quarta-feira, 30 de maio de 2018

Descomplicar a Vida


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Até há alguns anos a nossa vida era pautada por bons e maus momentos. Sabíamo-lo. Era assim.
Nos últimos anos, em parte devido à expansão das redes sociais, já não é assim.
Todos os nossos “amigos” falam de energia positiva, de ser feliz, da imperatividade de viver uma vida a dois, de preferência com um sorriso contínuo estampado nas fuças.

Há uns dias uma “amiga” postava no Facebook que era toda ela energia positiva. Comentei que tal era ridículo. O cérebro está em constante actividade eléctrica, em que é necessária uma carga positiva e outra negativa. Disse-lhe ainda que se não houvesse noite não haveria legumes nem fruta. Claro que esta “amiga” me “desamigou” – eu era a energia negativa que ela não precisava!

Esta ideia de ser feliz e ir atrás dos nossos sonhos e fazer só o que nos alegra e dá prazer está a levar muita gente a depressões profundas. Criam um ciclo vicioso. Acreditam que deveriam fazer um trabalho maravilhoso, e encontram-se numa fábrica de produção de cotonetes. Sentem-se mal por não estar a trabalhar na fábrica de cabos eléctricos para Ferraris. E depois sentem-se mal por se sentirem mal. E acreditam que se sentem mal porque o trabalho não lhes proporciona prazer. Um ciclo vicioso que é alimentado por esta ideia do “Tu és capaz!” ou “Nada é impossível”.

A realidade é que há uma pessoa que escreve um livro que vende milhões de exemplares. Isto não significa que todos irão ter o mesmo sucesso de vendas ao escreverem a história da abelha que se apaixona por uma alface.

Comparamos a nossa vida com aquilo que vemos nas redes sociais e isso leva-nos a estados de ansiedade e/ou depressão.

Esta é a realidade. Quando a vida não acontece como queremos e a consideramos negativa, querer que seja diferente irá apenas aumentar o sofrimento. O oposto também é verdade. Ou seja, quando a vida não acontece como queremos e aceitamos que de momento é assim, leva-nos a um estado de paz onde a mudança é possível.

Podemos não gostar do trabalho que fazemos, e no entanto este permite comprar alimentos. Em vez de sonhar com a viagem ao Polo Norte, podemos estar felizes por ter comida na mesa. Sim, há um pobre desgraçado que vai ao Polo Norte, e desta vez não nos tocou a nós. É só isso.

Há a vida real, com um nascer do sol radiante e rosas lindas e homens e mulheres maravilhosos e empregos de sonho, e com tremores de terra que matam milhares, e doenças degenerativas e acidentes de automóvel. E depois há a vida das redes sociais onde apenas é permitido ser-se feliz, viver na luz (não sei que raio é isto mais mantenho um espírito de curiosidade em relação ao assunto) e onde os casais são tão perfeitos, mas tão perfeitos, que nem sequer fodem.

Em vez de buscar um propósito de vida, talvez seja mais saudável buscar um copo de água. E este copo de água é o propósito de vida por enquanto. Querer algo grandioso digno de ser publicado no Facebook é o mesmo que ensinar um gato a ladrar. Por mais que nos esforcemos a ensinar a criatura a ladrar, o resultado será sempre um “miau”.

O mesmo acontece quando procuro quem sou. É uma busca louca e sem fim. Por um motivo muito simples: o nosso cérebro está biologicamente construído para a adaptabilidade, ou seja, continuamente tenta adaptar-se à situação presente. Logo, quem eu sou muda continuamente, de acordo com o ambiente e situação que se apresenta.

Querer ou desejar aquilo que não está a acontecer é o caminho da vítima. Há uma diferença entre planear e criar estratégias e o impossível desejo de que a vida aconteça como queremos. Caso não tenham reparado, a vida não nos pede autorização. Vive-se.

Muita gente acredita que é possível controlar a vida. Não é. Eventualmente a vida encarrega-se de no-lo mostrar.

Isto não significa tomar uma atitude passiva perante o que acontece. Pelo contrário, significa aceitar o que acontece e definir estratégias para alterar o que acontece sem uma expectativa de que tem que acontecer como queremos. Um exemplo: A vida é mais fácil quando aceito a dor de dentes. E posso torná-la mais fácil indo ao dentista. Chorar que não deveria ter uma dor de dentes não irá eliminar a cárie. Queixar-me à amiga que me dói um dente não irá curar a dor. Enviar luz e amor à cárie não a fará dissolver-se. Dentista. Dentista é a solução prática.

Em vez de tentarmos alcançar uma vida perfeita, porque não ver a perfeição tal como se apresenta neste momento?

3 comentários:

  1. E,por vezes,a vida encarrega-se de pôr as palavras que mais precisávamos de ler à nossa frente.
    Como estas. Obrigada :)

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  2. É verdade que estamos na era da Luz, Leveza, Positivismo... etc, mas não podemos esquecer que sem sofrimento não existimos e não avançamos. Por vezes é difícil de suportar a dor, queremos desistir, desaparecer e voltar quando tudo for perfeição e calmia.

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