quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Solidão

Há um mito hinduísta que nos conta muito bem qual a natureza da solidão – como surge e o que podemos fazer.

Havia um rei muito bondoso e rico, que governava o seu reino com o coração. Todos os seus súbditos o admiravam e procuravam para resolver qualquer situação difícil. Um dia o rei saiu à caça, com um grupo de amigos. À entrada da floresta viu um veado, o qual se encontrava apenas a uns metros para além do alcance da sua flecha. O rei decidiu ir atrás do veado. Quanto mais o rei se aproximava do animal, mais este se afastava. O rei não desistiu. Cavalgou meio dia atrás do veado, o qual conseguia manter-se sempre apenas a uns metros fora do alcance das flechas do rei. Depois de muitas horas a perseguir o veado, o rei apercebeu-se que estava perdido na floresta, longe dos seus amigos e de tudo o que lhe era familiar. E o veado tinha desaparecido completamente do seu campo de visão. Perdido e sem saber como regressar, o rei fez o que era mais sensato: sentou-se e ficou à espera que alguém o encontrasse. Enquanto esperava começou a ouvir um canto melodioso, uma voz doce, sensual e muito feminina. Levantou-se e seguiu a voz que cantava muito perto. Numa clareira viu uma jovem encantadora, sensual e bela. O rei dirigiu-se até ela e perguntou-lhe se era livre, se estava disponível para ser a sua rainha. A jovem, que reconhecera o rei, ficou encantada. Claro que queria ser a sua rainha. Um rei jovem, belo, bondoso e sábio! Mas não querendo magoar o seu pai disse ao rei que este tinha que pedir autorização ao patriarca. Ambos caminharam até à cabana onde um velho se encontrava sentado à entrada. O rei disse ao velho quem ele era e quais os seus propósitos. Claro que o velho ficou radiante com a possibilidade da sua filha vir a ser a rainha daquele reino! Mas não querendo parecer fácil, exigiu algo em troca da filha. Pediu ao rei que poderia levar a sua filha e torná-la na sua rainha, com uma condição: jamais poderia deixar que a sua filha visse água. O pedido foi feito apenas para não mostrar ao rei que tanto o velho como a sua filha eram fáceis. Não havia nada de especial no pedido.

O rei prometeu que jamais deixaria que uma única gota de água fosse vista pela sua futura rainha. O palácio do rei ficava num lugar belo, ao lado do rio Ganges. O rei mandou construir uma enorme parede entre o rio e o palácio, para que a sua rainha não visse água. Mandou ainda retirar todas as fontes dos jardins do palácio. Sempre que chovia ele acompanhava a rainha dentro do palácio, para que esta não se sentisse só e, ao mesmo tempo, não visse a chuva.

Tão preocupado andava o rei com esconder a água da sua bela rainha que começou a descurar os assuntos do reino. Todos os súbditos se queixavam. O rei não queria saber de nada nem ninguém, apenas a sua rainha era importante. E os assuntos do reino começavam a criar o caos.

Um dos súbditos, mais fiel ao rei, pediu-lhe que lhe dissesse o que se passava. O rei contou-lhe então a história da água. E disse-lhe ainda como se sentia triste por ele próprio não ver água. O súbdito arranjou logo uma solução: construir uma fonte no jardim real e escondê-la com arbustos por forma a ser impossível vê-la. Apenas o rei saberia da sua existência, e sempre que sentisse saudades da água, poderia afastar os arbustos e contemplar a fonte. Isto foi feito de imediato. O rei recuperou a sua alegria na companhia da sua bela rainha e os assuntos do reino começaram a ser resolvidos com bondade e amor.

Mas eis que um dia, estava o rei distraído, a sua bela rainha passeava pelo jardim real e, ouvindo o correr da água, espreitou por entre os arbustos. Imediatamente, ao ver a água, a rainha desapareceu. No seu lugar havia um sapo. O rei, ao presenciar toda a situação, entrou num profundo desespero silencioso. Como poderia aquilo ser possível? Como poderiam ter-lhe roubado a sua rainha?

