quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Domesticação

As crianças são domesticadas da mesma maneira que os animais domésticos o são. Para ensinar um cão ou um gato o que fazemos? Damos um prémio quando fazem algo bem feito e um castigo quando não fazem o que queremos. É assim que ensinamos as nossas crianças. Quando fazem aquilo que esperamos delas congratulamo-las. “Lindo menino!” “A minha filha é um anjo!”. Quando não fazem o que nós queremos… “Feio!”, “Má, má, má! Agora ficas de castigo!”

Uma situação que se perpetua há milénios.

Quando quebramos alguma das regras impostas por outros somos punidos, e quando obedecemos ás regras somos recompensados. O problema é que a maioria das regras são pura idiotice! Refiro-me ás milhares de regras que dizem coisas como “sair de casa sem lavar a cara é feio”, ou “comer com os dedos é porco” e “só os mal-educados é que dizem asneiras!”. Mas há mais! “Se não tirares boas notas não gostamos de ti” e “quem não faz os trabalhos de casa nunca conseguirá ser alguém na vida!”. Esta última é uma verdadeira anedota! Mais de 90 por cento dos multimilionários nunca chegaram a terminar o liceu! Perguntem ao Richard Branson, Oprah Winfrey ou Bill Gates, já para não falar no Ronald Reagan!

Em pouco tempo aprendemos a ter medo dos castigos e medo de não ser recompensados. A recompensa é a atenção que recebemos dos nossos pais, professores, amigos dos pais, etc. E com este medo de ser castigados e não ser recompensados começamos a fazer o jogo de fazer de conta que somos quem na verdade não somos. Sempre a tentar agradar aos outros por forma a receber a sua atenção. Tentamos agradar aos nossos pais, agradar aos nossos professores, agradar à catequista, agradar aos nossos amigos. Entramos no jogo do teatro. Somos actores a fazer de conta que somos quem não somos. Sempre com o medo de ser rejeitados. Este medo de ser rejeitados transforma-se em medo de não ser suficientemente bom. E tornamo-nos quem não somos. Tornamo-nos uma cópia das crenças da mãe, das crenças do pai, das crenças do professor e das crenças da religião que os nossos pais professam.

Todos os nossos dons são perdidos neste processo de domesticação. E quando somos o suficientemente crescidos para compreender tudo isto aprendemos a palavra “não”. Os adultos dizem-nos “não faças isto, não faças aquilo…” E nós revoltamo-nos e dizemos “não!” Defendemos a nossa identidade e a nossa liberdade. Queremos ser quem somos, mas somos crianças pequenas e os adultos são enormes. Depois de alguns “nãos” aprendemos a ter medo dos castigos impostos pelos adultos quando fazemos algo “errado”.

Esta domesticação é tão poderosa que passados alguns anos já não precisamos que os adultos nos domestiquem. Domesticamo-nos a nós próprios! Fazemo-lo através do mesmo sistema de crenças que nos foi incutido pelos adultos à nossa volta. Utilizamos o mesmo sistema de castigo e recompensa. Castigamo-nos quando não seguimos o sistema de crenças presente em nós. E recompensamo-nos quando somos “um menino bonito” ou “uma menina educada”.

O sistema de crenças é como um enorme Livro de Leis que governa a nossa mente. Sem alguma vez questionarmos o que quer que seja, o que está escrito neste enorme Livro é a Verdade. A nossa Verdade! E baseamos todos os nossos juízos de acordo com este Livro de Leis. Mesmo que estas leis violem a nossa essência.

Existe algo na nossa mente que julga tudo e todos, incluindo o estado do tempo, o gato do vizinho, o governo, as árvores à frente da nossa casa. O Juiz interno julga tudo e todos de acordo com o que está escrito no Livro de Leis interior. Tudo o que fazemos e tudo o que não fazemos. Tudo o que dizemos e tudo o que não dizemos. Tudo o que sentimos e tudo o que não sentimos. E sempre que fazemos, sentimos ou dizemos algo que vai contra o nosso Livro de Leis sentimo-nos culpados. E sentimo-nos merecedores de um castigo. Devíamos estar envergonhados de nós mesmos! E isto acontece muitas, muitas, muitas vezes ao longo de cada dia.

