domingo, 15 de janeiro de 2017

Partilhar, validar e reagir

Em qualquer tipo de relacionamento, seja entre colegas, pais e filhos, marido e mulher, amigos, há uma interacção em que se partilham experiências. E em qualquer situação dois seres humanos podem ter experiências diferentes e sentimentos diferentes. Isto é absolutamente natural.

Os problemas nos relacionamentos começam quando acreditamos que temos que reagir à partilha do outro. E não temos. O outro, pelos seus gestos, comportamento ou palavras, diz-nos acerca da sua experiência. A partilha termina aí. Eu ouço ou observo e ponto final. Posso ainda falar da minha experiência sem esperar o que quer que seja do outro.

O outro diz que está frio. É a sua experiência. Não tenho que responder que se tivesse vivido na Noruega, como eu vivi, aí sim teria motivos para se queixar do frio.

Observa se a tua partilha é feita a partir de um espaço em que precisas da validação ou aprovação do outro. Quando te queixas ao outro ou comentas a notícia do dia, fá-lo porque partilhas a tua experiência ou para que o outro concorde contigo?

Quando um filho diz ao pai que o odeia, nesse preciso momento está a partilhar a sua experiência da relação com o pai. Não significa que odeia sempre o pai, nem que o irá odiar sempre. É só naquele momento. E é só a experiência do filho. O pai pode ouvir e até verificar onde ele próprio já se odiou. E compreender um pouco da experiência do filho.

Não temos que reagir. Podemos ficar em silêncio e digerir o que é dito ou feito. Se possível conscientes de que há bondade em cada momento. E a experiência da bondade pode provocar lágrimas.

Poderia falar de toda a bondade que caíu sobre mim nas últimas três semanas. Do quanto as pessoas à minha volta são bondosas e generosas. Em realidade já sabia que assim era, mas ainda não tinha tido a experiência física. E por vezes sinto um carinho, uma ternura enorme. E por vezes esta mente fica tão envolvida na experiência que se torna confusa. E processa a experiência. E regressa à quietude que é a sua natureza.

Quando outro ser humano fala contigo, seja um sussurro ou um grito, está apenas a partilhar a sua experiência. A tua função é ser testemunha dessa experiência.

Cada ser humano acredita no que acredita. Até deixar de acreditar. E podemos respeitar as crenças de cada um. Mesmo que para nós pareça um inferno, uma loucura, é aquilo em que o outro acredita. E é ok para o outro acreditar no que acredita.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A mente e o coração amam de maneiras diferentes

A maioria do stress na nossa vida ocorre porque a mente e o coração falam linguagens diferentes.

A linguagem da mente é aprendida, transmitida ao longo dos séculos. Aprendemos a rotular objectos, pessoas, situações. Aprendemos que há coisas boas e más, situações certas e erradas, pessoas bonitas e feias. Tudo isto é apreendido desde muito cedo.

A mente acredita nestas histórias do certo e errado. Acredita que errou ou que poderia ter feito diferente. Acredita que há uma forma melhor de viver a vida. Acredita que há uma reacção apropriada. A mente sabe o que está fora de lugar. A mente sabe viver no caos, em busca da ordem. A mente dita como viver. A mente quer coisas.  A mente quer ser compreendida. A mente sabe o que é melhor para si e para os outros. Dá conselhos.

A linguagem do coração é completamente diferente. Por exemplo, muitas pessoas acreditam que a experiência de estar apaixonado é um evento do coração. Não é. A paixão é fabricada pela mente. A mente conta uma história acerca de uma pessoa e apaixonamos pela história que se conta e acreditamos que estamos apaixonados.

O amor, enquanto linguagem do coração, é uma experiência totalmente diferente. A experiência deste amor costuma provocar lágrimas. Consome-nos a partir de dentro. Uma parte de nós parece morrer (a parte criada pela mente). Este amor é uma experiência emocional sem palavras, em que há um chorar, um gritar, um urrar. O amor do coração não tem explicação nem é possível compreender.

A mente enlouquece perante a experiência deste amor porque quer compreender. O coração sabe que não há nada para compreender. Vive o momento.

A linguagem do coração é muitas vezes interpretada pela mente como estúpida ou errada. A mente sabe! E não se discute. O coração não sabe, e limita-se a viver momento a momento.

O coração é o que diz para amar mesmo quando o outro quer afastar-se. A mente resiste ao afastamento e quer outra história. O coração diz que amar outro sem que esse amor seja retribuído é ok.

Quando se ama realmente, a partir do coração, permitimos que o outro seja quem é. Respeitamos as suas decisões (maioritariamente da mente). Eu amo-te, e tu ama quem quiseres. Isto é uma atitude do coração. A mente afirmará algo como “eu amo-te, e se fores a pessoa que eu quero que sejas, seremos felizes.”

O amor que nasce do coração é doido e idiota. Ama simplesmente porque amar é a sua natureza. O amor da mente é aquele que vê a relação como um investimento no futuro, um apoio, uma segurança. A mente ama com algumas condições. O coração ama incondicionalmente.

