segunda-feira, 30 de maio de 2011

A passividade não é uma opção, excepto quando é.

Em cada momento, cada ser humano neste planeta está a fazer o melhor que é capaz de acordo com o nível de consciência em que se encontra. Da mesma forma que seria absurdo esperar que uma criança de seis meses caminhasse habilmente, não é menos absurdo que uma pessoa menos consciente tenha um comportamento mais consciente. Não é possível.

Assim, seria um absurdo da minha parte esperar que alguém insensível de repente se transformasse numa pessoa carinhosa. E quem será mais insensível, a pessoa que, sabe-se lá porquê, não é capaz de demonstrar carinho, ou a pessoa que observa e se afasta porque não gosta de pessoas insensíveis?

Quem será mais cruel, a pessoa que, sabe-se lá porquê, acredita que a guerra é a única solução para as situações que a vida lhe lança, ou aquela que a olha com desdém e aponta o dedo por ser quem é?

Quando alguém grita, não estarei eu a gritar ainda mais alto na minha cabeça para que essa pessoa se cale?

Quando alguém me falta ao respeito, não estarei eu faltando-me ainda mais ao respeito ao permitir-me olhar com desprezo para essa pessoa que não sabe mais?

Quando alguém fala mal de mim, não estarei eu a fazer pior ao falar dessa pessoa aos meus amigos e colegas?

Quando alguém está doente, e sente-se mal, não estarei eu a aumentar o seu sofrimento ao mostrar-me preocupado com a sua condição?

A Sombra Humana é tudo isto: aquilo que apontamos aos outros andamos nós a fazê-lo. Mas estamos inconscientes dos nossos actos. E ao estar inconscientes, iremos atrair mais pessoas que nos mostrem o que andamos a fazer, por forma a termos a oportunidade de crescer.

Por outro lado, enquanto não nos tornamos conscientes das qualidades humanas que rotulamos de negativas, estas ganham poder no nosso subconsciente. Por volta dos quarenta anos começam a controlar a nossa vida. Não é por acaso que se chama “crise da meia-idade”.

Mas estas qualidades, ditas negativas, quando trazidas à luz do consciente, são verdadeiros aliados que nos podem ajudar a crescer, a ser melhores e a criar harmonia à nossa volta.

Para tornar estas qualidades conscientes temos que começar em primeiro lugar, a expô-las. Uma a uma. Assumir que existem em nós. E depois observar de que maneira nos podem ser úteis. Esta é a parte que mais desafios cria. Como poderia a estupidez, a burrice, a antipatia, a crueldade, ser-nos útil? Podem. Mas enquanto não assumirmos estas qualidades elas irão surgir sempre na nossa vida através dos outros.

Por outro lado, a Sombra leva-nos a lutar continuamente contra Aquilo Que É.

Estamos a passar por uma experiência que rotulamos de negativa, e a nossa mente luta para que a experiência não aconteça, quando está a acontecer!

Vou pegar na doença, como exemplo.

Observa-te quando estás doente. E observa a energia que gastas a lutar contra a doença. Essa energia poderia ser útil ao corpo para lidar com a doença. O corpo sabe o que fazer. Até agora manteve-te vivo sem teres que saber como se processa a digestão, a troca de oxigénio, o batimento cardíaco, a circulação sanguínea, etc.

O primeiro passo para a saúde passa por amar a doença. Isto não significa não ir ao médico ou outro profissional de saúde! Significa apenas fazer as pazes com a doença, deixar de a ver como o inimigo a abater.

O que observo neste planeta é que os corpos adoecem. Eventualmente acontece a todos. E quando eu não quero estar doente estou a lutar com a Realidade (para mim Realidade, Universo, Deus, é a mesma coisa). A única forma de amar a doença é ver os benefícios da sua manifestação no corpo. De que forma esta doença é uma prova de amor da Realidade? O que há de bom nesta doença? Há sempre algo.

Apenas alguns dos benefícios de uma qualquer doença:

- Aproxima-nos daqueles que são realmente importantes para nós;

- Permite-nos descansar;

- Dá-nos a coragem de pedir ajuda;

- Permite que outros sejam de serviço;

- Dá-nos tempo de avaliar a nossa vida;

- Ensina-nos, entre outras coisas, que nada é assim tão importante;

- Mostra-nos a nossa vulnerabilidade;

- Ajuda-nos a fazer mudanças radicais na nossa vida;

- Educa-nos sobre todas a bênçãos presentes na nossa vida;

- Dá-nos uma oportunidade de amar incondicionalmente.

E a lista não termina aqui! Amar a doença não significa ficar de braços cruzados. Procura ajuda profissional. Aquela em que tu acreditas ser a melhor para ti. Mas vai ao encontro dessa ajuda em paz, tranquilidade, a amar a vida, em vez de mostrar ingratidão para com a vida.

