segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A perfeição é outro nome para a realidade

A única forma de conseguirmos ver algo como imperfeito é acreditando numa história que contamos e que vai contra a realidade. Isto é feio, é injusto, é inapropriado, é falso, é grosseiro, é mau. Mas será verdade?

Pego neste copo com sumo de frutas e observo que está lascado. E é um copo belo quando o olho sem contar uma história de como deveria ser diferente.

Observo o sem-abrigo a pedir dinheiro, com roupa suja e rasgada. E vejo a beleza do ser humano. Se não acreditar numa história que diz que não deveria haver pessoas sem-abrigo, ou que as pessoas sem-abrigo são perigosas, limito-me a observar a sua beleza e digo-lhe “obrigado”. Muitas pessoas já me observaram a agradecer a pessoas que pedem, sem dar nada. Não tenho nada para dar naquele momento para além da gratidão por ser testemunha da vida a fluir deliciosamente.

Ouço falar de guerra em países distantes. Sem a história de que não deveria haver guerra permaneço calmo. Pergunto-me se posso fazer algo. Posso procurar em mim um sentimento de paz. A guerra é perfeita. Podemos descobrir o amor incondicional, esquecermos os nossos dramas e ajudar a pessoa ao nosso lado.

Estou sentado no chão da sala. Qualquer pessoa poderia pensar que o meu comportamento é inapropriado. Há sofás na sala. Observo os sofás, e o meu corpo senta-se no chão. Perfeito. Delicioso. Outra pessoa poderá pensar que estou a desfrutar do chão. Histórias. Depois observo como as minhas pernas se esticam. Não fui eu quem as esticou. Elas tomaram a decisão de o fazer por mim. A vida flui. Perfeita.

Só a mente que acredita nos seus pensamentos é capaz de ver imperfeição onde não existe.

Estou completamente receptivo a qualquer desconforto. A ficar sem pernas, a perder a visão, a morrer numa explosão. Sei que é sempre perfeito. Como sei isto? Não consigo encontrar qualquer stress.

Uma vez acordei e não conseguia ver do olho esquerdo. Os médicos tinham dito que se o vírus atingisse o nervo óptico eu ficaria cego. Acordei de madrugada, cego. E só sentia paz. Um cego vê tanto! E que perfeição da vida! Bebi um sumo de laranja e voltei para a cama. Delicioso! A vida queria-me cego e sabia que era para o meu bem. Durante a noite a vida mudou de ideia e acordei com a visão restaurada. Delicioso.

As doenças são más. Outra história. As doenças são o que são: a vida a fluir. Pelo menos neste planeta. E observo que quando não luto, quando abro os braços à experiência, aquilo que outros vêem como um problema dissolve-se. Lembro-me das palavras da Debbie Ford: aquilo a que resistes, persiste.

Quanto mais lutamos contra algo, quanto mais queremos as coisas diferentes, maior é o nosso sofrimento.

E no amor a vida é ainda mais deliciosa. Eu amo-te. É a minha função. E tu ama quem te apetecer, é a tua função. E eu sei que me irás amar. Até ao dia em que mudes de ideia. E é sempre delicioso. Eu amo-te tanto que nem preciso que estejas vivo para te amar.

Mas se acreditar numa história que diz que para te amar tu tens que me amar de volta, irei criar um inferno na minha vida. Quando imponho as minhas condições à vida torno-a imperfeita. Antes das minhas condições a vida é perfeita. E continuará a ser perfeita, mas eu não conseguirei ver a perfeição.

Quando eu resisto à história que me conto, sofro. Não é a experiência que é má. É a minha história que afirma que a experiência deveria ser diferente daquilo que é.

Como é que eu sei que deveria ficar cego temporariamente? Fiquei.

Deus, Realidade, Universo, é sempre carinhosamente amoroso. A única coisa que me causa sofrimento é a história em que acredito. Para sofrer a mente tem que acreditar numa mentira. E a mentira é esta: a realidade é imperfeita. Não é. Nunca.

Independentemente do que está a acontecer, o amor é tudo o que existe. E manifesta-se como um copo lascado, uma sopa fria, um sem-abrigo, um cancro, uma flor, uma guerra, um abraço. E flui continuamente, quer eu ame ou não.

Quando a mente compreende que é apenas o reflexo do amor que criou tudo torna-se plena e vivencia um deleite supremo. Tudo é motivo de deleite. E nada é motivo de deleite também. Deleita-se na liberdade carinhosa de saber que é tudo e nada, sem identidade. Dança com a vida.

Tudo o que me aconteceu até hoje foi um presente deste amor. Não há excepções.

Acreditar na imperfeição é sofrer. E é mentira. Até isto que escrevo acaba por ser mentira. Não há nada para lá da mente.

Poderia a vida ser mais deliciosa?

3 comentários:

  1. Querido Emídio,

    "Quando a mente compreende que é apenas o reflexo do amor que criou tudo torna-se plena e vivencia um deleite supremo."

    Amo esta frase...

    <3

    Filomena

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  2. Texto delicioso,
    É como saborear um gelado quando ele nos sabe mesmo bem.
    Obrigado Emídio e um abraço,
    Filipe.

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  3. O seu texto, não é perfeito, mas é notável e absolutamente real. Na vida, tal como a concebemos, as coisas não são boas nem más, não são perfeitas nem imperfeitas, apenas são. E se recusarmos os rótulos que o nosso ego e a nossa mente coloca em tudo o que vemos e sentimos, quando acreditamos na vida, quando confiamos no Universo e fluimos com ele, tudo muda, inclusivé a nossa percepção da realidade.
    É tudo uma questão de confiarmos e aceitarmos aquilo que o Universo têm para nos oferecer. No fundo, dançarmos com a vida. Um abraço e obrigado.

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