quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O parodoxo espiritual

Nos vários cursos de Educação Emocional que já ofereci encontro com bastante frequência um mesmo problema: a aceitação do corpo físico tal como ele é.

As pessoas sentem um desejo enorme de se tornarem mais espirituais, mas têm uma enorme dificuldade em abraçar o seu corpo, em dar-lhe carinho, mimos, amor incondicional.

O nosso corpo físico representa um terço de quem somos: corpo, mente e alma. O corpo é o nosso aspecto mais denso e o que está mais ligado à realidade física.

Pela minha experiência é impossível sentirmos a ligação ao eterno e divino em nós enquanto não fizermos as pazes com o nosso corpo físico.

A maioria das pessoas é espiritual dentro da cabeça. Nunca tiveram a experiência espiritual através do coração, dos sentidos. Aquela experiência em que o amor dentro do coração é tanto que apenas nos resta chorar. Hoje sei que este chorar deve-se a que o Amor queima tudo aquilo que não é. Na experiência espiritual tudo o que não somos é queimado.

Como sei que tive já a experiência da minha espiritualidade? Quando estou em paz num mundo conturbado. Quando deixo de incluir no meu vocabulário todos os “devias”, “precisas de” e “tens que”. Quando o meu desejo de mudar o mundo desaparece e apenas me vou mudando aos poucos. Amando cada pedaço de mim, e depois cada pedaço dos outros. Vendo-me em todos à minha volta.

Mas este é um processo do coração e nunca da mente.

Recordo-me das palavras de Neale Donald Walsch: Só ouvirás a voz de Deus quando deixares de acreditar que já a ouviste. Só conhecerás a Deus quando deixares de acreditar que O conheces. Só serás tu mesmo quando deixares de acreditar que sabes quem és.

O nosso corpo é perfeito. Sempre. Mas enquanto eu olhar para o meu corpo e vir imperfeições, enquanto quiser que ele seja diferente, estarei em guerra com uma parte de quem sou. Num ambiente de guerra é impossível evoluir para além dos aspectos mais primitivos do ser humano: o amor condicionado.

Toda a gente apregoa o amor incondicional. Mas são poucos os que o praticam. Ainda esta manhã apanhei-me a julgar a minha irmã. E depois levei com as projecções encima de mim! Ao pensar que a minha irmã é uma ditadora, o que estava a pensar em realidade é que eu gostaria de ditar como ela deveria ser (e lá vem mais um “deverias”). Ninguém nos ensina mais do que aqueles que nos magoam. Mas só 100% das vezes.

A forma mais rápida de conseguir a paz dentro de nós é invertendo tudo o que pensamos dos outros e dirigi-lo a nós.

- Os americanos só estão bem a fazer guerra / eu só estou bem a fazer guerra (sobretudo na minha cabeça, contra os americanos);

- Os meus pais são sofredores natos, sempre doentes / eu sou um sofredor nato, sempre doente (sobretudo na minha cabeça, quando me dedico a focar a atenção nas doenças dos meus pais em vez de viver a vida);

- O meu vizinho é arrogante e um chato / eu sou um arrogante e um chato (sobretudo ao julgar-me superior ao meu vizinho e ao falar dele a terceiros);

- Não tenho amigos e sinto-me só / não sou meu amigo (principalmente quando me sinto só na minha companhia);

- Devia perder peso, estou gordo / devia perder pensamentos, sou um obeso mental (sobretudo na forma como trato o meu corpo);

- Odeio as pessoas teimosas e que querem ter sempre razão / odeio-me quando sou teimoso e quero ter sempre razão (esta é deliciosa: um teimoso só o é na presença de outro, e quando afirmo que os outros não têm razão o que estou a afirmar é que eu é que tenho razão!);

Este é um processo delicioso de libertação do ego. Nem sempre fácil. Mas sei apenas que tudo o que penso dos outros é de mim que estou a falar.

E voltamos ao corpo. Se eu tiver problemas com a parte de mim que é a mais presente no meu dia-a-dia, como posso ter paz com as restantes partes?

Este foi o principal motivo que me levou a criar o pequeno curso de Massagem Psico-sensual. Uma forma de fazermos as pazes uma vez por todas com o nosso corpo. E quando somos capazes de amar todo o nosso corpo, sentimo-nos bem na presença de quem quer que seja. E permitimos que outros nos dêem carinho e ternura, porque somos capazes de o fazer a nós mesmos e aos outros também.

É bom ter o meu corpo! Cada centímetro quadrado é maravilhoso e adorável.

3 comentários:

  1. Excelente texto... às vezes focamos as coisas que não devemos!

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  2. Carl Jung disse: "o teu inconsciente é o teu destino."
    Um abraço
    Filomena

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  3. Essa questão do amor incondicional é muito dificil de se praticar... Acredito que conseguir amar dessa forma faz parte do nosso destino, da nossa evolução... Devemos trilhar esse caminho, muitas vezes não é facil, mas devemos tentar, cada um a seu tempo e da sua forma, sempre respeitando a própria individualidade...

    Paz

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