segunda-feira, 22 de maio de 2017

A impossibilidade da felicidade

A felicidade é uma construção mental com menos de duzentos anos. E é uma construção mental porque a vida, a vida real, não se limita a um estado nem é estagnada.

Foi-nos impingida esta ideia de que a felicidade está dependente de factores externos. Serei feliz quando tiver a relação que desejo, o carro que desejo, a casa que desejo, os filhos que desejo. Quando a vida acontecer como eu desejo então haverá espaço para ser feliz.

Muitos autores e promotores do bem-estar emocional impingem esta ideia de que é importante ser-se feliz e, obviamente, eles sabem que se fizermos isto ou aquilo seremos felizes.

E contudo é impossível permanecer num estado de felicidade. Há morte, há doença, há divórcio, há desemprego, há fome, há injustiça. Como manter-me num estado de felicidade perante os desafios que a vida nos lança? Iremos falhar.

Por outro lado o nosso cérebro está biologicamente construído para nos manter vivos. Procura consciente e inconscientemente tudo aquilo que percepcione como uma ameaça à sua existência. Há dez mil anos essa ameaça era um mamute. Hoje é uma fila do trânsito. A resposta fisiológica ao mamute e à fila do trânsito é a mesma. Surge o stress. Queremos mudar o que está a acontecer porque a um nível inconsciente o cérebro vê a situação de stress como uma ameaça ao seu bem-estar.

Por outro lado um recém-nascido aprende que precisa da atenção dos adultos para que a sua vida seja sustentável. Se chorar será alimentado, acarinhado, etc. E como não desaprendemos isto, passamos toda uma vida a buscar a atenção dos outros porque o cérebro tem um só registo: preciso da atenção dos outros para estar vivo.

Como seria a tua vida sem a necessidade da atenção dos outros? Como seria a tua vida se soubesses que tudo acontece para te apoiar? Se soubesses que aquilo que aparentemente é mau esconde algo de positivo?

É aqui que surge o conceito de felicidade. Queremos tudo o que há de positivo, queremos pessoas boas e amáveis, relacionamentos funcionais, um corpo saudável e elegante, uma conta bancária sustentável, um emprego que nos garante prazer. E aí sim, seremos felizes.

Talvez nunca se tenha tratado de ser feliz. Talvez seja mais uma questão de estar em paz com o que acontece, incluindo um estado emocional que provoca desconforto.

Cada emoção pode ser vista como uma mensagem da alma, do Além. Uma tristeza pode significar apenas um aviso para tirar tempo para estarmos sós, connosco, para nos dedicarmos a nós, para verificar o que queremos e não queremos. Uma raiva pode ser tão-só um grito a dizer “não é por aí”.

Em vez de afirmações positivas e estados de negação, talvez fosse melhor prestar atenção ao que os nossos estados emocionais significam. Não há emoções negativas, há emoções que comunicam connosco, com a mente racional. Receber cada emoção como uma visita, ouvi-la, aprender algo acerca de nós e da vida, é o caminho para a paz.

A felicidade não é possível porque é uma teoria que luta com a própria existência. Já a paz é possível a qualquer um.