quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Uma boa maneira de educar os filhos

Pedi ao meu querido amigo Gonçalo autorização para publicar esta história, uma vez que ilustra bem o poder da educação emocional nos relacionamentos familiares.

O Gonçalo e a Ana têm dois filhos, de 3 e 6 anos.

Estes dois amigos participaram no seminário do Processo da Sombra duas vezes. Neste processo permitiram-se crescer e evoluir, e educar os seus filhos seguindo uma vertente verdadeiramente espiritual.

Muito resumidamente o que sucedeu em casa deste meu amigo foi o seguinte:

O Gonçalo preparou um sumo e disse ao filho mais velho que era para partilhar com o irmão mais novo. Todavia a criança, expressando o seu lado egoísta, bebeu todo o sumo.

O Gonçalo poderia ter optado pela via mais fácil, que era apontar o dedo e acusar o filho de egoísta, mau, feio... etc. Isto ocuparia o meu querido amigo durante alguns segundos apenas. E deixaria marcas no filho para o resto da vida (ninguém que ser egoísta, mau ou feio). Em vez disso, o Gonçalo sentou-se ao lado do filho e fez-lhe ver que o que ele tinha feito era um acto de egoísmo. E não havia nada de errado com o egoísmo em determinadas situações (e explicou essas situações), mas naquele caso não era apropriado. Não precisou de dizer ao filho que tinha sido mau, ou feio. O menino compreendeu perfeitamente a importância de partilhar e, por iniciativa própria, pediu desculpa ao irmão.

Por outro lado, o meu querido amigo só se apercebeu do milagre que tinha ocorrido depois de tudo ter acontecido. Ou seja, não premeditou a conversa com o filho. E isto é o que acontece quando abraçamos a nossa sombra.

Eu acho bastante divertido ouvir as pessoas ditas “espirituais” que afirmam que somos todos um, e que o universo está em nós, e que o universo é holográfico (o todo está contido em tudo), etc. Mas depois esforçam-se que nem loucos para afirmar a sua separação! Porque estas pessoas não são más, nem egoístas, nem invejosas, nem ciumentas, nem avarentas, nem rancorosas! Nada, isso são os outros! Sou só eu a ver a contradição?

Isto mostra muito bem o nível de ignorância em que se estão a envolver e o quanto estão embrulhados nos seus enormes egos.

Passo a explicar-me. Este universo, pelo menos este, é feito de opostos. O dia perderia o significado sem a noite, o quente sem o frio, o alto sem o baixo. Só através dos opostos é que podemos discernir a realidade.

O mesmo sucede com as nossas emoções, hábitos e comportamentos. Um não pode existir sem o outro. A pessoa generosa também é egoísta (mas não vê o seu egoísmo, porque decidiu chamar-lhe outra coisa). Temos medo de assumir os nossos aspectos negativos porque alguém nos informou que esses aspectos são mal vistos pela sociedade, seremos abandonados, maus, etc. E isto pura e simplesmente não é verdade.

Se nós somos Um, então o que eu vejo nos outros está já em mim! Eu tenho apenas duas opções: ou expresso o aspecto ‘negativo’ de uma forma saudável, ou terei que o projectar e deixar que alguém me mostre esse aspecto por mim rejeitado. Mas isto não é um processo fácil. Não é porque nos ensinaram que certos comportamentos humanos são maus. E são-no! Quando não permitimos que estes se expressem de uma maneira saudável!

Basta olhar para um recém-nascido! Em questão de minutos ele expressa raiva, amor, alegria, tristeza... Tudo em dois ou três minutos!

Deixo-lhe um exemplo do que é expressar um comportamento de uma maneira saudável. (E aviso já que deve sentir-se livre para tecer os seus juízos de valor e moralismos – eu também o faria!) Ainda ontem fui para a praia. Uma praia fantástica onde é raro haver pessoas. Gosto de estar nu na natureza, de sentir na totalidade a presença da natureza em mim, e foi isso que fiz. Entretanto, o Rui chamou-me a atenção para alguém que se aproximava (eu estava a meditar, no meio de dunas, só seria visto por outros se alguém se afastasse bastante da praia). Eu simplesmente ignorei, o facto de poder ser visto não me afectou minimamente. O Rui, por outro lado, começou a tecer juízos de valor sobre o exibicionismo (acusava-me delicadamente de o ser).

Primeira questão: o que vês de mau num exibicionista? (são pessoas que se ‘mostram’ sem pudor a um público incauto). É óbvio que havia um exibicionista na sombra do Rui que ele não permitia expressar. Ao não permitirmos que um aspecto de nós, que consideramos mau, seja expresso, ele irá manifestar-se de maneiras pouco saudáveis! Perguntei ao Rui como é que ele podia expressar o seu “exibicionista” de uma maneira saudável, e o que estaria disponível para ele se se permitisse expressá-lo?... Depois de algumas tentativas (ok, e com a minha ajuda), descobriu que se fosse exibicionista na escola poderia ajudar muitos mais colegas, poderia brilhar mais e, assim, mostrar aos colegas que não só é ok brilhar como é importante para que outros possam fazer o mesmo. E aqui temos uma expressão saudável do exibicionismo!

