sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A pandemia da alegria - e o ódio que esconde na sombra

Vivemos uma época onde o crescimento espiritual é cada vez mais acessível a um maior grupo de pessoas. Todavia a maioria das pessoas está a involuir em vez de crescer.

Vamos por partes. O ser humano quando nasce é completo. Possui todos os atributos da humanidade. Se repararmos numa criança recém-nascida iremos ver uma alegria exuberante, mas também uma tristeza profunda. Um sorriso gigantesco pode anteceder um ataque de fúria. Uma criança é egoísta porque é esse egoísmo que permite comunicar à mãe que tem fome ou que quer um carinho. É um egoísmo que diz “Eu sou importante”. A raiva, comunicada através de um choro estridente, comunica mal-estar.

Todas as emoções humanas existem em nós e permitem-nos conhecermo-nos e aprender a comunicar. O problema real surge quando os adultos, quando temos 2 ou 3 anos de idade, começam a “ensinar” que certas emoções e atitudes são “más”. E porque nos dizem que são más, e retiram o seu amor se as manifestarmos, implícita ou explicitamente, nós decidimos esconder essas emoções. Rejeitamo-las, deserdamo-las e fingimos que não existem.

Mas essas emoções existem. Mesmo se escondidas num recanto do nosso subconsciente. Muitas pessoas têm dificuldade com a “sombra” porque afirmam a pés juntos que NÃO SÃO isso (“isso” sendo qualquer comportamento que observam noutros). A nossa sombra é precisamente TUDO AQUILO QUE NÃO SOMOS! E aquilo que não somos não nos deixará ser.
Quanto mais afirmamos que só somos isto ou aquilo mais energia damos ao aspecto oposto, que se esconde no nosso subconsciente e ganha poder. Eventualmente esse aspecto irá possuir-nos (literalmente). É por isso que vemos notícias do bom pai de família que afinal tinha uma amante. Ou da boa mãe que espanca um filho. Não eram eles, era a sua sombra que os possuí na totalidade. Os crimes mais hediondos são perpetrados pela sombra que foi rejeitada, deserdada e punida anos a fio.

Depois, acho piada aos “novos espirituais” que cedem um pouco e dizem que “um pouco de egoísmo é saudável”. Isto é o mesmo que afirmar que uma pequena desonestidade ou uma pequena traição é saudável! Quando alguém diz que “um pouco de egoísmo é saudável” o que está a afirmar é precisamente que o egoísmo NÃO É uma atitude saudável! Estão a ser complacentes e hipócritas. Sei do que falo porque felizmente já fiz as pazes com estes dois aspectos de mim e sei quando me poderão ser úteis.

Mas eu só serei tão altruísta quanto for capaz de ser egoísta. Alguém classificaria o egoísmo de um recém-nascido, que grita por alimento, como uma atitude negativa? Claro que não! O egoísmo é uma emoção tão saudável como o altruísmo. A raiva é uma emoção tão saudável como a paz de espírito.

Mas quando reprimimos emoções perfeitamente saudáveis elas irão procurar maneira de se manifestar, de se expressar. A raiva que eu não me permito expressar virá a mim através do ódio de um colega ou de um acidente de viação, ou de uma ameaça à minha integridade física.
Depois há aquelas pessoas que por influência de filmes como “O Segredo” (que têm o seu mérito) decidem que irão apenas olhar para as coisas boas da vida e agarram-se com unhas e dentes à alegria. Isto é um comportamento patológico. E só irá trazer dissabores num futuro não muito distante.

Mas eu posso permitir-me expressar todos os aspectos de mim de uma maneira saudável. A tristeza é extremamente saudável quando perdemos alguém que nos é querido. Mas se não nos permitimos expressar a tristeza no dia-a-dia, quando ela bater à porta será devastadora. Se eu não me permito expressar o falhado que há em mim, este será avassalador quando por fim conseguir ver a luz do dia.

Há ainda a questão do perdão, tão apregoado pelos “novos espirituais”. Este perdão é tão ridículo que sinto apenas compaixão por estas pessoas. É um perdão fabricado na cabeça, intelectualizado. Se observarmos a vida destas pessoas descobrimos tão rapidamente onde ainda guardam rancor e ressentimento, onde ainda não se perdoaram. Nas amizades, nos jogos de computador, no álcool, na bisbilhotice, nos ataques de que são vítimas, nos acidentes, nas discussões, nas amizades que se perdem, nas relações fingidas, na necessidade de olhar com complacência para o mal alheio. Tudo sintomas de incapacidade de perdoar a partir do coração.

É fácil amar a pessoa que “é bem comportada”. E amar a pessoa que atravessa a sua noite escura da alma? Como amar o marido, ou a esposa, depois de descobrir que fez um desfalque na empresa? Como amar a amiga que descobrimos que fala mal de nós? Como amar o homem que está numa cadeia porque matou os filhos e a esposa? – Não quero dizer que estes comportamentos não devem ser punidos! Mas se compreendermos a sombra saberemos que quem comete estes actos é o aspecto reprimido, indesejado e amordaçado da pessoa.

