sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A construção de uma personalidade oculta

Cada um de nós possui uma herança psicológica que não é menos importante que a nossa herança biológica. Esta herança inclui um legado sombrio que nos é transmitido através do ambiente cultural da nossa família. Somos, inicialmente, expostos aos valores, temperamentos, hábitos e comportamentos dos nossos pais e irmãos. Com bastante frequência, os problemas que os nossos pais foram incapazes de resolver por eles próprios vêm até nós sob a forma de padrões de adaptação disfuncionais.

A nossa família é o teatro onde nós actuamos com a nossa individualidade e os nossos desejos. É o nosso centro gravitacional emocional, o lugar onde começamos a adquirir e a desenvolver o nosso carácter, sob as influências das personalidades variadas que nos rodeiam (pai, mãe, irmã, tio...).

Na atmosfera psicológica criada pelos nossos pais e irmãos, educadores de infância e todas as outras fontes importantes de amor e aprovação, cada um de nós, crianças, dá início ao processo necessário do desenvolvimento do ego. A adaptação do ser humano à sociedade exige a criação de um ego – um “eu” - que sirva como princípio da nossa consciência em crescimento. Este desenvolvimento do ego depende em grande parte da repressão daquilo que consideramos ‘mau’ ou ‘errado’ em nós, enquanto tentamos identificarmo-nos com aquilo que é ‘bom’. Isto dá à personalidade em desenvolvimento uma vantagem estratégica na eliminação de qualquer ansiedade e, em simultâneo, ganhar tantos aspectos positivos quanto seja possível. O processo de desenvolvimento do ego continua até por volta dos quarenta anos de idade, sendo modificado de acordo com experiências e influências externas, à medida que interagimos com o mundo.

Mas à medida que o nosso ego cresce e se mostra ao mundo, a nossa sombra, os aspectos que escondemos para agradar aos outros, também cresce e desaparece nos recantos do nosso subconsciente. O “Eu Deserdado” é um produto resultante do processo de desenvolvimento do ego. Eventualmente este “eu deserdado” torna-se a imagem do ego reflectida no espelho. Nós deserdamos tudo aquilo que não se conforma com a nossa imagem de quem somos, criando assim uma sombra. E devido à necessidade do ego de criar um aspecto único de si (ou é bondade ou maldade, bonito ou feio, egoísta ou altruísta), todas as qualidades que são rejeitadas, negligenciadas e inaceitáveis em nós acumulam-se inconscientemente na nossa mente e tomam a forma de uma personalidade inferior – a sombra.

Contudo, aquilo que deserdamos não desaparece. Vive plenamente dentro de nós – longe da nossa consciência e da nossa razão – tão real como a nossa certeza de sermos um individuo. Um outro ego (alter ego) que se esconde imediatamente abaixo da nossa consciência. Com regularidade este aspecto rejeitado imerge como a lava de um vulcão que explode depois de milhares de anos sob pressão, normalmente quando nos encontramos distraídos, ou sob uma enorme pressão emocional. “Não sei onde tinha a cabeça!” dizemos nós. Ou “não fui eu! Jamais faria isso!” ou a mais tradicional “O diabo em figura de gente!”. Isto são os eufemismos utilizados pelos adultos para explicar o comportamento do alter ego, ou “outro eu”.

Assim, o ego e a sombra encontram-se num antagonismo perpétuo e que é a base de toda a mitologia: a relação entre dois irmãos, o bom e o mau. Representações simbólicas do ego e do alter ego. Se pegarmos nestes irmãos, no representante da bondade e da maldade, e os juntarmos teremos um todo completo. Da mesma maneira, quando o ego abraça a sua sombra nós conseguimos o sentimento de plenitude, a totalidade que sempre fomos.

Nos primeiros anos de vida, todos nós estamos isentos da capacidade de filtragem consciente. Assim, a nossa aprendizagem, em termos de comportamento social, é muitas vezes ambígua e muito solta. Podemos observar a criação da sombra num infantário, enquanto as crianças brincam, e a forma como esta sombra é reforçada pelos adultos à volta. Ninguém consegue ficar indiferente à maldade e crueldade que uma criança é capaz de manifestar enquanto brinca. Quando sentimos a necessidade de intervir fazêmo-lo muitas vezes de maneira espontânea. Naturalmente, instintivamente, não queremos que as crianças se magoem. Mas também queremos que a criança “deserde” as acções e sentimentos que nós próprios deserdamos, por forma a que a criança se insira no ideal adulto da brincadeira mais apropriada. Como se isto não bastasse, projectamos na criança que “se porta mal” aquilo que rejeitámos previamente em nós mesmos. Se a criança obedecer, irá ela própria deixar de se identificar com estes impulsos “negativos” para agradar ao adulto e obter aprovação.