A mente ama e quer ser amada de volta. A mente mata para ter amor. O coração ama, e respeita o que não ama de volta. Ama porque é a sua natureza. Mas não faz exigências.

O amor da mente conduz à depressão quando não é correspondido.
O amor do coração conduz a um regresso a si mesmo quando não é correspondido, através de lágrimas, de uma pressão no peito, uma angustia, que gritam “regressa a ti”.

ps: as canções ditas românticas falam do amor da mente, interesseiro e que ameaça morrer se não tem o que quer. O amor do coração raramente é cantado, não vende porque a mente não gosta.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ser "frontal" ou ser adulto?

Há um oceano a separar o “agradar” do “ser adulto”. Entre o "ser frontal" e possuir espaço que permita que outros vejam a vida de maneira diferente.


Há pessoas que se dizem “frontais” e “honestas” e que não têm problemas em dizer o que realmente pensam acerca de um determinado assunto. E, nos dias em que se se sentem mais animadas, até afirmar que são quem são e não fazem nada para agradar, e quem está mal que se mude.

Isto é lindo. Lindo quando dito por uma criança de cinco anos. Porque um adulto que faz estas declarações obviamente que ainda não se apercebeu que é adulto e que as birras não lhe ficam bem. É um adulto sem filtros.

Agradar a outros significa fingir, fazer de conta, ou fazer um frete. Não é saudável, obviamente. Mas vejam se conseguem perceber a diferença entre o “agradar”, o “ser adulto” e o “sou criança em corpo de adulto e muito frontal acerca disso”.

Imaginemos a situação, real muitas vezes, de um grupo de amigos em que um deles é adepto do Benfica enquanto todos os outros são adoradores do futebol clube do Porto. Um dos portistas afirma que o porto é o melhor do mundo, o campeão, não há outro igual.
De acordo com a maturidade do benfiquista, as suas respostas possíveis serão:
“Ah, sim, claro.” – O que gosta de agradar.
“Compreendo que vocês são adeptos do Porto e as minhas preferências são outras, é ok vocês pensarem assim. Somos muito parecidos. Eu penso praticamente a mesma coisa acerca do Benfica.” – o adulto, adulto.
“O Porto?! Essa porcaria de clube?!?! Vê-se mesmo que não percebem puto de futebol! Então não se está mesmo a ver que o Benfica é o melhor do mundo?!” – o “frontal” e “honesto” que não guarda nada.

A pessoa “frontal” é muitas vezes acusada de “ter mau feitio”. Isto é uma forma adulta de dizer que a pessoa não tem filtros e vomita da boca para fora o que lhe vai na cabeça. Ou seja, acredita que as suas opiniões acerca de qualquer assunto são mais válidas do que as dos outros.  São as pessoas que julgam o sujeito em vez da acção. Em vez de afirmar que a sopa precisa de sal, preferem dizer que a cozinheira não sabe cozinhar. Estas pessoas, regra geral, têm muita dificuldade em ver a bondade da vida a acontecer diante dos seus olhos.

Há uma diferença enorme entre respeitar as opiniões dos outros e querer que os outros concordem com as nossas opiniões.
Muitas vezes temos um comportamento infantil quando a vida não acontece como nós queremos. Quando os outros não concordam connosco. Quando surgem desafios e acreditamos que somos merecedores de qualquer outra coisa menos o desafio à nossa frente.

Não temos que agradar aos outros. Mas também não temos que ter um comportamento infantil e atacar os que pensam e agem de forma diferente.

Agradar aos outros é típico da pessoa imatura, mas atacar a opinião ou comportamento do outro só porque é diferente é também imaturo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quem está mal que se mude

Observo como muitas pessoas gostam de afirmar que não mudam, como se isso fosse algo positivo. Não é.
A vida é toda ela feita de mudança. Sempre em mudança. Tudo muda. Excepto algumas pessoas que acreditam que mudar significa rejeitar-se enquanto ser humano.

A mudança de que falo, enquanto ser humano, é a capacidade de adaptabilidade. A vida muda, circunstâncias mudam, e nós podemos endurecer e lutar contra a mudança ou podemos adaptar-nos.

O nosso drama maior é acreditar que sabemos o que é melhor para nós e, consequentemente, para os outros também. O melhor para mim é viver ao teu lado. O melhor para ti é tratar-me com dignidade. Acreditar que sei o que é melhor para mim é não confiar na vida. Quando eu sei o que é melhor para mim (ter saúde, um bom salário e muitos amigos) e a vida atira-me para o desemprego, eu sofro. E não confio o suficiente na vida para saber que o desemprego pode ser uma oportunidade de mudança radical para algo melhor.

