domingo, 13 de outubro de 2019

A importância das emoções negativas


O corpo humano possui mecanismos para se manter vivo. Todos estes mecanismos são importantes. Por exemplo, a insulina e o glucagon. Um excesso ou deficiência de açúcar no sangue provoca danos graves no corpo, levando eventualmente à morte. Para evitar que isto aconteça o corpo (pâncreas) produz insulina sempre que os níveis de açúcar aumentam (informa muitas das células para consumirem mais açúcar e dá ordens ao fígado para armazenar qualquer excesso). Por outro lado, se acontecer uma deficiência de açúcar, o pâncreas liberta glucagon, o qual informa o fígado que está na hora de libertar algum do stock de açúcar armazenado. 

O mesmo acontece com as emoções. São um mecanismo essencial ao bom funcionamento do indivíduo enquanto parte de uma sociedade. Cada emoção tem um efeito sobre determinados órgãos. Por exemplo o medo, a ansiedade, a culpa. Estas emoções servem para que a pessoa tenha um comportamento que a mantenha viva enquanto ser humano e enquanto parte de um grupo. As emoções são uma herança dos nossos antepassados. A culpa era fundamental para o indivíduo pertencer ao grupo. Se não fosse caçar com a tribo, o sentimento de culpa levá-lo-ia a sentir-se mal e a esforçar-se da próxima vez, caso contrário poderia ser excluído da tribo e a sua sobrevivência ficaria em causa. Este sentimento conduz à produção de neuropeptídeos que por sua vez afectarão determinados órgãos. 

As emoções são a linguagem primordial que nos levam a desejar fazer parte de um grupo. A sentirmos uma conexão com os outros, ou a sentir uma desconexão.

Assim como seria idiotice impedir o pâncreas de produzir insulina quando esta é necessária, impedir que uma emoção seja vivida ou tentar eliminá-la tem um efeito negativo. Interromper uma emoção de se viver na totalidade causa danos a todos os níveis, desde o físico ao emocional e mental.

Não temos que compreender o processo fisiológico de uma emoção para que esta se viva na sua totalidade. E também não temos que atacar os outros quando a emoção é tão avassaladora que sentimos estar a morrer.

Tomemos a raiva, uma emoção de sobrevivência pura. Esta emoção era essencial quando vivíamos em cavernas. A raiva leva à produção de cortisol e adrenalina, entre outros. O seu efeito faz-se sentir desde os rins até aos olhos. A raiva é o que nos leva a lutar até à morte. Nos dias de hoje são muito raras as situações em que precisamos de lutar até à morte. Mas se nos lembrarmos do motivo porque a raiva surge, saberemos viver esta emoção na sua totalidade. A raiva é a emoção que diz “pára imediatamente tudo o que estás a fazer e muda de direcção. Faz qualquer coisa pela tua vida, agora”. Não é para amanhã, nem para daqui a dois meses. É agora. Muda. Já. Pode ser mudar a atitude, mudar de lugar, mudar de relação. Ouvir e permitir que esta emoção se viva significa gritar, dar murros no ar, correr. É uma emoção que liberta muita energia no corpo. Impedir que se viva na totalidade levará a problemas nos rins, fígado, olhos, ouvidos, coração, estômago, intestinos… E no entanto somos ensinados a abafar a raiva. É mal vista. Significa ser-se mal-educado. A raiva abafada levará a comportamentos destrutivos. Iremos atacar verbal ou fisicamente aqueles que nos são próximos. Iremos fazer coisas das quais nos arrependeremos mais tarde.

A emoção que mais danos causa quando não assumida e vivida é a vergonha. Ensinam-nos muito cedo a “ter vergonha”. Há uma diferença entre a vergonha e a culpa. Enquanto a culpa é um sentimento que nos indica que fizemos algo de errado, algo que podemos corrigir, a vergonha é o sentimento que nos mostra haver algo de errado connosco, que somos produto danificado. A culpa diz-nos que falar mal dos outros é errado. A vergonha diz-nos que somos pessoas más, ou que não somos suficientemente boas para ser aceites no grupo. A vergonha leva-nos a esconder a nossa humanidade, a atacar qualquer pessoa que toque nas nossas feridas emocionais, e a desvalorizar  o sofrimento, nosso ou dos outros. Observa, por exemplo, o que acontece quando alguém que nos é querido se sente triste, deprimido ou chora. Tentamos que mude, que deixe de chorar. O seu comportamento envergonha-nos porque nos faz sentir impotentes, o que é uma vergonha. Ou seja, queremos interromper o processo emocional de alguém que nos é querido, porque permitir isso leva a que se inicie em nós um processo tóxico de vergonha. Aliás, nós próprios temos vergonha da nossa tristeza ou da necessidade de chorar, considerando isto como um sinal de fraqueza, fragilidade, impotência. (A propósito, são estas qualidades que nos tornam humanos). 

O processo de pacificação com emoções rotuladas de negativas começa por permitir que se vivam na sua totalidade (muitos de nós já nem sabemos como se faz isso). Se é um amigo, mãe, ou filho que está a passar por um processo doloroso, ficar ao seu lado e simplesmente dizer “eu estou aqui” é a melhor resposta para respeitar o processo em si. 

Nos retiros do Processo da Sombra, os exercícios em que nos permitimos sentir na totalidade estas emoções, os sentimentos de não sermos suficientemente bons, de acreditar que há algo de errado connosco, são sempre os mais intensos. E também os mais libertadores. 

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