As sombras dos outros estimulam um esforço moral continuado na criança à medida que vai desenvolvendo o seu ego e a sua sombra. Aprendemos, enquanto crianças, a esconder tudo o que sucede um pouco mais abaixo da nossa consciência. Isto para que os adultos nos vejam como “bons” e para que sejamos aceites com afecto pelos adultos à nossa volta.

A projecção – a transposição involuntária de tendências inconscientes inaceitáveis para objectos, animais e pessoas – funciona como uma ajuda ao ego frágil em desenvolvimento, na sua busca incessante de aprovação.

Ninguém gosta de admitir possuir um lado escuro. As pessoas que acreditam que o seu ego representa a totalidade de quem são, e que desconhecem ou não querem conhecer a totalidade de quem são na verdade, irão projectar as partes rejeitadas no mundo à sua volta.

Mas o oposto também pode acontecer. Quando a criança se apercebe que nunca poderá atingir as expectativas dos adultos à sua volta, poderá dar início a comportamentos inaceitáveis e tornar-se no bode expiatório para as projecções das sombras dos adultos à sua volta. A ovelha negra de qualquer família é o responsável, inconsciente, de transportar a sombra da própria família. Poucas famílias conseguiriam funcionar sem uma ovelha negra.

Sylvia Brinton Perera, no seu livro “The Scapegoat Complex”, afirma que o adulto identificado como a ovelha negra é, normalmente, por natureza um indivíduo sensível a estados emocionais inconscientes. Ou seja, a criança mais sensível é, regra geral, a que mais tarde irá carregar a sombra da família.

O próprio Jung deixa um exemplo claro desta projecção e de como pode afectar qualquer família. Conta a história de um homem muito religioso o qual nunca tinha pecado ou feito mal a quem quer que fosse na sua vida. Era um homem extremamente honesto e sentia repudia por qualquer acto moralmente incorrecto. Com um pai assim é fácil compreender que o seu filho se tornasse um ladrão e a filha uma prostituta (o motivo que levou o homem a procurar a ajuda de Jung). Uma vez que o pai se recusava a abraçar a sua própria sombra, a sua parte na imperfeição humana, os seus filhos eram compelidos a vivenciar o seu lado escuro ignorado.

Para além dos padrões existentes nas relações pais-filhos, há outros eventos que adicionam complexidade ao processo da construção da sombra. À medida que o ego da criança se torna mais consciente, uma parte de si cria uma máscara – ou persona – que é a face que mostramos ao mundo, a qual representa aquilo que a criança quer que os outros pensem que é. Esta persona vai de encontro ás exigências pedidas pelo ambiente e cultura que rodeiam a criança. Assim, o ideal de ego vai de encontro ás expectativas e valores do mundo onde a criança cresce. Mas por detrás deste ego, a sombra faz o seu trabalho de contenção.

Todo o processo de desenvolvimento de ego e persona é uma resposta natural ao nosso meio ambiente e é influenciado pela comunicação com a nossa família, professores e religiosos, através da sua aprovação ou reprovação, aceitação e vergonha.

As sombras dos membros da família têm uma influência muito forte no desenvolvimento do “Eu Deserdado” da criança. Isto é ainda mais verdade quando os elementos sombrios não são reconhecidos pelos respectivos membros da família, ou quando estes colidem na tentativa de esconder a sombra de um membro da família que seja mais fraco, ou mais forte, ou mais amado.

Este é um dos principais motivos porque no meu seminário dedicado ao processo da sombra ensino os participantes a pedir o amor que precisam. A forma como isto é feito, na prática, tem sempre um efeito poderoso e potenciador, capaz de despertar a sombra que receamos encontrar.

