quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quem está mal que se mude

Observo como muitas pessoas gostam de afirmar que não mudam, como se isso fosse algo positivo. Não é.
A vida é toda ela feita de mudança. Sempre em mudança. Tudo muda. Excepto algumas pessoas que acreditam que mudar significa rejeitar-se enquanto ser humano.

A mudança de que falo, enquanto ser humano, é a capacidade de adaptabilidade. A vida muda, circunstâncias mudam, e nós podemos endurecer e lutar contra a mudança ou podemos adaptar-nos.

O nosso drama maior é acreditar que sabemos o que é melhor para nós e, consequentemente, para os outros também. O melhor para mim é viver ao teu lado. O melhor para ti é tratar-me com dignidade. Acreditar que sei o que é melhor para mim é não confiar na vida. Quando eu sei o que é melhor para mim (ter saúde, um bom salário e muitos amigos) e a vida atira-me para o desemprego, eu sofro. E não confio o suficiente na vida para saber que o desemprego pode ser uma oportunidade de mudança radical para algo melhor.

Nos relacionamentos também é importante mudar. Há uma diferença entre mudar para ter a outra pessoa ao nosso lado e mudar porque a vida pede mudança.
Um exemplo. A companheira gosta de passear à beira mar e tu gostas de visitar museus. No velho modelo, é esperado que mudes para agradar à companheira, negando os teus gostos. Isto é algo que só se consegue manter durante algum tempo. Num novo paradigma, tu podes experimentar um passeio à beira mar para aprender algo que te tenha escapado. Fazes o passeio com o objectivo de aprender e não de agradar. E no fim podes descobrir que realmente não gostas de passear à beira mar, e não há qualquer problema. Mas pelo menos deste-te a oportunidade de descobrir algo.

A mudança significa ainda que a pessoa que era ontem não existe. Hoje há uma nova pessoa aqui. Ontem acreditava que iria sofrer para sempre. Hoje alguém oferece-me um sorriso e mostra-me que o sofrimento é uma opção.

As pessoas que se mantêm em situações de sofrimento (seja num trabalho mal pago, num relacionamento violento ou a ir a festas que se detesta) fá-lo porque tem pavor da mudança. E também porque está a colher benefícios da situação. Detesto o trabalho que faço, mas paga as contas. Não gosto dos gritos histéricos da companheira, mas pelo menos não estou só. O pai trata-me mal, mas pelo menos posso contar com ele numa situação de aflição.

Acreditamos muitas vezes que temos a razão do nosso lado, e que os outros é que estão errados e deveriam mudar. Isto é acrescentar mais sofrimento à vida. O oposto é mais real: eu estou errado e eu é que posso mudar. Mudar de emprego, mudar de lugar, mudar a atitude. Mas ensinaram-nos que estar errado é mau, que fazer asneira é mau, e que perder a razão pode despoletar uma guerra mundial. Saber-me errado permite-me aprender mais. Saber-me sem razão permite-me ouvir os outros. Saber que fiz asneira permite-me reconhecer a vulnerabilidade de todos os seres humanos.

O que tens medo que aconteça se te permitires mudar? Se estiveres disponível para desistir da pessoa que acredita na maldade do ser humano e passares a acreditar na bondade de toda a humanidade? Que crenças e preconceitos barram o teu processo de mudança? 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Relacionamentos Saudáveis


Só é possível viver um relacionamento saudável com outro ser humano quando o relacionamento que temos connosco é saudável. 

Como me relaciono com este corpo? O que acredito acerca dele? Deveria ser diferente? Mais magro, mais gordo, mais alto, mais baixo, mais bonito, mais moreno? O que há acerca deste corpo que ainda não aceito?

Depois há a relação com as emoções. Emoções são a vida da alma. Surgem, visitam, querem viver-se em nós. Por outro lado fomos ensinados que há emoções negativas ou más, que é melhor suprimir. A supressão de uma emoção conduz inexoravelmente a feridas na alma. Permitir que a emoção se viva na totalidade é a única saída para um bom relacionamento intimo connosco. Uma fúria, um medo, uma angústia, um terror, uma ansiedade.
Permitir que a emoção se viva na totalidade pode ser assustador. Sobretudo se vivermos acostumados a suprimi-las (porque são más, obviamente). Nenhuma emoção é negativa ou má quando permitimos que se viva na sua totalidade. E isto não significa despejar os nossos estados emocionais para cima dos outros.

Depois disto, dedica algum tempo a descobrir a tua natureza. A nossa natureza é uma qualidade. Pode ser a bondade, a generosidade, o carinho, a alegria, a calma. Qual a qualidade que expressas naturalmente sem esforço? Vive a partir daí.

E passamos para os relacionamentos com aqueles que nos rodeiam, desde a companheira ao pai ou tio ou colega de trabalho.

Quando a relação que mantemos connosco é amorosa iremos dar por nós a precisar de comunicar  verbalmente muito pouco com os outros. O nosso exemplo é suficiente. Através do nosso comportamento mostramos o que gostamos, o que apreciamos. Os outros poderão ver o nosso exemplo e segui-lo, ou podem não estar no ponto necessário para ver e ouvir. E é ok que assim seja.

Ultimamente tenho estado mais consciente do quanto não conseguimos ouvir os outros. Porque não nos ouvimos a nós mesmos.

Se para ti é importante o carinho, para a pessoa ao teu lado pode não ser. Podes mostrar a essa pessoa que o carinho é importante. E se essa pessoa não está disposta a demonstrar carinho, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar. Se para ti é importante a calma, a tranquilidade, e a pessoa com quem vives tem acessos de fúria, ouve-te: não é com essa pessoa que queres estar.