A forma mais rápida de ultrapassar qualquer desafio é assumir que queremos a experiência do desafio, amamos a sabedoria da vida através desse desafio, e procuramos ajuda. Em paz.

Há uns dias fiz uma viagem de 400 quilómetros. O carro estava cheio de poeira. À nossa frente havia muitas nuvens de chuva. E no entanto, ao longo de mais de 300 quilómetros, a chuva caía sempre onde o carro não se encontrava. Eu queria tanto apanhar chuva para lavar o carro de uma maneira ecológica! E a chuva estava sempre um passo à nossa frente. E de repente apercebi-me que em realidade não queria lavar o carro da maneira mais fácil e ecológica! Não queria a chuva a fazer o meu trabalho! Queria chegar a casa e ser eu a lavar o carro. Era o que estava a acontecer, gostasse ou não da experiência. Comecei a fazer mentalmente uma lista de todos os benefícios de não apanhar chuva ao longo do percurso. Ainda não tinha terminado a lista quando a chuva caiu sobre nós! Forte e capaz de limpar qualquer sujidade externa no carro! Fiquei desapontado uns breves instantes. Agora que já não queria que chovesse, que via todos os benefícios por não chover, a vida escolhe chover.

Quando estiveres a passar por uma experiência que consideres negativa, começa por assumir que queres essa experiência. Isto não é ser masoquista mas apenas estar em congruência com a realidade. Porque motivo quero a experiência de estar cansado? Porque estou! Porque motivo quero a experiência de um relacionamento tumultuoso? Porque o estou a viver! Porque motivo quero a experiência de não ter dinheiro? Porque não o tenho!

E depois dedica uma hora a escrever os benefícios da experiência. Escreve até sentires plena gratidão por estares a passar por essa experiência!

E isto também se pode aplicar ao futuro, claro. Se estás preocupado com uma situação que poderá ou não acontecer no futuro, começa já a ver os benefícios da situação. Imagina o pior cenário possível. E descobre os benefícios!

Deixo-te um exemplo recente meu. Tinha algum dinheiro amealhado para ir de férias em Agosto. Entretanto esqueci-me que tinha concorrido para um projecto na Tanzânia para ir como voluntário. Quando me aceitarem, pediram-me (de uma maneira tão diplomática como só os britânicos sabem) que enviasse o dinheiro para as viagens e demais custos (esta quantia não é obrigatória por parte dos voluntários, mas ajuda muito a organização). O meu objectivo era apenas a experiência de ir para um lugar remoto e ajudar pessoas da melhor forma que fosse capaz. Aqui estava a oportunidade. Paguei. Entreguei todo o dinheiro que tinha amealhado. Senti-me a pessoa mais feliz do mundo!

Entretanto recebo também a confirmação de que posso ser aprendiz na Escola da Byron Katie na Alemanha. Para o privilégio de servir a aprender com esta pessoa extraordinária pedem-me três mil euros. Confesso que existia em mim um desejo ardente de participar nesta semana especial a aprender a simplesmente ser. Mas também sei que financeiramente não é uma possibilidade viável. Elaborei uma lista com todos os benefícios por não poder participar nesta semana com a Byron Katie, e o que descobri deixou-me tão grato à vida! É claro que não é para ir à Alemanha e estar com a Byron Katie!

A mente luta nesta fase. É natural. A mente quer sempre ter razão, e raramente a tem. Observava os pensamentos, velozes. “Se estivesses com a Byron antes de ir para a Tanzânia, irias levar mais contigo para África.” “Se não tivesses feito a candidatura para ir para África, agora podias ir para a Alemanha!” e por aí fora. Um inferno!

Depois surgiu a parte deliciosa. Neste momento na Alemanha parece que há uma qualquer coisa que afecta seriamente a saúde das pessoas (como se o facto de estarmos vivos não fosse suficiente para que algo nos afecte!). É óbvio que a vida sabe que estou preparado para os desafios na Tanzânia, caso contrário eu teria obstáculos na candidatura. Não ir à Alemanha deixa-me tempo para mim. Para me dedicar à minha horta, por exemplo! E depois de uma lista com mais de vinte itens, foi fácil ver porque motivo é bom para mim não ter a experiência de estar uma semana com a Byron. Aceito a paz.

Será que vou à Alemanha? Esta é uma questão que me provoca um sorriso. Ir ou não ir é irrelevante. Estar presente agora é-o mais.

Qual é o teu maior desafio no presente? Consegues ver benefícios nesse desafio? Enquanto os não vires ser-te-á muito difícil sair da situação. Descobre os benefícios. Dedica-te. E quando sentires gratidão pela experiência presente, a vida irá observar que já não precisas da experiência. E, com muito carinho, enviar-te-á nova experiência. Afinal é disso que trata a vida.

Poderias estar num lugar mais delicioso agora?

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