Um dos maiores perigos, quando a criança começa a desenvolver a sua sombra, encontra-se nas famílias disfuncionais, negativas, abusivas, ou, inversamente, certinhas, correctas, convencionais, preconceituosas. Em ambos os casos as famílias irão alimentar uma sombra carregada de vergonha, medo e culpa.

A construção da sombra é inevitável e universal. Ela torna-nos quem somos e pode levar-nos ao trabalho da sombra, obrigando-nos a abraçar a totalidade de quem somos e, assim, a libertar-nos. Ao trabalharmos a nossa sombra temos uma possibilidade real de sermos a totalidade que sempre fomos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Domesticação

As crianças são domesticadas da mesma maneira que os animais domésticos o são. Para ensinar um cão ou um gato o que fazemos? Damos um prémio quando fazem algo bem feito e um castigo quando não fazem o que queremos. É assim que ensinamos as nossas crianças. Quando fazem aquilo que esperamos delas congratulamo-las. “Lindo menino!” “A minha filha é um anjo!”. Quando não fazem o que nós queremos… “Feio!”, “Má, má, má! Agora ficas de castigo!”

Uma situação que se perpetua há milénios.

Quando quebramos alguma das regras impostas por outros somos punidos, e quando obedecemos ás regras somos recompensados. O problema é que a maioria das regras são pura idiotice! Refiro-me ás milhares de regras que dizem coisas como “sair de casa sem lavar a cara é feio”, ou “comer com os dedos é porco” e “só os mal-educados é que dizem asneiras!”. Mas há mais! “Se não tirares boas notas não gostamos de ti” e “quem não faz os trabalhos de casa nunca conseguirá ser alguém na vida!”. Esta última é uma verdadeira anedota! Mais de 90 por cento dos multimilionários nunca chegaram a terminar o liceu! Perguntem ao Richard Branson, Oprah Winfrey ou Bill Gates, já para não falar no Ronald Reagan!

Em pouco tempo aprendemos a ter medo dos castigos e medo de não ser recompensados. A recompensa é a atenção que recebemos dos nossos pais, professores, amigos dos pais, etc. E com este medo de ser castigados e não ser recompensados começamos a fazer o jogo de fazer de conta que somos quem na verdade não somos. Sempre a tentar agradar aos outros por forma a receber a sua atenção. Tentamos agradar aos nossos pais, agradar aos nossos professores, agradar à catequista, agradar aos nossos amigos. Entramos no jogo do teatro. Somos actores a fazer de conta que somos quem não somos. Sempre com o medo de ser rejeitados. Este medo de ser rejeitados transforma-se em medo de não ser suficientemente bom. E tornamo-nos quem não somos. Tornamo-nos uma cópia das crenças da mãe, das crenças do pai, das crenças do professor e das crenças da religião que os nossos pais professam.

Todos os nossos dons são perdidos neste processo de domesticação. E quando somos o suficientemente crescidos para compreender tudo isto aprendemos a palavra “não”. Os adultos dizem-nos “não faças isto, não faças aquilo…” E nós revoltamo-nos e dizemos “não!” Defendemos a nossa identidade e a nossa liberdade. Queremos ser quem somos, mas somos crianças pequenas e os adultos são enormes. Depois de alguns “nãos” aprendemos a ter medo dos castigos impostos pelos adultos quando fazemos algo “errado”.

Esta domesticação é tão poderosa que passados alguns anos já não precisamos que os adultos nos domestiquem. Domesticamo-nos a nós próprios! Fazemo-lo através do mesmo sistema de crenças que nos foi incutido pelos adultos à nossa volta. Utilizamos o mesmo sistema de castigo e recompensa. Castigamo-nos quando não seguimos o sistema de crenças presente em nós. E recompensamo-nos quando somos “um menino bonito” ou “uma menina educada”.

O sistema de crenças é como um enorme Livro de Leis que governa a nossa mente. Sem alguma vez questionarmos o que quer que seja, o que está escrito neste enorme Livro é a Verdade. A nossa Verdade! E baseamos todos os nossos juízos de acordo com este Livro de Leis. Mesmo que estas leis violem a nossa essência.

