domingo, 6 de setembro de 2009

As máscaras humanas: o Conquistador

Todos nós fazemos uso de máscaras para proteger as nossas feridas emocionais. A maioria das pessoas recorre a pelo menos duas máscaras: a que utiliza em casa, na sua interacção com a família, e a que usa na sociedade. Mas o mais comum é recorrermos a três ou quatro diferentes ao longo do dia, dependendo do contexto em que nos encontramos.

Estas máscaras são construídas muito cedo, na infância, para esconder a nossa vergonha, aquilo que nos envergonha no mais profundo do nosso ser. E o medo que outros descubram quem pensamos ser. São estas máscaras as que eventualmente irão criar as situações para que pessoas boas façam coisas más.

Algumas das máscaras mais comuns são: a boa rapariga, a sedutora, o intelectual, o duro de roer, o tipo ‘cool’, o conquistador, o subserviente, o rufia, a cobra silenciosa, o impassível, o mártir, o seviciador, o eterno optimista, o salvador, o depressivo, o brincalhão, o apoiante oficial, o solitário, a vítima e o sobredotado.

Todas estas máscaras têm como único objectivo esconder a vergonha. Ao reconhecermos a nossa máscara ser-nos-á relativamente fácil começar a curar as feridas da criança que há dentro de nós.

Hoje escolhi falar da máscara do Conquistador.

O Conquistador é um amante da vida por natureza (e da companheira/o dos amigos também). Na verdade é capaz de dissolver qualquer dúvida que você tenha com um sorriso afectuoso (e falso). O Conquistador é um mestre da manipulação, reconhecendo rapidamente onde se encontram as fraquezas dos que lhe são próximos e utilizando esta informação para sua grande vantagem. O Conquistador é um verdadeiro perito em avaliar as pessoas à sua volta e descobrir quem precisa de um pouco de amor, de atenção ou de alguma esperança, fazendo mais tarde uso dessa informação como ferramenta para abrir a porta para o coração ou a carteira das suas presas. Tenta impingir a ideia de que é culto, educado e frequentemente viajado (e muitas vezes é-o). É-lhe muito fácil tornar-se no seu melhor amigo, na pessoa com quem você pode partilhar os seus problemas, os seus segredos. Esta é mais uma atitude por parte de uma das máscaras mais predatórias! Antes que você se aperceba, o Conquistador anda a estudar qual a melhor maneira de se meter na sua cama, ou nas suas contas bancárias, nos seus negócios ou, porque não, no seu coração. O maior problema para as presas do Conquistador é a capacidade de dissimulação deste. É capaz de enganar muito facilmente qualquer pessoa e sair-se bem de qualquer situação conflituosa (quase sempre criada por ele mesmo). Em realidade o Conquistador é capaz de saber quem você é melhor do que você mesmo (pelo menos saberá quais os seus pontos fracos e onde o pode atingir). É sabido que os Conquistadores são dos tipos que mais facilmente põem uma mulher a chorar. E não é porque a andam a enganar! Porque isso fazem-no sem qualquer problema de consciência. Nada disso! Põem qualquer mulher a chorar porque sabem onde estão as suas fragilidades. O Conquistador é capaz de saber muito sobre si e a sua vida. Desde os filmes que gosta de ver, os restaurantes onde gosta de comer, até aos amigos com quem costuma divertir-se. Essa informação é-lhe útil para quando é apanhado nas suas manipulações poder mostrar o quanto se interessa por si e o quão inocentes está. O Conquistador é um perito na arte de seduzir, tanto os homens como as mulheres. Nada lhe dá mais gozo do que saber o quanto você é fácil de manipular. Uma lágrima (de crocodilo) aqui, uma festinha ali... e lá o vai entretendo enquanto se aproveita da sua boa-fé. Gosta de cuidar da sua imagem, preocupando-se com o que os outros dizem dele (o que não o impede de se aproveitar das suas fraquezas). Quando apanhado em flagrante pode tornar-se incrivelmente hostil e atacar com todas as armas (normalmente começando com afirmações como “Eu só estava a pensar no teu bem” e terminando, quando já nada parece resultar, com “tu não prestas para nada”!). E é claro que a esta altura do jogo, em que as orquestrações são descobertas, você não presta mesmo para nada. Pelo menos para os benefícios que ele queria obter a partir de si. Em duas palavras, o Conquistador é, regra geral, um grande vigarista que não tem qualquer problema em mentir-lhe ou distorcer a verdade. E fá-lo com o único objectivo de fazer com que os outros se sintam bem à sua volta.

A vergonha que o Conquistador esconde é simples: que alguém descubra que no fundo ele se sente inferior a todos, inútil, impotente, um Zé-ninguém, medíocre e indesejado.

O desafio do Conquistador:

O seu desafio é reconhecer que apesar do seu carisma para cortar atalhos e chegar mais depressa ao topo, nunca se irá sentir bem consigo enquanto manipular os outros e servir-se deles para os seus fins. O Conquistador tem que fazer uma investigação profunda ao seu passado (onde normalmente encontramos situações de abandono e violência física e verbal). Tem que descobrir quando é que tomou a decisão de que a única forma de conseguir sucesso na vida era vigarizando os outros. A solução para o Conquistador, por forma a regressar a um caminho de integridade, é enfrentar-se ao espelho e vendo o quanto se sente mal na sua própria presença, tomar a decisão de dizer apenas a verdade e cultivar a sua auto-estima e amor-próprio.

Pessoalmente sinto uma grande compaixão pelo Conquistador porque foi vítima de abusos e é muito provável que os adultos à sua volta, numa tenra idade, lhe mostrassem de muitas maneiras que não prestava.

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No próximo post irei falar da máscara que melhor conheço: o subserviente. A minha máscara pessoal e que, aproveito para informar, é a mais egoísta de todas.

1 comentário:

  1. Olá Emídio! Excelente exposição!
    É impossível não me identificar um pouco com esta máscara... consigo ver algumas situaçãoes da minha vida em que a utilizei (aliás consigo ver-me na maioria delas!!!).
    É bom termos sempre presente em mente que na vida acabamos por utilizar muitas destas máscaras... de acordo com a nossa vergonha específica em determinado meio ou momento... Isto também ajuda-nos a compreender as atitudes dos outros (máscaras) e pensar: "Quando é que eu também sou assim?", em vez de apontar o dedo (que é o que a maioria de nós faz).
    Obrigada Emídio mais uma vez!

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