Nos relacionamentos também é importante mudar. Há uma diferença entre mudar para ter a outra pessoa ao nosso lado e mudar porque a vida pede mudança.
Um exemplo. A companheira gosta de passear à beira mar e tu gostas de visitar museus. No velho modelo, é esperado que mudes para agradar à companheira, negando os teus gostos. Isto é algo que só se consegue manter durante algum tempo. Num novo paradigma, tu podes experimentar um passeio à beira mar para aprender algo que te tenha escapado. Fazes o passeio com o objectivo de aprender e não de agradar. E no fim podes descobrir que realmente não gostas de passear à beira mar, e não há qualquer problema. Mas pelo menos deste-te a oportunidade de descobrir algo.

A mudança significa ainda que a pessoa que era ontem não existe. Hoje há uma nova pessoa aqui. Ontem acreditava que iria sofrer para sempre. Hoje alguém oferece-me um sorriso e mostra-me que o sofrimento é uma opção.

As pessoas que se mantêm em situações de sofrimento (seja num trabalho mal pago, num relacionamento violento ou a ir a festas que se detesta) fá-lo porque tem pavor da mudança. E também porque está a colher benefícios da situação. Detesto o trabalho que faço, mas paga as contas. Não gosto dos gritos histéricos da companheira, mas pelo menos não estou só. O pai trata-me mal, mas pelo menos posso contar com ele numa situação de aflição.

Acreditamos muitas vezes que temos a razão do nosso lado, e que os outros é que estão errados e deveriam mudar. Isto é acrescentar mais sofrimento à vida. O oposto é mais real: eu estou errado e eu é que posso mudar. Mudar de emprego, mudar de lugar, mudar a atitude. Mas ensinaram-nos que estar errado é mau, que fazer asneira é mau, e que perder a razão pode despoletar uma guerra mundial. Saber-me errado permite-me aprender mais. Saber-me sem razão permite-me ouvir os outros. Saber que fiz asneira permite-me reconhecer a vulnerabilidade de todos os seres humanos.

O que tens medo que aconteça se te permitires mudar? Se estiveres disponível para desistir da pessoa que acredita na maldade do ser humano e passares a acreditar na bondade de toda a humanidade? Que crenças e preconceitos barram o teu processo de mudança? 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Relacionamentos Saudáveis


Só é possível viver um relacionamento saudável com outro ser humano quando o relacionamento que temos connosco é saudável. 

Como me relaciono com este corpo? O que acredito acerca dele? Deveria ser diferente? Mais magro, mais gordo, mais alto, mais baixo, mais bonito, mais moreno? O que há acerca deste corpo que ainda não aceito?

Depois há a relação com as emoções. Emoções são a vida da alma. Surgem, visitam, querem viver-se em nós. Por outro lado fomos ensinados que há emoções negativas ou más, que é melhor suprimir. A supressão de uma emoção conduz inexoravelmente a feridas na alma. Permitir que a emoção se viva na totalidade é a única saída para um bom relacionamento intimo connosco. Uma fúria, um medo, uma angústia, um terror, uma ansiedade.
Permitir que a emoção se viva na totalidade pode ser assustador. Sobretudo se vivermos acostumados a suprimi-las (porque são más, obviamente). Nenhuma emoção é negativa ou má quando permitimos que se viva na sua totalidade. E isto não significa despejar os nossos estados emocionais para cima dos outros.

Depois disto, dedica algum tempo a descobrir a tua natureza. A nossa natureza é uma qualidade. Pode ser a bondade, a generosidade, o carinho, a alegria, a calma. Qual a qualidade que expressas naturalmente sem esforço? Vive a partir daí.

E passamos para os relacionamentos com aqueles que nos rodeiam, desde a companheira ao pai ou tio ou colega de trabalho.

Quando a relação que mantemos connosco é amorosa iremos dar por nós a precisar de comunicar  verbalmente muito pouco com os outros. O nosso exemplo é suficiente. Através do nosso comportamento mostramos o que gostamos, o que apreciamos. Os outros poderão ver o nosso exemplo e segui-lo, ou podem não estar no ponto necessário para ver e ouvir. E é ok que assim seja.

Ultimamente tenho estado mais consciente do quanto não conseguimos ouvir os outros. Porque não nos ouvimos a nós mesmos.

Se para ti é importante o carinho, para a pessoa ao teu lado pode não ser. Podes mostrar a essa pessoa que o carinho é importante. E se essa pessoa não está disposta a demonstrar carinho, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar. Se para ti é importante a calma, a tranquilidade, e a pessoa com quem vives tem acessos de fúria, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar.

Temos medo muitas vezes de abandonar um relacionamento porque o medo do desconhecido nos foi incutido desde muito cedo. Este medo só é possível enquanto a relação que manténs contigo não for saudável.

No próximo workshop na Espiral (Lisboa) em Janeiro de 2017, iremos mergulhar sobretudo nesta coisa chamada auto-estima, amor-próprio e relação amorosa connosco. A todos os que escolherem participar desde já informo que será um privilégio para mim poder acompanhar o processo individual de cada um.