sábado, 1 de janeiro de 2011

Amar Tudo

Tudo aquilo que observo é uma projecção da minha mente. Não há excepções. As pessoas, a natureza, a qualidade. Tudo uma forma da mente interpretar a realidade.

O motivo porque digo que duas pessoas nunca se conheceram é que nós só conhecemos as histórias que contamos sobre os outros. Nunca iremos conhecer quem quer que seja. Apenas aquilo que a mente projecta.

Um exemplo. Estou numa estação de serviço na auto-estrada e o meu corpo pede-me água. Entro na loja e dirijo-me à estante das garrafas de água. E observo a minha mão. Qual será a garrafa que a minha mão vai pegar? E o braço estica-se, a mão abre-se. Eu observo. Deliciado.

E um homem, ao meu lado, pergunta-me, com uma voz que interpreto como de inquietação: “O que raio pensa que está a fazer?!”

É aqui que a minha mente começa a contar uma história, sobre este estranho. E só pode contar duas histórias. Uma que fala de agressão e outra que fala de amor. A minha mente pode contar esta história: “mas quem pensa ele que é? Como tem a ousadia de me interpelar desta forma sem me conhecer?” E recorre à necessidade de se defender. E assim a minha mente dá início à guerra. A defesa é sempre o primeiro acto de guerra. Claro que não estou à espera que ninguém compreenda isto. Só para mim é importante. Sou eu a passar por esta experiência. A segunda história pode ser esta: “Delicioso. Este homem, que ainda não me conhece, está interessado em saber o que estou a fazer.” A forma como ele mostra o seu interesse é irrelevante. E só uma história. A primeira história mostra-me agressão e a necessidade de me defender. Mostra-me que o mundo é um lugar perigoso. A segunda história mostra-me amor pelo momento. Qual é que escolho?

Nós escolhemos as histórias que contamos sobre os outros de acordo com o nosso passado. Há pessoas que ainda acreditam que precisamos de um passado para nos identificarmos. Se isto fosse verdade então os gatos iriam ladrar em vez de miar. O passado serve apenas para me informar quem sou. Acordo pela manhã e começo a identificar-me. As contas que tenho para pagar, os compromissos do dia, os afazeres. O problema é que quando eu acredito que sou esta pessoa, carrego ás costas todas as minhas superstições, preconceitos, mentiras, vergonhas, culpas, raivas, medos. E não consigo desfrutar plenamente do presente. Agora.

Para melhor compreender este conceito de ter um passado deixo-te mais um exemplo. Supõe que és uma pessoa que detesta a cor vermelha. Simplesmente não suportas ver pessoas com roupa vermelha. Para ti, as pessoas que vestem vermelho querem é ser o centro das atenções, e são provocadoras, e antipáticas. Esta é a história que tu contas sobre as pessoas que vestem vermelho. O que aconteceria se fosses a uma entrevista para um emprego de sonho, e a pessoa que te entrevista está vestida de vermelho? Imediatamente colocarias uma parede entre ti e essa pessoa. Não a ouvirias. Apenas conseguirias ouvir a tua história sobre as pessoas que vestem vermelho. Imagina que te apaixonas por alguém especial. Amas essa pessoa. A intimidade entre os dois cresce. Até um dia em que se encontram para ir jantar e essa pessoa veste uma camisola vermelha. Começas a compreender de que maneira o saber quem és pode provocar dissabores e impedir-te de desfrutar do momento? E se não sabes quem és, quando alguém veste uma peça de roupa vermelha, limitas-te a admirar a cor. Delicioso.

O que pensas da guerra? E da fome? E do cancro? E da sida? E dos árabes? E da inveja?

Enquanto não amares cada um deles, irás sempre projectar o que vês neles sobre os outros. Tudo aquilo que não queres ser não te deixará ser. Mas só 100% das vezes.

O que acontece com as projecções é isto. Algures na infância disseram-te que era feio ser invejoso, ou mau, ou egoísta. E se te acusaram de o ser a tua delicada mente decidiu que jamais seria essas coisas. E passará o resto da vida a projectar essas qualidades. Nos outros.

