segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vamos aprender a fazer uma sopa de miso, lasanha de legumes e dois lutos

Isto de haver um processo de se fazer o luto é o mesmo que comparar esta experiência a uma qualquer experiência que envolve acção. Fazer.

Mas será que o luto é algo que se faz, ou é algo que se experiencia?

A própria palavra, luto, limita toda a experiência de não voltar a conviver fisicamente com alguém que nos é querido. Isto só por si pode ser catastrófico para a pessoa a quem morre um ente querido.

Não sei quais são as fases do luto. Parece-me que saber isto servirá apenas para me atormentar. Quanto tempo devo “fazer” o luto? Haverá um tempo? E quem decide acerca desse tempo?

A minha experiência pessoal em relação a este tema é muito difícil de colocar em palavras, como todas as experiências emocionais intensas. Fica-se a saber da morte de alguém que nos é querido e aqui, neste corpo, fisicamente, surgem emoções como a tristeza, a revolta, a vontade de chorar, urrar, bater murros fortes numa parede, soluçar, rir, e de um modo geral, todo um cocktail de emoções, muitas delas avassaladoras. E para mim é ok. Deixo que cada emoção visite. Respeito a emoção. Não a considero errada ou má. Sei que com o tempo estas emoções irão diluir-se. Mas serão sempre bem-vindas.

Quem é que terá decidido que a tristeza, a raiva, a mágoa, são emoções más? Emoções a eliminar da nossa vida? Porque o haveríamos de fazer? Em realidade não conseguimos eliminar estas emoções. Quanto mais lutamos para que elas não marquem a sua presença mais fortes elas se tornam.

Dizer a alguém a passar pela experiência da perda física de um ente querido que “tenha força” ou, mais absurdo ainda, “coragem”, é fazer um pedido para que enterre sentimentos avassaladores. É pedir que não grite, quando há um grito no peito a querer viver-se. É pedir que não chore, quando há uma tristeza profunda a querer mostrar-se.

Em realidade parece-me que a muitas pessoas incomoda a demonstração destas emoções. Como se presenciar alguém a viver sentimentos de desespero fosse incomodativo ou houvesse a necessidade de ajudar a superar o momento. A lógica por detrás de um “tens que ter força” é louca, é a lógica do “se começares para aí a gritar eu vou ter que te ajudar e não sei como fazer isso”.

Na presença de alguém que perde um ente querido a minha atitude é extremamente simples. Estou presente. Faço saber que estou presente. Só isso. E se a pessoa quer gritar, gritar é bem-vindo. Se a pessoa quer chorar, chorar é bem-vindo. E se a pessoa quer falar, o diálogo é delicioso. A pessoa fala, eu ouço. Não tenho que mudar nada, porque não há nada para mudar. Não tento distrair nem animar a pessoa, porque sei que a experiência do outro é única, é a sua experiência. Respeito-a. Isto é tudo.
Há beleza no rosto da pessoa que não esconde o que se faz sentir em si.
E posso sempre convidar a um abraço, um passeio ou um café. Não há forma de errar aqui.

domingo, 18 de setembro de 2016

Relacionamentos perfeitamente imperfeitos (parte ii)