Existe algo na nossa mente que julga tudo e todos, incluindo o estado do tempo, o gato do vizinho, o governo, as árvores à frente da nossa casa. O Juiz interno julga tudo e todos de acordo com o que está escrito no Livro de Leis interior. Tudo o que fazemos e tudo o que não fazemos. Tudo o que dizemos e tudo o que não dizemos. Tudo o que sentimos e tudo o que não sentimos. E sempre que fazemos, sentimos ou dizemos algo que vai contra o nosso Livro de Leis sentimo-nos culpados. E sentimo-nos merecedores de um castigo. Devíamos estar envergonhados de nós mesmos! E isto acontece muitas, muitas, muitas vezes ao longo de cada dia.

E tudo isto baseado num sistema de crenças que nunca escolhemos livremente! Isto é de tal maneira forte que anos mais tarde, quando tentamos fazer alterações na nossa vida, somos incapazes de manter essas alterações por muito tempo. O que quer que seja que vá contra as regras estabelecidas neste Livro de Leis irá fazer-nos sentir uma estranha sensação à volta do plexo solar. Chama-se medo. Quebrar as regras escritas no Livro de Leis abre mais uma vez as nossas feridas emocionais. E isto leva a mais envenenamento emocional. Porque tudo o que está escrito no Livro de Leis tem que ser verdade, tudo aquilo que desafie as nossas crenças e nos obriga a acreditar em algo diferente leva a uma sensação de insegurança. MESMO QUE O LIVRO DE LEIS ESTEJA ERRADO, FAZ-NOS SENTIR SEGUROS.

Quantas vezes pagamos por um único erro? Milhares de vezes! O ser humano é o único animal que se castiga continuamente pelo mesmo erro. Os restantes animais pagam o preço de um erro uma única vez. Nós não! Nós temos que pagar um único erro milhares de vezes. Possuímos uma memória inacreditável. Cometemos um erro, julgamo-nos, sentimo-nos culpados e castigamo-nos. Isto deveria ser suficiente. Mas não é. De cada vez que nos recordamos da situação voltamos a repetir todo o processo: julgamento, culpa, castigo.

Quantas vezes faz os seus filhos, pais ou cônjuge pagar pelo mesmo erro? De cada vez que os faz lembrarem-se de qualquer erro do passado está a castigá-los.

O Juiz na nossa mente está errado, porque o Livro de Leis está errado. Toda a nossa vida é baseada em crenças erradas. 98 por cento das crenças armazenadas nas nossas mentes são uma enorme mentira. E sofremos por causa dessas mentiras.

Não acredita no que estou a dizer? Pensa mesmo que a forma como educamos as crianças está certa? Então porque raio não evoluímos?!? Porque motivo continuamos a ser incapazes de resolver conflitos de maneira pacífica? Porque motivo continuamos a ter uma sociedade injusta, conflituosa, amedrontada?!?

PORQUE TODO O NOSSO SISTEMA DE CRENÇAS É BASEADO NO MEDO!

Nós estamos continuamente à procura da verdade pelo simples motivo de estar a viver as mentiras impregnadas na nossa mente. Procuramos incessantemente a justiça porque o nosso sistema de crenças é injusto. Procuramos sem parar a beleza porque não importa o belo que sejamos, não acreditamos nunca que já somos belos! Continuamos nesta corrida louca à procura daquilo que já está dentro de nós! Não há uma verdade que temos que encontrar. Não há uma justiça que temos que encontrar. Não há uma beleza que temos que possuir. Já o somos. Tudo isto e mais!

Não conseguimos ver a verdade pelo simples facto de estarmos cegos. O que nos impede de ver são as crenças falsas que temos nas nossas mentes. Temos a necessidade de corrigir o que está errado, e temos a necessidade de opinar sobre os outros e de acreditar que somos melhores que os outros e que só nós temos razão. Acreditamos nas nossas crenças e são estas crenças que nos causam todo o nosso sofrimento. Como se vivêssemos envolvidos por um nevoeiro denso que nos impede de ver a verdade.

Este nevoeiro é a nossa ideia daquilo que “eu sou”. E este “eu sou” são milhares de vozes na nossa mente a falar em simultâneo. É por este motivo que nos é tão difícil fazer mudanças e resistimos viver a vida e nos tornamos escravos de nós mesmos. O nosso maior medo é aceitar o risco de viver. O risco de ser quem somos. O risco de expressar o nosso dom. Ser autêntico é o nosso maior medo. Aprendemos a viver a nossa vida continuamente em busca da aprovação dos outros. Aprendemos a viver de acordo com as opiniões dos outros pelo medo de não sermos aceites e de não sermos o suficientemente bons aos olhos dos outros.