Ainda não te apercebeste que atrais sempre o mesmo tipo de pessoas na tua vida? O mesmo tipo de situações? Repetem-se porque a mente identifica-se com opostos. Bom e mau, bonito e feio. E enquanto não terminares a guerra na tua mente, a tua vida será um reflexo dessa guerra.

Se te permitires ser inteiramente íntegro contigo mesmo irás descobrir que tudo aquilo de que acusas os outros tu mesmo andas já a fazê-lo. Há muito tempo. E a mente lê isto e irá justificar-se. A justificação é a melhor forma de entrar em negação daquilo que é.

Alguma vez paraste para pensar porque motivo te justificas? É simples: queres manipular a maneira como os outros te vêem. Se tens que sair mais cedo do trabalho justificas-te porque queres que os outros pensem de ti algo que tu próprio não acreditas. Se te justificas perante um filho queres que ele pense de ti algo em que tu não acreditas. Observa-te. Não te justifiques, limita-te a observar-te.

A maior superstição que encontro entre pessoas que se consideram evoluídas é a lei da atracção. Aparentemente se amarmos o cancro estaremos a atrair cancro nas nossas vidas. Se isto é verdade, o que podes dizer ao pai de uma criança com um cancro? Se isto é verdade, o que podes dizer à mulher que perdeu a capacidade de andar? Andaram ambos a sonhar com estas situações? Não creio. Karma? Pode ser, mas não tenho qualquer prova que me mostre isso. O karma, tanto quanto consigo observar, é mais uma justificação. E impede-me de desfrutar da vida completamente.

A única coisa que sei é que tudo em que acreditava é mentira. A única realidade é aquela projectada pela mente. Uma mente em guerra irá projectar ciúme, inveja, sofrimento, medo, mágoa, raiva. Uma mente em paz irá projectar amor. Só amor.

O que acontece, quando a mente não ama toda a realidade, tal como é, é simples também. Tu podes amar-me e adorar o que escrevo. E até considerar-me um mestre. Por experiência sei que é isso que pensas de ti, só que poderás não estar consciente. Eu serei sempre a pessoa que tu quiseres ver. Eu sou tu.

Mas se tu odeias o cancro, se odeias a guerra ou o assassino, no dia em que eu disser algo que mexa numa ferida tua, ou no dia em que eu não me comportar como tu esperas, irás transferir tudo o que pensas sobre o cancro ou sobre a guerra ou sobre o assassino e irás projectar essas qualidades em mim. De repente, passo de bestial a besta.

Permite-te observar todos os relacionamentos que terminaram já e fazem parte do teu passado. Agora. Escreve as qualidades das outras pessoas que te levaram a terminar a relação. Começas a observar um padrão que se repete?

E por favor não sintas a necessidade de te justificar nem sentir culpado. Não sabias melhor. Perfeito.

Poderias a partir de agora, deste momento, começar a fazer as pazes com as partes de ti que tens rejeitado e negado? O invejoso, o egoísta, o estúpido, o avarento, o traidor, o mal-educado? Ama cada uma destas qualidades e atinge assim a paz na tua vida. É ok cada pessoa ser quem é. Cada um só pode ser quem é. E tu nunca irás alterar nem controlar quem os outros são. Mas podes alterar a história que contas sobre cada pessoa.

Alterar histórias é relativamente fácil, uma vez que tenhas sarado as feridas do passado. Alguém chama-me estúpido. E só posso sentir compaixão por essa pessoa. Meu Deus, esta pessoa deve estar a sofrer. Eu sei o que isso é. Sei o que é ter que lidar com alguém que acredito ser estúpido. Já o fiz. E dói tanto. E o que eu fazia era afastar-me do estúpido. Até aparecer outro estúpido. E quando alguém diz que não gosta de mim só consigo sentir compaixão. Como é que alguém pode não gostar de mim? Que sofrimento. Eu já o fiz, sei o que isso é. Dói muito não gostar dos outros. Sofre-se. Quando alguém não gosta de mim está a acreditar numa história de sofrimento, de separação, de expectativas. Eu sou tu. Só vês em mim o que está em ti.