E tudo isto baseado num sistema de crenças que nunca escolhemos livremente! Isto é de tal maneira forte que anos mais tarde, quando tentamos fazer alterações na nossa vida, somos incapazes de manter essas alterações por muito tempo. O que quer que seja que vá contra as regras estabelecidas neste Livro de Leis irá fazer-nos sentir uma estranha sensação à volta do plexo solar. Chama-se medo. Quebrar as regras escritas no Livro de Leis abre mais uma vez as nossas feridas emocionais. E isto leva a mais envenenamento emocional. Porque tudo o que está escrito no Livro de Leis tem que ser verdade, tudo aquilo que desafie as nossas crenças e nos obriga a acreditar em algo diferente leva a uma sensação de insegurança. MESMO QUE O LIVRO DE LEIS ESTEJA ERRADO, FAZ-NOS SENTIR SEGUROS.

Quantas vezes pagamos por um único erro? Milhares de vezes! O ser humano é o único animal que se castiga continuamente pelo mesmo erro. Os restantes animais pagam o preço de um erro uma única vez. Nós não! Nós temos que pagar um único erro milhares de vezes. Possuímos uma memória inacreditável. Cometemos um erro, julgamo-nos, sentimo-nos culpados e castigamo-nos. Isto deveria ser suficiente. Mas não é. De cada vez que nos recordamos da situação voltamos a repetir todo o processo: julgamento, culpa, castigo.

Quantas vezes faz os seus filhos, pais ou cônjuge pagar pelo mesmo erro? De cada vez que os faz lembrarem-se de qualquer erro do passado está a castigá-los.

O Juiz na nossa mente está errado, porque o Livro de Leis está errado. Toda a nossa vida é baseada em crenças erradas. 98 por cento das crenças armazenadas nas nossas mentes são uma enorme mentira. E sofremos por causa dessas mentiras.

Não acredita no que estou a dizer? Pensa mesmo que a forma como educamos as crianças está certa? Então porque raio não evoluímos?!? Porque motivo continuamos a ser incapazes de resolver conflitos de maneira pacífica? Porque motivo continuamos a ter uma sociedade injusta, conflituosa, amedrontada?!?

PORQUE TODO O NOSSO SISTEMA DE CRENÇAS É BASEADO NO MEDO!

Nós estamos continuamente à procura da verdade pelo simples motivo de estar a viver as mentiras impregnadas na nossa mente. Procuramos incessantemente a justiça porque o nosso sistema de crenças é injusto. Procuramos sem parar a beleza porque não importa o belo que sejamos, não acreditamos nunca que já somos belos! Continuamos nesta corrida louca à procura daquilo que já está dentro de nós! Não há uma verdade que temos que encontrar. Não há uma justiça que temos que encontrar. Não há uma beleza que temos que possuir. Já o somos. Tudo isto e mais!

Não conseguimos ver a verdade pelo simples facto de estarmos cegos. O que nos impede de ver são as crenças falsas que temos nas nossas mentes. Temos a necessidade de corrigir o que está errado, e temos a necessidade de opinar sobre os outros e de acreditar que somos melhores que os outros e que só nós temos razão. Acreditamos nas nossas crenças e são estas crenças que nos causam todo o nosso sofrimento. Como se vivêssemos envolvidos por um nevoeiro denso que nos impede de ver a verdade.

Este nevoeiro é a nossa ideia daquilo que “eu sou”. E este “eu sou” são milhares de vozes na nossa mente a falar em simultâneo. É por este motivo que nos é tão difícil fazer mudanças e resistimos viver a vida e nos tornamos escravos de nós mesmos. O nosso maior medo é aceitar o risco de viver. O risco de ser quem somos. O risco de expressar o nosso dom. Ser autêntico é o nosso maior medo. Aprendemos a viver a nossa vida continuamente em busca da aprovação dos outros. Aprendemos a viver de acordo com as opiniões dos outros pelo medo de não sermos aceites e de não sermos o suficientemente bons aos olhos dos outros.