Durante os anos de domesticação formamos uma ideia de perfeição e tentamos ser o suficientemente bons de acordo com essa ideia. Criamos uma imagem de como deveríamos ser por forma a sermos aceites pelos demais. Tentamos, em especial, agradar à mãe e ao pai, à irmã, ao professor. São os que nos amam, ou não. Dependendo sempre do nosso comportamento. Ao tentarmos ser suficientemente bons aos olhos destas pessoas criamos uma imagem do que é ser perfeito, mas no fundo sabemos que o não somos. Criamos esta imagem mas sabemos que não corresponde a quem nós somos. Nunca seremos perfeitos deste ponto de vista! Nunca!

E se não somos perfeitos começamos a rejeitar certas partes de nós. O nível de rejeição é directamente proporcional à eficiência dos adultos à nossa volta em quebrar a nossa integridade. Depois do processo de domesticação já não se trata de sermos o suficientemente bons para os outros, trata-se sim de já não sentirmos ser o suficientemente bons para nós, porque não correspondemos à nossa imagem de perfeição. E jamais seremos capazes de nos perdoar por não sermos perfeitos.

Sentimos que não somos aquilo que os outros pensam que somos e sentimo-nos falsos, frustrados e desonestos. Tentamos esconder-nos de nós próprios. Como resultado criamos uma máscara social para evitar que os outros descubram quem somos de verdade. Temos um medo aterrador que outros descubram quem somos de verdade. Desonramo-nos para agradar aos outros. Somos até capazes de causar danos ao nosso corpo para podermos ser aceites pelos outros. Porque pensa que muitos adolescentes se drogam?

E é verdade que muitos de nós fomos abusados pelos nossos pais, professores, amigos, etc. Mas nunca ninguém abusou mais de nós do que nós mesmos! A forma como nos julgamos a nós mesmos é a pior forma de juízo que podemos imaginar. Sempre a carregar o peso de não sermos quem somos. A carregar o peso da culpa. De não sermos o suficientemente bons.

Em toda a tua vida nunca ninguém te abusou mais do que tu te abusaste a ti mesmo. E o limite do teu auto-abuso é proporcional ao abuso que permites que outros cometam à tua pessoa. Se alguém te abusar um nadinha mais do que tu te abusas a ti, é-te fácil afastares-te dessa pessoa. Mas enquanto os outros à tua volta não te abusarem mais do que tu te abusas a ti mesmo, irás tolerar a sua presença na tua vida. Tudo isto porque acreditas que “não és o suficientemente bom”.

Temos uma necessidade intrínseca de sermos amados e aceites pelos outros, mas não somos capazes de nos amarmos e aceitarmos tal como nós somos. Quanto mais nos amarmos menos necessidade teremos de sermos abusados por outros. O auto-abuso tem a sua origem na auto-rejeição, e a auto-rejeição tem a sua origem numa imagem do que significa ser perfeito e nunca ser capaz de atingir essa perfeição ideal.

Quanto se tem abusado?...

Se não acredita em nada do que lhe disse até agora responda a estas simples perguntas:

1. Está a viver uma relação amorosa e apaixonada neste momento?

2. Está a fazer um trabalho que ama e desfruta neste momento?

3. Goza de uma saúde perfeita neste momento?

4. Tem uma relação pacífica e amorosa com os seus pais, filhos, amigos?

Outro aspecto que é indicador do quanto tem tentado esconder quem é está directamente relacionado com o quanto sente a necessidade de mudar as pessoas à sua volta. Não se engane: os erros que vê nos outros estão em si, caso contrário ser-lhe-ia impossível vê-los. Se tem que conviver com alguém que o/a trata mal, tem que se fazer a pergunta libertadora: de que maneira é que eu me trato mal a mim mesmo/a? Tire algum tempo para si e descubra de que maneira anda a abusar de si, do seu corpo, das suas emoções, da sua alma.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Como criamos o Eu Falso

Os pais utilizam, muitas vezes inconscientemente, variadas técnicas e tentativas nos seus objectivos de reprimir determinados pensamentos, sentimentos e comportamentos nos seus filhos. Por vezes avançam com pedidos muito directos: “os homens não choram!”, ou “mexer aí (‘aí’ referindo-se aos genitais) é feio!”, ou ainda “não voltes a dizer essas coisas!”

