quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Razonite Aguda


A violência em qualquer relacionamento começa quando tentamos impor ao outro a nossa forma de experienciar a vida.
Acreditamos que a nossa interpretação da realidade é real.
E é apenas uma interpretação.
Acreditamos ainda que não ter razão implica estarmos errados, a nossa forma de ver e experienciar a vida está errada.

Em realidade praticamente todos os seres humanos têm a mesma experiência da vida. Colocamos cada experiência em uma de entre seis gavetas. Isto é bom ou mau, bonito ou feio, certo ou errado.

Esquecemos que muitas vezes o que é certo para um individuo é errado para outro. Por exemplo, eu acredito que gritar com alguém é errado. Mas há pessoas que, ou por problemas de audição, porque não sabem comunicar de outra forma ou por doenças endócrinas, gritam quando falam. E estas pessoas acreditam que estão certas. Ao dar razão à pessoa que grita não estou a ser a favor, nem a concordar, com uma comunicação feita aos gritos. Dar razão significa apenas que respeito a forma como o outro comunica. E é muito possível que me afaste desta pessoa. Simplesmente somos duas pessoas com experiências diferentes na área da comunicação. Querer que a pessoa que grita pare de gritar será uma perda de energia para mim. Poupo-me ao afastar-me.

Há pessoas, por exemplo, que lutam pelos direitos dos animais, ou por um planeta mais saudável, ou um mundo humano mais justo. Estas pessoas não se apercebem que o simples facto de lutarem implica violência. É como se a um mundo violento adicionar mais violência vá melhorar o que quer que seja.

Em vez de lutar pelos direitos dos animais, o que posso fazer para que a vida de um animal seja melhor? Em vez de lutar por um planeta mais limpo, poderei deixar de comprar produtos plásticos, usar transportes públicos e consumir apenas produtos biológicos? Em vez de lutar para que haja justiça na sociedade poderia começar por ver onde sou injusto ainda? Por exemplo, costumava ser muito injusto para com pessoas que considerava preconceituosas.

Gandhi e Mandela são dois exemplos de como não lutar trás resultados muito, mas muito mais eficientes para a sociedade. Tanto Gandhi como Mandela foram maltratados inúmeras vezes, espancados até. Mandela viveu vinte cinco anos numa cadeia por crimes que não tinha cometido. Ambos mostraram uma compaixão tremenda para com os agressores. Aceitaram que os agressores eram quem eram, e escolheram a via da paz. Pacificamente conseguiram que a Índia saísse das mãos dos ingleses e que a África do Sul terminasse a sua política de apartheid. Se isto foi o melhor ou não, é outra história.

Cada ser humano tem a sua razão, tendo em conta a educação a que teve acesso (e mesmo que fosse uma boa educação, muitos faltaram às aulas de civismo), cada ser humano reúne em si uma série de experiências que lhe ensina a viver. Há pessoas que acreditam na violência, outras acreditam no álcool e outras ainda nas mensagens da música pop.

A pessoa que tem um doutoramento não é melhor nem mais sábia que o varredor de ruas: é diferente. Os dois têm experiências de vida diferentes, e os dois podem ensinar algo ao outro.

A questão é simples: estou disponível para ouvir o outro sem o julgar? E poderia simplesmente escolher aproximar-me ou afastar-me sem necessidade de luta?

O melhor que cada um de nós pode fazer é oferecer o nosso exemplo. Isto é tudo. Mesmo.

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