Enquanto crianças é natural querer alguém que cuide de nós. A natureza é mesmo assim. Podem chamar-lhe instinto de sobrevivência ou necessidade natural, o certo é que enquanto crescemos procuramos quem cuide nós. Regra geral chamamos-lhes pai e mãe. Ou Maria e Francisco. Ou Bruxa Má e Ditador. Independentemente do rótulo atribuído, a necessidade de apoio, segurança, comida, é natural.
O mesmo não se pode dizer de um adulto.
Um relacionamento íntimo saudável entre dois adultos só pode funcionar quando ambos reconhecem o outro como igual. Ambos têm desejos, frustrações, hesitações, receios, forças, trabalho.
Mas, como muitos de nós esquecemos de largar a necessidade da infância de apoio e segurança, começamos a ver o parceiro como o provedor destas necessidades.
Inicialmente até pode ser delicioso cuidar do outro. Eventualmente torna-se um peso bastante pesado.
Esperamos que o outro cuide das nossas necessidades (ou é esperado de nós cuidar do outro), e quando o não faz, nós fazemos birra. Em criança, a birra era vista como desagradável pelos adultos. Então, em vez de espernearmos no chão e desatar aos berros, optamos pelo tratamento silencioso (aka “amuo”). Fechamo-nos e ficamos à espera que o outro descubra onde está a falhar. Ou, optamos pela agressividade mais activa, gritando, questionando, insultando.
Um adulto mentalmente são não se relaciona intimamente com uma criança. É crime e estamos naturalmente programados para sentir repulsa. Mas se o adulto que está connosco necessita de cuidados constantes, de estar sempre informado acerca das nossas andanças, de saber porque motivo estamos tristes ou alegres, a relação deixa de ser entre dois adultos e passa a ser entre um adulto e uma criança num corpo de adulto. Na pior das hipóteses a relação passa a ser entre duas crianças em corpos de adulto. Não funciona.
Para melhor criar uma relação saudável entre dois adultos verifica primeiro o que queres da outra pessoa. Faz uma lista. De seguida experimenta dar-te a ti tudo o que tens na lista. Vai mais longe ainda e tenta dar isso mesmo ao outro. Sei que não será fácil. Mas começarás a compreender porque motivo a relação estagna ou surge o distanciamento.
No próximo seminário “Relacionamentos (im)perfeitos” iremos individualmente mergulhar nas nossas necessidades individuais, iremos aprender a ouvir e processar o que é dito e, sobretudo, aprender a amar a criança que há em nós sabendo que as suas necessidades são continuamente preenchidas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Relacionamentos perfeitamente imperfeitos (parte i)

Vamos mergulhar na realidade dos relacionamentos íntimos entre dois adultos.
O primeiro aspecto que aparentemente temos dificuldade em assumir perante o amor da nossa vida é que queremos coisas do outro. Aquilo que chamamos amor é na maior parte das vezes um jogo de interesses muito bem camuflado.
Eu dou-te sexo, se tu me deres uma vida social. Eu dou-te uma vida social se tu me deres atenção. Eu dou-te atenção se tu me deres segurança.

Mas não temos a integridade nem maturidade de dizer ao outro o que queremos dele. Esperamos que adivinhe. Da mesma forma, tampouco sabemos o que o outro quer de nós. Então dedicamo-nos ambos ao jogo do adivinha. Eu fico à espera que adivinhes o que eu quero de ti, e, por conseguinte, eu vou estar atento às tuas pistas para adivinhar o que queres de mim.

Claro que ambos iremos falhar. Isto porque a humanidade no seu todo adora duas coisas: a novidade e a aventura (ok, muitos gostam de uma aventura cheia de segurança e sem surpresas desagradáveis, o que é impossível). E ao procurar a segurança na relação iremos perder ambos. Tornamo-nos controladores. Por vezes de uma maneira subtil (“mandei-te um sms e demoraste trinta e cinco minutos a responder, onde é que estavas?”), outras vezes de maneira hostil e obnóxia (“sei que andas a meter conversa com outras gajas no Facebook, não sou estúpida, percebes?!”).

Como em realidade eu não te digo o que quero directamente, nem tu a mim, a relação irá sofrer com esta atitude. Eu quero que me dês atenção, e quando estás colado ao iPhone a jogar Pokémon Go eu amuo (“Pista! Presta atenção! Hello?! Então não vês que quero que esqueças aquilo que gostas para te dedicares aquilo que eu gosto, que basicamente é ter a tua atenção”).

De maneira idêntica o outro quer sexo, embora tu estejas a mil à hora na tua cabecinha a pensar no que irás vestir naquela festa fabulosa do próximo fim-de-semana, e sexo é uma coisa que nem te passa pela cabeça. Então quando o teu “mais-que-tudo” te acaricia a tua mente faz o filme do “então não vês que não sou capaz de decidir entre o vestido justinho rosa choque Alexander Wang com os sapatos Miu Miu, e o macacão Prada com as sandálias Brain Atwood?!”. E a carícia do companheiro torna-se a faca que golpeia a relação (neste caso a tua relação com a indumentária do fim-de-semana, percebes isto, não percebes?).

Como ambos querem coisas diferentes, o que é absolutamente natural, mas nenhum tem a coragem de o afirmar, excepto quando a loucura é tanta que desatam aos gritos e insultos,  a relação está condenada ao fracasso desde o início.