Carregado pelo desejo da vingança, o rei mandou matar todos os sapos do reino. Todos os dias aldeões carregando sacos cheios de sapos mortos apareciam ás portas do palácio para receber uma recompensa. E o dinheiro do reino era assim desperdiçado. Milhões de sapos eram dizimados para aplacar a sede de vingança do rei. E o rei sentia-se cada vez mais só, mais triste. Nada, nenhum ouro, nenhuma pessoa conseguiam acalmar a ira e a solidão do rei. Esta é a forma mais cruel de solidão.

Até que o rei dos sapos, não aguentando mais ver os seus congéneres a serem dizimados, foi ter com o jovem rei e disse-lhe: “Jovem rei, tu estás a exterminar toda a minha espécie. Eu sou o pai da tua rainha. Ela regressou à terra dos sapos no dia em que quebraste a tua promessa.” O rei ouvia o sapo e sentiu compaixão pelo animal. Fez as pazes com o sapo e, como resultado, o rei sapo devolveu a sua filha ao rei, beijando o sapo que se encontrava junto à fonte. A rainha voltou à forma humana em todo o seu esplendor. O rei resgatou a sua alegria e a rainha passou a poder desfrutar da água sem correr o risco de voltar a ser sapo.

Se substituir a palavra ‘água´ pela palavra ‘realidade’ irá começar a compreender esta bela história. Pedir que a sua filha nunca visse água era pedir que ela nunca fosse sujeita a enfrentar a realidade. Cada relação amorosa, cada paixão, transporta este pedido, esta proibição. Irá funcionar desde que não fique sujeita a enfrentar a realidade. No nosso dia-a-dia isto é muito real. Damos o nosso Ouro a outro para que o carregue por nós, mas eventualmente este Ouro tem que voltar a nós – o encontro com a realidade. Neste momento, se não estivermos conscientes do que se está a passar, todo o romance, toda a paixão, é dissolvido imediatamente. Vemos o outro por quem é na verdade, sem o nosso Ouro, o qual se torna num fardo pesado para nós.

(Nota do autor: este conto faz parte de um pequeno manual que escrevi há alguns meses sobre a projecção das nossas melhores qualidades - O Ouro Interior)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A doença como reflexo da sombra

Havia na Índia, há centenas de anos atrás, um príncipe muito rico. Tinha os melhores ministros a governar o seu reino e, por isso, nunca tinha que se preocupar com os súbditos. Os ministros encarregavam-se de governar enquanto ele se dedicava aos seus prazeres. Passeava, caçava, fazia enormes festas e tinha várias amantes. Vivia feliz sabendo que o seu povo estava bem entregue nas mãos dos seus ministros.

Um dia acordou pela manhã e reparou que tinha na sua coxa direita duas pequenas manchas vermelhas que o incomodavam. Acreditando que tinha sido picado por pulgas, mandou queimar toda a roupa da sua cama e não pensou mais no assunto. Foi caçar com alguns dos seus guardas e ao fim do dia deliciou-se com um enorme banquete. Quando se foi deitar reparou que as duas manchas vermelhas eram agora dois enormes olhos que pareciam cheios de raiva. O príncipe ficou preocupado e mandou chamar os seus médicos.

Os médicos aplicaram-lhe óleos e fizeram massagens. As duas manchas pareceram diminuir de tamanho e o príncipe adormeceu sem mais pensar no assunto. Quando acordou no dia seguinte já as duas manchas pareciam novamente dois olhos enraivecidos. Mas a sua coxa estava pior! Agora aparecia também uma protuberância que se assemelhava a um nariz e uma boca retorcida. Cheio de dores, o príncipe mandou chamar novamente os seus médicos. Estava aterrorizado com o aspecto daquela ferida na coxa. Tinha tons avermelhados e arroxeados e expelia pus. Os médicos decidiram cortar aquela ferida horrorosa.

