quarta-feira, 13 de junho de 2018

As coisas boas da vida....


Nos últimos trinta ou quarenta anos temos vindo a criar esta ideia de que a vida só vale a pena se formos felizes. Tudo é vendido sob a premissa que iremos ser mais felizes se obtivermos este produto ou aquele serviço. Procuramos o prazer de estar vivos incessantemente.

Esta busca é a causa de muitas depressões e actos de agressividade. Queremos filhos bem comportados, alimentos saudáveis, companheiros que nos fazem felizes, tempo de lazer fantástico, amigos incríveis, carros fabulosos, empregos sem stress mas que nos encham a alma.

A sensação de prazer, como a sensação de tristeza, mágoa, frustração, perda, alegria, entusiasmo, etc. é uma emoção passageira. Em realidade é mais do que uma emoção passageira. É a recompensa por termos feito algo. Não é possível experienciar emoções positivas sem antes termos passado por uma emoção negativa.

Este escapismo das emoções negativas apenas serve para nos sentirmos mais e mais negativos, tristes, sem alento.

Queremos acordar pela manhã cheios de energia e felizes por estar vivos. Mas verificamos que não temos a casa de sonho, ou o companheiro de sonho, ou os filhos de sonho, ou o emprego de sonho. E começamos a luta pelo prazer de estar vivos. Lutamos com a cara ensonada (queremos aquela expressão de vida radiante no espelho), lutamos com a cozinha por ser pequena, lutamos com o filho porque não está a sorrir e pronto a tomar o pequeno-almoço. Lutamos com o companheiro por não ter ajudado nas lides da manhã com um sorriso de orelha a orelha. Depois lutamos com o trânsito por não andarmos à velocidade que queremos. Lutamos com a colega de trabalho porque não elogiou o vestido novo. Lutamos com o chefe porque não nos deu o crédito suficiente pelo trabalho de ontem. Quando chegamos a casa ao fim do dia continuamos a lutar.

Se pudéssemos abrandar poderíamos observar que o desassossego matinal pode ser apenas uma sensação que nos empurra para cuidar de nós e dos filhos, por exemplo. E depois de o ter feito, surgirá a sensação de ter realizado algo. Sentir-nos-emos satisfeitos. A sensação de desespero que surge por estarmos presos no trânsito pode levar-nos a sair de casa mais cedo, evitando os engarrafamentos da hora de ponta, e que terá como resultado uma sensação de bem-estar ao chegar ao trabalho mais cedo e com tempo para tomar um café com calma. O sentimento de revolta ao chegar a casa e ver o companheiro de trombas pode levar-nos a preparar uma refeição deliciosa que irá produzir a sensação de auto-valorização e realização por cuidarmos daqueles que amamos.

Quando compreendemos que emoções negativas são a força que nos impele à acção, então o prazer, o deleite, o estar bem onde estou, surgirá naturalmente. Sem a necessidade de recorrer ao último modelo de iPad ou máquina de fazer gelados em 20 minutos.

Mas enquanto acreditar que o prazer é importante, irei continuamente procurar uma fuga dos momentos que são a fonte do prazer.

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