também.

Pandemias, Ciência e Misticismo

Acredito que a grande maioria das pessoas está mal educada na área das ciências. Em realidade muitas pessoas acreditam que “fazer” ciênci...