O príncipe passou alguns dias na cama, a recuperar da operação que lhe tinha salvado a perna. Ficou aliviado quando voltou novamente a viver a vida prazenteira que sempre tinha vivido. Voltou a caçar, a passear, a divertir-se com enormes banquetes e festas intermináveis.

Passaram-se alguns meses. Um dia o príncipe acordou cheio de dores na coxa direita. A ferida tinha voltado, e desta vez com muita mais ferocidade. Dois olhos enormes esbugalhados e enraivecidos olhavam o príncipe com desdém. Do nariz ensanguentado até aos lábios roxos saía um liquido viscoso e fedorento. Desesperado e cheio de dores, o príncipe gritou pelos seus médicos que o acudissem. Mas os médicos não sabiam o que fazer.

Foi então que um dos seus servos mais chegado lhe falou na fonte de Kwan-Yin. Uma fonte milagrosa abençoada pela própria deusa da compaixão. Dizia-se que todos os que se banham-se nas suas águas eram curados. Sem mais demoras o príncipe pegou nos seus guardas e dirigiu-se até à fonte. A cara monstruosa que crescia na sua perna tornava-se mais e mais irritada e agressiva.

Depois de algumas horas a cavalgar chegaram próximo da fonte. Uma velha sentada à beira do caminho avisou o príncipe de que apenas a pessoa que procurava a cura de Kwan-Yin poderia avançar a partir daquele ponto. O príncipe deixou os guardas e o seu cavalo e, a muito custo, dirigiu-se até à fonte.

Sentou-se à beira da fonte e começou a deitar água sobre a enorme ferida que odiava, para que esta desaparecesse para sempre. Foi então que a ferida lhe falou: “porque tentas destruir-me todo este tempo e nunca olhaste para mim, nem quiseste ouvir uma única palavra que eu te dizia? Será que não és capaz de me reconhecer?”

O príncipe olhou para a ferida com mais atenção e foi então que viu uma cópia distorcida da sua própria face. As suas lágrimas de dor começaram a cair sobre a ferida. À medida que as lágrimas caiam sobre os olhos na sua coxa direita, estes começaram a transformar-se nos olhos da própria Kwan-Yin, a qual lhe diz: “Nunca tiveste um coração compassivo. Nunca tiveste um acto de benevolência. De que outra maneira poderia eu chamar-te para a tua verdadeira natureza?”

O príncipe e a deusa passaram horas a conversar sobre o segredo do seu sofrimento, o qual tinha surgido muitos anos antes da ferida na coxa. Quando por fim nasceu o novo dia, a ferida do príncipe estava completamente curada.

Talvez o nosso próprio sofrimento interior seja a causa das nossas doenças. As nossas vergonhas e arrependimentos secretos se manifestem no corpo fisicamente, nos nossos músculos e ossos, nas artérias e nervos. Talvez até dentro das nossas pequenas células, acorrentados no interior por memórias de eventos que ocorreram e não deveriam ter ocorrido. E aí permanecem, repousando num silêncio mortal, escorraçados para a escuridão. Para surgir anos mais tarde como um tumor pernicioso, uma artéria obstruída, uma onda de ansiedade envolvente, ou uma dor misteriosa e sem diagnóstico a que chamamos dor crónica. É no sofrimento dos nossos sintomas que muitas vezes a sombra se materializa.

A nossa sombra emocional – o pessimismo, a depressão, o cinismo, a agressividade – possui um equivalente físico. Embora um não cause necessariamente o surgimento do outro de uma forma simples e linear, parece óbvio que partilham uma evolução em que as fronteiras de um se cruzam com o outro. Por este motivo é possível fazer trabalho da sombra através do corpo ou da mente. Idealmente um bom trabalho da sombra envolve-nos a nível mental, emocional e físico.

A pergunta que lhe deixo para reflectir: qual é a sua vergonha? Qual é o segredo que tem medo que outros descubram sobre si? E o que pode fazer para expor o seu segredo ainda hoje?