Temos medo muitas vezes de abandonar um relacionamento porque o medo do desconhecido nos foi incutido desde muito cedo. Este medo só é possível enquanto a relação que manténs contigo não for saudável.

No próximo workshop na Espiral (Lisboa) em Janeiro de 2017, iremos mergulhar sobretudo nesta coisa chamada auto-estima, amor-próprio e relação amorosa connosco. A todos os que escolherem participar desde já informo que será um privilégio para mim poder acompanhar o processo individual de cada um.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Vamos aprender a fazer uma sopa de miso, lasanha de legumes e dois lutos

Isto de haver um processo de se fazer o luto é o mesmo que comparar esta experiência a uma qualquer experiência que envolve acção. Fazer.

Mas será que o luto é algo que se faz, ou é algo que se experiencia?

A própria palavra, luto, limita toda a experiência de não voltar a conviver fisicamente com alguém que nos é querido. Isto só por si pode ser catastrófico para a pessoa a quem morre um ente querido.

Não sei quais são as fases do luto. Parece-me que saber isto servirá apenas para me atormentar. Quanto tempo devo “fazer” o luto? Haverá um tempo? E quem decide acerca desse tempo?

A minha experiência pessoal em relação a este tema é muito difícil de colocar em palavras, como todas as experiências emocionais intensas. Fica-se a saber da morte de alguém que nos é querido e aqui, neste corpo, fisicamente, surgem emoções como a tristeza, a revolta, a vontade de chorar, urrar, bater murros fortes numa parede, soluçar, rir, e de um modo geral, todo um cocktail de emoções, muitas delas avassaladoras. E para mim é ok. Deixo que cada emoção visite. Respeito a emoção. Não a considero errada ou má. Sei que com o tempo estas emoções irão diluir-se. Mas serão sempre bem-vindas.

Quem é que terá decidido que a tristeza, a raiva, a mágoa, são emoções más? Emoções a eliminar da nossa vida? Porque o haveríamos de fazer? Em realidade não conseguimos eliminar estas emoções. Quanto mais lutamos para que elas não marquem a sua presença mais fortes elas se tornam.

Dizer a alguém a passar pela experiência da perda física de um ente querido que “tenha força” ou, mais absurdo ainda, “coragem”, é fazer um pedido para que enterre sentimentos avassaladores. É pedir que não grite, quando há um grito no peito a querer viver-se. É pedir que não chore, quando há uma tristeza profunda a querer mostrar-se.

Em realidade parece-me que a muitas pessoas incomoda a demonstração destas emoções. Como se presenciar alguém a viver sentimentos de desespero fosse incomodativo ou houvesse a necessidade de ajudar a superar o momento. A lógica por detrás de um “tens que ter força” é louca, é a lógica do “se começares para aí a gritar eu vou ter que te ajudar e não sei como fazer isso”.

Na presença de alguém que perde um ente querido a minha atitude é extremamente simples. Estou presente. Faço saber que estou presente. Só isso. E se a pessoa quer gritar, gritar é bem-vindo. Se a pessoa quer chorar, chorar é bem-vindo. E se a pessoa quer falar, o diálogo é delicioso. A pessoa fala, eu ouço. Não tenho que mudar nada, porque não há nada para mudar. Não tento distrair nem animar a pessoa, porque sei que a experiência do outro é única, é a sua experiência. Respeito-a. Isto é tudo.
Há beleza no rosto da pessoa que não esconde o que se faz sentir em si.
E posso sempre convidar a um abraço, um passeio ou um café. Não há forma de errar aqui.

domingo, 18 de setembro de 2016

Relacionamentos perfeitamente imperfeitos (parte ii)

Enquanto crianças é natural querer alguém que cuide de nós. A natureza é mesmo assim. Podem chamar-lhe instinto de sobrevivência ou necessidade natural, o certo é que enquanto crescemos procuramos quem cuide nós. Regra geral chamamos-lhes pai e mãe. Ou Maria e Francisco. Ou Bruxa Má e Ditador. Independentemente do rótulo atribuído, a necessidade de apoio, segurança, comida, é natural.
O mesmo não se pode dizer de um adulto.
Um relacionamento íntimo saudável entre dois adultos só pode funcionar quando ambos reconhecem o outro como igual. Ambos têm desejos, frustrações, hesitações, receios, forças, trabalho.
Mas, como muitos de nós esquecemos de largar a necessidade da infância de apoio e segurança, começamos a ver o parceiro como o provedor destas necessidades.
Inicialmente até pode ser delicioso cuidar do outro. Eventualmente torna-se um peso bastante pesado.
Esperamos que o outro cuide das nossas necessidades (ou é esperado de nós cuidar do outro), e quando o não faz, nós fazemos birra. Em criança, a birra era vista como desagradável pelos adultos. Então, em vez de espernearmos no chão e desatar aos berros, optamos pelo tratamento silencioso (aka “amuo”). Fechamo-nos e ficamos à espera que o outro descubra onde está a falhar. Ou, optamos pela agressividade mais activa, gritando, questionando, insultando.
Um adulto mentalmente são não se relaciona intimamente com uma criança. É crime e estamos naturalmente programados para sentir repulsa. Mas se o adulto que está connosco necessita de cuidados constantes, de estar sempre informado acerca das nossas andanças, de saber porque motivo estamos tristes ou alegres, a relação deixa de ser entre dois adultos e passa a ser entre um adulto e uma criança num corpo de adulto. Na pior das hipóteses a relação passa a ser entre duas crianças em corpos de adulto. Não funciona.
Para melhor criar uma relação saudável entre dois adultos verifica primeiro o que queres da outra pessoa. Faz uma lista. De seguida experimenta dar-te a ti tudo o que tens na lista. Vai mais longe ainda e tenta dar isso mesmo ao outro. Sei que não será fácil. Mas começarás a compreender porque motivo a relação estagna ou surge o distanciamento.
No próximo seminário “Relacionamentos (im)perfeitos” iremos individualmente mergulhar nas nossas necessidades individuais, iremos aprender a ouvir e processar o que é dito e, sobretudo, aprender a amar a criança que há em nós sabendo que as suas necessidades são continuamente preenchidas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Relacionamentos perfeitamente imperfeitos (parte i)