Podem ainda fazê-lo de maneira mais agressiva, como podemos observar numa loja quando a mãe ralha com a criança, ou dá umas palmadas ou bofetadas porque a criança mexe onde não deve.

Mas a maior parte das vezes os pais moldam a criança de maneiras subtis, num processo a que se chama invalidação – limitam-se simplesmente a não testemunhar um comportamento ou a mostrar agrado por algo que a criança diz. Por exemplo, se os pais não dão qualquer valor ao desenvolvimento intelectual, oferecem aos seus filhos brinquedos ou inscrevem-nos em actividades lúdicas, mas não lhes oferecem livros nem estimulam a leitura. Se acreditam que as mulheres devem ser sossegadas e femininas e os homens fortes e assertivos, só mostram apreço por comportamentos relacionados com o sexo da criança. Se o menino de 4 anos entra na sala com um enorme camião nos braços, podem afirmar algo como “que homem forte!”, mas se for uma menina a carregar o mesmo camião podem dizer “cuidado! Olha que podes magoar-te e sujar o teu lindo vestido!”

Contudo, a forma como os pais mais influenciam os seu filhos é através do exemplo. As crianças, instintivamente, observam as escolhas que os pais fazem, as liberdades e os prazeres que se permitem, os talentos que desenvolvem, as capacidades que ignoram, e as regras e valores que seguem. Tudo isto tem um efeito profundo nas crianças. O que as crianças vêem é: “É assim que nós vivemos. É assim que conseguimos sobreviver.” Esta socialização inicial é importante, independentemente de as crianças aceitarem os modelos dos pais ou de se revoltarem contra os mesmos.

A reacção de uma criança aos convencionalismos da sociedade segue um padrão bastante previsível. Inicialmente, a primeira resposta é esconder os comportamentos proibidos pelos pais. A criança tem pensamentos de raiva mas não os expressa. Prefere explorar o seu corpo na privacidade do seu quarto. Pode implicar com os irmãos mais novos quando os pais não estão presentes (ou abusar deles de muitas maneiras). Com o decorrer do tempo, a criança chega à conclusão que alguns dos pensamentos e sentimentos são tão inaceitáveis que deveriam ser simplesmente eliminados. Assim, constrói um pai imaginário que policie os seus pensamentos e acções, criando aquilo que muitos psicólogos referem como o superego. A partir daqui, sempre que a criança tem um pensamento proibido ou tem um comportamento inaceitável, irá experienciar uma dor causada pela ansiedade do superego. Esta experiência pode ser tão desagradável que a criança decide meter dentro de um saco alguns dos seus aspectos proibidos. Ou seja, reprime certos pensamentos e acções. O preço que paga por fazê-lo é a perda do ser total ou completo que é.

Para preencher o vazio criado, a criança cria um “Eu Falso”, uma estrutura psicológica que serve dois objectivos: irá camuflar as partes de si reprimidas e também protegê-la de mais danos.

Uma criança criada por uma mãe que reprime a sua sexualidade e é distante, por exemplo, poderá tornar-se no “homem duro”. A criança dirá a si mesmo: “Não quero saber se a minha mãe é distante e não me mostra afecto. Eu não preciso dessas lamechices. Eu desenrasco-me bem sem ajuda. E mais uma coisa: sexo é uma coisa suja!” Com o passar do tempo o menino irá aplicar esta resposta padrão a todas as situações. Independentemente de quem se queira aproximar dele, irá sempre criar a mesma barreira. Mais tarde, quando por fim consegue ultrapassar a sua relutância em relação aos relacionamentos humanos amorosos é muito provável que critique a sua companheira devido ao desejo desta de querer intimidade e um contacto sexual. “Porque raio queres tu tantos carinhos e mimos? E porque és tão obcecada com o sexo?! Isto não é normal!”

No entanto outra criança pode reagir à mesma mãe, distante e sexualmente reprimida, de maneira oposta. Exagerando os seus problemas na esperança de alguém a ajudar. “Coitado de mim! Estou ferido, os outros magoam-me continuamente! Preciso que alguém cuide de mim!”

