segunda-feira, 20 de junho de 2016

A arte de saber ouvir

Tudo o que sei e aplico na minha vida é fruto da observação, da experiência. Os livros e os professores ocupam um lugar importante. Ensinam a ler e a escrever e a compreender. São úteis.
Mas para viver em paz comigo e com os outros só é possível se parar, observar sem qualquer ilusão a realidade, aquilo que está a acontecer.
E por isso digo muitas vezes que não ouço o que as pessoas dizem, ouço o que as pessoas fazem.
Aprendemos tudo acerca da vida nos primeiros cinco ou seis anos. Os pais dizem que nos amam. Nós ouvimos eles dizerem isso. E o que é que ouvimos mesmo? O que é que ouvimos os pais fazer quando não somos a criança que eles querem que sejamos?
“Feio, isso não se faz!”
“A tua irmã é melhor aluna.”
“Se voltares a fazer isso vais para o inferno!”
“Não gosto de ti, és má!”
E por aí adiante. Os pais mostram que amam com acções simples, pouco emotivas. Mas quando reprovam um comportamento fazem-no com mais emoção, num estado alterado. E depois ouvimos como os pais mostram que se amam entre si. Amuando, criticando, discutindo. É assim que ouvimos e aprendemos.
Claro que se os nossos pais fossem iluminados saberiam que os filhos têm por missão mostrar-lhes onde eles mesmos não se respeitam, não se amam, não se ouvem. Eventualmente aprendemos que afinal os pais são sábios. A sua função é criar problemas aos filhos. A função dos filhos é encontrar a solução desses problemas. Mas só se quiserem paz.
E é assim, muito cedo, que permitimos ser programados. Não questionamos. Tantas vezes ouvimos, através da acção, que não prestamos ou que não somos bons, que iremos viver esse programa como adultos. Sem nunca questionar.
Ouvimos dos nossos pais, há milhares de anos, que a vida é difícil, que é injusta, que as coisas más acontecem às pessoas boas. Como poderemos nós descobrir que a vida é bondade absoluta com este programa?
Como adulto continuo a ouvir o que as pessoas fazem. Dizem-me que estão mal e precisam de ajuda. E quando proponho uma possível solução dizem-me que não. “Sim, estou mal e a precisar de resolver uma série de coisas, mas fazer as pazes com a mãe é que não faço!” – e outras respostas idênticas. Nenhuma pessoa está capacitada para ajudar outros enquanto não conseguir ver toda a humanidade como preciosa, útil e sábia.
Alguém diz que me ama, e observo como amua quando não faço o que espera de mim. Alguém diz que me respeita, e depois observo como me inunda com desgraças. E claro que sou eu quem permite tudo isto. Eu não me ouço também.
Comecei a ouvir-me ao descobrir que ninguém tem o poder de me magoar. Ninguém consegue faltar-me ao respeito ou insultar-me. Só eu tenho esse poder. Ouço-me.
Digo que quero paz na minha vida e depois dedico-me a queixar-me de tudo o que está errado. Sou mentiroso. Se quero paz, poderia começar a ouvir o que faço? É impossível ter paz enquanto me dedico ao que está errado e me causa mal-estar. Poderia começar a dedicar-me a tudo o que está certo na minha vida. Por exemplo, esta respiração a acontecer sem esforço.  E consigo ver. E consigo falar. E tenho um computador. E as coisas boas na minha vida são tantas que não há espaço para as coisas más.
Eventualmente ouço-me a descobrir que não tenho nada e isto traz-me ainda mais liberdade. Não possuo nada nem ninguém. Se alguém tirar o portátil que acreditava ser meu, só pode ser para o meu bem. Sei que a vida é bondade. E dedico-me a descobrir de que maneira não ter um computador portátil é uma coisa boa.
Há uns dias alguém me perguntava se seria bom para mim perder todos os clientes. Se não tivesse qualquer fonte de rendimentos. Em poucos minutos vi tantos benefícios que escolhi parar, podia mesmo ficar sem clientes. Sem clientes poderia dedicar-me a mim. Sou a pessoa que sobra quando não há mais ninguém. E não teria que pagar a renda do espaço que alugo. E não teria que me levantar às seis e trinta todas as manhãs. E não teria que ir para o Porto todos os dias. E podia dedicar-me à agricultura a tempo inteiro. E teria mais tempo para estar com aqueles que amo (o que é relativamente fácil: são sete mil milhões de acordo com as últimas estatísticas). E ter clientes é igualmente bom.
Ouço pessoas a falar de amor e de que somos todos um. Costumam ser as mesmas pessoas que depois criticam os políticos, os mais religiosos, os que não seguem a sua filosofia de vida. Chama-se a isto fundamentalismo. São ainda estas as pessoas que carregam as maiores feridas. O que ouço é que as pessoas que mais falam de amor e compaixão são as que mais se afastam desta experiência. Chama-se a isto a sombra humana.
Eu ouço o que tu fazes. E ouço o que eu faço. Quando dizes que queres paz para o planeta e julgas os que maltratam um animal estás em realidade a criar mais guerra. Alguma vez paraste para pensar como será a vida daqueles que magoam, ferem e abandonam outros? Não me parece que seja uma vida muito serena. E ao criticar estas pessoas estamos em realidade a dizer-lhes que a guerra funciona, que magoar e ferir é ok. É o que fazemos, não é verdade?
Como posso querer a paz e o amor quando critico, julgo, desrespeito, amuo, vingo-me ou afasto-me? Quando quero que os outros deixem de ser quem são para serem quem eu quero que sejam? Quando eu deixo de ser quem sou para agradar porque ainda acredito que preciso que gostem de mim?
Se vejo um animal abandonado posso sentir algum amor pela pessoa que abandonou o animal e ajudar a criatura da melhor maneira que me for possível. É este o exemplo do amor. E a pessoa que abandona o animal pode ouvir-me a ser amor.
Se o filho é desarrumado, poderia mostrar-lhe a delícia de ser arrumado? Começando por arrumar as minhas ideias sobre o certo e errado. E descobrir onde sou desarrumado. O filho teve que aprender a ser desarrumado com alguém. Muito provavelmente comigo.
Ainda esta manhã uma amiga me falava dos pobres animais que são maltratados em laboratórios onde lhes fazem experiências terríveis e testam um novo perfume ou outra coisa assim. É terrível, é verdade. E o que podes fazer em relação a isso? Parar de comprar produtos que tenham sido testados em animais. Por outro lado, é graças a muitos destes animais em laboratórios que uma pessoa é salva. Quase todos os medicamentos foram testados em animais. Pensa nisso da próxima vez que tomares um antibiótico.
Se queres paz e amor ouve como tratas aqueles que esqueceram esta experiência. Que exemplo lhes damos ao apontar o dedo, ao exigir que mudem. Dizemos amor enquanto fazemos guerra.
O que ouço da vida é que é bondade absoluta. E digo-o também pelas centenas de pessoas com quem tive já o privilégio de trabalhar. Pessoas sábias que descobrem que por detrás de cada desgraça e erro há ouro puro. Com muita frequência vejo pessoas começar a trabalhar “o pai bateu-me” e terminam com “o pai amava-me”. E não, não faço lavagens cerebrais, apenas questiono até não haver mais questões e a realidade mostrar-se como é.

Ouço o que faço e ouço o que fazes. E não quero nunca que mudes. Não preciso que mudes para eu estar bem.

Sem comentários:

Enviar um comentário