segunda-feira, 5 de junho de 2017

Relacionamentos de alta tecnologia

Regra geral dois adultos começam uma relação íntima devido a carências afectivas. Sinto-me só e na ausência de afecto, e como não gosto da minha companhia, procuro alguém que preencha esta ausência. Posso ter um trabalho, posso ter comida para comer, água para beber, uma cama para dormir, amigos com quem sair, mas falta-me o carinho, a intimidade. E o sexo, claro.
Então a necessidade de preencher esta carência afectiva torna-se o aspecto mais importante na minha vida. Como se a minha vida só pudesse funcionar harmoniosamente depois de partilhá-la com outro que me dê carinho, afecto, sexo.  O trabalho, a comida, os amigos, passam todos para segundo plano.

Eventualmente surge alguém especial. Alguém com exactamente as mesmas carências afectivas.

De início a relação funciona bem, porque o outro torna-se o aspecto mais importante da minha vida. E o oposto também ocorre. O outro torna-me o aspecto mais importante da sua vida.

O que acontece a seguir é o que acontece quando passamos dois dias sem beber água. Sedentos e prestes a entrar em delírio. Alguém oferece-nos uma garrafa de água. De repente esta garrafa é o que há de mais importante na minha vida. Mas só até ficar saciado. Uma vez a sede mitigada, a garrafa passa a ser algo secundário, menos importante. Lembramo-nos da sede anterior e temos algum receio de perder a garrafa de água. Mas já não temos sede! Sentimo-nos satisfeitos e podemos ocupar-nos de outros aspectos da nossa vida, como o trabalho ou os amigos ou a limpeza da sala. Porque sabemos que quando voltarmos a sentir sede há uma garrafa de água mesmo ali ao lado.

Num relacionamento acontece o mesmo. O outro vem saciar a nossa sede de afecto. Nós fazemos o mesmo ao outro. Tornamo-nos muito importantes um para o outro. Mas só até estarmos saciados. Uma vez saciados, o outro passa a um plano secundário. Há que dar importância ao trabalho, aos amigos, hobbies, televisão. Porque sabemos que o outro está ali ao lado da próxima vez que tivermos sede de afecto.

Antigamente este esquema funcionava relativamente bem. Não havia Tinder® nem Grindr® nem outras aplicações fabulosas que enchem a memória dos telemóveis.

Como hoje temos toda uma tecnologia que “aproxima” as pessoas, conhecemos alguém num momento de carência afectiva, envolvemo-nos até ficar saciados, passamos o outro para segundo plano e se o outro não compreende que há coisas mais importantes que uns afectos então damos início ao processo de apontar falhas e defeitos até que o outro se afaste (estava muito carente, era um cromo, colava-se como uma lapa, etc.). E da próxima vez que voltemos a sentir esta carência de afecto remediamos a coisa numa aplicação do telemóvel.

Manter uma relação a longo prazo exige primeiro que tudo tornar o outro o aspecto mais importante da nossa vida. É um trabalho a tempo inteiro. Aquilo que fazemos no início da relação? É para fazer até ao dia que quisermos terminar a relação.

Já agora, conhecem alguma aplicação que seja mais eficiente a encontrar alguém carente como eu? Mas só para esta manhã, que à tarde já tenho a agenda preenchida.


NB. O que escrevi não se aplica a toda a população mas apenas a uma grande, grande maioria da população (auto-excluo-me, obviamente)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A impossibilidade da felicidade

A felicidade é uma construção mental com menos de duzentos anos. E é uma construção mental porque a vida, a vida real, não se limita a um estado nem é estagnada.

Foi-nos impingida esta ideia de que a felicidade está dependente de factores externos. Serei feliz quando tiver a relação que desejo, o carro que desejo, a casa que desejo, os filhos que desejo. Quando a vida acontecer como eu desejo então haverá espaço para ser feliz.

Muitos autores e promotores do bem-estar emocional impingem esta ideia de que é importante ser-se feliz e, obviamente, eles sabem que se fizermos isto ou aquilo seremos felizes.

E contudo é impossível permanecer num estado de felicidade. Há morte, há doença, há divórcio, há desemprego, há fome, há injustiça. Como manter-me num estado de felicidade perante os desafios que a vida nos lança? Iremos falhar.

Por outro lado o nosso cérebro está biologicamente construído para nos manter vivos. Procura consciente e inconscientemente tudo aquilo que percepcione como uma ameaça à sua existência. Há dez mil anos essa ameaça era um mamute. Hoje é uma fila do trânsito. A resposta fisiológica ao mamute e à fila do trânsito é a mesma. Surge o stress. Queremos mudar o que está a acontecer porque a um nível inconsciente o cérebro vê a situação de stress como uma ameaça ao seu bem-estar.

Por outro lado um recém-nascido aprende que precisa da atenção dos adultos para que a sua vida seja sustentável. Se chorar será alimentado, acarinhado, etc. E como não desaprendemos isto, passamos toda uma vida a buscar a atenção dos outros porque o cérebro tem um só registo: preciso da atenção dos outros para estar vivo.