Durante os anos de domesticação formamos uma ideia de perfeição e tentamos ser o suficientemente bons de acordo com essa ideia. Criamos uma imagem de como deveríamos ser por forma a sermos aceites pelos demais. Tentamos, em especial, agradar à mãe e ao pai, à irmã, ao professor. São os que nos amam, ou não. Dependendo sempre do nosso comportamento. Ao tentarmos ser suficientemente bons aos olhos destas pessoas criamos uma imagem do que é ser perfeito, mas no fundo sabemos que o não somos. Criamos esta imagem mas sabemos que não corresponde a quem nós somos. Nunca seremos perfeitos deste ponto de vista! Nunca!

E se não somos perfeitos começamos a rejeitar certas partes de nós. O nível de rejeição é directamente proporcional à eficiência dos adultos à nossa volta em quebrar a nossa integridade. Depois do processo de domesticação já não se trata de sermos o suficientemente bons para os outros, trata-se sim de já não sentirmos ser o suficientemente bons para nós, porque não correspondemos à nossa imagem de perfeição. E jamais seremos capazes de nos perdoar por não sermos perfeitos.

Sentimos que não somos aquilo que os outros pensam que somos e sentimo-nos falsos, frustrados e desonestos. Tentamos esconder-nos de nós próprios. Como resultado criamos uma máscara social para evitar que os outros descubram quem somos de verdade. Temos um medo aterrador que outros descubram quem somos de verdade. Desonramo-nos para agradar aos outros. Somos até capazes de causar danos ao nosso corpo para podermos ser aceites pelos outros. Porque pensa que muitos adolescentes se drogam?

E é verdade que muitos de nós fomos abusados pelos nossos pais, professores, amigos, etc. Mas nunca ninguém abusou mais de nós do que nós mesmos! A forma como nos julgamos a nós mesmos é a pior forma de juízo que podemos imaginar. Sempre a carregar o peso de não sermos quem somos. A carregar o peso da culpa. De não sermos o suficientemente bons.

Em toda a tua vida nunca ninguém te abusou mais do que tu te abusaste a ti mesmo. E o limite do teu auto-abuso é proporcional ao abuso que permites que outros cometam à tua pessoa. Se alguém te abusar um nadinha mais do que tu te abusas a ti, é-te fácil afastares-te dessa pessoa. Mas enquanto os outros à tua volta não te abusarem mais do que tu te abusas a ti mesmo, irás tolerar a sua presença na tua vida. Tudo isto porque acreditas que “não és o suficientemente bom”.

Temos uma necessidade intrínseca de sermos amados e aceites pelos outros, mas não somos capazes de nos amarmos e aceitarmos tal como nós somos. Quanto mais nos amarmos menos necessidade teremos de sermos abusados por outros. O auto-abuso tem a sua origem na auto-rejeição, e a auto-rejeição tem a sua origem numa imagem do que significa ser perfeito e nunca ser capaz de atingir essa perfeição ideal.

Quanto se tem abusado?...

Se não acredita em nada do que lhe disse até agora responda a estas simples perguntas:

1. Está a viver uma relação amorosa e apaixonada neste momento?

2. Está a fazer um trabalho que ama e desfruta neste momento?

3. Goza de uma saúde perfeita neste momento?

4. Tem uma relação pacífica e amorosa com os seus pais, filhos, amigos?

Outro aspecto que é indicador do quanto tem tentado esconder quem é está directamente relacionado com o quanto sente a necessidade de mudar as pessoas à sua volta. Não se engane: os erros que vê nos outros estão em si, caso contrário ser-lhe-ia impossível vê-los. Se tem que conviver com alguém que o/a trata mal, tem que se fazer a pergunta libertadora: de que maneira é que eu me trato mal a mim mesmo/a? Tire algum tempo para si e descubra de que maneira anda a abusar de si, do seu corpo, das suas emoções, da sua alma.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. É um assunto que me preocupa imenso. Tento trabalhar essa área o mais que posso e cometo os mesmos erros vezes e vezes sem conta...

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