sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A Projecção de Pais para Filhos

Há algum tempo atrás tive a oportunidade de trabalhar com um homem que não falava com o filho havia mais de 10 anos. O motivo era, aparentemente, trivial: o filho era muito mentiroso.

Pela maneira como este senhor reagia ás mentiras do filho era óbvio que estava a projectar o seu aspecto rejeitado de mentiroso. Nós só reagimos de maneira inapropriada aos comportamentos dos outros quando estamos a projectar. Ou seja, quando vemos no outro um aspecto que rejeitamos, negamos ou deserdamos em nós. Quando afirmamos alto e bom som “Eu não sou assim!”.

Depois de mais de uma hora a trabalhar com este senhor não conseguíamos ver de que maneira ele mentia (e ele tinha que estar a mentir ou não teria a reacção que tinha em relação ao filho). A sua esposa olhava de vez em quando para mim e acenava com a cabeça afirmativamente. Cansada das minhas perguntas disse-me sorridentemente: “olhe que é verdade. Conheço o meu marido há 32 anos e ele nunca disse uma mentira, nunca!”

Não acreditei. Eu conseguia ver mentira nele, era a sua máscara social, e no entanto não havia lugar na sua vida para a mentira! Eventualmente contou-me que era empresário por conta própria. Num momento de pura intuição atirei-lhe com mais uma pergunta: “declara todos os seus rendimentos ao estado?”

Foi engraçado ver a reacção deste senhor. Corou muito, ficou agitado, e de braços no ar respondeu-me: “Isso é um tipo de mentira muito diferente, meu jovem!”

Isto é o que acontece com a nossa sombra. Fazemos precisamente aquilo de que acusamos os outros, mas no nosso caso não conseguimos ver as coisas da mesma maneira, são diferentes.

Depois pedi-lhe que me desse dois exemplos em que mentir poderia ser útil a uma pessoa. Ele não conseguia ver nenhuma utilidade na mentira. Propus-lhe uma situação: imagine que tem um filho de 12 anos que passa muito tempo a falar com um amigo na internet. Eventualmente o seu filho descobre que o “amigo” em vez de ter 12 anos tem 45 e é pedófilo. Se o seu filho mentisse e dissesse que na realidade tinha 40 anos, era agente da Policia Judiciária e sabia onde o “amigo” vivia?... Esta mentira poderia ou não ajudar o seu filho e ainda outras crianças?

Ele conseguiu ver o meu ponto de vista (e podem imaginar o meu suspiro de alivio!). A seguir informou-me que afinal não falava com o filho mas era mais porque ele era um burro. Podia estar a trabalhar com o pai num negócio de sucesso, e em vez disso estava a trabalhar como segurança numa empresa a ganhar uns tostões.

Nesta situação não esperei para que ele visse de que forma era burro. Passei logo à pergunta: de que forma ser burro pode ser útil? E aproveitei para falar de mim. Eu sou burro, sou mesmo muito burro. E tinha tanto medo que outros descobrissem a minha burrice que me ‘matava’ a estudar! Foi o burro em mim que fez com que adquirisse um gosto pela leitura, pelo conhecimento. E foi curioso o que sucedeu. Este homem, corpulento e bem sucedido, começou a chorar. Quando era criança o pai chamava-lhe burro quase diariamente. Ele jurou a si mesmo que havia de mostrar ao pai quem era o burro! E devido a esse insulto deu o seu melhor e criou três empresas de sucesso! Mas o choro era por outro motivo: ele fizera ao filho exactamente a mesma coisa que o pai lhe tinha feito a ele!

E aqui surge a oportunidade de começar o processo de curar as nossas feridas emocionais. Quando começo a ver os presentes que existem nos dramas da minha vida e dou início ao meu perdão e ao perdão dos que me magoaram.

Aconselho os pais a fazerem este exercício antes de apontarem o dedo a um filho. Descubram quais os defeitos que vêem no filho. Vejam depois de que maneira fazem a mesma coisa, ou têm o mesmo comportamento. De seguida perguntem-se se há algum benefício a resgatar (há sempre).

Antes de acusar um filho de um comportamento “errado” estude muito bem qual o aspecto positivo desse comportamento.

Tenha em atenção ainda o aspecto oposto! Por exemplo, pode ter um filho extremamente preguiçoso que lhe está a mostrar a sua sombra. Mostra-lhe que você não dá a si mesmo tempo para relaxar e desfrutar um pouco da vida. Esta atitude é comum em crianças cujos pais são muito ocupados e com o tempo bastante preenchido. A criança está apenas a mostrar o que poderia estar disponível ao progenitor se se permitisse algum tempo a fazer nada. Neste caso, fale com o seu filho sobre a preguiça. E não diga que as crianças não entendem! Pode começar por lhe agradecer o facto de lhe estar a mostrar que a vida não é para ser levada tão a sério, que precisa de tirar um tempo para si. E depois cumpra! Só quando você começar a expressar a sua preguiça é que o seu filho estará livre para ser ele próprio, sem uma projecção sua.

-----

NB – andei algum tempo a pensar em voltar a estudar (no sentido de ensino convencional, porque nunca parei de estudar). Achei que deveria fazer um curso de psicologia, assim estaria melhor preparado para o trabalho que faço. Mas depois de ver os currículos de várias faculdades fiquei apático em relação a estes cursos. Não vi uma única cadeira que me suscitasse interesse! Agora compreendo porque a maioria dos psicólogos são pessoas complicadas! (e sim, mostram-me o complicado em mim). Os cursos de psicologia que vi são todos intelectualizados, tudo na cabeça! E nós agimos a partir do coração, dos sentimentos, e nunca da intelectualização dos mesmos! Por isso ouvimos as pessoas dizer “não sei onde tinha a cabeça quando disse/fiz isso!” Claro que não sabia onde tinha a cabeça: o coração fala mais alto!

3 comentários:

  1. Eu também já estive interessada em estudar psicologia, mas o currículo não me atraia. Em conversa com uma amiga que é psicóloga, ela disse-me que para mim o melhor seria fazer o curso de Gestalt.

    ResponderEliminar
  2. Muito bom saber isto!
    Emidio publique mais informações destas sobre educação dos filhos
    Obrigada
    Angela Antunes

    ResponderEliminar
  3. Fiquei completamente desiludido com a oferta de disciplinas em Psicologia. Não conheço Gestalt, apenas tenho uma vaga ideia, mas acredito que seja de facto muito melhor (há uma componente prática acentuada, não há?).
    Acredito que estamos a chegar a uma altura, na evolução da humanidade, em que temos mesmo que mudar. E para a maioria dos adultos isso é difícil. Já as crianças aceitam a mudança muito mais facilmente (são muito mais plásticas). Por outro lado, como seria o mundo se todos pudéssemos abraçar a totalidade que somos?... Os filhos de muitos amigos meus são a minha inspiração :)

    ResponderEliminar