Por este motivo sinto que a vida é deliciosa e todas as pessoas que encontro são deliciosas e um prazer conhecê-las. É a mim que estou a conhecer. A tua confusão é a minha confusão. A tua arrogância é a minha arrogância. A tua inveja é a minha inveja. Delicioso.

Hoje, neste primeiro dia da minha vida, acordei com um sentimento de êxtase. Imensamente grato por todas as pessoas que já conheci e conheço. Cada uma foi importante para me mostrar quem eu sou: tudo.

O passado é importante para aprendermos. Mas uma vez feita a aprendizagem, poderíamos largar esse passado? Deixar de cobrar aos outros pelas nossas falhas? Que nunca foram falhas. O ser humano não erra, é impossível. O ser humano simplesmente actua de acordo com o nível de consciência que possui no momento. Da mesma forma que uma criança nunca conseguiria andar de bicicleta antes de dominar o caminhar. Nunca um ser humano poderia amar outro sem primeiro amar-se a si mesmo.

Aquilo que eu considero uma falha em ti é uma falha em mim. A minha falha é não ser capaz de ver a perfeição que está já presente em ti.

A maioria das pessoas que já conheci fazem algo a que me dediquei durante anos. Pegam no seu passado e projectam-no no futuro. Incapazes de viver o momento presente. Se no passado tiveram uma relação em que foram traídos, irão projectar essa traição no futuro. E depois admiram-se das relações que criam. E tudo um trabalho da mente.

Enquanto não formos capazes de amar os outros sem querer que mudem, enquanto não formos capazes de amar aquilo que percepcionamos como falhas nos outros, enquanto não saborearmos o simples facto de os outros serem quem são, iremos viver um inferno. Iremos continuamente desejar que os outros sejam quem não são. E no fundo os outros serão sempre um espelho de tudo aquilo que não amamos em nós.

Quando digo que eu sou tu, o que quero dizer é que estou a perder a noção de quem sou. E é delicioso. Quando estou contigo consigo ouvir-te, é a mim que estou a ouvir. Consigo amar-te tal como és, é a mim que estou a amar. E não imponho condições. Podes acreditar no que tu quiseres, eu só posso amar-te e observar o sentimento em mim.

Quando escrevo, não é o Emídio quem escreve. És tu. Delicioso. O Emídio jamais seria capaz de escrever isto. Possuía demasiados preconceitos para o poder fazer. Mas tu, tu és a sabedoria por que esperamos. Tu és o meu melhor professor. Tu és o ser belo e magnífico que me mostra tudo o que tenho a descobrir sobre quem eu sou. E neste estado a mente permanece em paz.

Por vezes a mente tenta enganar-se a si mesma. E planeia um futuro. E depois a mente ri-se de si mesma. A arrogância de planear um futuro! Mas fá-lo. E depois permanece num estado de curiosidade. Deixa ver se isto vai acontecer... E se acontecer é bom, e se não acontecer também é bom. A mente que não sabe. Livre. A mente que não sabe está sempre disponível para amar. Não cola uma história de sofrimento sobre os outros. Observa os outros e ama. Delicioso.

A mente que não sabe poderá continuar a escrever. E é sempre delicioso. A mente que se identifica como Emídio irá parar um pouco. Dedicar-se aqueles que acredita serem clientes e vão ao seu gabinete. E irá acreditar que ajuda os outros. Delicioso.

Eu sei quem tu és sempre: uma projecção da minha mente. Por isso é-me fácil ser sincero quando te vejo e tratar-te por querido ou amar-te. Tu és perfeito. Só poderia sentir gratidão pelo facto de existires. Por me ensinares o que ainda tenho para aprender. E quando tentas magoar-me aprendo muito mais. Porque não és capaz de magoar-me. Apenas eu tenho esse poder. Apenas eu sou capaz de me magoar. Quando acredito numa mentira. Quando acredito que tu deverias ser quem tu não és. Perfeito.