Nós nascemos completos. Generosos e egoístas, alegres e tristes, estúpidos e inteligentes. Temos todos os aspectos da humanidade em nós. Mas depois ensinam-nos que alguns desses aspectos são maus. DEVERIAM ENSINAR-NOS ANTES A EXPRESSAR ESSES ASPECTOS DE UMA MANEIRA SAUDÁVEL! Mas ninguém sabe fazer isso, e é complicado, e perdemos muito tempo a explicar ás crianças...

Fiquei deslumbrado quando o Deepak Chopra afirmou num seminário que duas das suas características mais importantes são a inveja e a estupidez! A inveja, pelo facto de os irmãos serem reconhecidos pelo seu profissionalismo, e a estupidez de não saber como lançar-se na vida. E expressa estes dois aspectos de uma maneira incrivelmente saudável: a inveja foi o trampolim que o levou a estudar mais e a querer saber mais, a aprofundar os seus conhecimentos e a escrever sobre eles, partilhando a sua sabedoria com milhões de pessoas em todo o mundo! A estupidez levou-o a envolver-se com pessoas inteligentes que o ajudaram a construir o seu negócio de uma maneira que ele sozinho nunca teria conseguido!

Digam-me uma coisa: se o Dr. Deepak Chopra é capaz de afirmar publicamente que possui um lado invejoso e estúpido, porque será tão difícil para nós aceitarmos que possuímos aspectos na nossa sombra que preferíamos não existissem?...

E depois, estas pessoas altamente evoluídas e espirituais, esforçam-se loucamente por mudar! Mudar aquilo que não gostam nelas! E todos os dias dizem mantras belíssimos (que o são, sem dúvida), e vão a seminários para a limpeza de vidas passadas, e fazem regressões, e comunicam com os anjos, e limpam a aura... Tudo na vã esperança de mudar, de serem pessoas melhores, sem aspectos negativos! E esquecem-se da premissa inicial: nós somos tudo!

Este acto de querermos melhorar quem somos é idêntico ao do príncipe que, vivendo num castelo com mais de 200 assoalhadas, esquece-se disto e vive em dois alojamentos apenas. E passa uma vida a melhorar esses dois alojamentos, a reconstruir, a pintar em tons de rosa, a deitar abaixo uma parede e construir uma janela... Nunca usufruindo da totalidade do castelo!

Enquanto não abraçarmos a totalidade que somos nunca haverá paz. O inimigo a quem apontamos o dedo está dentro de nós. Ignorar aquilo de que não gostamos não solucionará nunca a nossa existência.

Conheço pessoas “evoluídas” que vivem num silêncio de desespero. Sorriem muito e fazem de conta que está tudo bem, que as suas vidas são perfeitas. E basta olhar com alguma atenção para ver que tudo não passa de uma máscara. Que por detrás da máscara há feridas emocionais profundas que tentam a todo o custo esconder delas mesmas.

E depois há pessoas verdadeiramente evoluídas. Que sabem que são tudo. E vivem felizes sabendo que são tudo. São poucas estas pessoas, mas existem.

Uma amiga minha, há alguns meses teve uma experiência maravilhosa com o seu aspecto “estúpido”: o filho chegou a casa, vindo da escola, e contou-lhe que outra criança lhe tinha chamado “estúpido”. Ela riu-se. Depois contou ao filho três situações em que ela tinha sido estúpida. Mais duas situações em que o pai tinha sido estúpido... Eventualmente a criança riu-se também e concluiu: “somos todos estúpidos, não é mamã?” – ao que ela respondeu “sim, somos todos estúpidos, mas também somos inteligentes!” E abraçou o filho. Curou uma ferida emocional ainda antes de esta criar raízes na criança!

É tão fácil descobrir o que está na nossa sombra. Primeiro veja quais as suas qualidades. Os opostos dessas qualidades encontram-se na sua sombra (e irão surgir na sua vida através do comportamento de terceiros). Por outro lado verifique quais os comportamentos humanos que “mexem” emocionalmente consigo. Também estão na sua sombra.

É fácil saber o que se encontra na sombra de alguém ouvindo essa pessoa a queixar-se. E se é o tipo de pessoa que já não se queixa de nada, dê o passo seguinte: descubra onde está em guerra consigo mesmo! Quais os aspectos de si dos quais tem vergonha? Aqueles aspectos que sente terror que outros descubram? Os aspectos que nega veementemente? Aquilo que sabe com toda a certeza que não é!

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