Alguns de nós, por motivos variados, optamos então por nos tornarmos subservientes e dizer “sim” a tudo, incluindo a depressão que não sabemos porque se instala.

A solução mais prática, e que não aprendemos, é nós próprios termos a capacidade de nos dar aquilo que exigimos ao outro. Isto liberta o outro para ser quem é. Sem a necessidade de um companheiro/namorado/marido, a vida torna-se doce, suave, leve. E amorosa, que é o que pretendemos quando iniciamos um relacionamento íntimo.

Depois, para os mais requintados nesta arte de sofrer a dois, há a necessidade do companheiro se tornar um paizinho, sempre disponível para lhe fazer as vontades. Ou numa mãezinha, atenta a todas as suas necessidades. Mas isso é uma outra história que podemos ler mais tarde.


domingo, 3 de julho de 2016

Um encantamento atractivo


Acreditamos que se formos pessoas atractivas a nossa vida será fácil, ou pelo menos será fácil atrair alguém que desejamos. Tornar-se atraente ao outro. E as mil e uma maneiras como o podemos fazer.

Há sete passos para o sucesso, ou quinze segredos da felicidade, ou as vinte virtudes para viver bem, ou uma gigantesca lei da atracção.

Isto é tentar vender a ideia que é possível controlar a vida. De alguma forma temos o poder de atrair o que desejamos.

As aranhas são boas nisto da atracção. Constroem teias para atrair a próxima refeição. E embora sejam boas a construir a teia, sem necessidade de recorrer aos sete passos para o sucesso nem aos quinze segredos da felicidade, a realidade é que na teia pode cair uma mosca ou gafanhoto (happy meal!) como pode cair um turista desatento que obrigará a pobre aranha a construir nova teia. Se ao menos as aranhas soubessem e aplicassem a lei da atracção, nunca passariam fome! Claro que os restantes insectos aprenderiam também a famosa lei da atracção e... Começam a imaginar o desarranjo na fauna.

Muitas terapias e movimentos filosóficos tentam ensinar formas de controlar a vida. Se aprenderes a usar roupa como deve ser e a colocar maquilhagem como uma profissional de dança burlesca, o homem dos teus sonhos irá sentir-se atraído por ti, tal como a mosca é atraída pelo brilho da teia da aranha. A questão é se tu queres um companheiro que gosta de ti por seres quem és, ou por teres criado uma imagem atractiva. Manter uma imagem sai muito caro. A imagem do bom pai, da boa esposa, do bom funcionário. Todos muito bons. Podem é ter que pagar um preço muito elevado por tanta bondade que é imagem.

Em pequenos contam-nos histórias de princesas e príncipes que acabam sempre felizes. Claro que é bom que as histórias terminem no momento em que o casal assume que será feliz para sempre, antes que apareçam os filhos, o desemprego, a doença, etc. Isso não se pode contar porque destrói o mito do feliz para sempre.

Um ser humano completo é feito de alegria e tristeza, saúde e doença, labuta e preguiça, calma e tensão, paz e guerra. Pelo menos por agora. E querer só uma parte do ser humano é condenarmo-nos a uma vida de sofrimento.

Em realidade queremos que os outros se comportem como nós queremos. Da mesma forma que a aranha só quer na sua teia aquilo que pode devorar (esta comparação com os aracnídeos está a tornar-se um bocado tétrica, parece-me).

Observa o que acontece quando gostas de alguém. Observa o que sentes. Tu és isso que sente. Sem palavras, sem explicações, sem necessidade de compreender o que raio se está a passar, para além do facto de que te sentes bem. Mas se precisares que o teu gostar seja retribuído, se for necessário que a pessoa de quem gostas goste também de ti, poderás perder o sentimento de gostar.  E é ao perder este sentimento, porque o teu gostar não é validado ou retribuído, que perdes a presença de ti mesmo. Abandonas-te.

Gostar dos outros é a tua função. De quem os outros gostam não te diz respeito.

Quanto a controlar a vida, andamos a tentar fazê-lo há já algum tempo. Não me parece que seja possível. 

