quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Anjo e o Demónio

Dentro de cada um de nós há um anjo e um demónio. Ambos querem ter sempre razão e ambos querem viver através de mim.

O anjo quer expressar a sua natureza através de mim com ideias criativas, bondade, paz e amor. Mostra-me a beleza e a perfeição da vida. Ensina-me a amar incondicionalmente e a procurar ver sem julgar. Possui uma natureza pacífica, calma e apaziguadora. Consegue criar harmonia e bem-estar. Ajuda o meu corpo a curar-se de qualquer enfermidade. É carinhoso e compreensivo. Respeita os outros e permite que cada pessoa na minha vida seja quem quer ser, sem impor qualquer vontade. É altruísta e procura sempre o bem nos outros. Tem sempre um sorriso para partilhar, especialmente com aqueles que já não são capazes de sorrir. Vê abundância em todo lado e sabe que há o suficiente para todos. Consegue levar-me onde eu quero ir com calma e fluidez. É sábio e possui o conhecimento eterno do Universo.

O demónio é quezilento. Está sempre à procura de mais uma batalha. As suas ideias são sempre destrutivas e provocam danos à sua volta. É desconfiado e manhoso. A sua táctica é ardilosa e traiçoeira. Vê a maldade nos corações dos homens e sabe como causar danos aos outros e a mim mesmo. É um revoltado, sempre insatisfeito. É calculista e frio. Capaz das maiores atrocidades e irresponsabilidades. Grita, faz birras, amua, chora, quer ter sempre razão e não descansa enquanto não for capaz de provocar mal-estar à sua volta. Não tem qualquer amor por ninguém e só quer experienciar o prazer egoísta da separação. Sente-se maravilhosamente bem quando magoa os outros. É um revoltado cheio de raiva capaz de causar danos a quem quer que se atravesse no seu caminho. É mentiroso e invejoso. Não olha a meios para atingir os seus fins.

Este anjo e este demónio lutam continuamente dentro de mim. Ambos querem viver. Ambos querem controlar o meu eu. Ambos gritam na minha cabeça a qualquer instante da minha vida. Não importa o que estou a fazer, consigo ouvir as vozes de ambos.

E a qual deverei ouvir? Qual é o que ganha esta batalha que se trava dentro de mim?

Se eu ouvir apenas o anjo e agir de acordo com as suas palavras bondosas e cheias de amor, o demónio irá ter fome. Enquanto vivo seguindo os conselhos do anjo, o demónio estará a conspirar, insinuando-se subtilmente, criando situações difíceis para que eu esqueça o anjo e expluda num momento de fúria. Enquanto vivo as instruções do anjo, o demónio irá tornar-se esfomeado de atenção e atacará quando menos esperar. Num jantar de amigos, no aniversário de um familiar, numa reunião de trabalho. Lá estará o meu demónio, pronto a criar uma situação em que receberá toda a minha atenção.

Se eu apenas ouvir o demónio, o anjo irá tornar-se frustrado. Sem o alimento da minha atenção irá afastar-se e levar consigo a alegria, o amor e a bondade. Serei incapaz de partilhar a minha vida com quem quer que seja, não conseguindo ver a abundância que a vida me oferece. Sem o meu anjo não conseguirei ouvir o que os outros têm para me dizer. Irei tornar-me num revoltado, continuamente a apontar o dedo aos outros. Carregando ressentimentos e mágoas ás costas e fazendo sofrer todos à minha volta. Sem a voz do meu anjo não serei capaz de reconhecer as oportunidades que a vida me oferece, porque só serei capaz de ver injustiça e maldade em tudo.

Qual é que deverei ouvir? Qual é que me pode ajudar a viver? O anjo ou o demónio?

Ambos se assumem como importantes e necessários. Ambos vão querer a minha atenção. E ambos irão criar problemas se não os escutar.