Você, por exemplo, pode tornar-se meu amigo. E acredita que o Emídio é uma pessoa boa e generosa que gosta de partilhar os seus conhecimentos. E vê-me assim durante anos. E de repente descobre que o Emídio é egoísta! E que o Emídio é avarento! E que o Emídio mente! E que o Emídio é desonesto!

E vai dizer que afinal não me conhecia de verdade! Mas a realidade é muito mais profunda. Em cada um de nós há complexos, subpersonalidades, que exigem ser experienciadas. Há o Emídio santo e o Emídio pecador. O que fala a verdade e o que mente. Na verdade não são o Emídio, são o Manuel Mentiroso, o Ricardo Raivoso, o Ivan Invejoso, O Fernando Fala-Barato.... Todos nós temos dentro de nós muitas subpersonalidades, as quais existem precisamente porque deserdamos aspectos de nós.

Eu sinto compaixão pelas pessoas “boas” porque, mais cedo ou mais tarde, irão tornar-se no preciso oposto daquilo que se esforçaram anos por ser.

O papel dos pais é ensinar aos filhos quando é saudável, apropriado, expressar uma emoção ou um comportamento rotulado pelo mundo como “mau”. Quando o filho chega a casa com um desejo de matar o professor porque fez pouco dele (estou a falar de exemplos, espero que os professores não levem a peito – nutro uma grande estima por eles e as pessoas da minha infância que melhores memórias me proporcionam foram os meus professores). O que um pai pode fazer para ajudar o filho a expressar a raiva, a fúria, pelo professor? Regra geral o progenitor ensina o filho a reprimir esse sentimento. Mas se o sentimento surgiu é porque é válido! É esse sentimento que pode salvar a vida de um ser humano se for atacado! É esse o sentimento que pode resolver uma situação de injustiça extrema! Mas o pai pode ensinar ao filho que é ok ele sentir o que sente pelo professor. Pode dar-lhe uma almofada e dizer-lhe que dê uns valentes murros e gritos, imaginando que é o professor que causou o dano. Assim a emoção é expressa e não vai criar resíduos tóxicos no corpo. Depois disto o pai deve explicar ao filho que todos fazemos o que o professor lhe fez, incluindo a própria criança. Com exemplos específicos.

As crianças aprendem facilmente através de exemplos. Diga-lhe quando foi a última vez que fez troça de alguém, mesmo que tivesse sido apenas mentalmente. Mostre-lhe que todos o fazemos.
Agora que ninguém está a vê-lo, responda a estas perguntas com um “sim” ou “não”:
- Alguma vez mentiu?
- Alguma vez traiu outra pessoa ou a si mesmo?
- Alguma vez gozou outra pessoa ou a si mesmo?
- Alguma vez se odiou ou odiou outro?
- Alguma vez se sentiu mesquinho?
- Alguma vez tomou consciência de ter errado?
- Alguma vez lhe apeteceu bater noutra pessoa ou em si mesmo?
- Alguma vez desejou a sua morte ou a morte de outro?
- Alguma vez praguejou?

A verdade última é que eu sou tudo o que vejo nos outros. Sou a verdade e a mentira. A bondade e a maldade. O egoísmo e o altruísmo. A alegria e a tristeza. Negar a existência de qualquer um destes aspectos apenas servirá para me magoar mais cedo ou mais tarde.

Nós podemos intelectualizar a nossa forma de estar no mundo. Podemos fingir que somos apenas alegria e bondade. Quanto mais rejeitarmos um aspecto de nós, mais esse aspecto ganhará poder sobre nós. Até um dia... Regra geral a nossa sombra ganha poder até por volta dos quarenta anos. Daí que para as pessoas com menos de quarenta seja muito difícil aceitar o que digo. A partir dos quarenta a nossa sombra tem poder suficiente para começar a manifestar-se. E fá-lo de maneira intransigente. Através de um divórcio, de um desemprego, de uma doença súbita, de um acidente, de um conflito irreparável.
Mas podemos continuar a fingir que somos “apenas” pessoas boas. A pergunta que tenho que me colocar é simples: prefiro ser uma pessoa boa ou uma pessoa completa?

5 comentários:

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    Bom dia!

    Sim, a aceitação de nossas virtudes e defeitos é o ato que clareia a estrada... Não adianta jogar a sujeira pra debaixo do tapete... Mais dia, menos dia, ela acaba escapando!

    Muito bom o seu texto, Emidio! Compartilho de suas idéias... Todas as coisas são moedas de duas faces... Uma não existe sem a outra.


    Beijos de luz e um dia feliz!

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  2. Na vida não devemso ter medo de nada pois cada dia foi programado para nosso crescimento, só usar o coração. Dificuldade fazem parte para ter sombra em algum lugar tem luz.

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  3. É claro que sim. Aliás só não tem sombra a pessoa que permanece na total escuridão. Da mesma forma, quanto maior a nossa luz, maior também será a nossa sombra. O oposto também é verdade.

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  4. Acho q devemos tomar cuidado com algumas generalizações, pois o autoconhecimento sempre leva a pessoa a ser melhor consigo mesma, assim com as outras também. Interessante que Freud disse algo do tipo: Seríamos melhores se não tentássemos ser tão bons.

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