quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Qualquer relacionamento tem vida, ou não.

A vida é como uma teia de interações, em que tudo está ligado a tudo. A única exceção a esta realidade é a ligação que estabelecemos uns com os outros.

Seja a relação entre um pai e o filho, dois colegas de trabalho ou dois namorados. Há uma ligação. E esta ligação só existe enquanto for alimentada por ambas as partes. Pode ser alimentada de uma maneira que nos nutre e faz-nos sentir parte da relação. Ou pode alimentar-nos de uma maneira que nos leva ao afastamento, mesmo que de início não tenhamos consciência que é isso o que está a acontecer.

Entre adultos a maioria dos relacionamentos cresce seguindo um padrão expectável: a relação tem início e cresce ao ser alimentada por ambos. Há a presença um do outro. Há a partilha de momentos. Eventualmente começamos a tratar o outro como se fosse um brinquedo com um interruptor de on/off. Agora quero-te  presente. Agora quero-te silencioso. Agora quero-te feliz. Agora não te quero. Agora quero-te novamente falador. Agora há muita coisa a acontecer na minha vida e prefiro que simplesmente estejas por aí.

Estes relacionamentos adultos podem ser de alta ou baixa manutenção.

O relacionamento de alta manutenção é o que se vive menos tempo. Neste tipo de relacionamento exigimos a presença constante do outro. Queremos a atenção constante do outro. Queremos que o outro concorde connosco. Queremos que nos dê prazer, mas só quando nós queremos. Queremos que o outro nos compreenda. Não ouvimos o outro. Não valorizamos sequer a sua presença. Sabemos que o outro está lá para nós e isso é tudo. Passamos meia hora a falar dos nossos problemas e quando o outro fala dos seus queremos ir ao cinema ou às compras. Não respeitamos o outro, violando a sua vulnerabilidade. Um exemplo disto é a relação em que um dos elementos usa o outro para falar dos seus problemas, medos, ansiedades, aventuras do passado e de como o dia corre, mas não tem tempo para ouvir o que está a acontecer do outro lado. Prestamos pouca atenção ao outro. E quando descobrimos que o outro troca mensagens com uma amiga optamos por nos passar da cabeça e insultar, imaginando cenários que raramente correspondem à realidade. Ou amuamos.

Muitos problemas surgem quando não prestamos atenção nem ouvimos o outro. A outra pessoa pode informar-nos, por exemplo, que gosta de sushi e, como nós não gostamos, imediatamente informamos porque motivo não gostamos e o que desgostamos acerca do sushi. Poderíamos ir ao restaurante sushi e pedir uma sopa de miso, por exemplo. O outro troca mensagens com alguém e ficamos impacientes por descobrir o que se passa. Isto é violar o espaço do outro. Se a troca de mensagens nos for útil a nós de certeza que a outra pessoa nos irá informar. Isto significa esperar que a outra pessoa nos dê informação sobre a sua vida ao invés de nos tornarmos detectives a tentar descobrir a vida do outro. Há um abismo entre descobrir o outro à medida que ele ou ela se vai revelando, e descobrir o outro porque acreditamos ser detectives.

Nas relações de amizade criamos muitas vezes situações de afastamento por um de dois motivos. Ou continuamente discordamos do amigo e mostramos como nós é que temos razão, ou simplesmente ignoramos a sua vida até precisarmos dele na nossa vida.
Em relação ao concordar ou discordar, é muito fácil ouvir a opinião do amigo e, caso a nossa opinião seja diferente, repetir a opinião do amigo e acrescentar que a nossa experiência é simplesmente diferente (nunca é). Dois exemplos. O amigo afirma que o futebol clube do porto é a melhor equipa nacional e nós acreditamos que o benfica é que é o tal. Podemos simplesmente afirmar algo que é a mais pura verdade: “Tu acreditas que a tua equipa é a melhor e eu também acredito que a minha equipa é melhor, não é interessante como ambos temos uma equipa que acreditamos ser a melhor? Somos muito parecidos, e és capaz de ter razão.” – Isto não invalida a opinião do amigo nem a minha. A amiga afirma que odeia a quadra natalícia. Podemos concordar com ela muito facilmente pedindo-lhe para elaborar. Ou seja, mostrar curiosidade por saber os motivos do ódio. Iremos ficar a saber mais sobre esta amiga. E, em última análise, opiniões não têm qualquer valor.

Já todos passámos pela experiência de nos afastarmos de amigos, sem qualquer motivo aparente. E quando precisamos, lá vamos nós bater à porta.

Basicamente, em qualquer relacionamento procuramos apenas uma de quatro coisas: aprovação, atenção, validação ou amor. E se não obtivermos uma destas coisas, a relação está condenada. À medida que deixamos de necessitar destas quatro coisas podemos construir um relacionamento em que estamos presentes para o outro. A ausência é a morte lenta de qualquer relacionamento.

A relação cresce quando o outro tem motivos para estar presente na nossa vida. Porque quereria alguém estar na tua vida? Que motivos dás para que a outra pessoa queira efetivamente estar presente?


A resposta resume-se a duas palavras: bondade e generosidade.

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