Se apenas ouvir o anjo, outros irão aproveitar-se de mim. Serei incapaz de fazer valer os meus direitos e nunca terei a capacidade de reagir num momento de agressão à minha integridade. Porque o anjo vê tudo como perfeito. Só com a voz do anjo não saberei como defender-me em tempos difíceis nem como proteger os que me são queridos quando forem atacados.

Se apenas ouvir o demónio, irei aproveitar-me continuamente dos outros. Criarei conflitos onde quer que esteja. Não serei capaz de desfrutar da amizade porque desconfiarei sempre dos outros. irei ver um ataque pessoal em tudo o que os outros possam fazer.

Muitas pessoas apregoam o equilíbrio (querendo dizer “ouçam só o anjo”). Só vêem beleza e tudo é perfeito. E o demónio, esfomeado, entra em acção, criando situações dolorosas à sua volta! Quando olho para uma balança, daquelas de dois pratos, em equilíbrio, reparo num pormenor: nada acontece! Uma balança em equilíbrio encontra-se estagnada. Não há crescimento, não há estimulo nem emoção.

Eu posso ouvir o demónio em mim quando tenho um problema pela frente. Ele é ardiloso, perspicaz e capaz de soluções rápidas quando há conflito. Ele poderá ajudar-me se for atacado ou se alguém atacar os que me são queridos. Se houver uma guerra é o demónio quem melhor me pode ajudar a procurar abrigo e a defender-me. Se alguém tentar aproveitar-se de mim, o demónio saberá identificar o abuso e reagirá de acordo com a situação. Se eu for ignorado numa situação de urgência, o demónio saberá criar as situações para que possa ser ouvido.

Mas se, depois de um dia de trabalho cansativo, eu chegar a casa de um amigo que está doente e magoado por não o ter visitado há mais tempo, poderei ouvir o meu anjo e saberei como reconfortar esse amigo. Se o meu amigo me acusar de o ter esquecido, o meu anjo saberá como apaziguar o seu demónio.

Se o demónio do meu patrão estiver activo e ele me acusar injustamente, o meu anjo saberá ouvir as suas queixas e acalmar a sua fúria.

Anjo ou demónio? Ambos são importantes. E ambos me podem ser úteis. A qual irei prestar atenção? A ambos. Como saber qual a voz que devo seguir? A que me fizer sentir bem comigo.

É bom ser bom. É bom partilhar a nossa vida e os nossos conhecimentos. É bom desfrutar da paz e harmonia. É bom viver com alegria e abundância. Mas por vezes temos que ser capazes de nos defender. Temos que ser capazes de impor a nossa integridade e impedir sermos violados por outros.

Se ignorar o demónio em mim, ele irá crescer esfomeado e a sua fúria não terá limites. O dia em que me apanhar distraído irá causar danos irreparáveis. Uma infidelidade, um roubo, uma calúnia, uma agressão, uma violação. O demónio, ardiloso e esfomeado, irá atrair outro demónio. E alguém me irá magoar ou eu mesmo irei magoar-me e magoar outros.

Se, por outro lado, ignorar o meu anjo, serei incapaz de amar e perdoar. Não conhecerei o afecto dos outros, porque todos terão medo de mim.

Bem-vindos, anjo e demónio! Bem-hajam por existir.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Queixinhas, queixinhas, queixinhas!

Queixarmo-nos é uma atitude bizarra. É como se acreditássemos que ao queixarmo-nos, algo de mágico irá acontecer. Como se alguém ou algo nos vai ouvir com atenção e tornar a nossa vida melhor.

Eu queixo-me disto e queixo-me daquilo, queixo-me de um colega e de um amigo e de um funcionário, e depois de tantas queixas algo de bom vai acontecer. Alguém vai tomar conta das minhas queixas e eliminar cada uma das coisas “erradas” na minha vida.

É como se Deus estivesse a ouvir-me e decidisse: “Acho que esta criatura já sofreu o suficiente. É melhor começar a mudar o mundo em que ele vive!”

Não vai acontecer nunca.