Uma outra criança pode tornar-se gananciosa, tentando agarrar-se a cada pedaço de amor, comida e objecto que veja, na certeza que nunca haverá o suficiente.

Independentemente da natureza do Eu Falso, o seu propósito é sempre o mesmo: minimizar a dor de perder uma parte da criança original. O seu ser completo e divino.

Contudo, a determinada altura do desenvolvimento da criança, esta forma engenhosa de auto protecção torna-se na causa de mais danos, à medida que a criança é criticada por possuir estas características negativas. Os outros irão criticar o seu distanciamento e frieza, ou a sua atitude de ‘coitadinho’, ou o ser gordo ou ganancioso. Os que atacam esta criança não conseguem ver as feridas que ela tenta proteger, e não ficam muito entusiasmados pela maneira astuta com que o faz: tudo o que vêem é a sua natureza neurótica. É considerada inferior, menos que completa.

É aqui que a criança se sente numa encruzilhada. Por um lado tem que se agarrar aos aspectos de adaptação do seu carácter, porque servem um propósito útil, mas por outro lado não quer ser rejeitada. O que pode esta criança fazer? A solução é negar ou atacar a atitude dos que a criticam. “Eu não sou frio e distante!”, poderá dizer em auto-defesa, “na verdade sou forte e independente!”. Ou “eu não sou um coitadinho frágil, sou simplesmente muito sensível.”. Ou ainda “eu não sou ganancioso e egoísta, sou poupado e prudente!”. Por outras palavras, “Não é de mim que estão a falar. Vocês apenas estão a ver-me sob uma perspectiva negativa.”

Até certo ponto a criança tem razão. Os seus aspectos negativos não fazem parte da sua natureza original. São criados a partir da dor e tornam-se parte de uma identidade assumida, um “outro eu” que a ajuda a viver num mundo complexo e muitas vezes hostil. Isto não quer dizer, contudo, que ela não possui estes aspectos negativos. Haverá sempre um número de pessoas que afirmarão a sua existência. Mas para poder manter uma imagem positiva de si mesma, e aumentar as probabilidades de sobrevivência, ela terá que negar a sua existência.

Estes aspectos negados irão tornar-se aquilo a que se chama de “Eu Deserdado”, ou “Sombra”: aqueles aspectos do Eu Falso que são demasiado dolorosas para serem reconhecidos.

Vamos parar aqui por alguns instantes e ver em pormenor esta proliferação de “Eus”. Até agora conseguimos criar com sucesso várias fracturas no Eu Verdadeiro e Original, a natureza de amor e ser completo com a qual todos nascemos, em três partes distintas:

1. O “Eu Perdido”, aquelas partes do nosso ser que reprimimos devido ás exigências da sociedade;

2. O “Eu Falso”, a fachada que construímos para poder preencher o vazio criado por esta repressão e por uma falta de afecto;

3. O “Eu Deserdado”, os aspectos negativos do Eu Falso que encontram reprovação no meio que nos envolve e que, assim sendo, são negados.

A única parte desta colagem complexa que mantemos consciente é aquela que faz parte da criança original e completa e que ainda se mantém intacta, assim como certos aspectos do Eu Falso. Estes aspectos juntos formam aquilo a que chamamos ‘personalidade’ – a forma como nos descrevemos aos outros. o Eu Deserdado, Perdido, encontra-se quase totalmente ausente da nossa consciência: cortamos quase na totalidade todas as ligações com estas partes reprimidas do nosso Eu. O Eu Deserdado, as partes negativas do Eu Falso, fica alojado muito próximo da consciência e ameaça constantemente vir à superfície. Para o manter escondido, temos que o negar activamente ou então projectá-lo em outros.

“Eu não sou egoísta! Tu é que só pensas em ti!” diremos veementemente. Ou “Eu, preguiçoso?! Tu é que não tens nunca tempo para desfrutar da vida!”

E dizemos isto com tanta energia quanta conseguimos utilizar.

E assim, a pouco e pouco, a criança original, completa e divina, começa o processo de separação e sofrimento. Eventualmente, por volta dos quarenta anos, começa a questionar os seus relacionamentos, o seu trabalho, a sua família. Sem que se aperceba que tudo à sua volta são projecções de si mesmo.

