domingo, 7 de fevereiro de 2010

Queixinhas, queixinhas, queixinhas!

Queixarmo-nos é uma atitude bizarra. É como se acreditássemos que ao queixarmo-nos, algo de mágico irá acontecer. Como se alguém ou algo nos vai ouvir com atenção e tornar a nossa vida melhor.

Eu queixo-me disto e queixo-me daquilo, queixo-me de um colega e de um amigo e de um funcionário, e depois de tantas queixas algo de bom vai acontecer. Alguém vai tomar conta das minhas queixas e eliminar cada uma das coisas “erradas” na minha vida.

É como se Deus estivesse a ouvir-me e decidisse: “Acho que esta criatura já sofreu o suficiente. É melhor começar a mudar o mundo em que ele vive!”

Não vai acontecer nunca.

De cada vez que me queixo tenho que escrever as minhas queixas. Questionar a veracidade de cada queixa. Tornar-me consciente daquilo que me queixo. Observar o número de vezes que ao longo do dia estou a enviar um sinal negativo à vida. E as vezes que a vida me responde com mais coisas para me queixar.

Mas em vez disso, limito-me a queixar-me, e a queixar-me mais um pouco, e ainda mais. E de cada vez que me queixo magoo-me, e magoo-me mais, e ainda mais um pouco. É como se estivesse a validar o meu sofrimento e a afirmar a quem quiser ouvir o quanto eu sofro e sou um coitadinho. Olhem o que os outros me fazem! Mudem o mundo, por favor!

É como se estivesse a rezar desde que acordo até voltar a adormecer. Uma oração com algumas birras pelo meio. E nem sequer estou a falar das queixinhas na minha mente!

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

E ninguém me está a ouvir, se eu não me estiver a ouvir. E continuo a acreditar que me irei sentir bem por me queixar! Não acontecerá nunca!

Quem é que na tua vida se queixava assim? Quando eras criança. Talvez tivesses visto a tua mãe a queixar-se, ou um irmão mais velho. E talvez esse familiar, através das suas queixinhas, conseguisse aquilo que queria. E foi aí que decidiste: “Aqui está uma maneira fácil de conseguir aquilo que quero! Acho que vou viver assim a minha vida! Se me queixar o suficiente, posso conseguir tudo aquilo que quero!”

Esta atitude mostra apenas uma total irresponsabilidade. É responsabilizar outros pela minha vida. É dar o poder da minha vida a outros. E aguardamos pelo mundo inteiro para que tome conta de nós. Só que o resto do mundo tem mais que fazer. Ouve-nos a queixar-nos, e queixar-nos um pouco mais... E nem sequer nos está a ouvir! Ninguém quer ouvir as pessoas queixinhas.

O que é que você pensa quando alguém se queixa da sua vida pessoal a si? Provavelmente qualquer coisa como: “Mas por que raio não faz ele qualquer coisa em vez de se queixar?!”

Peço-te que comeces a ouvir-te a ti mesmo. De cada vez que te queixas. Observa as tuas necessidades escondidas em cada queixa. O que queres dos outros? O que precisas dos outros? Pede! Mas não faças o teu pedido através de uma queixa. Fá-lo através de um pedido honesto. Pode ser que os outros te digam “não”. E esta resposta está certa. Ou pode ser que os outros te respondam “sim”, e esta resposta também está certa.

De cada vez que nos queixamos estamos a afirmar que a Vida, Deus, o Universo, são imperfeitos, inadequados. E tudo o que temos a fazer é apontar o dedo. E é assim que iremos viver: apontando o dedo, queixando-nos, fazendo birras, magoando-nos a nós mesmos.

Exercício de Apoio:

Este trabalho é efectuado em profundidade pela Byron Katie. Pega em cada queixa e faz 4 perguntas:

1. Isto é verdade?

2. Tenho a certeza absoluta que isto é verdade?

3. Como é que reajo, como trato os outros, como me sinto, quando acredito neste pensamento?

4. Quem seria eu sem este pensamento?

Para fazer um bom trabalho, dá a volta à queixa. Inverte aquilo que dizes, e depois encontra exemplos genuínos para a inversão. Pegando no exemplo acima:

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

“Estou farto de mim! O meu patrão não me suporta! Eu não valorizo o meu amigo! Os meus pensamentos desgraçam-me! Não me esforço e até controlo o meu gato (através daquilo que penso)!” E depois vou estudar-me. Ver até que ponto a nova afirmação é tão ou mais verdadeira que a inicial.

Bom trabalho!

Emídio Carvalho

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