terça-feira, 16 de março de 2010

Só temos necessidade de nos justificar quando mentimos

Alguma vez teve que justificar o facto de estar a chover? Ou teve que justificar as ondas do mar? Já imaginou o ridículo que seria dizer “Está a chover porque eu não me estou a sentir bem”? Ou “As ondas do mar enrolam-se na areia porque a areia merece”? Claro que não. A verdade simplesmente é. Não precisa de ser defendida nem justificada.

Então, quando diz que está magoado com o vizinho porque ele atira com lixo para o seu quintal, estará a mentir a si mesmo? O seu vizinho atira com lixo para o seu quintal – facto. Você escolhe ficar magoado – interpretação do facto. A sua interpretação. Para onde é que você atira com o seu lixo emocional? Quantas pessoas têm que apanhar com as suas queixas, amarguras, idiotices, erros, culpas e vergonhas?

Pegue em qualquer justificação sua e dê-lhe a volta! Pode dar uma volta simples, como por exemplo: “Eu estou zangado com o meu filho porque não faz os trabalhos de casa”, dá a volta e fica com “Eu estou zangado comigo porque não estou a fazer os meus trabalhos e a ir em direcção aos meus sonhos”. Pode dar a volta à justificação por forma a torná-la verdade. Um exemplo? Em vez de “Cheguei atrasado porque havia muito trânsito”, que tal uma versão mais próxima da verdade? “Cheguei atrasado porque este encontro para mim não é importante” ou “Cheguei atrasado porque me odeio quando faço fretes, e este encontro é um frete”. Porque em realidade, se chega atrasado e não tem necessidade de ocultar uma verdade, apenas dirá “Desculpa o atraso” – sem justificação. É uma atitude muito mais próxima da verdade. Porque este é o facto, sem interpretações.

Da próxima vez que se apanhar a justificar um seu comportamento pare um pouco. Procure a verdade. E depois decida se ainda precisa de se justificar.

E lembre-se da ratoeira das justificações: a necessidade de ter razão. Só queremos ter razão porque no fundo sentimos que não prestamos, ou não sentimos que somos suficientemente bons.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Só conseguimos ver nos outros o que está já em nós

Os ingleses têm um ditado sobre este assunto: It takes one to know one (tradução: é preciso um para conhecer outro).

Nós só reconhecemos a mentira noutro porque nós próprios mentimos. Nós só somos capazes de ver a infidelidade noutro porque nós próprios estamos a ser infiéis. Nós só conseguimos ver a preguiça noutro porque nós próprios já estamos a praticar a preguiça.

O problema é que não conseguimos ver de que maneira nos encontramos a fazer aquilo de que acusamos os outros. Lembre-se apenas que sempre que aponta o dedo a alguém, há três dedos a apontar na sua direcção.

Talvez você minta quando diz a alguém que está bem quando na verdade a sua vida se encontra num caos. Ou talvez vigarize o estado ao não declarar todos os seus rendimentos. Ou talvez esteja a ser infiel a si mesmo ao permanecer numa relação por obrigação, ou necessidade.

A pergunta a fazer, sempre que o comportamento de alguém o perturbe é simples: de que maneira estou eu a fazer a mesma coisa? Peça ajuda aos amigos se não conseguir uma resposta.

Se vê violência à sua volta, qual é a guerra que está a travar dentro de si?

Se foi roubado, o que anda a roubar aos outros ou a si mesmo? Talvez roube tempo, chegando atrasado a compromissos. Ou rouba os sonhos dos outros, dizendo-lhes que “isso é impossível”.

Se alguém abusa de si, verbal ou fisicamente, de que maneira abusa dos outros, ou de si mesmo? Talvez comece o dia a deitar-se abaixo, a queixar-se de tudo o que está errado na sua vida... Ou critique abertamente um amigo.

As pessoas à nossa volta são espelhos que servem para nos mostrar o belo e o horroroso, a bondade e a maldade, o santo e o pecador, que há dentro de nós.

Como podemos julgar a pessoa que é violenta se nós só conseguimos dar aos outros o amor que nos foi dado a nós? Há uma forte probabilidade de que a pessoa que é violenta para com os outros nunca soubesse o que era ser amada. Deveríamos nesse caso culpar os pais dessa pessoa? E se os pais dessa pessoa também nunca souberam o que era amar? Até onde podemos recuar para encontrar o verdadeiro culpado?... Ao tempo das cavernas?... Seria capaz de julgar e condenar um filho seu por ter cometido um acto de violência? O que acontece então ao Amor Incondicional?