Vamos mergulhar na realidade dos relacionamentos íntimos entre dois adultos.
O primeiro aspecto que aparentemente temos dificuldade em assumir perante o amor da nossa vida é que queremos coisas do outro. Aquilo que chamamos amor é na maior parte das vezes um jogo de interesses muito bem camuflado.
Eu dou-te sexo, se tu me deres uma vida social. Eu dou-te uma vida social se tu me deres atenção. Eu dou-te atenção se tu me deres segurança.

Mas não temos a integridade nem maturidade de dizer ao outro o que queremos dele. Esperamos que adivinhe. Da mesma forma, tampouco sabemos o que o outro quer de nós. Então dedicamo-nos ambos ao jogo do adivinha. Eu fico à espera que adivinhes o que eu quero de ti, e, por conseguinte, eu vou estar atento às tuas pistas para adivinhar o que queres de mim.

Claro que ambos iremos falhar. Isto porque a humanidade no seu todo adora duas coisas: a novidade e a aventura (ok, muitos gostam de uma aventura cheia de segurança e sem surpresas desagradáveis, o que é impossível). E ao procurar a segurança na relação iremos perder ambos. Tornamo-nos controladores. Por vezes de uma maneira subtil (“mandei-te um sms e demoraste trinta e cinco minutos a responder, onde é que estavas?”), outras vezes de maneira hostil e obnóxia (“sei que andas a meter conversa com outras gajas no Facebook, não sou estúpida, percebes?!”).

Como em realidade eu não te digo o que quero directamente, nem tu a mim, a relação irá sofrer com esta atitude. Eu quero que me dês atenção, e quando estás colado ao iPhone a jogar Pokémon Go eu amuo (“Pista! Presta atenção! Hello?! Então não vês que quero que esqueças aquilo que gostas para te dedicares aquilo que eu gosto, que basicamente é ter a tua atenção”).

De maneira idêntica o outro quer sexo, embora tu estejas a mil à hora na tua cabecinha a pensar no que irás vestir naquela festa fabulosa do próximo fim-de-semana, e sexo é uma coisa que nem te passa pela cabeça. Então quando o teu “mais-que-tudo” te acaricia a tua mente faz o filme do “então não vês que não sou capaz de decidir entre o vestido justinho rosa choque Alexander Wang com os sapatos Miu Miu, e o macacão Prada com as sandálias Brain Atwood?!”. E a carícia do companheiro torna-se a faca que golpeia a relação (neste caso a tua relação com a indumentária do fim-de-semana, percebes isto, não percebes?).

Como ambos querem coisas diferentes, o que é absolutamente natural, mas nenhum tem a coragem de o afirmar, excepto quando a loucura é tanta que desatam aos gritos e insultos,  a relação está condenada ao fracasso desde o início.

Alguns de nós, por motivos variados, optamos então por nos tornarmos subservientes e dizer “sim” a tudo, incluindo a depressão que não sabemos porque se instala.

A solução mais prática, e que não aprendemos, é nós próprios termos a capacidade de nos dar aquilo que exigimos ao outro. Isto liberta o outro para ser quem é. Sem a necessidade de um companheiro/namorado/marido, a vida torna-se doce, suave, leve. E amorosa, que é o que pretendemos quando iniciamos um relacionamento íntimo.

Depois, para os mais requintados nesta arte de sofrer a dois, há a necessidade do companheiro se tornar um paizinho, sempre disponível para lhe fazer as vontades. Ou numa mãezinha, atenta a todas as suas necessidades. Mas isso é uma outra história que podemos ler mais tarde.


domingo, 3 de julho de 2016

Um encantamento atractivo


Acreditamos que se formos pessoas atractivas a nossa vida será fácil, ou pelo menos será fácil atrair alguém que desejamos. Tornar-se atraente ao outro. E as mil e uma maneiras como o podemos fazer.

Há sete passos para o sucesso, ou quinze segredos da felicidade, ou as vinte virtudes para viver bem, ou uma gigantesca lei da atracção.

Isto é tentar vender a ideia que é possível controlar a vida. De alguma forma temos o poder de atrair o que desejamos.

As aranhas são boas nisto da atracção. Constroem teias para atrair a próxima refeição. E embora sejam boas a construir a teia, sem necessidade de recorrer aos sete passos para o sucesso nem aos quinze segredos da felicidade, a realidade é que na teia pode cair uma mosca ou gafanhoto (happy meal!) como pode cair um turista desatento que obrigará a pobre aranha a construir nova teia. Se ao menos as aranhas soubessem e aplicassem a lei da atracção, nunca passariam fome! Claro que os restantes insectos aprenderiam também a famosa lei da atracção e... Começam a imaginar o desarranjo na fauna.

Muitas terapias e movimentos filosóficos tentam ensinar formas de controlar a vida. Se aprenderes a usar roupa como deve ser e a colocar maquilhagem como uma profissional de dança burlesca, o homem dos teus sonhos irá sentir-se atraído por ti, tal como a mosca é atraída pelo brilho da teia da aranha. A questão é se tu queres um companheiro que gosta de ti por seres quem és, ou por teres criado uma imagem atractiva. Manter uma imagem sai muito caro. A imagem do bom pai, da boa esposa, do bom funcionário. Todos muito bons. Podem é ter que pagar um preço muito elevado por tanta bondade que é imagem.