Aqueles chavões de “tu és capaz” ou “nada é impossível” são mesmo e só isso: chavões. Não tentes ser mais do que és, irás falhar. Não tentes mostrar que és melhor do que és. Ninguém é melhor que ninguém. Cada um de nós está a ser quem é e quem consegue ser. E podemos mudar, obviamente. Podemos mudar porque é um movimento natural ou podemos mudar para sermos melhores que os outros. No primeiro caso iremos experienciar a paz, no segundo iremos fazer guerra com todos aqueles que não concordarem connosco.

O primeiro passo (são sete, li algures) para o bem-estar é conseguires ouvir-te. Em vez de andar aos saltos a tentar agradar a todos e tentar que todos se sintam bem na tua presença, ouve-te. O que é que tu realmente queres? E o que podes fazer? Se não sabes o que queres, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Se ainda não sabes o que podes fazer, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Descansa. Desfruta do vento na cara. Ou dos gritos dos miúdos à tua volta. Ou da roupa por lavar amontoada a um canto. Tudo está bem como está. E o que é para fazer a seguir? Ouve-te.

Não tentes ser quem os outros querem que tu sejas. Sê quem tu és. E quem tu és será visto pelos outros como bondade e maldade, beleza e fealdade, honestidade e mentira. Completo.
Parece-me muito atractivo.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A arte de saber ouvir

