terça-feira, 8 de setembro de 2009

As máscaras humanas: a Impassível

A pessoa que usa esta máscara esforça-se terrivelmente para lhe fazer ver que está tudo bem, que não tem preocupações e a sua vida se encontra equilibrada, sem grandes percalços. A sua afirmação mais comum é “Está tudo bem. A vida é maravilhosa, não há qualquer problema!” Esta pessoa está convencida de que não há necessidade de mudar porque tudo na sua vida está precisamente como deveria estar, mesmo que o mundo à sua volta esteja em tumulto, zangado e despedaçado. Na sua conversa desdiz-se com facilidade. Ora tudo é perfeito como no minuto seguinte afirma, tentando não mostrar raiva, que não concorda com a politica educativa. A Impassível tem uma tendência natural para se absorver em actividades que a mantêm ocupada todo o dia, por forma a não ter que se envolver com os problemas alheios. Procura ser validada pelos outros mostrando um ar descontraído e muito tolerante (até que alguém mencione Hitler ou Salazar – aí é vê-la proferir o seu discurso moralista favorito: se apenas os outros fossem mais optimistas e focassem a atenção em tudo de bom que já está presente nas suas vidas).

A Impassível tem um medo aterrador de fazer ondas e, por este motivo, esforça-se por mostrar uma imagem de confiança e calma, quando na verdade vive sobre areia movediça. Debaixo da aparência de calma existe a convicção angustiante de ser incapaz de lidar com a assustadora imprevisibilidade dos outros e do mundo em geral. Atrás da máscara da cordialidade, a qual parece impenetrável, existe uma enorme sensação de impotência em lidar com o pessimismo alheio. Na verdade sempre que a Impassível desconfia de estar frente a um pessimista a sua primeira tendência é para mostrar que as coisas até nem estão assim tão mal. A segunda tendência é ignorar estas pessoas.

Quando a Impassível tem que enfrentar um amigo ou familiar que está mal, ou irritado, ostenta um sorriso fácil. Isto ajuda-a a manter a máscara de impedir que os problemas dos outros a afectem, quando em realidade está a esforçar-se por não se envolver num conflito que é seu.

A Impassível é simplesmente uma mentirosa empedernida que consegue iludir-se a si e aos outros quanto ao que se passa na realidade. Se ela pudesse ter contacto com a sua própria insatisfação, mágoa, ira, ou outras emoções “pesadas”, seria capaz de abrir também a porta ao lado sombrio dos que ama. Mas o medo aterrador do caos que ocorreria se admitisse a intensidade do seu desespero faz com que persiga muitas e variadas formas de aturdir os seus sentimentos mais profundos e verdadeiros. Para tal opta por ir ás compras, uma aula de ioga, um passeio – tudo o que seja possível para manter as suas feridas mais profundas a uma distância segura.

A vergonha da Impassível é sentir-se incapaz, impotente, excessivamente sensível, descontrolada e palerma.

O desafio da Impassível é tornar-se realista e reconhecer e aceitar o mundo imperfeito do qual faz parte. Uma vez que é comandada pela necessidade de parecer perfeita, a Impassível tem que se desafiar a si mesma a prestar menos atenção às aparências exteriores e um pouco mais de atenção à sua experiência interior. A melhor maneira da Impassível tomar consciência da sua máscara (poucas pessoas têm a coragem de admitir usar uma máscara – talvez porque sabem que todos ‘precisam’ de uma) é colocar-se em frente a um espelho e repetir durante 10 minutos “Eu sou feliz e a minha vida é perfeita”. A Impassível tem que se dispor a confrontar o terror que a invade quando pressente que pode perder o controle da situação e permitir-se não ter qualquer controle sobre as situações da vida. Em pouco tempo será capaz de compreender que as coisas que considerava serem os seus maiores defeitos a tornam na realidade mais humana e, por consequência, mais ligada a quem a ama.

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