Em pequenos contam-nos histórias de princesas e príncipes que acabam sempre felizes. Claro que é bom que as histórias terminem no momento em que o casal assume que será feliz para sempre, antes que apareçam os filhos, o desemprego, a doença, etc. Isso não se pode contar porque destrói o mito do feliz para sempre.

Um ser humano completo é feito de alegria e tristeza, saúde e doença, labuta e preguiça, calma e tensão, paz e guerra. Pelo menos por agora. E querer só uma parte do ser humano é condenarmo-nos a uma vida de sofrimento.

Em realidade queremos que os outros se comportem como nós queremos. Da mesma forma que a aranha só quer na sua teia aquilo que pode devorar (esta comparação com os aracnídeos está a tornar-se um bocado tétrica, parece-me).

Observa o que acontece quando gostas de alguém. Observa o que sentes. Tu és isso que sente. Sem palavras, sem explicações, sem necessidade de compreender o que raio se está a passar, para além do facto de que te sentes bem. Mas se precisares que o teu gostar seja retribuído, se for necessário que a pessoa de quem gostas goste também de ti, poderás perder o sentimento de gostar.  E é ao perder este sentimento, porque o teu gostar não é validado ou retribuído, que perdes a presença de ti mesmo. Abandonas-te.

Gostar dos outros é a tua função. De quem os outros gostam não te diz respeito.

Quanto a controlar a vida, andamos a tentar fazê-lo há já algum tempo. Não me parece que seja possível. 

Aqueles chavões de “tu és capaz” ou “nada é impossível” são mesmo e só isso: chavões. Não tentes ser mais do que és, irás falhar. Não tentes mostrar que és melhor do que és. Ninguém é melhor que ninguém. Cada um de nós está a ser quem é e quem consegue ser. E podemos mudar, obviamente. Podemos mudar porque é um movimento natural ou podemos mudar para sermos melhores que os outros. No primeiro caso iremos experienciar a paz, no segundo iremos fazer guerra com todos aqueles que não concordarem connosco.

O primeiro passo (são sete, li algures) para o bem-estar é conseguires ouvir-te. Em vez de andar aos saltos a tentar agradar a todos e tentar que todos se sintam bem na tua presença, ouve-te. O que é que tu realmente queres? E o que podes fazer? Se não sabes o que queres, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Se ainda não sabes o que podes fazer, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Descansa. Desfruta do vento na cara. Ou dos gritos dos miúdos à tua volta. Ou da roupa por lavar amontoada a um canto. Tudo está bem como está. E o que é para fazer a seguir? Ouve-te.

Não tentes ser quem os outros querem que tu sejas. Sê quem tu és. E quem tu és será visto pelos outros como bondade e maldade, beleza e fealdade, honestidade e mentira. Completo.
Parece-me muito atractivo.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A arte de saber ouvir