Como seria a tua vida sem a necessidade da atenção dos outros? Como seria a tua vida se soubesses que tudo acontece para te apoiar? Se soubesses que aquilo que aparentemente é mau esconde algo de positivo?

É aqui que surge o conceito de felicidade. Queremos tudo o que há de positivo, queremos pessoas boas e amáveis, relacionamentos funcionais, um corpo saudável e elegante, uma conta bancária sustentável, um emprego que nos garante prazer. E aí sim, seremos felizes.

Talvez nunca se tenha tratado de ser feliz. Talvez seja mais uma questão de estar em paz com o que acontece, incluindo um estado emocional que provoca desconforto.

Cada emoção pode ser vista como uma mensagem da alma, do Além. Uma tristeza pode significar apenas um aviso para tirar tempo para estarmos sós, connosco, para nos dedicarmos a nós, para verificar o que queremos e não queremos. Uma raiva pode ser tão-só um grito a dizer “não é por aí”.

Em vez de afirmações positivas e estados de negação, talvez fosse melhor prestar atenção ao que os nossos estados emocionais significam. Não há emoções negativas, há emoções que comunicam connosco, com a mente racional. Receber cada emoção como uma visita, ouvi-la, aprender algo acerca de nós e da vida, é o caminho para a paz.

A felicidade não é possível porque é uma teoria que luta com a própria existência. Já a paz é possível a qualquer um. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Prioridades

Diariamente, momento a momento, a vida apresenta-se como uma série ininterrupta de escolhas.
Levanto-me agora, ou fico na cama mais cinco minutos? Lavo o cabelo ou deixo isso para a noite? Tomo um café ou espero até chegar ao trabalho? Olho para os lados antes de atravessar a rua, ou arrisco um atropelamento? Telefono ao amigo ou vou ao Facebook ver o que todos os outros “amigos” andam a fazer? Preparo um jantar surpresa para a pessoa que digo amar ou espero que ele/ela o faça por mim? Foco a atenção no que está a acontecer aqui e agora ou dedico-me a pensar em tudo o que de mau aconteceu no passado e crio ansiedade em relação a um futuro que ainda não chegou?

Pois é. Prioridades.

Isto significa perguntar-me constantemente o que realmente é importante para mim neste momento. E, claro, isto parece ser muito trabalhoso. Não é. Em realidade estamos constantemente a responder a esta questão através das nossas acções. Inconscientemente.

A companheira pode dizer que nos ama, e as suas acções mostram que queixar-se à amiga acerca de um hábito nosso tem prioridade em relação ao afecto que pode demonstrar por nós. O companheiro diz que somos importantes na sua vida, e as suas acções mostram que a prioridade do dia é agradar ao chefe e não surpeeender-nos com o nosso chocolate favorito. A amiga diz que nós somos importantes na sua vida, e as suas acções mostram que a sua prioridade é colocar fotos maravilhosas e sorridentes no Facebook em vez de um telefonema a falar-nos da sua vida ou perguntar-nos acerca da nossa.

Tornar-me consciente significa perguntar-me, conscientemente, o que é mais importante para mim neste preciso momento. É mais importante mandar um recado público pelo Facebook, ou partilhar um café com um amigo de longa data? É melhor passear e colocar as ideias em ordem, ou passar uma hora na maledicência?

Muitos amigos meus já me ouviram dizer isto: não ouço o que as pessoas dizem, ouço o que fazem. E quando tu deixas de ser uma prioridade na minha vida, a questão a colocar-te é simples: onde é que as minhas palavras e as minhas acções se tornaram incompatíveis, ou incongruentes?

Num relacionamento a dois esta questão das prioridades é o que mantém a relação viva ou a condena à morte ou sofrimento. Como seres humanos é natural querermos coisas uns dos outros. Mentimos se dissermos que não esperamos nada do outro. E se nós tornamos o outro a nossa prioridade e não vemos o mesmo do outro, claro que as nossas prioridades irão mudar também. É natural.

Fazemos todos o mesmo jogo. E hoje, apenas hoje, quais serão as tuas prioridades?


domingo, 29 de janeiro de 2017

Sejam felizes :)

Observo como a grande maioria de livros de auto-ajuda, assim como workshops, retiros e seminários, vendem a ideia de uma vida feliz. Uma vida feliz que é realizável, bastando seguir uma qualquer fórmula. Desde o pensamento positivo à comunicação com anjos e mestres ascencionados.

Em primeiro lugar é interessante observar o que acontece a qualquer emoção positiva, como a felicidade. Dissolve-se no tempo. Não é possível viver feliz o tempo todo. Podemos ficar felizes com a promoção no trabalho, mas esta felicidade durará apenas até ao aparecimento da próxima factura ou contractura muscular.  Claro que estes autores irão imediatamente afirmar que se surge uma factura descomunal ou uma dor insuportável isso é porque não estamos a comunicar honestamente connosco ou noutra vida fomos uns bandidos ou o corpo está a dizer algo que não estamos a ouvir. Pode ser verdade. Mas não pode ser “a verdade”, como se não houvesse todo um conjunto de factores causadores do nosso mal-estar.