A única forma de, então, libertar-se de todo o sofrimento que sente e que também causa a outros, é através de um abraço. Um abraço com amor por quem é e por quem tem negado em si. Um abraço sentido a partir do coração. Só aqui começa o verdadeiro retorno a quem sempre foi.

Agora que começamos a estar mais conscientes das razões porque a nossa vida é como é, podemos fugir e continuar a fingir que a vida é complicada e difícil, ou podemos dar início a um processo de cura interior.

domingo, 27 de setembro de 2009

Descobrir o propósito de vida

As perguntas que mais poder nos podem dar, e aquelas das quais muitos de nós fugimos:

- Quem sou eu?

- Por que estou aqui?

- O que quero para mim?

Cada um de nós nasce com um dom, ou propósito, que é único no mundo. Não há outro que tenha um dom igual ao seu.

Há duas alturas na vida de cada ser humano em que o seu dom se torna consciente. Adolescência e meia-idade. Por volta dos 15 anos surge no adolescente uma paixão, algo pelo qual vale a pena lutar e ir até aos limites da capacidade humana. Devido à pressão, mais ou menos subtil, das pessoas à volta do adolescente, é fácil para este esquecer em pouco tempo o seu dom, a sua paixão. Nos dias de hoje a paixão do adolescente é apagada com a ajuda de jogos de computador, internet e outras actividades que anestesiam a alma.

Por volta dos 40 anos de idade volta a surgir o sentimento inicial. É como se até aos 40 anos tivéssemos subido uma escada muito alta e, ao chegar ao cimo, verificarmos que encostámos a escada ao edifício errado. Só temos duas hipóteses: a resignação e conformismo ou remediar a situação, descendo da escada, colocando-a no edifício apropriado (o nosso dom) e recomeçar a escalada.

Mas muitas pessoas preferem soluções rápidas. É fácil ver quem está a tentar pular para o edifício apropriado sem passar pela experiência de descer as escadas e voltar a subi-las. O homem que se divorcia para se juntar a uma mulher mais jovem. A mulher que se enamora de um colega mais novo. Projectamos nos outros a nossa falta de maturidade e os nossos sonhos por viver.

O nosso dom pode ser descoberto em qualquer idade, mas a partir dos quarenta anos torna-se uma força poderosa e imparável, se soubermos resgatar toda a energia que tem para nos oferecer. Significa, muitas vezes, abandonar tudo o que construímos para começar de novo. Este evento pode acontecer aos 40, 50 ou sessenta anos. Em realidade não há uma idade certa, apenas a coragem suficiente para mudar. O perigo maior, a partir desta idade, é que se não formos atrás do nosso dom ele irá consumir-nos. O que é a depressão, ansiedade, insónia?...

Uma forma de descobrirmos o nosso dom é através das experiências da nossa vida até ao momento presente. Estudar meia dúzia de eventos, de preferência os mais dolorosos, e descobrir as suas lições. Ver o que aprendeu com cada evento. É aí que se encontra o seu propósito.

No seminário dedicado ao resgate da nossa luz há um exercício que criei para chegar mais depressa ao nosso dom. Imagine que é convidado para dar uma disciplina numa faculdade. Será responsável por ensinar uma cadeira durante um semestre. E essa cadeira será baseada na sua experiência de vida. Irá ensinar tudo aquilo que aprendeu até ao presente. Como se chamaria essa cadeira?

Alguns dos temas surgidos com clientes:

- Como descobrir a coragem através de separações dolorosas;

- Amar incondicionalmente;

- Dar sem esperar receber;

- Dançar a vida;

- Agradar a mim para agradar aos outros.

É a partir destes temas que começamos a ter um vislumbre do nosso dom. Um cliente, por exemplo, precisou de passar por uma situação complicada de rejeitar alimento atrás de alimento, tornando-se alérgico aos lacticínios, proteína animal, e por aí fora, para descobrir o seu dom: criar refeições deliciosas com poucos ingredientes! Pode parecer ridículo, mas não há dons ridículos. Cada um serve um propósito.

Em realidade o seu dom pode ser algo tão simples como ser uma mãe carinhosa e capaz de amor incondicional.

Regra geral o nosso dom é algo de benefício para os outros. Algo que temos para partilhar com o mundo.