Tudo o que sei e aplico na minha vida é fruto da observação, da experiência. Os livros e os professores ocupam um lugar importante. Ensinam a ler e a escrever e a compreender. São úteis.
Mas para viver em paz comigo e com os outros só é possível se parar, observar sem qualquer ilusão a realidade, aquilo que está a acontecer.
E por isso digo muitas vezes que não ouço o que as pessoas dizem, ouço o que as pessoas fazem.
Aprendemos tudo acerca da vida nos primeiros cinco ou seis anos. Os pais dizem que nos amam. Nós ouvimos eles dizerem isso. E o que é que ouvimos mesmo? O que é que ouvimos os pais fazer quando não somos a criança que eles querem que sejamos?
“Feio, isso não se faz!”
“A tua irmã é melhor aluna.”
“Se voltares a fazer isso vais para o inferno!”
“Não gosto de ti, és má!”
E por aí adiante. Os pais mostram que amam com acções simples, pouco emotivas. Mas quando reprovam um comportamento fazem-no com mais emoção, num estado alterado. E depois ouvimos como os pais mostram que se amam entre si. Amuando, criticando, discutindo. É assim que ouvimos e aprendemos.
Claro que se os nossos pais fossem iluminados saberiam que os filhos têm por missão mostrar-lhes onde eles mesmos não se respeitam, não se amam, não se ouvem. Eventualmente aprendemos que afinal os pais são sábios. A sua função é criar problemas aos filhos. A função dos filhos é encontrar a solução desses problemas. Mas só se quiserem paz.
E é assim, muito cedo, que permitimos ser programados. Não questionamos. Tantas vezes ouvimos, através da acção, que não prestamos ou que não somos bons, que iremos viver esse programa como adultos. Sem nunca questionar.
Ouvimos dos nossos pais, há milhares de anos, que a vida é difícil, que é injusta, que as coisas más acontecem às pessoas boas. Como poderemos nós descobrir que a vida é bondade absoluta com este programa?
Como adulto continuo a ouvir o que as pessoas fazem. Dizem-me que estão mal e precisam de ajuda. E quando proponho uma possível solução dizem-me que não. “Sim, estou mal e a precisar de resolver uma série de coisas, mas fazer as pazes com a mãe é que não faço!” – e outras respostas idênticas. Nenhuma pessoa está capacitada para ajudar outros enquanto não conseguir ver toda a humanidade como preciosa, útil e sábia.
Alguém diz que me ama, e observo como amua quando não faço o que espera de mim. Alguém diz que me respeita, e depois observo como me inunda com desgraças. E claro que sou eu quem permite tudo isto. Eu não me ouço também.
Comecei a ouvir-me ao descobrir que ninguém tem o poder de me magoar. Ninguém consegue faltar-me ao respeito ou insultar-me. Só eu tenho esse poder. Ouço-me.
Digo que quero paz na minha vida e depois dedico-me a queixar-me de tudo o que está errado. Sou mentiroso. Se quero paz, poderia começar a ouvir o que faço? É impossível ter paz enquanto me dedico ao que está errado e me causa mal-estar. Poderia começar a dedicar-me a tudo o que está certo na minha vida. Por exemplo, esta respiração a acontecer sem esforço.  E consigo ver. E consigo falar. E tenho um computador. E as coisas boas na minha vida são tantas que não há espaço para as coisas más.
Eventualmente ouço-me a descobrir que não tenho nada e isto traz-me ainda mais liberdade. Não possuo nada nem ninguém. Se alguém tirar o portátil que acreditava ser meu, só pode ser para o meu bem. Sei que a vida é bondade. E dedico-me a descobrir de que maneira não ter um computador portátil é uma coisa boa.
Há uns dias alguém me perguntava se seria bom para mim perder todos os clientes. Se não tivesse qualquer fonte de rendimentos. Em poucos minutos vi tantos benefícios que escolhi parar, podia mesmo ficar sem clientes. Sem clientes poderia dedicar-me a mim. Sou a pessoa que sobra quando não há mais ninguém. E não teria que pagar a renda do espaço que alugo. E não teria que me levantar às seis e trinta todas as manhãs. E não teria que ir para o Porto todos os dias. E podia dedicar-me à agricultura a tempo inteiro. E teria mais tempo para estar com aqueles que amo (o que é relativamente fácil: são sete mil milhões de acordo com as últimas estatísticas). E ter clientes é igualmente bom.
Ouço pessoas a falar de amor e de que somos todos um. Costumam ser as mesmas pessoas que depois criticam os políticos, os mais religiosos, os que não seguem a sua filosofia de vida. Chama-se a isto fundamentalismo. São ainda estas as pessoas que carregam as maiores feridas. O que ouço é que as pessoas que mais falam de amor e compaixão são as que mais se afastam desta experiência. Chama-se a isto a sombra humana.
Eu ouço o que tu fazes. E ouço o que eu faço. Quando dizes que queres paz para o planeta e julgas os que maltratam um animal estás em realidade a criar mais guerra. Alguma vez paraste para pensar como será a vida daqueles que magoam, ferem e abandonam outros? Não me parece que seja uma vida muito serena. E ao criticar estas pessoas estamos em realidade a dizer-lhes que a guerra funciona, que magoar e ferir é ok. É o que fazemos, não é verdade?
Como posso querer a paz e o amor quando critico, julgo, desrespeito, amuo, vingo-me ou afasto-me? Quando quero que os outros deixem de ser quem são para serem quem eu quero que sejam? Quando eu deixo de ser quem sou para agradar porque ainda acredito que preciso que gostem de mim?
Se vejo um animal abandonado posso sentir algum amor pela pessoa que abandonou o animal e ajudar a criatura da melhor maneira que me for possível. É este o exemplo do amor. E a pessoa que abandona o animal pode ouvir-me a ser amor.
Se o filho é desarrumado, poderia mostrar-lhe a delícia de ser arrumado? Começando por arrumar as minhas ideias sobre o certo e errado. E descobrir onde sou desarrumado. O filho teve que aprender a ser desarrumado com alguém. Muito provavelmente comigo.
Ainda esta manhã uma amiga me falava dos pobres animais que são maltratados em laboratórios onde lhes fazem experiências terríveis e testam um novo perfume ou outra coisa assim. É terrível, é verdade. E o que podes fazer em relação a isso? Parar de comprar produtos que tenham sido testados em animais. Por outro lado, é graças a muitos destes animais em laboratórios que uma pessoa é salva. Quase todos os medicamentos foram testados em animais. Pensa nisso da próxima vez que tomares um antibiótico.
Se queres paz e amor ouve como tratas aqueles que esqueceram esta experiência. Que exemplo lhes damos ao apontar o dedo, ao exigir que mudem. Dizemos amor enquanto fazemos guerra.
O que ouço da vida é que é bondade absoluta. E digo-o também pelas centenas de pessoas com quem tive já o privilégio de trabalhar. Pessoas sábias que descobrem que por detrás de cada desgraça e erro há ouro puro. Com muita frequência vejo pessoas começar a trabalhar “o pai bateu-me” e terminam com “o pai amava-me”. E não, não faço lavagens cerebrais, apenas questiono até não haver mais questões e a realidade mostrar-se como é.

Ouço o que faço e ouço o que fazes. E não quero nunca que mudes. Não preciso que mudes para eu estar bem.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Respeitinho, se faz favor

Ouço com frequência pessoas da minha idade e mais velhas queixarem-se que hoje em dia já não há respeito.
As pessoas que se queixam desta falta de respeito não param para observar se alguma vez houve respeito. Quando éramos adolescentes, se pararmos o tempo suficiente, descobriremos que nós também não tínhamos qualquer respeito pelos outros. Tínhamos outra coisa: medo ou resignação.
Não é possível falar de respeito quando nós mesmos não temos a experiência de nos respeitarmos. Acreditamos que o respeito é algo que se impõe ou se merece. E não é uma coisa nem outra. O respeito só pode ser experienciado a partir de dentro.