A realidade é diferente de toda a felicidade que nos impingem. A realidade inclui tudo, nada fica excluído. Há um beijo doce e que nos faz tremer, e há dores de dentes. Há um passeio mágico num bosque da Toscana, e há a picada de uma vespa no jardim próximo de casa. Há um sentimento de plenitude que surge depois de um sucesso, e há uma depressão inquietante ao morrer alguém que nos é querido.

As emoções negativas são em realidade bastante positivas. Enquanto que as emoções positivas se diluem no tempo, as negativas permanecem e até se intensificam até que a situação que provocou o seu aparecimento seja resolvida.
Podemos sentir alegria ao saber que o nosso salário foi aumentado. Mas esta alegria irá dissolver-se no tempo. Já o ressentimento sentido ao descobrir que o colega usou o nosso trabalho para benefício próprio e sem o nosso consentimento irá manter-se até que consigamos resolver esta situação.

E é aqui que reside o perigo de muitas técnicas de auto-ajuda. Ensinam a ignorar o mal-estar e focar a atenção no positivo. Naquilo que está bem. Só que aquilo que está mal não irá desaparecer. Outras tentam eliminar as emoções negativas através de técnicas . E a realidade é que estas emoções podem esconder-se, mas enquanto a causa existir elas irão interferir no dia-a-dia.

Há uma diferença descomunal entre estar em paz com a vida, com o que acontece, e viver feliz. A pessoa continuamente feliz só o conseguirá através de um estado profundo de negação ou com a ajuda de certas drogas (legais e/ou ilegais).

Poderia respeitar-me o suficiente para permitir que a raiva, o medo, o ressentimento, a mágoa, a dor, tenham a possibilidade de se viver através de mim? E saber que cada uma destas emoções é um mestre que nos oferece algo para aprender.

Vender felicidade é um bom negócio durante algum tempo. Eventualmente poderemos descobrir que é impossível ser-se sempre feliz. Porque a felicidade implica que determinadas condições sejam atingidas. Como ter a casa perfeita, o companheiro perfeito, o trabalho perfeito, e, eventualmente, viver num mundo perfeito. E tal não é possível. O mundo é perfeito mas não da forma que nos foi ensinado.


Já estar em paz com a vida, ser um observador activo e mudar o que quer que seja que peça mudança, exige maturidade.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Partilhar, validar e reagir

Em qualquer tipo de relacionamento, seja entre colegas, pais e filhos, marido e mulher, amigos, há uma interacção em que se partilham experiências. E em qualquer situação dois seres humanos podem ter experiências diferentes e sentimentos diferentes. Isto é absolutamente natural.

Os problemas nos relacionamentos começam quando acreditamos que temos que reagir à partilha do outro. E não temos. O outro, pelos seus gestos, comportamento ou palavras, diz-nos acerca da sua experiência. A partilha termina aí. Eu ouço ou observo e ponto final. Posso ainda falar da minha experiência sem esperar o que quer que seja do outro.

O outro diz que está frio. É a sua experiência. Não tenho que responder que se tivesse vivido na Noruega, como eu vivi, aí sim teria motivos para se queixar do frio.

Observa se a tua partilha é feita a partir de um espaço em que precisas da validação ou aprovação do outro. Quando te queixas ao outro ou comentas a notícia do dia, fá-lo porque partilhas a tua experiência ou para que o outro concorde contigo?

Quando um filho diz ao pai que o odeia, nesse preciso momento está a partilhar a sua experiência da relação com o pai. Não significa que odeia sempre o pai, nem que o irá odiar sempre. É só naquele momento. E é só a experiência do filho. O pai pode ouvir e até verificar onde ele próprio já se odiou. E compreender um pouco da experiência do filho.

Não temos que reagir. Podemos ficar em silêncio e digerir o que é dito ou feito. Se possível conscientes de que há bondade em cada momento. E a experiência da bondade pode provocar lágrimas.

Poderia falar de toda a bondade que caíu sobre mim nas últimas três semanas. Do quanto as pessoas à minha volta são bondosas e generosas. Em realidade já sabia que assim era, mas ainda não tinha tido a experiência física. E por vezes sinto um carinho, uma ternura enorme. E por vezes esta mente fica tão envolvida na experiência que se torna confusa. E processa a experiência. E regressa à quietude que é a sua natureza.

Quando outro ser humano fala contigo, seja um sussurro ou um grito, está apenas a partilhar a sua experiência. A tua função é ser testemunha dessa experiência.

Cada ser humano acredita no que acredita. Até deixar de acreditar. E podemos respeitar as crenças de cada um. Mesmo que para nós pareça um inferno, uma loucura, é aquilo em que o outro acredita. E é ok para o outro acreditar no que acredita.