De cada vez que me queixo tenho que escrever as minhas queixas. Questionar a veracidade de cada queixa. Tornar-me consciente daquilo que me queixo. Observar o número de vezes que ao longo do dia estou a enviar um sinal negativo à vida. E as vezes que a vida me responde com mais coisas para me queixar.

Mas em vez disso, limito-me a queixar-me, e a queixar-me mais um pouco, e ainda mais. E de cada vez que me queixo magoo-me, e magoo-me mais, e ainda mais um pouco. É como se estivesse a validar o meu sofrimento e a afirmar a quem quiser ouvir o quanto eu sofro e sou um coitadinho. Olhem o que os outros me fazem! Mudem o mundo, por favor!

É como se estivesse a rezar desde que acordo até voltar a adormecer. Uma oração com algumas birras pelo meio. E nem sequer estou a falar das queixinhas na minha mente!

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

E ninguém me está a ouvir, se eu não me estiver a ouvir. E continuo a acreditar que me irei sentir bem por me queixar! Não acontecerá nunca!

Quem é que na tua vida se queixava assim? Quando eras criança. Talvez tivesses visto a tua mãe a queixar-se, ou um irmão mais velho. E talvez esse familiar, através das suas queixinhas, conseguisse aquilo que queria. E foi aí que decidiste: “Aqui está uma maneira fácil de conseguir aquilo que quero! Acho que vou viver assim a minha vida! Se me queixar o suficiente, posso conseguir tudo aquilo que quero!”

Esta atitude mostra apenas uma total irresponsabilidade. É responsabilizar outros pela minha vida. É dar o poder da minha vida a outros. E aguardamos pelo mundo inteiro para que tome conta de nós. Só que o resto do mundo tem mais que fazer. Ouve-nos a queixar-nos, e queixar-nos um pouco mais... E nem sequer nos está a ouvir! Ninguém quer ouvir as pessoas queixinhas.

O que é que você pensa quando alguém se queixa da sua vida pessoal a si? Provavelmente qualquer coisa como: “Mas por que raio não faz ele qualquer coisa em vez de se queixar?!”

Peço-te que comeces a ouvir-te a ti mesmo. De cada vez que te queixas. Observa as tuas necessidades escondidas em cada queixa. O que queres dos outros? O que precisas dos outros? Pede! Mas não faças o teu pedido através de uma queixa. Fá-lo através de um pedido honesto. Pode ser que os outros te digam “não”. E esta resposta está certa. Ou pode ser que os outros te respondam “sim”, e esta resposta também está certa.

De cada vez que nos queixamos estamos a afirmar que a Vida, Deus, o Universo, são imperfeitos, inadequados. E tudo o que temos a fazer é apontar o dedo. E é assim que iremos viver: apontando o dedo, queixando-nos, fazendo birras, magoando-nos a nós mesmos.

Exercício de Apoio:

Este trabalho é efectuado em profundidade pela Byron Katie. Pega em cada queixa e faz 4 perguntas:

1. Isto é verdade?

2. Tenho a certeza absoluta que isto é verdade?

3. Como é que reajo, como trato os outros, como me sinto, quando acredito neste pensamento?

4. Quem seria eu sem este pensamento?

Para fazer um bom trabalho, dá a volta à queixa. Inverte aquilo que dizes, e depois encontra exemplos genuínos para a inversão. Pegando no exemplo acima:

“Estou farto do meu vizinho! Não suporto o meu patrão! O meu amigo não me valoriza! Sou um desgraçado! Esforço-me tanto e até o meu gato me controla!”

“Estou farto de mim! O meu patrão não me suporta! Eu não valorizo o meu amigo! Os meus pensamentos desgraçam-me! Não me esforço e até controlo o meu gato (através daquilo que penso)!” E depois vou estudar-me. Ver até que ponto a nova afirmação é tão ou mais verdadeira que a inicial.

Bom trabalho!

Emídio Carvalho