Algumas das formas de desrespeito que não consideramos:
-       O amigo que pede ajuda e nós ajudamos, não porque é natural em nós ajudar mas porque acreditamos que é o que um amigo é suposto fazer (o chamado “frete”);
-       O corpo adoece e nós tratamo-lo como estando errado ou a fazer algo que não gostamos (expressões inocentes como “as malditas das dores nas costas”);
-       Dedicarmo-nos à má-língua mesmo sabendo que nos sentimos mal ao fazê-lo;
-       Acusar os outros por fazerem aquilo que nós mesmos fazemos;
-       Fazermo-nos passar por vítimas para não ter que lidar com situações que nos são desagradáveis;
-       Culpar outros por tudo o que percepcionamos como errado nas nossas vidas;
-       Deitarmo-nos abaixo quando a vida não acontece como nós queremos.

Se para mim o respeito é um valor importante (e é), então será mais fácil começar esta história por mim.

Quando alguém opina, eu respeito a opinião mesmo que a minha experiência seja diferente. Uma amiga dizia-me que as mulheres sempre sofreram porque vivemos numa sociedade patriarcal. Respeito a opinião dela. A minha experiência é diferente (lá em casa era a mãe que mandava). Um cliente diz-me que os políticos são todos uns vigaristas. Respeito a opinião dele (este é um homem que esconde uma parte da fortuna para que a ex-mulher não lhe “leve tudo”). Um professor diz-me que os miúdos são cada vez mais mal-educados. Compreendo a sua opinião (ele não se dá conta que é má educação marcar uma sessão e desmarcar em cima da hora porque surgiu algo mais interessante ou está-se cansado). Um pai informa-me que os professores hoje em dia não prestam. Compreendo a sua opinião (este homem chega a passar um mês sem ver os três filhos de duas ex-mulheres).

Queres respeito? Começa por te respeitar a ti mesmo antes de exigir que outros o façam. Por exemplo, eu tenho um problema com pessoas que precisam de gritar quando comunicam com outros. É ok estas pessoas gritarem. E eu afasto-me. Respeito a necessidade do outro gritar e respeito a minha necessidade de calma. Há pessoas que se sentem bem a queixar-se acerca de tudo aquilo que nada podem fazer para mudar (a crueldade contra animais, a fome no mundo, os políticos corruptos), eu respeito a necessidade destas pessoas de se queixarem, e respeito a minha natureza que é de me afastar de queixas que levam a nenhures. Há pessoas que para se sentirem bem têm a necessidade de deitar abaixo os outros. Respeito esta qualidade e respeito a repulsa que sinto deste comportamento, mudando a conversa ou afastando-me.

Posso verificar que tenho poucos amigos. Talvez porque aqueles que tenho são merecedores do meu respeito. Respeito-os apenas na medida em que me respeito a mim. E em momento algum acredito que alguém me falte ao respeito. Não tenho que ser ditador nem exigir que os outros se comportem como eu quero. E se em algum momento observar que alguém me falta ao respeito, antes de acusar retiro-me para descobrir onde é que ainda me falto ao respeito.

Por vezes há pessoas que acreditam que eu concordo com elas nas suas teorias. Em realidade acredito em apenas duas ou três coisas nesta vida. Não acredito no que me dizem, e respeito a perspectiva de cada ser humano. É a sua perspectiva, merece tanto respeito como a minha.

Acontece-me com frequência ouvir pessoas perguntar-me se deveriam fazer este trabalho que chamo de educação emocional. A minha resposta só pode ser um não. E não explico de onde vem este “não”. Eu posso fazer um trabalho de educação emocional porque sinto um desejo de o fazer, ou posso fazê-lo porque me convenceram que será melhor para mim. E a minha função não é, definitivamente, convencer quem quer que seja do que quer que seja.

Cada ser humano neste planeta está a viver de acordo com aquilo que acredita. E eu respeito as crenças de cada um. A minha experiência pode ser diferente da tua. Apenas isso. No fundo somos muito parecidos em tudo. Ambos respiramos, mexemo-nos de A a B, bebemos, dormimos, comemos, vestimo-nos. Tudo o mais são histórias.
A vida é simples quando te respeito e me respeito. Quem tu respeitas não me diz respeito.

PS - Para os mais curiosos: em que acredito eu? Apenas naquilo que está a acontecer aqui e agora. Factos sem interpretações. Se por exemplo tu fizeres parte do meu Aqui e Agora e estiveres a gritar, acredito a cem por cento que a tua função é gritar (só assim este momento pode ser completo). Não é minha função impedir-te de gritar. E observo como estas pernas se movimentam numa outra direcção. Poderia a vida ser mais deliciosa?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

As histórias que contamos

As nossas histórias servem para nos identificar como únicos. Servem ainda para limitar as nossas possibilidades. Mantêm-nos afastados dos outros apesar de desejarmos fazer parte do todo, de um qualquer grupo.
As nossas histórias roubam-nos energia vital, deixando-nos cansados, desmotivados  e enfraquecidos. Quando vivemos dentro das nossas histórias limitamo-nos a repetir hábitos e comportamentos que cansam.
As conclusões que tiramos das nossas histórias transformam-se nas crenças da Sombra. Ao aceitarmos e vivermos dentro das nossas histórias estamos na verdade a ser vítimas num jogo viciado.
Mas se nós não somos as nossas histórias, quem é que somos?...
Temos medo que ao deixar partir os nossos dramas iremos perder a nossa identidade. E, se perdermos a nossa identidade, somos nada. Um vazio.

