terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vivemos num mundo onde a razão é esquizofrénica.

Fomos educados a acreditar que é responsabilidade dos outros respeitar-nos, apreciar-nos e amar-nos.

E depois carregamos ás costas o estandarte do mártir. E queixamo-nos.

A nossa vida é feita de muitas histórias, todas elas recicladas. As histórias que contamos a nós mesmos mil vezes ao dia, e que se têm repetido ao longo de milhares de anos, soam a isto:

- tu devias amar-me;

- o meu patrão devia reconhecer o meu trabalho;

- o meu filho devia ser um bom estudante;

- eu preciso de mais dinheiro;

- eu quero um trabalho seguro;

- tu não deverias falar mal de mim;

- eu preciso que os meus amigos me respeitem;

- as pessoas deveriam ser simpáticas;

- os governantes precisam de olhar pelo seu povo;

- o meu corpo devia ter uns quilos a menos;

- etc. etc. etc...

Todos os “deveria”, “preciso” e “quero” que contamos a nós próprios são histórias em perfeita confrontação com a realidade.

As histórias que contamos a nós próprios, e que nos fazem sofrer, colocam sempre o poder das nossas vidas nas mãos de outros. E enquanto o poder das nossas vidas estiver nas mãos dos outros só podemos experienciar a impotência, a angústia e ansiedade de não saber o que irá acontecer a seguir. Vivemos no presente com a mente num eterno futuro que nunca acontece. O futuro é agora. E agora. E agora.

Eu conto uma história sobre o meu pai. Nessa história o meu pai deveria ter-me respeitado, amado e reconhecido o meu valor. De acordo com os meus padrões, é claro.

E de cada vez que vejo o meu pai lembro-me da minha história sobre quem ele é e quem deveria ser. E sofro.

No lugar de pai, sente-te livre para colocar marido, pais, alunos, governos, vizinhos, amigos, colegas ou amante.

Quando te amo e espero que me ames de volta não estou a ser íntegro. Isto é tudo menos amor. Em realidade é cobrar um preço pelo que chamo de amor.

E se eu não acreditasse nas minhas histórias? Se não fosse possível acreditar que tu deverias ser diferente de quem és?

Eu sei que todo o mundo me ama. Mais de sete mil milhões de pessoas amam-me. Só que é provável que muitas ainda não estejam conscientes desse amor. Mas isso não me impede de amar cada ser humano tal como é, sem querer que seja diferente.

Se é assim tão fácil amar-te, respeitar-te, ou valorizar-te, poderias começar por dar-nos o exemplo? Poderias começar a amar-te sem esperar nada de volta? Poderias começar a respeitar-te, sem qualquer exigência? Poderias começar a valorizar o simples facto de existires?

Enquanto precisar que outros me valorizem, amem ou respeitem, irei viver sempre num inferno. Irei estar sempre à defesa. Sempre à espera da próxima agressão, ainda que inconsciente de que o faço.

Ouço professores que se queixam de alunos desobedientes e barulhentos. E não conseguem ver as mil e uma maneiras que eles próprios não se obedecem nem ouvem o ruído infernal nas suas cabeças. Os alunos apenas lhes mostram o que andam a fazer, inconscientemente.

Ouço pais a queixarem-se dos filhos que não estudam. E quando lhes pergunto se gostam de estudar, e o que andam a estudar, olham para mim como se lhes tivesse perguntado sobre a possibilidade da existência de vida em Neptuno. Se estudar é assim tão divertido e excitante, poderiam os pais ser o exemplo para os filhos?

Ouço mulheres a queixarem-se que os maridos não lhes dão carinho. E quando lhes pergunto quando foi a última vez que deram um carinho ao marido, sem esperar nada em troca, olham-me como se tivesse proferido uma heresia.

Queres mais amor na tua vida? É fácil. Dá a ti mesmo esse amor. Mostra-nos que é fácil amar-te, amando todos à tua volta, especialmente de acordo com os teus padrões (e isso inclui-te primeiro a ti como aquele que ama). Isso é amor.

Queres mais respeito na tua vida? Dá o exemplo. Começa por te respeitar a ti mesmo. Deixa de te preocupar com o que os outros possam dizer de ti, deixa de fazer fretes, e, por favor, pára de falar mal das pessoas que não estão presentes. Isso é respeito.

Queres que os outros reconheçam o teu trabalho? Que tal começares por te valorizar a ti mesmo? Onde tens valor? Não precisas que os outros digam que és bom, só tu podes fazer isso.

Enquanto tivermos uma história sobre como a vida deveria ser, como os outros deveriam ser, iremos criar um inferno nas nossas vidas.

A realidade é sempre carinhosa. Mostra-nos sem qualquer decepção aquilo que é. E nós acreditamos que somos Deus, e exigimos que a realidade mude e seja diferente daquilo que é, para podermos estar bem. Um horror. Uma história, incompatível com aquilo que é.

E as perguntas que me fazem são sempre as mesmas: mas não deveríamos querer um mundo sem guerra, um mundo de amor e compreensão?

Claro que sim. E se é assim tão fácil estar continuamente em paz e a amar tudo e todos, poderias começar por dar-nos o exemplo? Em vez de exigir que os outros mudem, poderias mudar tu? Tu és o nosso professor. Através do teu exemplo.

Começa a resgatar o teu poder. De cada vez que te ouvires a pensar “ela deveria amar-me” inverte o pensamento: eu deveria amar-me. E ama-te, sem impor condições ao teu amor. E de cada vez que te ouvires a pensar “eles deveriam estar sossegados” inverte para: eu deveria estar mais sossegado (sobretudo na minha cabeça). É sempre de ti que se trata.

A realidade é carinhosa. Ama-nos incondicionalmente. Mostra-nos sempre aquilo que é, sem histórias nem segundas intenções.

A única história real é esta: tudo o que vês em mim está já em ti.

Por este motivo digo que sempre que me sinto mal é porque estou a acreditar num pensamento que é mentira. Uma história falsa.

Pondera.