terça-feira, 1 de junho de 2010

As Desculpas

Por que motivo as pessoas, depois de muito lerem e aprenderem, depois de muitos seminários e workshops, continuam a ter as mesmas experiências, as mesmas situações, os mesmos relacionamentos e problemas?

Talvez porque nunca ninguém lhes tenha dito que têm que olhar para as suas feridas, as suas mágoas, as mil e uma maneiras que arranjam para se violarem.

Para cada insucesso na nossa vida temos uma série de desculpas que nos justificam e acalmam o nosso ego. Fazem-nos esquecer momentaneamente que só nós somos responsáveis por tudo o que nos acontece.

Nos próximos dias pedia-lhe para escrever cinco objectivos que gostaria de atingir e debaixo de cada objectivo escreva pelo menos 5 desculpas que lhe mostrem porque ainda não conseguiu atingir cada um deles. Permita-se ser brutalmente honesto consigo mesmo.

Deixo-lhe um exemplo meu: durante anos vivi só e sempre que começava uma relação íntima tratava de me sabotar para que a mesma tivesse uma curta duração. O meu objectivo era partilhar a minha vida íntima com alguém especial. As desculpas porque não estava a viver numa relação amorosa:

- Se me entregar completamente irei sair ferido;

- Não tenho tempo para uma vida íntima;

- A vida a dois dá muito trabalho;

- Vou ter que desistir de algumas das coisas que gosto de fazer sozinho;

- Se estiver numa relação perderei controlo sobre parte da minha vida.

Estas eram algumas das desculpas. Depois de ver as desculpas, descubra quais as crenças por detrás das desculpas. Quais as crenças que tenho nesta área da minha vida? No fundo, e devido à minha experiência em criança, acreditava que as pessoas que nos amam são também as que mais nos magoam. E ninguém quer ser magoado!

O processo seguinte é amar a parte de nós que deserdámos e rejeitámos. No meu caso foi preciso amar a parte de mim que se sentia magoada. Amar o Emídio Magoado. Sentir compaixão pelo Emídio que é magoado não foi fácil. Não o foi porque este era um aspecto que eu tinha rejeitado e não queria que voltasse a ter vida. Só que aquilo a que resistimos, aquilo que não queremos ser, não só persiste como não nos deixa ser.

A compaixão é um sentimento nobre e, ao mesmo tempo, simples: amar tudo tal como é.

Para poder ultrapassar as minhas desculpas tive que passar algum tempo a amar o Emídio Coitadinho, o Emídio Magoado, o Emídio que mentia para agradar, o Emídio que tinha medo de perder, o Emídio Invejoso, o Emídio Cruel, o Emídio sem qualquer controlo sobre a sua vida.

Como podemos nós viver plenamente quando rejeitamos tantos aspectos de nós? Como pode alguém amar-nos quando nós não nos amamos a nós mesmos? Como podemos ser belos e magníficos quando gastamos tanta energia a negar aspectos de nós presentes na nossa alma?

É fácil amarmos quem somos quando somos alegres, ajudamos outros, somos úteis, gostamos do que fazemos. É fácil.

Mas como amar-nos quando passam por nós pensamentos de egoísmo, inveja, medo, culpa, vergonha? Só que enquanto não amarmos estes aspectos eles irão aparecer continuamente na nossa vida. Iremos atrair as pessoas que nos mostrem estes aspectos deserdados.

O mais difícil de amar é a vergonha. Fomos envergonhados ainda crianças. E essa vergonha impede-nos de sermos autênticos. E a pessoa que for capaz de afirmar que não possui uma carga emocional de vergonha está em negação. E para o próximo ano irá fazer mais um workshop, mais um livro de auto-ajuda. Irá acreditar que algures no futuro encontra-se o amor da sua vida. O futuro não existe. Só o presente. E no presente, seria capaz de sentir compaixão pela parte de si que sente vergonha? A parte de si que foi envergonhada e a quem foi dito “tu não mereces existir”?

Que tal começar o seu dia com uma simples questão? O que posso fazer hoje que me mostre que me amo?

As nossas crenças, aquelas que nos impedem de amarmos a totalidade da nossa vida, são paredes invisíveis que nos separam dos nossos sonhos. E têm como finalidade impedir-nos de ver e sarar as nossas feridas emocionais. Por detrás de cada crença negativa há uma ferida emocional à espera de ser sarada, amada e abraçada. E só depois podemos avançar.

Passei alguns dias com a Debbie Ford em Londres. Uma das crenças que eu ainda tinha relacionada com dinheiro era “o dinheiro entra facilmente na minha vida, e desaparece ainda mais facilmente”. Por detrás desta crença descobri uma ferida profunda de quando tinha 10 anos: fazia parte de uma turma em que as outras crianças eram filhos de pessoas com muito dinheiro (na minha perspectiva, claro). Os meus colegas tinham sempre as roupas da moda, os brinquedos da moda, etc. E eu não. E isso magoava. O facto de sentir-me menos que os outros, inferior.

Para sarar esta ferida tive que abraçar e amar o Emídio Invejoso. Não é fácil. Comecei por abraçar a minha incapacidade de sentir o Emídio Invejoso. E eventualmente ele veio à superfície. Foi como um soco no estômago. Fiquei fisicamente doente. Chorei. Abracei-me a mim mesmo. Dei-me a ternura e o carinho que não tinha recebido durante algumas décadas. O Emídio Invejoso apenas queria ser amado por ser quem era.

É aqui que os milagres sucedem. Quando amamos os nossos aspectos rejeitados eles deixam de nos atacar, deixam de querer chamar a nossa atenção. E todas as pessoas invejosas que atraímos simplesmente mudam ou afastam-se. Quando nos permitimos iluminar a escuridão em nós libertamo-nos, tornamo-nos completos.

E tu, estás preparado para abraçar o teu lado escuro? Estás preparado para abandonar por momentos o teu ego ferido e abraçar a totalidade que és? Estás preparado para abandonar as tuas desculpas e começar a amar a tua vida, tal como ela está agora? O amor é só isso: amar tudo tal como é, agora.