Faça o seguinte exercício: sentado e com as mãos sobre os joelhos imagine que uma das suas mãos representa a afirmação “Eu sou Tudo” e a outra mão representa “Eu sou Nada”. Faça inspirações calmas e profundas, imaginando o ar, ao expirar, sair pelas suas mãos. Aos poucos começará a ter consciência do significado destas duas afirmações. Nós somos de facto um microcosmo do macrocosmo: somos tudo e nada. Quando se sentir preparado, após 5, 10 ou 15 minutos, deixe que as suas mãos se unam. Depois abra os olhos e dê a si mesmo um grande abraço.

Só conseguimos sair das nossas histórias pessoais depois de aceitar que somos Tudo e Nada ao mesmo tempo.
Vemos a nossa história como um velho amigo. Sentimos o seu apoio, segurança e conforto. É aqui que a Sombra começa a intervir. A nossa Sombra sabe que podemos ser muito mais.
Há um Eu Falso por detrás de cada pedaço da nossa história. Ele acredita ser o herói ou vilão, a vítima ou o predador. É assim que conseguimos manter a nossa história intacta e obter uma paz temporária na previsibilidade da história.
Só que ao acreditarmos na nossa história perdemos o contacto com o Divino. Podemos intelectualizar que somos Um com a Vida. Mas nos cantos mais escuros do subconsciente não acreditamos porque nunca sentimos, a partir do coração, a união com o Todo.
É importante saber que as nossas histórias têm um propósito. São uma parte essencial da nossa evolução. Escondida nos nossos dramas há informação valiosa.
As nossas histórias contêm todos os ingredientes para sermos o melhor que podemos ser. Quais são os ingredientes?...
-       Dor;
-       Sofrimento;
-       Triunfo;
-       Alegria;
-       Falhas;
-       Vitórias...
É importante manter presente que a nossa dor tem um propósito. Serve para nos ensinar, guiar e dar-nos a sabedoria que necessitamos em cada momento. Mas enquanto não fizermos as pazes com a nossa história nunca estaremos livres para avançar.
O que conta a nossa história? Simples:
-       Ninguém gosta de mim;
-       Eu não pertenço em lado nenhum;
-       Eu sou estúpido;
-       Eu sou incompetente;
-       Eu não sou bem-vindo;
-       Eu não sou especial;
-       Eu não sou merecedor;
-       Eu sou um inadaptado;
-       Eu sou insignificante;
-       A minha vida não conta para nada;
-       Eu sou um Zé-ninguém;
-       Eu não presto;
-       Eu sou um erro;
-       Eu sou mau;
-       Eu sou incompleto;
-       Eu não mereço ser amado;
-       Eu sou um falhanço;
-       Eu não posso confiar em ninguém.

Todas estas histórias têm como tema de fundo apenas um destes cenários:
-       Não sou suficientemente bom;
-       Eu não sou importante;
-       Há algo de errado comigo.

Claro que cada um deles serve apenas para afirmar o tema da história colectiva da humanidade, que é precisamente: coitadinho de mim.

Temos que possuir a humildade suficiente para saber que na verdade não sabemos que experiências precisamos para sentirmos o ser completo e divino que reside dentro de nós.

Quem é que eu seria sem uma história?... Talvez livre, talvez presente.

sábado, 14 de maio de 2016

Mudanças

Eu quero mudanças na minha vida mas sem que perca a segurança e controlo sobre a vida que tenho agora.

A mente/ego é, por natureza, insatisfeita. Continuamente a comparar-se com outros, a decidir que precisa de mais, de algo diferente, de mudança.
Mas é esta mesma mente que depois tem medo da mudança, da sensação de impotência, de perder o controle. Ainda não descobriu que nunca teve qualquer controle sobre a vida.
A Vida é aquilo que está a acontecer agora. A mente abandona a Vida e viaja até ao passado ou futuro, procura motivos para depois decidir se quer estar feliz, triste, ansiosa, deprimida, eufórica. Mas, de qualquer forma, raramente a viver o presente.

É que no presente a mente sabe que ela mesma não é assim tão importante. Tudo flui sem qualquer esforço da sua parte.
Estar presente, ao contrário do que muitos pensam, não significa uma atitude passiva.

Mas se sossegar um pouco a mente começo a observar que a Vida sabe sempre o que é melhor para mim. As minhas mãos mexem-se, sem que eu tenha decidido a maneira como se mexem. E uma vozinha diz “Vai buscar uma água das pedras”. Não vejo porque não. Levanto-me e vou à cozinha. Observo deliciado enquanto os braços, as mãos, os dedos, dançam à volta da garrafa de água, do copo. A vida é isto: uma dança. Eu sou o dançado. Completamente vulnerável, impotente e imperturbável nesta irresponsabilidade aparente. Delicioso.

Outra vez a vozinha. Desta vez diz “o que a querida Natália questionava é válido e é capaz de haver muitas pessoas na mesma situação. Escreve sobre isso.” Não vejo porque não. Sento-me à frente do computador e os dedos sabem o que fazer. Limito-me a observar como eles carregam num botão e magicamente o computador começa a funcionar. Depois vão até ao rato e pressionam num botãozinho. Abre-se um programa de edição de texto. Olho para o ecrã, mas por pouco tempo. Os dedos começam a escrever. Observo deliciado como os pensamentos fluem. Sei que são todos mentira. Mas como não provocam qualquer stress escolho acreditar neles.

Quando observo atentamente a Vida a fluir nunca fico desapontado com nada nem ninguém. Aprendo a ouvir os outros. Se alguém estiver a chorar posso perguntar se posso ser de ajuda. E se a pessoa disser “desaparece da minha vista!” eu obedeço, afasto-me. Não há nada pior para uma pessoa a viver num inferno do que ter alguém à sua frente a impor amor e harmonia. É uma violação da mente. Não o faço.
A mente ainda não observou que a mudança é a única garantia na vida. Tudo muda continuamente. Numa dança deliciosamente coreografada.