Tudo o que sei e aplico na minha vida é fruto da observação, da experiência. Os livros e os professores ocupam um lugar importante. Ensinam a ler e a escrever e a compreender. São úteis.
Mas para viver em paz comigo e com os outros só é possível se parar, observar sem qualquer ilusão a realidade, aquilo que está a acontecer.
E por isso digo muitas vezes que não ouço o que as pessoas dizem, ouço o que as pessoas fazem.
Aprendemos tudo acerca da vida nos primeiros cinco ou seis anos. Os pais dizem que nos amam. Nós ouvimos eles dizerem isso. E o que é que ouvimos mesmo? O que é que ouvimos os pais fazer quando não somos a criança que eles querem que sejamos?
“Feio, isso não se faz!”
“A tua irmã é melhor aluna.”
“Se voltares a fazer isso vais para o inferno!”
“Não gosto de ti, és má!”
E por aí adiante. Os pais mostram que amam com acções simples, pouco emotivas. Mas quando reprovam um comportamento fazem-no com mais emoção, num estado alterado. E depois ouvimos como os pais mostram que se amam entre si. Amuando, criticando, discutindo. É assim que ouvimos e aprendemos.
Claro que se os nossos pais fossem iluminados saberiam que os filhos têm por missão mostrar-lhes onde eles mesmos não se respeitam, não se amam, não se ouvem. Eventualmente aprendemos que afinal os pais são sábios. A sua função é criar problemas aos filhos. A função dos filhos é encontrar a solução desses problemas. Mas só se quiserem paz.
E é assim, muito cedo, que permitimos ser programados. Não questionamos. Tantas vezes ouvimos, através da acção, que não prestamos ou que não somos bons, que iremos viver esse programa como adultos. Sem nunca questionar.
Ouvimos dos nossos pais, há milhares de anos, que a vida é difícil, que é injusta, que as coisas más acontecem às pessoas boas. Como poderemos nós descobrir que a vida é bondade absoluta com este programa?
Como adulto continuo a ouvir o que as pessoas fazem. Dizem-me que estão mal e precisam de ajuda. E quando proponho uma possível solução dizem-me que não. “Sim, estou mal e a precisar de resolver uma série de coisas, mas fazer as pazes com a mãe é que não faço!” – e outras respostas idênticas. Nenhuma pessoa está capacitada para ajudar outros enquanto não conseguir ver toda a humanidade como preciosa, útil e sábia.
Alguém diz que me ama, e observo como amua quando não faço o que espera de mim. Alguém diz que me respeita, e depois observo como me inunda com desgraças. E claro que sou eu quem permite tudo isto. Eu não me ouço também.
Comecei a ouvir-me ao descobrir que ninguém tem o poder de me magoar. Ninguém consegue faltar-me ao respeito ou insultar-me. Só eu tenho esse poder. Ouço-me.
Digo que quero paz na minha vida e depois dedico-me a queixar-me de tudo o que está errado. Sou mentiroso. Se quero paz, poderia começar a ouvir o que faço? É impossível ter paz enquanto me dedico ao que está errado e me causa mal-estar. Poderia começar a dedicar-me a tudo o que está certo na minha vida. Por exemplo, esta respiração a acontecer sem esforço.  E consigo ver. E consigo falar. E tenho um computador. E as coisas boas na minha vida são tantas que não há espaço para as coisas más.
Eventualmente ouço-me a descobrir que não tenho nada e isto traz-me ainda mais liberdade. Não possuo nada nem ninguém. Se alguém tirar o portátil que acreditava ser meu, só pode ser para o meu bem. Sei que a vida é bondade. E dedico-me a descobrir de que maneira não ter um computador portátil é uma coisa boa.
Há uns dias alguém me perguntava se seria bom para mim perder todos os clientes. Se não tivesse qualquer fonte de rendimentos. Em poucos minutos vi tantos benefícios que escolhi parar, podia mesmo ficar sem clientes. Sem clientes poderia dedicar-me a mim. Sou a pessoa que sobra quando não há mais ninguém. E não teria que pagar a renda do espaço que alugo. E não teria que me levantar às seis e trinta todas as manhãs. E não teria que ir para o Porto todos os dias. E podia dedicar-me à agricultura a tempo inteiro. E teria mais tempo para estar com aqueles que amo (o que é relativamente fácil: são sete mil milhões de acordo com as últimas estatísticas). E ter clientes é igualmente bom.
Ouço pessoas a falar de amor e de que somos todos um. Costumam ser as mesmas pessoas que depois criticam os políticos, os mais religiosos, os que não seguem a sua filosofia de vida. Chama-se a isto fundamentalismo. São ainda estas as pessoas que carregam as maiores feridas. O que ouço é que as pessoas que mais falam de amor e compaixão são as que mais se afastam desta experiência. Chama-se a isto a sombra humana.
Eu ouço o que tu fazes. E ouço o que eu faço. Quando dizes que queres paz para o planeta e julgas os que maltratam um animal estás em realidade a criar mais guerra. Alguma vez paraste para pensar como será a vida daqueles que magoam, ferem e abandonam outros? Não me parece que seja uma vida muito serena. E ao criticar estas pessoas estamos em realidade a dizer-lhes que a guerra funciona, que magoar e ferir é ok. É o que fazemos, não é verdade?
Como posso querer a paz e o amor quando critico, julgo, desrespeito, amuo, vingo-me ou afasto-me? Quando quero que os outros deixem de ser quem são para serem quem eu quero que sejam? Quando eu deixo de ser quem sou para agradar porque ainda acredito que preciso que gostem de mim?
Se vejo um animal abandonado posso sentir algum amor pela pessoa que abandonou o animal e ajudar a criatura da melhor maneira que me for possível. É este o exemplo do amor. E a pessoa que abandona o animal pode ouvir-me a ser amor.
Se o filho é desarrumado, poderia mostrar-lhe a delícia de ser arrumado? Começando por arrumar as minhas ideias sobre o certo e errado. E descobrir onde sou desarrumado. O filho teve que aprender a ser desarrumado com alguém. Muito provavelmente comigo.
Ainda esta manhã uma amiga me falava dos pobres animais que são maltratados em laboratórios onde lhes fazem experiências terríveis e testam um novo perfume ou outra coisa assim. É terrível, é verdade. E o que podes fazer em relação a isso? Parar de comprar produtos que tenham sido testados em animais. Por outro lado, é graças a muitos destes animais em laboratórios que uma pessoa é salva. Quase todos os medicamentos foram testados em animais. Pensa nisso da próxima vez que tomares um antibiótico.
Se queres paz e amor ouve como tratas aqueles que esqueceram esta experiência. Que exemplo lhes damos ao apontar o dedo, ao exigir que mudem. Dizemos amor enquanto fazemos guerra.
O que ouço da vida é que é bondade absoluta. E digo-o também pelas centenas de pessoas com quem tive já o privilégio de trabalhar. Pessoas sábias que descobrem que por detrás de cada desgraça e erro há ouro puro. Com muita frequência vejo pessoas começar a trabalhar “o pai bateu-me” e terminam com “o pai amava-me”. E não, não faço lavagens cerebrais, apenas questiono até não haver mais questões e a realidade mostrar-se como é.

Ouço o que faço e ouço o que fazes. E não quero nunca que mudes. Não preciso que mudes para eu estar bem.