A mente começa a abrir as portas do seu inferno quando acredita que tudo o que acontece é pessoal, é a si que acontece. Observa a diferença entre estas duas afirmações: “O meu amigo não me ouve” e “O meu amigo não ouve”. Na primeira a mente cria a necessidade de julgar, criticar e defender-se. Na segunda situação a mente observa, em paz. Começa a ver a vida nesta perspectiva. Ninguém te faz nada para te magoar intencionalmente. Apenas a mente acredita nesta mentira. E quer ter razão, sempre! Cada pessoa na tua vida faz o que faz porque é o que faz. E a mente decide que o que é feito está certo ou errado. Um inferno.

Uma familiar minha diz muitas mentiras. Continuamente. Nunca me engana. Quando quero ouvir uma mentira telefono-lhe. Nunca me deixou ficar mal. O problema, para outros familiares meus, é que querem que ela não minta. Ou seja, querem que ela seja uma pessoa que ela não é. Ela é a pessoa que mente. É bom saber isto. Não há guerra nem necessidade de justificações. Quero ouvir uma mentira e sei a quem posso ir para a ouvir. E posso escolher não ir ter com esta pessoa quando não quero ouvir mentiras. A minha experiência é que as pessoas são sempre honestas. Nunca me desapontam.

Quando quero ter a experiência de esperar por alguém marco um encontro com o amigo que chega sempre atrasado. Nunca me desaponta. Quando quero um trabalho mal feito, também sei a quem recorrer. E quando quero um trabalho bem feito também sei a quem ir. Poderia a vida ser mais amorosa?

Mas a mente quer mudança! Quer que os outros mudem, de preferência agora. E quer que a vida seja diferente daquilo que é, mas sem perder o controle. Um inferno. Se quero mudança só posso abrir os braços à vida. Confiar plenamente na Vida. Sei que me apoia continuamente.

Neste momento o pescoço apoia a cabeça. A cadeira apoia o corpo. O chão apoia a cadeira. O ar apoia o organismo. Apoio total, a cem por cento, da Vida. Delicioso. E para sofrer tenho que abandonar este lugar, que é o único real, e decidir que a minha mãe não me apoia, ou o governo não me apoia, ou o meu vizinho não me apoia. Outro inferno.

E se tens medo da mudança convido-te a um exercício para as próximas semanas. Aconselho-te mesmo a dedicar algum tempo a cada situação. Não queiras apressar-te. Vai com calma, pois é calma o que a mente procura.

É essencial começarmos a tornar-nos conscientes que Deus é amor incondicional (e este Deus é o Deus em que tu escolhes acreditar). E a pergunta para a mente, a pergunta para meditar durante alguns dias, é esta: se Deus é amor, de que maneira o que está a acontecer agora é uma prova desse amor?

De que maneira ter um cancro é uma prova do amor de Deus?
De que forma ter pouco dinheiro é uma prova do amor de Deus?
De que forma estar num processo de divórcio é uma prova do amor de Deus?
De que forma a morte da pessoa que mais amo é uma prova do amor de Deus?

Procura pelo menos três respostas verdadeiras, não caias na armadilha da mente de tentar convencer-te de algo em que não acreditas.

Posso deixar-te os meus exemplos.

Se eu tivesse um cancro, em fase terminal, seria um alivio! A grande maioria das pessoas não sabe quanto tempo tem nesta Terra. Eu saberia: pouco. E neste pouco tempo que me resta, oh meu Deus! Poderia amar as pessoas à minha volta. Poderia descobrir que não sou o meu corpo. Poderia ainda dar sem esperar de volta. Estaria disponível para experienciar conscientemente a decadência do corpo. Poderia ainda ensinar aqueles que amo que nunca morrerei, apenas o corpo físico morre. E há muitas mais bênçãos! Posso escolher vê-las, ou queixar-me. Ambas as situações são ok.

Se não tivesse dinheiro para a próxima refeição, seria um alivio. Não teria que pensar no que vou comer a seguir, porque não há nada. E poderia ainda experienciar a humildade pura de pedir ajuda. E ainda permitir que outros tenham a experiência de servir. E poderia criar uma nova e original maneira de ganhar dinheiro. E poderia saber com toda a certeza quem são os meus amigos (um amigo que me dissesse “não” continuaria a ser um amigo honesto. Seria o amigo que não ajuda. Da próxima vez saberia que esse não é o amigo a quem pedir ajuda).

E se estivesse a passar por uma separação, poderia a vida ser mais carinhosa? Poderia aprender a amar-me. Aprender a não depender dos outros para o meu bem-estar emocional. Poderia finalmente estar grato à vida pela presença da outra pessoa na minha vida. Poderia finalmente sair à noite com os amigos sem ter que me justificar! (ok, esta última não vale. Não saio à noite). E poderia ainda descobrir-me, observando de que maneira fui totalmente a favor da separação.

E se a pessoa que me é mais querida morresse iria ter a prova definitiva de que as pessoas não morrem, só os corpos. As pessoas, depois do corpo morrer, continuam vivas onde sempre estiveram: na mente e no coração. Por este motivo digo que não preciso que estejas vivo para te amar. Porque é no meu coração que tu vives.

Quando começares a observar que nada é assim tão importante, que o universo continuará a existir mesmo depois de morreres, que a tua passagem aqui é efémera, irás começar a saborear os primeiros sabores da vida de braços abertos.


Quando abraçares a morte, estarás livre para viver e de braços abertos para a mudança. Assim como assim, o pior que pode acontecer é morrer. E esta é a única certeza que tenho: o corpo físico morre. Eventualmente.